quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

MENSAGEM DE UM BOM AMIGO

(para uma melhor leitura, clicar na imagem)


Mensagem natalícia com que o meu bom amigo Celestino Matias, com a sua poética sensibilidade, me presenteou. E que eu agradeço e aqui registo. FVS

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A DEMOCRACIA «FAZ-DE-CONTA»

É de todos nós sabido e constatado que a nossa democracia - e não só - se esgota no acto de votar. Fora isso, a democracia é o que cada um quer que seja, conforme o seu temperamento e modo de estar na vida. E se assim é, e ninguém pode negar honestamente, é fundamental saber a validade certificada dos cadernos eleitorais e a sua respectiva actualização para cada acto - que são vários, como se sabe.
Na verdade, há múltiplas falhas conhecidas e ninguém sabe como o controlo é feito e qual é a sua validade e fiscalização, isto para que tudo isso não passe de mera burocracia ou palhaçada que não passe de intenções, e lá se vai a democracia pela sarjeta abaixo. Não é por acaso que ouvi um votante de gabarito dizer alto e rindo-se: «Venham daí as eleições. Para elas chego eu».
Seria de bom tom saber com clareza como está sendo processado este controlo fundamental, incluindo a fiscalização atempada e quem e como se executa e actualiza.
Ninguém está interessado? Está na hora, ou continuamos sendo uma democracia faz-de-conta, como aliás todas por esse mundo fora, resfolgando democracia por todos os poros ao mesmo tempo que lhes bate à porta um esfomeado pedindo uma côdea de pão.
Seria bom contemplar a questão dos analfabetos que também são cidadãos mas imperfeitos.

Fernando Vieira de Sá

terça-feira, 30 de novembro de 2010

PERGUNTA SEM RESPOSTA


O Diário de Notícias de 25-XI-2010, em azo de comemoração, lembrou-se de ocupar as duas páginas centrais do jornal com o 25 de Novembro, que virou a linha política que se reviu no 25 de Abril. Para isso, em grande destaque, aventa com uma interrogação que põe em dúvida e justifica a charada:

25 de Novembro
E se tivesse sido ao contrário?

Não sendo uma resposta, mas sim um comentário, pressupõe-se que só o profeta ou animal político seria capaz de responder, e mesmo assim com todos os riscos de acertar. Não sendo assim só poderá afirmar-se sem ofensa, mas com piedade, o que todo o bicho-careta pode garantir sem que alguém possa contestar e que é: Resposta - Uma coisa é certa: seguramente não se pode prever pior em todos os sentidos.
O profeta pelos vistos errou magistralmente. Agora sou eu que pergunta: Quem paga o palpite do profeta? Segundo as leis de imprensa a resposta deveria ser publicada nos mesmos modos que a pergunta que, aliás, não tem pés nem cabeça, sabendo-se e sentindo-se que já estamos todos a bater no fundo. O que quer o jornalista que se responda? Ou está a gozar com o pagode? A não ser que se trate de um exemplo de jornalismo humanista.


Fernando Vieira de Sá

domingo, 21 de novembro de 2010

A CIÊNCIA DO DIAGNÓSTICO - A CRISE - A PREVISÃO DO PREVISTO

(clicar na imagem)

Há uns tempos, concretamente dia 13 de Outubro passado, o Diário de Notícias publicava com relevante destaque a notícia da morte de Maurice Allais (1911-2010), cujo cabeçalho ressuma e convida à veneração. Desta notícia releva-se a justificação do Prémio Nobel da Economia (1988) como sendo um dos poucos a prever o crasch (bancarrota) em Wall Street, em 1987.
Não vou discutir o galardão nem as homenagens, mas sim a discordância e a tentativa de querer-se dissociar o fenómeno «crise» do sistema económico em vigor, como se fosse qualquer crise inesperada e pouco ou nada estudada, E com isso escamotear e ignorar antecedentes indesmentíveis, ou fazer-de-conta, macaqueando a história do mundo. Chama-se a isto falta de ética e de pudor.
Com esta canhestra manipulação informativa, duas ocorrências saem da História como artes de saltimbanco, limpando-a de incomodativas ideias, face à tendência oposta tais como: - a ambição do ideal social sempre no sentido da justiça e bem-estar susceptíveis de beneficiar a sociedade, dentro das regras da fraternidade e justiça; - a circunstância do fenómeno «crise» estar profundamente investigado desde Karl Marx (1898) que, pela primeira vez, responsabiliza o sistema capitalista de estar de costas voltadas para a contradição: «A produção é social e a apropriação dos produtos é individual», o que leva a crises que abalaram o Mundo e que estão registadas como abaixo se expõe, permitindo o seu estudo, consequências e outros detalhes de interesse à investigação.

(1) - Fonte: Introdução ao Marxismo, de F. Engels, A. Talheimer, J. Harari e L. Segal, Rio de Janeiro, Editorial Calvino, 1945

Actualmente a tendência continua a registar-se. Nesta conformidade pode conjecturar-se a falência do sistema actual pela excessiva concentração da riqueza, levando à paralisação da troca e defunção do sistema em causa, tal como Marx diagnosticou, investigando cientificamente as causas profundas dos colapsos próprios do regime. Desse facto nasceu o Marxismo, teoria ecuménica de aprofundamento das Ciências Económicas, hoje uma bandeira que as forças tradicionais combatem ferozmente. Marx - não se esqueça - era um investigador nato em ciências económicas, dada a sua preparação académica, sendo economista e doutorado em Filosofia. Marx era, acima de tudo, um investigador social que leva à política e como tal agiu dentro da sua capacidade intelectual e científica. De resto, e querendo não o dizer, mas levado pelo transe discursivo num momento apelativo no encontro de Presidentes da República na TV, Mário Soares, há semanas atrás, afirmou precisamente esse facto, o que espantou todos os telespectadores. Pela minha parte, fiquei atónito, mas do «animal político» espera-se tudo, faz parte da sua flexibilidade estratégica de catavento, timbre do carácter do político em causa. Desta vez deu-lhe o bestunto para a verdade.

Para terminar, e voltando a Maurice Allais, não se percebe assim qual foi a proeza da previsão que o levou ao Prémio. Parece, por vezes, medalhar-se mais o interesse político que se explora, do que a ciência na sua imaculada independência. Não façamos do Nobel uma broa de Natal, como a propósito deste morto repescado como sábio e que neste caso nada descobriu, pois que, como se sabe, tudo já estava descoberto, mas, mesmo assim, «venha-de-lá-um-Nobel!» que é sempre saboroso. Seria mais racional medalhar à data de nascimento já que um morto é sempre um ponto final, enquanto o nascimento é sempre um futuro. Nem tudo lembra nestes transes. E no meio de todas estas efemérides, do problema CRISE nem uma palavra, como se nada tivesse havido, o que tem duas leituras: uma, dar os louros às almas ressuscitadas como neste economista da irmandade certificada; outra, e principalmente, guilhotinar a memória de Marx, cujos estudos levaram ao que veio a designar-se de Marxismo, um novo caminho àquilo que até aí não se pensava haver uma porta alternativa ao sistema capitalista, E quando na Era Moderna existe uma ampla alternativa ao trabalho escravo, sem regalias, hoje amplamente tal força é substituída pela mecanização e energia, tomando o maior esforço da produção. E daí o que se vê: a contradição expressa por Marx e que se repete: «A produção é social e a apropriação dos produtos é individual».

Mas, no nosso caso, nem o sr. Maurício nem os ilustres economistas desta praça, incluindo o bota-abaixo Medina Carreira se atrevem a beliscar a vivência liberal capitalista que só tem produzido borrada atrás de borrada e, não obstante, nunca se discute nem o regime, e muito menos se averiguam as razões das crises. E todos sabem porquê. Está à vista. É assim que democraticamente se ignora o povo. E cá estamos todos para pagar a batota do sistema.
Porque não fazer o diagnóstico, ou seja, procurar a causa profunda como fez Marx? Isto, sem pôr em causa a inexcedível honestidade de quem quer que seja, os seus conhecimentos, a sua ciência, mas não aplicável por pôr em causa o sistema capitalista. E cada vez há mais fome e cada vez há mais desempregados. Seria tempo da aberrante ditadura capitalista deixar a gente honrada viver honestamente, pois a ladroeira até agora só recebeu favores dos economistas distraídos. Basta de ditadura capitalista, a mais desumana das ditaduras como se observa aqui mesmo, e de que maneira. Aqui está uma boa arena para o sr. Medina Carreira exercitar os seus espectáculos televisivos, contra tudo e contra todos. Mas nada, absolutamente nada sobre o diagnóstico das CRISES, nas quais os seus contrapontos também não beliscam por serem da mesma confraria.

PONTOS DE ENCONTRO NA CIÊNCIA DO DIAGNÓSTICO

HIPÓCRATES (460-377 a.C.) está para as Ciências Médicas como MARX (1818-1883) está para o sistema capitalista em jogo.

Ambos, pela primeira vez na História da Humanidade, abriram portas à racionalidade da busca das causas distantes dos distúrbios pela descoberta do diagnóstico, por Hipócrates na Ciência da Medicina, por Karl Marx nas Ciências da Economia.
A utilização do processo diverge: na Medicina, o diagnóstico é prática obrigatória no exercício médico. Não há Medicina sem diagnóstico. E na Economia, quem diagnostica?

A fome espera.
O desemprego desespera.
O medo e a conveniência penalizam a moral e a honra.
E a fome campeia como praga do destino.
Deus dedit, Deus abstulit (2) (Deus m'o deu, Deus m'o tirou). É a Moral. Por exclusão de partes, Marx é o Diabo.

Fernando Vieira de Sá
(2) - Segundo o Dicionário de Moraes, «palavras de Job que se citam como exemplo de resignação».

domingo, 10 de outubro de 2010

CASO INÉDITO NAS LETRAS PORTUGUESAS


Inédito porquê?

- Por se tratar de uma pequena edição, sendo também do autor a capa, os desenhos e a própria edição, como se lê no livro («capa, desenhos e edição do autor»);
- Porque, apesar da singeleza do caso, o livro foi imediatamente apreendido pela PIDE;
- Por o autor contar apenas 15 anos de idade, frequentando ao tempo o 5º ano do Liceu, em Aveiro, sendo brilhante nas Letras e nulo nas Ciências;
- Por a temática trabalhada na obra exibir nomes e temas que exigem grandes conhecimentos literários, históricos e de certa filosofia com que impregna as ideias;
- Resume-se, ao que sei, a esta única publicação a sua promissora produção intelectual, o que não retira valor ao autor no presente; só exigiria estudo profundo, na área da Psicologia, sobre o que levou ao comportamento posterior do autor.

Contudo, trata-se de um caso que talvez não tenha paralelo na literatura portuguesa ou qualquer outra, sendo uma obra profunda, independente da idade do autor.
Melhor do que quaisquer palavras que possa escrever sobre o caso, julgo preferível transcrever a pequena nota escrita por meu pai, à mão, que encontrei junto ao exemplar que o autor lhe ofereceu, por ser seu amigo e dadas as relações entre ambas as famílias

«Fernando Moniz Lopes
filho de
Dr. Moreira Lopes
(médico)

O Autor deste livro de poesias, Fernando Moniz Lopes, tem apenas 16 anos de idade concluídos há poucos dias atrás, isto é; ainda com 15 anos conseguiu fazer obra de valor e profundo conhecimento das coisas e política deste Mundo, com conhecimento de toda a nossa literatura e literatura estrangeira. Fala e discute, como pessoa adulta.
Sendo profundo em literatura, detesta as ciências, pelo que no 5º ano dos liceus, reprovou na Secção de Ciências. E discutindo com professores, chega à conclusão que, muitos deles, são incompetentes debaixo dos dois pontos de vista: didáctico e cultural. É um fenómeno o rapazinho!
Este livro o "Novo Rumo" foi-me oferecido por ele, o Autor.
Lisboa 14/8/1966

Mário Vieira de Sá»

[Nota à margem: «Por motivo de política, foi o livro apreendido pela Pide (Polícia Internacional e Defesa do Estado).»]

Por absoluta impossibilidade de reproduzir a obra, E sendo quase criminosa a sua condenação ao silêncio de um sepulcro, que pelo menos se acrescente em jeito de homenagem, neste espaço, algumas das suas palavras repletas de erudição e humanismo, mas também para enriquecimento da memória e intelectualidade nacional.
Não menos positiva e sempre útil a crítica à governação salazarista, carrasca da inteligência. Tal como o grito franquista na Guerra Civil de Espanha, «¡Abajo la inteligencia! ¡Viva la muerte!», Salazar, por sua vez, mandou encerrar a Escola do Magistério Primário. Hoje fecham-se às dúzias as Escolas Primárias em todo o país e dificulta-se o acesso às sobreviventes, tudo isto mantendo-se o crónico analfabetismo com reflexos negativos no direito ao voto. Por isso, o Animal Político diz dormir tranquilo, não tendo medo das urnas de voto. É a democracia. Para mais, Portugal foi vítima de mais de cinco séculos de Inquisição (1239-1759), da qual ainda sofre prejuízos pelas metástases que afloram como cancros da flor da vida nacional.
Sendo assim, decidi, com a devida vénia ao autor, reproduzir a seguir a Introdução e a lista dos títulos dos poemas, cuja leitura bem pode espelhar a especificidade cultural da exígua presença na vida, mas de grande densidade de uma obra que o autor oferece nos 27 títulos, cuja lírica se confunde com os ecos de campanário que leva ao superlativo da dor, àqueles que, tal como hoje, se vêem expulsos de uma escola oficial por se ter oferecido instintivamente como mártir de uma governança vesga, autoritária, roubando oportunidades e participação na tarefa de valorização de uma pátria que teima em não querer ser manjedoura de multinacionais e passerelle de negócios fuscos, usando todos os truques que só os grandes economistas mais sábios estão à altura de governar o tal sistema sem alternativas! E temo-los com prática e sucesso confirmado. Falam as leis do negócio que se confirmam com todo o rigor na crise em desenvolvimento.

«Introdução

A arte não é a água estagnada dum lago, nem a pureza imaculada duma sagrada visão.
É o caminho da descoberta de nós próprios, da verdade e da beleza, é uma busca constante e real, a verificação do que é o mundo e a vida no equilíbrio duma visão tão exacta quanto possível. É um nunca abdicar de propósitos para conhecer a nossa condição de homens, e reagirmos em relação a ela como a uma causa verdadeira.
A obra de arte é a que se situa mais perto da razão e do homem: - quando o seu sentido é universal, quando ele se liga a problemas fundamentais e humanos. Não existe assim diferença entre o artista e o homem comum. Nada o separa dos outros senão a sua capacidade de transmissão. E se ele fosse na realidade diferente - como tantos afirmam - a sua mensagem seria inútil porque a não compreenderíamos, mesmo que o seu sentido fosse enorme em relação a esse mundo.
O artista é necessariamente o homem que procura definir e transpor as barreiras do nosso pensamento e que marcha rumo ao desconhecido, mas para o conhecer e o mostrar aos outros.
O homem é já em si a força que o conduz. E onde avaliar essa força tão bem como em nós próprios?
O homem é a concretização dum todo ilimitado.
Sentimo-nos por vezes enraivecidos por não poder ultrapassar o realizável. Mas a sua realização é mais do que uma forma de expressão: - é a demonstração da nossa ânsia de não nos limitarmos no espaço.
E é nesta teia aparente de contradições que o espírito do homem se desenvolve, esse espírito que gera o progresso e é ele próprio a reflexão mecânica do universo.
Não sinto, pois, medo nem vaidade na publicação deste pequeno volume. Faço-o porque obedeço a um facto natural de mim próprio e é um caminho aberto de comunicação com o homem.
Aveiro 24/3/66»

[títulos dos poemas: ADOLESCENTE; À LIBERDADE, ODE À PAZ; POETA; A ALBERT CAMUS; POEMA DA CHUVA E DO SILÊNCIO; ARTISTA; CONDESTÁVEL; D. DINIS; BARTOLOMEU (poema transcrito por mim em «Folha Informativa Mensal do DTIA» - Ano II, Abril de 1982 e em Autópsia a um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares, p. 151); D. PEDRO V; DESGRAÇA; COMBOIO; FRANCISCO DE ASSIS; A MIGUEL TORGA; A GARCIA LORCA; O MENINO NEGRO; GUERREIRO; O NEGRO; A CRISTO; ARTISTA; QUANDO; DESCOBERTA; NOVO RUMO; AINDA; HOMEM; MENSAGEM (poema transcrito por mim, op. cit., p. 155)].

Neste ambiente, que vem de longe, começou e terminou no mesmo lance a carreira literária de Fernando Moniz Lopes. Perdeu-se um génio? O trauma infligido ao génio prematuro, levou a consequências negativas? Perdeu-se de tal modo que nunca mais tive notícia, nem da sua carreira, nem da sua própria existência. Dos seus pais nada mais soube também.
Fernando Moniz Lopes foi para Portugal e para a Cultura portuguesa uma estrela cadente que cortou o espaço, deixando um rasgo de luz que surpreendeu e que a minha memória recorda com extasiante admiração.

Fernando Vieira de Sá

terça-feira, 5 de outubro de 2010

PROFETAS DA NOSSA TERRA

(Monumento a Bandarra, «poeta, profeta e sapateiro» - Trancoso, Agosto de 2010)

Na sequência das minhas anteriores notas sob a epígrafe «MS/AP - Um Socialista às Direitas», onde se escreve sobre profetas e profecias, não resisto a voltar ao tema com mais algumas palavras que, pensando um pouco, não deixam de ter algum interesse, relacionando-os entre si e analisando o fenómeno, comparando convergências quanto às suas respectivas génesis, o que já pode suscitar alguma teoria sobre ocultismo, dando ciência ao fenómeno.
Pensando em profetas não deixo de recordar, só por gentileza, a memória de nosso profeta de estimação que foi Bandarra (Gonçalo Anes de seu nome, natural de Trancoso, 1500-1566) - Bandarra, alcunha: adivinho, profeta, etc. - fazendo profecias de largo espectro, o que facilita a coincidência, por vezes perseguido pelo Santo Ofício da Inquisição, por razões de concorrência na arte de exibir espectros e previsões, fazendo com que em condições de grande perturbação nacional muito alimentasse o Sebastinismo: D. Sebastião chegaria numa manhã de nevoeiro. Era a profecia - D. Sebastião, o Desejado. Profecia que acabou em mito.
Excluindo este caso, mais de índole popular que de seriedade histórica, ficam outros dois, que em épocas distantes de 150 anos entre si, mais ano menos ano, vêm ilustrar a História de Portugal e que tiveram em comum o facto ocorrido em tempos de crise profunda, ou seja, a identidade na sucessão no trono que se expressa no Sebastianismo, E presentemente os dois períodos em que o primeiro foi o da Guerra Civil pela luta da Coroa que tinha por fundo dois regimes políticos rivais protagonizados pelos dois irmãos, Pedro e Miguel; e o segundo é o caso exposto no meu anterior apontamento, intitulado MS/AP - Um Socialista às Direitas». Só nos falta agora dissecar o profeta já bem analisado por Oliveira Martins no seu livro Portugal Contemporâneo, donde retirei algumas notas, as quais, por sua vez, já retiradas e discutidas no I volume dos Opúsculos, de Alexandre Herculano, sob o título «A Voz do Profeta», preenchendo 83 páginas. A personagem é Palmela (Duque), de seu nome de família D. Pedro de Sousa Holstein. Aí, nessas volumosas análises à volta da situação política revolucionária em que Palmela toma apenas o compromisso de travar as ideias revolucionárias (o mesmo que fez MS/AP, mais tarde, no tempo do PREC) de Mousinho. O profeta constrói a profecia, sabotando o futuro sem escrúpulos de consciência, usando o travesti de «Animal Político (AP).
Quanto ao hodierno caso já nos ocupámos quantum satis. Passou à história como profeta vivo e não original. Nem por isso negou a regra: «o profeta constrói a profecia», Pelo menos, nestes casos, foi assim. O segredo chama-se «Animal Político», o que quer dizer «Troca-Tintas», falta de honestidade e moral.
De Mousinho, Oliveira Martins escreve: «No sistema das suas ideias não entrava por coisa alguma a tradição: nem histórica, nem religiosa, nem aristocrática. Era um absolutismo individualista.» (Portugal Contemporâneo, Tomo II, 6ª ed., 1925, p. 120). Algo se sobrepõe no actual adivinho; algo existe nos dois momentos históricos; um amarrado à tradição (Palmela), outro apostando na evolução (Mousinho).

Mas, nem tudo é fado. Eu gosto de assustar: «Oh papão, olha o menino!». Sendo assim também tenho direito. Pensem no papão...

Portugal, um dia, terá uma governação que governe para todos os portugueses [evolução] e não apenas para aqueles de sempre [tradição],

0 que não deixa de ser glorioso e sensato. De qualquer modo a esperança é a última a morrer... um dia virá. Veja-se: aguarde-se a próxima crise financeira recidiva. É por aí que a ruptura cientificamente acontecerá, sem troca-tintas, mas por colapso do sistema capitalista global - já esteve mais longe. Fala o Bandarra (!) de outra cultura. Falo sério.
Não sou AP, e isto que escrevo não é profecia, mas obediência à teoria da evolução do capitalismo universal que se regula pelas leis do fluxo fiduciário global. Não sendo banqueiro não sei se as minhas expressões de ciência financeira serão muito correctas. As minhas desculpas! Para bom entendedor, meia palavra basta.
É bom não esquecer que a presente crise está longe de ter terminado, verificando-se ainda sinais graves da sua presença - desemprego, falências, aumento de custo de toda a ordem em sectores de primeira necessidade. Ao mesmo tempo, são as manifestações de rua em todos os países, reunindo milhões de afectados. Tudo isto quer dizer que a próxima ruptura é já de gravíssima expressão. A fome é má conselheira.
E tudo isto sem profecia, mas uma constatação exposta por Karl Marx nos seus livros Crítica da Economia Política (1859) e O Capital (1867).


Tudo é sabido. Então??? Não me digam que é a vontade de Deus que comanda o Mundo. Não acredito. Não sou assim tão má língua!

Fernando Vieira de Sá

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

MS/AP– UM SOCIALISTA ÀS DIREITAS

Num destes dias de calor em que as nossas vontades vagueiam molengonas agindo levadas por um a espécie de fatalismo, olhando para as estantes sem nada procurar, esbarro com um livro já ausente da minha memória há mais de vinte anos, cujo título me dizia algo que à data da sua aparição suscitava alguma curiosidade, já que se apresentava na área da política como um Borda d´Água, neste caso sem cartola, mas com barriga avantajada, para dar informação útil e orientação política nacional. Daí a sua utilidade para qualquer cidadão. O dito livro, melhor dizendo, é verdadeiramente uma bíblia à base de visões e interpretações sobrenaturais de que só seres predestinados são dotados, um deles MS. Nesta bíblia marianesca são aos molhos os palpites, umas vezes bastando-lhe uma pequena frase, outras um discurso, mas tudo com o sinete de garantia MS.
Quando as coisas são aceites com devoção profética que se converte em fé, daí para a frente tudo se torna mais fácil. Basta saber-se que ele disse

«REVOLUÇÃO? (...) "O movimento vitorioso de 25 de Abril não pode ser considerado como um putsch militar, mas sim como um levantamento nacional das Forças Armadas imediatamente secundado pelas massas populares, pelo que foram verdadeiramente as Forças Armadas e as forças democráticas - numa palavra: o Povo - que reconquistaram a liberdade." (PS, 5.74)

[Pedro Ramos de Almeida, Dicionário Político de Mário Soares, Caminho, 1985, p. 631]

em pleno PREC, quando as ruas e as praças se atulhavam de multidão apoiando os militares em agradecimento, dando-lhe a sua adesão ao movimento que unia todo o povo sem outra alegria e fervor que não fora a liberdade conquistada ao fim de uma caminhada pelo deserto (Estado Novo), não para aqueles de consciência pesada que nesse momento já faziam as malas à pressa, levando consigo os valores financeiros surripiados à sombra da plutocracia vigente comprometida e que o governo de então tudo fazia para evitar.
Foi precisamente por este detalhe que MS foi tocado pela asa do anjo da guarda, dando-lhe a luz profética que o avisava da perigosidade em curso, fazendo-lhe ouvir o toque de rebate exigindo intervenção, o que evitaria que o país caísse na anarquia da rua levando-o, soube-o ele por angélico aviso, para aquilo que «nem os militares nem os cidadãos queriam para o país». Assim actuou. E actuou pela graça do anjo, segredando-lhe ao ouvido. Era a Voz do Alto em favor dos seus boys e tranquilidade da burguesia acochada.
A tarefa, desde logo, era hercúlea, mas MS, sempre aconselhado pelo seu instinto de nigromante personalista, sempre impelido pelo seu raro instinto, conhecido na gíria por «Animal Político» (AP), talvez por os seus procedimentos pouco ou nada lícitos, meteu ombros à tarefa, invertendo o curso da história e da vontade do povo bem patente.

«"No meu entender não se trata, propriamente, de um 'golpe de Estado' no sentido técnico da palavra. Trata-se de um 'pronunciamento' unânime das Forças Armadas, em uníssono com as mais profundas aspirações do Povo português, e que é um facto muito mais transcendente e muito mais importante." (Entrevista a ATS, concedida a 29.4.74, S.º

[op. cit., p. 631]

Neste livro – Dicionário Político de Mário Soares, cit. – transcrevem-se em pormenor intervenções políticas por si registadas em diversas ocasiões, como foi o caso da intervenção das chancelarias e governos gringos como se pode ler na fonte donde se reproduz o texto. Só assim se acredita:

«1974: MS salienta a esperança que põe na mudança de embaixador dos Estados Unidos e na chegada de Carlucci, director-adjunto da CIA, como embaixador: "Penso - diz ele - que o sr. Scott, que não era diplomata de carreira e era um velho amigo do sr. Nixon, foi muito normalmente substituído por uma equipa que encontrei em Washington e que me pareceu estar animada das melhores intenções a nosso respeito." (Le Monde, 24.12.74).

«grandes serviços»
1988: No regresso da sua visita aos EUA, MS destaca várias reuniões, entre as quais o jantar que lhe foi oferecido em Washington por Frank Carlucci, presidente da SEARS. (D.º, 16.3.84).
- MS, no regresso da sua visita aos EUA, referiu aos jornalistas «os grandes serviços» prestados por F. Carlucci em 1975, em Portugal. (D.º, 16.3.84).»

[op. cit., pp. 81-82]

Vender a alma ao diabo só realmente um grande animal. Fora de dúvida a conspiração passa pela desbragada intervenção estrangeira para esmagar o que, de acordo com o aviso celeste transmitido pelo chamado palpite, que mais não foi do que o auto-achincalho da sua própria dignidade e inteligência perturbada em nome de ódios de estimação e outros alvos em mira, estes mais pessoais, tudo se jogando, incluso o patriotismo, levando a que forças estrangeiras matem portugueses se necessário for. Portugueses que se batem pelos seus genuínos valores e direitos, embora MS/AP tenha prometido que não seria como no Chile, coisa que ele não podia garantir.

«CHILE E CUBA

VIAS: CUBA NÃO, CHILE SIM?

1972: A questão das vias para a democracia e o socialismo não tem segredos para MS: "(...) a diferença entre as duas preconizadas pode ser exemplificada, grosso modo, por duas experiências fundamentais em curso na América Latina: Cuba e Chile. Não me parece que uma experiência como a de Cuba possa repetir-se, em países como Porugal ou como a Espanha. Mas ainda que a reputasse possível, não a supunha nem necessária nem sequer desejável para o País. Quanto a isso tenho uma posição que não permite o menor equívoco, por mais apreço que me mereçam alguns dirigentes cubanos, Fidel Castro, em particular. Pelo contrário, uma experiência do tipo chileno, respeitadas as idiossincrasias de cada país [fala do Chile de Allende, um ano antes de Pinochet], parece-me perfeitamente exequível". (MS, Portugal Amordaçado, pág. 722)

CUBA NÃO, CHILE NÃO?

1976: MS escreve: "Temos pois que nos unir, todos os portugueses conscientes, para evitar o Chile. Como evitámos Cuba". (PS, 14.1.76)

CHILE EM PORTUGAL?

1974: "(...) Não podemos deixar a possibilidade da contra-revolução a pesar sobre as nossas cabeças e permitir que o País se torne um novo Chile. Penso que devemos expurgar todas aquelas pessoas responsáveis pela morte de muitos dos nossos chefes políticos durante a ditadura. A menos que façamos algo nesse sentido, eles poderão levantar-se, arrebatar o poder e executar-nos como aconteceu no Chie". (Entrevista à Newsweek, cit. in DL, 26.5.74).

1976: "Para certos peritos comunistas, Allende deveu essencialmente o seu fracasso à liberdade de imprensa que ele teve a imprudência de consentir aos seus adversários. 'Aconselharam', pois, os camaradas portugueses a não repetir o erro fatal. Não foi preciso dizer-lhes isto duas vezes..." (MS, Portugal: Que Revolução?, pág. 131).»

[op. cit., pp. 80-81]

Nesta bíblia marciânica são aos molhos os argumentos demonstrativos da saga que os seus pressentimentos exigem para lograr secretos intuitos sem limites para a consciência e pudor, como se pode ilustrar com amargura e consternação desmentindo as suas próprias palavras enxovalhadas, quase uma antropofagia de decoro.
Em conclusão, MS/AP usou rigorosamente os mesmos ogres usados por Salazar que lhe permitiu a política do medo que todos conhecem e que no caso presente foi usado nos extremos da vergonha, violência psíquica e ameaças de dividir Portugal em dois, levando o governo para o Porto, episódios indecorosos que não podem ser esquecidos nem sequer abafados e que estão na base da liberdade constitucional concebida na antiga Grécia, que só era aplicável ao cidadão, ou seja, o indivíduo livre por nascimento, ficando de fora o escravo que, como tal, nasce sem direitos. É nisto que está a diferença. Assim, o grande socialista de gaveta só concebe a democracia de hoje, quando põe em lugar do escravo o trabalhador assalariado. É aí, neste pormenor, que nascem todas as divergências. E assim, o AP sabe mais do que o que o seu pai espiritual lhe ensinou:
«1977: Intervenção de MS, como Primeiro-Ministro de Portugal de visita aos EUA na recepção que a 22-4-77 lhe foi oferecida em Nova Iorque pelo Sindicato Internacional dos Trabalhadores em Roupas de Senhora e pelos sociais-democratas (destaque-se que antes tinha sido lida uma mensagem de George Meany e tinham discursado Sol Chaikin, presidente do Sindicato e Bayard Rustin, presidente dos sociais-democratas): "Quero começar por agradecer as palavras bondosas que me dirigiram - palavras que não mereço. A verdade é que, em Portugal, foi a resistência do povo português que conseguiu o milagre de dominar a ameaça dos comunistas quando eles controlavam os meios de comunicação social, se infiltravam nas Forças Armadas do nosso país e estavam de facto prestes a formar uma nova polícia política... O PS foi apenas o líder desse movimento. Nessa tarefa fomos ajudados por todos os partidos sociais-democratas do mundo, por todos os sindicatos livres e também aqui, nos Estados Unidos, encontrámos essa solidariedade. Quero, nesta altura, apresentar os meus agradecimentos, como fiz ao presidente Meany quando estive em Washington, pela solidariedade que nos foi prestada pelos sindicatos americanos e sociais-democratas americanos." (AFL-CIO, "Notícias do Sindicalismo Livre", vol. 32, 5.77).»

[op. cit., pp. 119-120].

Com esta apresentação, e apesar dos anos passados sobre a publicação da dita bíblia mariola, sem discussão conhecida, parece ser tempo de tirar conclusões com todo desforçado labor em favor das consciências e do futuro das gentes portuguesas, das quais fazemos parte de corpo inteiro, sem ideais congelados, sem necessidade de consultar os anjos, e não tendo aspirações políticas, muito menos querendo ser Presidente da República, ou talvez mesmo Papa se o milagre o justificar e converter-se à Bíblia Sagrada, o que não seria inédito na família Soares.
Assim e antes de tudo que possa ser comentado – e seria muito.

É tempo de perguntar e concluir:

1º - Se MS/AP já tirou da gaveta o socialismo, dado que em tempos idos o próprio informou o país que havia guardado o socialismo na gaveta (palavras suas, na TV, que ecoaram por todo o país) não constando se já o tirou, e sem ranço ou mofo, pois faz toda a diferença saber por razões de garantia de higiene social. E se, já em liberdade e após a deportação; teria renascido em boa saúde, dado o período de inactividade em clima de ar fusco. Só assim se poderá aquilatar do estado moral e físico, após o sequestro a que foi submetida a bagagem ideológica do profeta, para se poder fazer juízo de valor. Tudo isto é complicado, mas é indispensável bater o mato e a respectiva fauna predadora, desde o cuco à águia de rapina.

2º - Pela intervenção de MS/AP, acolitado por equipa especialista, lembrando só o Chile, matando Allende e pondo Pinochet na presidência do país. Agora é a viragem ideológica do 25 de Abril de mão dada com a mesma equipa terrorista de Estado, como se lê nas pp. 81-82 já citadas, e aqui em Portugal reforçada pela facção residente, igualmente bem credenciada por larga folha de serviços. É bom lembrar que não é só a Al-Qaeda que opera no mundo, não sendo sequer a mais perigosa.

EPÍLOGO

Analisando agora o desastre governativo que está afundando o país diariamente num dos mais negros momentos da sua história, é lógico que se conclua que o fecundo padreador Operacional que foi MS/AP, com o exercício dele próprio como Presidente da República, e antes como Primeiro-ministro, indiscutivelmente o táctico da Contra-Revolução e, como tal, face à folha de serviço e ao «Animal Político» a quem se tem de exigir explicações chamando-o à barra de um Tribunal de Consciência, não de passa-culpas ou intriga de saguão, frente ao processo evidente dos seus palpites, verbi gratia as suas íntimas aspirações políticas.
Assim:
Além de ideólogo, também foi táctico e estratega de todo o processo, verdadeiro «Animal Político» no pior dos sentidos, É de toda a evidência que neste processo MS/AP actuou profundamente como "ditador" singular, com um poder que ninguém lhe deu e que pela intervenção estrangeira lhe caiu nos braços. Consequentemente, o dito «Animal Político» não é contra as ditaduras, ele próprio foi "ditador" com a protecção da plutocracia vinda pela mão dos EUA (governo, embaixada), também portuguesa bem conhecida, enquanto o socialismo vegeta na gaveta à espera de oportunidade mais rentável. Ele só não admite a ditadura do proletariado à face da democracia moderna. Não seria tempo de revisitar a História e desmantelar todo este rol de disfarces e intrusões com o fito de não abalar o sistema capitalista, sob a intuição de um socialista que engaveta o próprio idealismo quando lhe dá na real gana? Para onde vamos? Ninguém sabe nem arrisca. Entretanto, há quem não perca tempo e se aproveite da maré («Só em 2010 portugueses aplicaram 1,2 mil milhões de euros em "offshores"», lê-se em artigo assinado por Paula Cordeiro no Diário de Notícias de 23 de Agosto de 2010): As fortunas começam a medrar no auge da crise como cogumelos, enquanto o desemprego e os impostos aumentam, os salários e os benefícios sociais definham; tudo à base de um socialismo engavetado. Obrigado, mas não queremos mais. Chega!
Em relação a MS/AP pouco adianta escrever mais. O seu travesti já está bastante amarrotado e com nódoas que não saem nem com lixívia… só resta dizer «Good bye boy». Para anjos basta o Céu.
Mas nada disto dispensa desmascarar autores e actores desta trágico-comédia que já foi longe de mais. Mais tarde, abatida a dor pelo correr do tempo, contabilizar-se-á o que se fica a dever aos palpites e profecias do anjo que iluminou a história com todas as consequências à vista, que se confunde com um espectáculo circense: ilusionismos, equilíbrios na corda bamba e outras artes de circo de feira. E para guião manter-se-á o Borda d’Água político do inefável MS/AP. escrito com as suas próprias palavras e ideias ao longo da sua vida. Em bom calão cá do bairro diz-se: «É preciso ter lata!».
Para acabar: a crise mundial vai acabar, mas volta. Não foi a primeira e não será a última. É cíclica. Todos o sabem porque os critérios da distribuição da riqueza do país, produzida pelo trabalho, não se alteraram. À causa segue-se o efeito.

«ESCOLHA OBRIGATÓRIA

1983: MS define assim uma opção (obrigatória) que se poria ao PCP, no discurso com que encerrou a discussão do programa do governo PS/PSD: "Um partido como o Partido Comunista, vivendo numa situação democrática pluralista e pluripartidária, como é a nossa, tem que escolher entre duas posições. Ou joga o jogo da Democracia e, obviamente, é aceite como um partido democrático, com tudo o que isso implica, ou não joga o jogo da Democracia, mas sim o da desestabilização e então o comportamento das forças democráticas em relação a ele tem que ser outro."»

[op. cit., p. 393]

Ora aqui está: «Façam o que eu digo, mas não o que eu faço». Depois de tudo o que aqui se recorda sobre as opiniões de MS e principalmente respondendo ao seu cognome AP, no caso presente pergunta-se: quem fez a escolha obrigatória, ao ponto de ter de se socorrer de forças estrangeiras, sem vergonha, sem pudor, ditatorialmente? Não há palavras para definir. Mas, sinteticamente, a alcunha de «Vilão de Consciência» responde melhor à prática em questão: a de «Animal Político» é injusta por meter todos os políticos no mesmo saco. Convém separar os campos: nem tudo é restolho.

Fernando Vieira de Sá
Lisboa, Agosto de 2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

96º ANIVERSÁRIO

Desenho de José Carlos Roseiro (2010). Oferecido a Fernando Vieira de Sá, foi executado a partir de fotografia de Joaquim A. Silva, de 20 de Julho de 2005 (faz hoje 5 anos), in Ecos do México - Da História e da Memória, p. 4.

PARABÉNS VIEIRA DE SÁ.

sábado, 10 de julho de 2010

O HOMEM E O PERFIL - ARGUMENTO EM ARTES DE PALCO

«Presidenciais - Ribeiro e Castro "encaixa no perfil" do movimento. Antigo líder do partido diz que questão deve ser debatida», assim reza, resumidamente, o artigo do Diário de Notícias de 2 de Julho de 2010 que a seguir se reproduz:

«Um grupo de militantes do CDS desafiou ontem o partido a apoiar um "candidato próprio" nas próximas presidenciais. A porta-voz do movimento, Ana Paula Inglês, explicou ao DN que "esta candidatura deve passar por um militante do CDS-PP com provas dadas", admitindo que o deputado Ribeiro e Castro "encaixa no perfil". Já Ribeiro e Castro, em declarações à agência Lusa, disse desconhecer em concreto a iniciativa daquele grupo de militantes mas sublinhou que "é mais um sinal" de que "existe no partido e na sociedade um sentimento de vazio" no que toca às eleições presidenciais que disse partilhar."Tenho ouvido pessoas nos mais diversos quadrantes que testemunham um grande sentimento de vazio e essa iniciativa é mais um sinal desse sentimento", disse. Quanto à possibilidade de protagonizar uma candidatura às próximas eleições presidenciais, Ribeiro e Castro afirmou: "Não estou à janela." No entanto, acrescentou que a questão das presidenciais "deve ser debatida e ponderada no partido", uma vez que o actual quadro de candidaturas "não é mobilizador". O "movimento" defende que "mais do que nunca, se justifica uma candidatura da direita à Presidência da República." Segundo Ana Paula Inglês, este grupo de militantes "não se revê totalmente na posição do professor Cavaco Silva". O desafio foi feito em conferência de imprensa, que a direcção do CDS não aceitou que se realizasse na sede do partido. O secretário-geral do CDS-PP, João Almeida, disse ao DN que não permitiu que a conferência se realizasse na sede porque "não se trata de um acto institucional". Ainda assim, Ana Paula Inglês está confiante que a direcção aceitará o desafio de discutir uma candidatura própria na corrida a Belém.»

E para que não haja dúvidas junto uma foto que não deixa ninguém indiferente. E, mais do que isso, lê-se (ao fundo, na foto) com alguma dificuldade e preocupação estas palavras: «Pedras no caminho? / guardo todas, um dia vou construir um castelo...». Se não são estas palavras as minhas desculpas, mas estas encaixam perfeitamente com o almejado perfil, curva do bandulho e perfil facial de quem já se vê Presidente da República. Melhor ou igual a isto só o folião cabeça de cartaz do Carnaval do Funchal. Este Ribeiro e Castro lá vai dizendo que não está à janela. Nisto - vá lá - tem alguma vergonha, coisa que o funchalense já perdeu. O nosso continental tem que se aperfeiçoar um pouco mais para lograr o primeiro lugar nestas práticas de eleições. O que é em tudo isto preocupante são as pedras, não venham a ser usadas em alguma Intifada à moda árabe.
Com estas palavras e o perfil que arrepia qualquer cristão sem perfil, o curriculum do protagonista a tão alto cargo seria conquistado à pedrada ou qualquer outro expediente que encaixe no perfil de grande talibã.
Refira-se a propósito que este blogue já registou algumas declarações radicais de Ribeiro e Castro, como convidar o Mundo a libertar Cuba ou mentir sobre Che Guevara, considerando-o um assasssino.
Para terminar. Pode ser que tudo isto não passe de um perfil, de uma barriga e de uma moleirinha atrofiada. E sendo assim a história fica-se pelo perfil. A Humanidade agradece, já lhe chega o rei do Carnaval funchalense.

Fernando Vieira de Sá

Julho de 2010

sábado, 26 de junho de 2010

EXÉQUIAS NO FUNERAL DE JOSÉ SARAMAGO - HÁ QUEM FAÇA POR ESQUECER

José Saramago, in O Grande Livro do Portugueses, Circulo de Leitores, 1991

Por mor da Revolução de 25 de Abril de 1974 o Prémio Nobel da Literatura veio para Portugal pela excelsa pena de José Saramago, linha de partida para a liberdade de expressão que, no caso presente, veio a concretizar-se em 1980 com a publicação do romance Levantados do Chão, numa edição de 3200 exemplares. Se não fosse a Revolução, seguramente não estaríamos agora a despedirmo-nos de um dos maiores escritores a nível mundial nestas exéquias assistidas por uma multidão que corre todos os estratos da cultura e povo. Se acreditasse em milagres teria agora uma boa oportunidade para atribuir a um milagre os factos a que me refiro. Pelo contrário, e sem milagre, já na mole das personalidades da cultura, dos governos representados, estrangeiros e Portugal, e da declaração de Luto Nacional, avulta-se sem dar cavaco a ausência do primeiro representante da Nação - o Presidente da República -, originando uma fífia inadmissível e nada diplomática, mas reles na fala do povo, que tem todo o direito de exigir explicações. Tal rumor chegou ao destinatário que se obrigou a vir a terreno numa aparição nos ecrãs da TV, começando por explicar que a sua atitude oficial está bem expressa no regulamento dos deveres do PR, que foi seguido à letra, alínea por alínea, onde se aponta o que é dever oficial, omitindo, se sim ou não, obriga à presença física. Estavam assim explicados os limites em que se move um Presidente burocrata, o que, decifrada a charada - e em conclusão - está-se perante um PR manga d'alpaca. E nada mais refulgia no seu retesado semblante de austero administrador dos cartapácios de administração dos deveres implícitos do cargo. É caso para dizer: «Pior a emenda do que o soneto».
Em termos de aparte: um cumpridor deste quilate deve dormir como um prego. Nada lhe pesa na consciência que, aliás, não tem ou, pelo menos, não exibe, como se lê.

Deixando agora este imbróglio e tratando-o por outro prisma mais abrangente e incisivo, recordemos: remexendo a minha velha memória topo com uma história verídica passada no ano de 1949, já eu tinha 35 anos, daí que já me permitia dar peso a certas histórias vividas, uma delas parelha desta que nos ocupou atrás.
Assim: passava, como já disse, o ano de 1949, em pleno regime salazarista de escola fascista e nazista, abençoado pelos americanos que, derrotando Hitler e Mussolini, deixaram Salazar como plataforma avançada (ao tempo uma espécie de Israel em formato católico) para as suas ambições de poderio político e económico, esquecendo os valores pelos quais lutou e que agora usa em seu proveito e que Salazar agradece.
Acontece que nesse ano de 1949, em pleno regime salazarista acalentado pelos EUA, Egas Moniz (EM) recebe o Prémio Nobel da Medicina. Nessa contingência a Oposição ao regime, que tinha a adesão de EM, pretendeu fazer uma recepção oficial e popular que o regime proibiu. Perante esse abuso de autoridade, resolveu a Oposição pedir autorização (obrigatória) ao Governo Civil de Aveiro pela circunstância de EM ser residente em Avanca, naquele distrito, para essa recepção que, tal como sucedeu em Lisboa, também foi recusada. Não se ficando por aqui, a Comissão fala com Egas Moniz para pedir autorização e aquiescência para fazer a recepção em sua casa, se tal fosse autorizado por ele próprio. Egas Moniz agradece e autoriza, o que foi concretizado por um grupo de seis ou sete representantes de vários quadrantes sociais. Dessa comissão eu fazia parte, por isso estou aqui a informar de algo que me passou pelas mãos.

Analisando estes dois acontecimentos ao redor do mesmo facto, dois Nobel, um de Medicina, outro de Literatura, os únicos que vieram para Portugal, verifica-se a mesma atitude negativa, sendo uma em pleno Salazarismo e outra em Democracia, servida por entidades que, não sendo fascistas (salazaristas), a verdade é que imitam muito bem, e a prova está à vista, ninguém nega: DOIS NÃOS e o mesmo conteúdo e finalidade. Azares. Há amores difíceis de ocultar.

Fernando Vieira de Sá
Lisboa, Junho de 2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010

TEMPO DE ANIVERSÁRIO, COM ALGUM ATRASO...

Os livros e os amigos nas sessões de lançamento, todas realizadas na Associação 25 de Abril, com excepção de Autópsia a Um Departamento Científico do Estado, apenas com apresentação na Internet, já com este blogue em funcionamento. A plateia dá o calor da amizade, Miguel Urbano Rodrigues apresenta Ecos do México e José Manuel, meu filho, regista o momento (Manuel Machado Sá Marques tinha apresentado Cartas na Mesa e Urbano Tavares Rodrigues Viagem ao Correr da Pena), Diogo Gonçalves aguarda autógrafo, Vasco Gonçalves e Luís Guerra (dois Amigos sempre!) conversam descontraidamente e, no final, a confraternização entre amigos.

Aproveitando este aniversário do meu amigo Luís Guerra (28 de Março, mas que eu confundi e anotei em 28 de Maio), para além de o felicitar por vencer mais um ano de vida que, em todos os sentidos se tem espelhado como a de um homem com as virtudes que mais embelezam a vida (... há gente para tudo!) dando-lhe exemplo de um virtuoso e requintado gosto na produção editorial, conseguindo transformar um naco de prosa, fazendo do processo oficinal uma arte de cativante sensibilidade no arranjo dos textos, gravuras, chamadas à margem, etc., proporcionando uma leitura agradável e fácil consulta, tudo numa apresentação gráfica impecável em todos os aspectos, com tudo isso construindo uma relação de gratidão pela ajuda da pessoa certa, íntegra e competente, levando-me a congeminar, como uma prosa chã, submetida a uma cirurgia estética, se transforma numa atraente peça bibliográfica apetecível à leitura e ao prazer de a ter entre as mãos.

Pensando em antecedentes, foi com essa pessoa, agora meu grande amigo e promotor dos meus livros de memórias e deste blogue, que um dia, por acasos da vida, nos encontrámos ao virar da esquina após alguns anos de silêncio, e nos abraçámos e nos perguntámos pelas vivências de cada um. Quanto a mim, que ao tempo tinha um livro de memórias para publicar, perguntava-lhe se me recomendava alguma editora que o publicasse, isto porque o meu conhecimento do Guerra vinha do tempo em que eu publiquei um livro, O Reino da Estupidez nos Caminhos da Fome - Memória de tempos difíceis, editado pelas Edições Cosmos em 1996, onde Guerra trabalhava como director editorial e aí nos relacionámos por algum tempo. A vida, porém, correu e cada um por seu lado. Ficou a recordação, sem nos apercebermos do tempo que passou até àquele momento.

Falando então de trabalho perguntava o Guerra o que eu fazia naquela altura, respondendo-lhe perguntando se me recomendava um editor para um livro de memórias que havia escrito, ao que ele respondeu sem hesitação: «Eu». Fiquei atónito e logo aí marcámos encontro para concretizar o assunto... e assim inaugurámos o renovado relacionamento que se manteve em hibernação por alguns anos, hoje mantido com grande satisfação pelo menos por minha parte, mas dele e de sua mulher e filhos só tenho provas de amizade. O Guerra então informa-me ter aberto uma pequena empresa, também editora, a «Moinho de Papel», e que teria muito gosto em o editar, até por se tratar de memórias, tema que o atrai. Foi assim que publicámos, entre 2004 e 2008, quatro títulos cuja apresentação convida a penetrar na leitura da prosa chã, por vezes criticando e beliscando «intocáveis» que sempre lhes custa engolir o marmelo como foi o caso do título Autópsia a um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares. É a lei da vida. Lá diz o ditado: «Quem anda à chuva, molha-se». Por estas e por outras nos bordaderos dos corredores (antigamente dos cafés) não sou bem visto, o que não é para admirar, levando-me por vezes a dizer: «Seria pior não dizer nada». O combate de opiniões diverte-me, mas frente-a-frente. E, por vezes, quando dizem bem desconfio, nunca se sabe. A vida vivida exige contrapartidas e, a não ser assim, a vida é como uma água choca. Mas há quem goste - as larvas dos mosquitos (cabeçudos), por exemplo.

Com esta diatribe é tempo de terminar, mas não sem voltar ao princípio deste texto e sem vincar a grande contribuição que Luís Guerra trouxe aos meus devaneios, os quais nesta fase da vida me permitiram viver uma solidão que só se satisfaz vivendo uma vida sempre vivida com entusiasmo em todos os momentos, sem queixume. Daí as memórias.

Obrigado querido Amigo Luís Guerra pelo seu contributo que tanto me ajudou nesta ponta final. Abraço-o alargando o amplexo, cingindo essa bela família, sua mulher e filhos que muito estimo.


Um grande abraço,

Fernando Vieira de Sá

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O VULCÃO DA ISLÂNDIA E A CRISE ECONÓMICA DO MUNDO

O Mundo, e em particular a Europa, acorda um dia e, sem aviso prévio, assiste na TV a um arrepiante fenómeno da Natureza que jamais tinha ocorrido na sua globalidade desde que a Terra é Terra, tendo sobretudo em conta a exorbitante população do planeta e correspondente substrato que a civilização produziu.
Quer isto dizer que não é propriamente o fenómeno em si que arrepia e provoca perplexidade, mas sim o mundo cada vez mais habitado e mais desenvolvido. Paradoxos.
De repente - digo - em poucas horas, e depois dias após o anúncio trágico de que o vulcão da Islândia, em silêncio há 100 anos, volta exuberantemente à actividade, soltando arrepiantes montanhas de fumos da mais perversa perigosidade, atingindo entes vivos e sobremaneira os motores dos aviões, deixando milhões de pessoas paralisadas em toda a Europa, mergulhando-se assim numa catástrofe que não tem paralelo, com todas as inevitáveis consequências. Não vale a pena descrever mais sobre os momentos que se seguiram e continuaram a produzir em cadeia, indo ao âmago da vida social e global em que se integra o Mundo. As consequências não têm limite, o Mundo muda estupefacto. O fenómeno não tem antecedentes.
A isto chama-se globalização, cuja etiquetagem é já da rotina dos tempos actuais.
Ao assistir ao desenrolar do fenómeno e às notícias de todas as televisões do Mundo, dando conta dos reflexos próximos e distantes que, dir-se-ia não deixar ninguém directa ou indirectamente afectado por um fenómeno que ainda na véspera à noite parecia correr bem, exactamente porque num dado momento o tampão do vulcão, não aguentando a pressão interna, rebenta, Esse que era a chave (ou uma das chaves) do segredo infernal, cerne do aparelho que regula a vida do planeta.
Naturalmente, como qualquer cidadão do Mundo, fiquei suspenso das últimas notícias tétricas que continuavam a chegar e que são do conhecimento do Mundo inteiro, não vale a pena mais comentários. Da minha parte, à medida que se comentavam todos os aspectos do magno acidente e em termos de comparação, deu-me para comparar toda esta globalidade e secretismo contido no perfil da montanha vulcânica, o qual por razões inexplicáveis corta o silêncio, com a Crise Económica, também, por sua vez, de tanta raridade que, tal como o vulcão, parecia não existir com tanta gravidade.
De tal modo a comparação é fácil que, se quisermos ilustrar a crise, bastaria sobrepor as imagens da crise vulcânica, com as respectivas legendas, com a crise económica, submetendo as legendas da evolução às verificadas no vulcão. Assim: ruptura, alarme, primeiras consequências, segundas consequências em cadeia, crise, prejuízos em alargamento de consequências, caos, etc., construindo-se a metáfora ilustrada.
É bom reflectir e tirar a conclusão de que a crise económica do Mundo em geral, e de Portugal em particular, tendo uma linha de nascimento, desenvolvimento e efeitos, é uma crise como a crise vulcânica a que se assistiu, ao lado da profunda crise que assola a Europa e o Mundo com todas as consequências que fazem sangrar as economias.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

«O COMUM DA TERRA»

Vem ao caso a conferência proferida por Vasco Gonçalves, a convite da Câmara Municipal do Porto, no ciclo de conferências promovidas para a comemoração do 30º aniversário do 25 de Abril, e que deu origem a um livro (Vasco Gonçalves, No 30º Aniversário do 25 de Abril, Porto, Campo das Letras), do qual possuo um exemplar com uma saudosa dedicatória que me honra e enternece e onde se encontra a reprodução de um cartaz de Armando Alves com poema de Eugénio de Andrade que aqui também reproduzimos. FVS



O COMUM DA TERRA
(Vasco Gonçalves)

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse era tu: inclinação da água. Na margem
vento areias mastros lábios, tudo ardia.

Eugénio de Andrade

VASCO GONÇALVES (3 de Maio de 1922 - 11 de Junho de 2005



VITÓRIAS E DERROTAS, NO PASSADO E NA ACTUALIDADE, LEMBRANDO VASCO GONÇALVES NO 88º ANIVERSÁRIO DO SEU NASCIMENTO.

VITÓRIAS
Aljubarrota - Porugal confirma-se como nação independente em 1583.
Vasco Gonçalves - 1º Ministro dos II, III, IV e V governos provisórios, faz as nacionalizações e evita fuga de capitais para fora do país.

DERROTAS
Alcácer Quibir - «Maravilha fatal da nossa idade» (Os Lusíadas, C. I, 6) D. Sebastião desaparece da batalha e com ele a coroa de ouro que levava para pôr na cabeça após a vitória.
Contra-Revolução (25 de Novembro) - Inspirada por um iluminista que se arroga vidente, manobra para que tudo regresse ao ponto de partida. O resultado é o regresso da pilhagem reforçada e a situação dramática do país.

Com estas poucas palavras se recorda o nome de Vasco Gonçalves, que passará à história, por enquanto encerrado numa gaveta até que chegue a hora da verdade.
Por agora é o que se sente e o que se vê. Tudo se tenta para reconstruir o passado e recuperar o sistema. Por isso, na actualidade, o nome de Vasco Gonçalves é silenciado. É bom assim. Esse silêncio representa o favor de não confundir o que não tem equivalência.

Entretanto, e aproveitando a maré, É FARTAR VILANAGEM!

Fernando Vieira de Sá

domingo, 25 de abril de 2010

O 25 DE ABRIL NO TEMPO DA HISTÓRIA

«O tempo da história é lento, mas a verdade chega sempre. Essa é a utopia. A revolução não é um anátema. O parto é revolução e, na Natureza, não se faz sem dor.
Todo o envolvimento que rodeou o 25 de Abril faz-me recordar um pouco a revolução de 1383-85, salvaguardando o longo lapso de tempo que separa ambas as revoluções: causas profundas que as definiram; estruturas sociais existentes à época; modus faciendi da traição que teve lugar em ambas; efeitos da contra-revolução.»

Ler mais em F. Vieira de Sá, Viagem ao Correr da Pena, pp. 24-25

sábado, 20 de março de 2010

EFEITOS ESPECIAIS

Na coluna «Opinião», de João Lopes, dedicada ao cinema e da qual sou visitante assíduo, vejo-me a ler (Diário de Notícias, 10-III-2010) um título que logo me aguçou a curiosidade: «Efeitos (pouco) especiais» (pergunto-me se acha pouco e queria mais). Logo mergulhei na sua leitura por várias razões que, aliás, todos conhecem: uma, por se tratar de João Lopes, que logo induz a uma leitura serena e inteligente; outra, pelo facto de o título me parecer oportuno, já que efeitos especiais é, nos tempos actuais, qualquer coisa que mexe com os neurónios do cidadão da rua, e nos faz pensar até que ponto esses efeitos tão especiais - tanto no cinema como na vida real - acabam por ser sujeito e não predicado da acção e que nos põe a cabeça à roda e a perguntarmos se é de exibir os avanços da Ciência e Tecnologia, incluindo a Economia, ou se é a Tese, o entrecho que se deseja transmitir e cativar.
Outra vertente muito explorada é a do «Estado da Nação», cujos figurantes, utilizando os melhores truques de efeitos especiais, nos fazem sentir que estamos vivendo no País das Maravilhas, tal a imaginação que nos ensopa de esperança e alegria de viver que mal entramos na realidade e nos confrontamos com a vida real. Temos - verdade seja dita - desempenhos magistrais que quase nos faz negar a realidade, só sentida quando voltamos à vida real, já despojados de efeitos especiais, mas vendo e sentindo a vida em sua plena agressividade.
Nestes desempenhos é difícil dizer quem é melhor em estilo de representação ou de tema: policial, drama, ópera-bufa, revista, aventuras, cowboys, etc. Em qualquer destes temas temos do melhor em desempenho, tudo devendo aos efeitos especiais, ao ponto do Zé Povinho já não saber o que é verídico ou virtual por efeito especial. Sendo assim, a vida é boa. Lá estará o hemiciclo afinado, para não haver fífias, quando chamado à representação democrática de efeito especial.
Valha-nos a imaginação.
Para ajudar, dentro de dias vem a visita do Papa, que cai como sopa no mel, pois não deixará Sua Santidade de rezar para que não se perca a fé. Pela minha parte já me sinto mais confiante. Não faltarão os efeitos especiais, E estes vêm do Céu, têm valor acrescentado. Além disso, sempre é uma folga para o primeiro-ministro repousar uns minutos, pois não estando acima de tudo e de todos tem de dar o canastro ao manifesto.
E já agora não se esqueça de mandar 1€ de «arredondamento» para o Jardim Atlântico que é outro efeito especial, este em formato de promessa à Senhora de Fátima.
Para terminar: haverá alguém neste país que esteja acima do efeito especial? Antes de responder, «Páre, Escute e Olhe» para a esquerda e a direita.
Obrigado João Lopes por me ter chamado a atenção para os efeitos de que tanto se fala, usa e abusa. É cómodo estar por cima de tudo. Pelo menos é estratégico. E, talvez assim, se evitem enganos.
Fernando Vieira de Sá

domingo, 7 de março de 2010

«QUEM MORRE?», DE PABLO NERUDA

Duas notas pessoais no conjunto de todas: «Evitemos a morte em doses suaves (...)» e «Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade» FVS

QUEM MORRE?

Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is"
em detrimento de um redemoinho de emoções
justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos
dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se
da sua má sorte ou da chuva incessante.

Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.


Pablo Neruda

UM ALTRUÍSTA PORTUGUÊS QUE SOFRE MAIS PELA DEMOCRACIA DE CUBA DO QUE PELA DE PORTUGAL


O grito bate no fundo das nossas almas:
«Comunidade internacional deve pressionar regime cubano»,
Diário de Notícias, 1 de Março de 2010


Há meses atrás um senhor de nome Ribeiro e Castro, que deputa na Assembleia da República, arvorou-se em bandeirante ou cruzado dos tempos modernos, erguendo o pavilhão da Guerra Santa contra Cuba com um artigo próprio de alguém que quer mostrar serviço para que não se esqueçam dele à hora do rancho. Lembou-se de desancar Che Guevara, chamando-lhe «assassino», e Cuba, o território onde o dito «salteador» perpetrava os seus crimes.
Não se percebe muito bem a oportunidade da questão, dando-a, portanto, como uma descarga de bílis face a tudo aquilo que se passa à sua falta e altera a boa disposição.
Embora a afirmação não tenha a exigência de responsabilidade, trata-se apenas de um blá-blá, seria bom pelo menos dar-lhe um caldinho no cachaço, só para lhe mostrar que, por muita irresponsabilidade que se perdoa, também é conveniente mostrar que nem tudo pode ser afirmado de borla, E, como tal, escrevi algumas achegas, apenas para desmontar a anedota.
Pensava eu que o assunto estava encerrado, mas não. Mais recentemente, o sobredito cruzado faz declarações na imprensa que dão origem a um artigo, assinado por Pedro Correia (Diário de Notícias, 1 de Março de 2010), com um título a letras gordas: «Comunidade Internacional deve presionar regime cubano», dando conta das suas cristãs preocupações com a repressão em Cuba e com os riscos e agressões que a democracia aí sofre a toda a hora.
Trata-se de um toque de clarim dado por um cidadão a quem, pelo posto que ocupa na sociedade portuguesa, pois deputa na Assembleia da República, ficaria bem um certo bom senso e cultura política, tratando-se de democracia. O senhor RC esquece-se de tudo ou pelo menos do essencial, o que põe de rastos todas as suas divagações.
O senhor RC certamente leu em qualquer cartilha que a democracia não pode exercer as suas bases filosóficas e aplicações no terreno sem uma base sólida em dois pilares fundamentais - a Educação e a Saúde, já para não falar do Direito ao Trabalho - que, a não existirem, também a democracia sofre todos os riscos e agressões e não funciona por mais voltas que se lhe dêem. Uma outra nota para o cruzado porta-bandeira tomar em conta, é que, com todas as restrições que afligem o senhor RC, em Cuba, por exemplo, não há analfabetismo há muitos anos e o serviço de saúde pública é dos melhores do mundo, isto tudo confirmado pelas estatísticas de organismos internacionais. Se o senhor RC duvida tenho o maior prazer em lhe enviar as estatísticas internacionais competentes. E daí, de que Cuba é por direito próprio e definição um dos países em que a democracia é mais legítima. O que o senhor cruzado chama ditadura é simplesmente não aceitar quintas colunas por conta dos EUA, que combate o regime cubano por ser contrário aos seus desejos e projectos o que, aliás, todo o mundo sabe, mas nada disto tem que ver com a democracia, mas sim com imperialismo.

O que se estranha é como o senhor RC se preocupa tanto com Cuba e quanto à democracia em Portugal não diz nem faz nada. E o grave é que o senhor RC é pago para defender a democracia e não para dar lustro ao cadeirão em que se senta a pensar nos outros. Aqui há qualquer coisa mais grave que o povo contesta.
O meu pedido como cidadão, e com toda a segurança em nome de muitos, é que o senhor RC olhe para dentro e veja o estado da Nação em termos de Educação, que está na rua da amargura, e de Saúde aspas, aspas, aspas.
Faça uma cruzada, vá para a rua, e todos lhe agradeceremos.
Fernando Vieira de Sá
Lisboa, 7 de Março de 2010

sábado, 27 de fevereiro de 2010

FOME - NÓ GÓRDIO DO PROGRESSO DA CIVILIZAÇÃO

«[...] a fome é a expressão última para a salvação do sistema capitalista agravado pelo subdesenvolvimento do Mundo sujeito à exploração de matérias-primas industriais e energéticas do capitalismo para o monopólio.»
F. Vieira de Sá,
O Reino da Estupidez nos Caminhos da Fome - Memória de tempos difíceis,
Edições Cosmos, 1996, p. 249,

Toda a Humanidade sabe da existência da fome, e parte substancial dela sofre-a na pele, constituindo a nódoa mais negra e vergonhosa da moralidade humana em qualquer civilização, independente das luzes da ribalta da espectaculosa aventura do progresso científico em todos os domínios.

Sendo assim, e tratando-se do maior de todos e gravosos problemas da Humanidade, não deixam de se interrogar as consciências pelo facto de nunca a Fome se apresentar como tal, mas sim como um fenómeno decorrente da própria vivência em cada quadro social inerente aos factores da emergência da vida, tal como toda a existência. Tudo isto em paliativo da má consciência colectiva.
Vendo as coisas como se querem ver pelo prisma do fatalismo e apelativo de qualquer ópio religioso consumido, explica talvez a razão de nunca o problema - o facto físico - ter sido objecto de incentivo de um Prémio Nobel em honor da luta contra a fome já que as há em notória variedade e para todos os gostos.
O Nó Górdio, levantando o véu da hipocrisia e desnudar as raízes do fenómeno, E para bem se saber do que se trata, parece recomendável explicar a fábula que vem pôr ao léu o pomo do problema, transcrevendo da Enciclopédia Internacional (20 volumes, USA, 1963 - tradução informal para mais abrangente acessibilidade) a entrada «Gordius»:
«Legendário rei da Frígia, após o qual a capital passou a chamar-se Górdio. Um oráculo tinha previsto que viria uma carruagem conduzindo Frígia, um Rei que iria terminar com distúrbios internos. Quando o aldeão Górdio apareceu nessa carruagem o povo chamou-lhe rei. Górdio, por gratidão, dedicou a carruagem a Zeus, atrelando a sua carruagem com um complicado nó. Um oráculo declarou que, quem desfizesse o nó, deveria tornar-se Senhor da Ásia. Séculos mais tarde Alexandre o Grande desfez o nó com um golpe da sua espada e prosseguiu na conquista da Ásia. "Desfazer o Nó Górdio" é equivalente a resolver o problema por simples iniciativa.»
Voltando à fome e deixando-nos de oráculos, transferindo apenas o pensamento que a vida constrói, dir-se-ia que toda a questão se baseia no aparecimento dum Górdio-de-espada-à-cinta para desfazer o nó da infâmia ou do ripanço, trazendo para a ribalta a discussão das raízes da fome, tal como a dita se chama, se exprime e se manifesta na vida, sem subterfúgios.
Enquanto, porém, não aparecer um Górdio-de-espada-à-cinta para desfazer o nó da política monetária ou outra equivalente, seria interessante abrir aqui uma tribuna para reunir opiniões, deixando os amuletos na gaveta, abrindo as consciências e olhar para o mundo no respeito do seu próprio dever cultural de cidadão pensante, discutindo o nas suas próprias raízes e não no travesti, mascarando a ignomínia, o que até agora tem sido tabu, usando subterfúgios que levam a congeminações teorizantes das quais se definem várias razões que levam ao fenómeno, não citando contudo uma que é a única autêntica, omnipresente e omnipotente: a incorrecta distribuição da riqueza, esta resultante, não de uma política democrática, mas liberal. A experiência o afirma. A democracia que tolera que, à sombra da palavra e da ideia, se achincalhe o ideal em favor do Poder Financeiro, que na sua própria génese pode ser tudo menos democracia.
Quem queira discutir, escreva.
Fernando Vieira de Sá

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

PIRATARIA À SOLTA

Foto 1. Casal Gonçalves, sem Gageiro, no enquadramento que utilizámos no texto «Em memória de Vasco Gonçalves».

Fot0 2. A mesma fotografia, aqui com Eduardo Gageiro.

Foto 3. Sesimbra, 1999. Uma tarde entre amigos.
Eduardo Gageiro fotografa o casal Gonçalves. Ao centro, a embaixadora de Cuba, Mercedes Aguiar. À esquerda, de perfil, Monteiro Baptista.
Para não correr o risco de ser eu o pirata, quando reproduzi neste blogue a foto 1, ilustrando o texto «Em memória de Vasco Gonçalves», agora reproduzida num blogue e num jornal sem referência à fonte*, faltando assim ao preceito elementar de boa educação, sem consciência do abuso de confiança, dando a impressão de estarmos vivendo em plena selva, onde só os instintos regulam os actos. Isto, pelo menos, em sede da imprensa hodierna. Nesta matéria os avanços são visíveis, os exemplos são aos magotes. Cópia de segunda geração é um facto no presente caso. De qualquer modo, em qualquer circunstância é um dever sempre obrigatório que, quando não ocorre, trata-se de ausência de civilidade e falta de brio. É um «todo o terreno».
As três fotos ilustram bem a autenticidade dos sentimentos, a que só os próprios dão afecto e saudade.
Fernando Vieira de Sá
Lisboa, 22 de Fevereiro de 2010


* Note-se que, como resposta ao nosso protesto, obtivemos do jornal em questão a indicação de que a foto teria sido retirada de um blogue, que identificou. Apenas! Apenas e após um insistente segundo protesto. Contactado o blogue, obtivemos, não só uma resposta imediata, como o correspondente pedido de desculpa e a promessa, cumprida de imediato, de inserir no blogue uma referência à fonte. Duas atitudes bem distintas que aqui deixamos registadas e que distinguimos, convidando-vos a visitar o blogue e saudando daqui, cordialmente, António Abreu.
[Fotos de F. Vieira de Sá]

domingo, 21 de fevereiro de 2010

RELÍQUIA

Aos amadores de automóveis e de corridas em Portugal, ofereço este documento que conta 51 anos, sendo já uma relíquia, que encontrei há dias entre outros papéis deixados por meu pai. Legenda: «O "Fiat" do Infante D. Afonso, vencedor da primeira grande corrida de automóveis em Portugal, em 1902, entre a Figueira da Foz e Lisboa» (recorte do Diário de Notícias de 21-II-1959).
Fernando Vieira de Sá

sábado, 20 de fevereiro de 2010

GAGO COUTINHO

Legenda: «O hidroavião Lusitânia pousado nas águas do Tejo, em frente da Torre de Belém, no dia em que Gago Coutinho e Sacadura Cabral iniciaram a gloriosa viagem da travessia do Atlântico Sul», in Diário de Notícias de 20 de Fevereiro de 1959, dois dias depois do seu falecimento, conforme nota manuscrita [«Gago Coutinho falecido em 18 de Fevereiro de 1959»], faz hoje precisamente 51 anos. Mais um documento colhido entre os papéis de F. Vieira de Sá, guardado e anotado por seu pai, que aqui deixamos como forma de assinalar a data.
Gago Coutinho nasceu no dia 17 de Fevereiro de 1869 e faleceu no dia 18 de Fevereiro de 1959, um dia depois de completar 90 anos.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

RECORDAR PARA NÃO ESQUECER

http://www.lubitsch.com/

Ao ler, no Diário de Notícias de 3 de Fevereiro de 2010, a coluna de João Lopes com o título «Memórias do tempo de Casablanca», um dos dez melhores filmes seleccionados para os Óscares, logo me recordei de outra célebre obra-prima cinematográfica da mesma época, O Céu Pode Esperar, [Heaven Can Wait, de Ernst Lubitsch], e que curiosamente o colunista também não resistiu a citar, entre outros. Talvez, porém, João Lopes não se recorde quanto o filme O Céu Pode Esperar sofreu nos écrans portugueses por força de uma intervenção cirúrgica que sofreu e que fazia toda a diferença para o espectador, por não se perceber a razão do título, já que o filme termina exactamente quando o figurante em causa toma o elevador, que o levaria ao Céu por decisão do Diabo. Porquê então O Céu Pode Esperar?
Nesse tempo eu estava fora de Portugal e não fugi à brotoeja cinéfila que contagiava muitas plateias. E não me arrependi, achando o título do filme de alta inspiração crítica, subtil e condescendente, apenas apontando a uma reflexão sem urgência («pode esperar»).
Com tão díspares opiniões sobre a relação título-imagem, contrariamente à coerência de ambas as críticas, só se entende recordando um detalhe, um só, pelo qual se resolve a charada.
A história começa quando o protagonista, homem bem-parecido, é recebido pelo Diabo, Senhor omnipresente do Inferno, pedindo-lhe guarida, num rasgo de auto-flagelação à luz da probidade social, ao que o anfitrião lhe responde dizendo-lhe que a coisa não era assim tão fácil como o pretendente pensava, pois exigia saber quais as razões que levaram à sua solicitação, e só então resolveria, o Diabo, se sim ou não o admitiria. «Aqui não há compadrios!» - diz o Diabo. Assim começa a história que é o corpo do filme.
Tal história, que aqui e agora se vai contar muito resumidamente, mas suficiente para se compreender o justeza da petição-grito de consciência, arrependimento de alma, agora vagabunda à procura de acolhimento que só vê lugar na fornalha do Inferno. E conta o seu rosário de culpas: ele era casado com uma mulher admirável com quem mantinha uma relação idílica de altos sentimentos, prendando-a com jóias e lembranças, todas transmitindo o calor de um lar perfeito, às quais a adorável esposa se vergava. Contudo - continuando o depoimento - fora de casa todos os obséquios de alma, com a maior frequência eram consentidos face a outras divas ao virar da esquina, a cujos corações fazia chegar a sua inegável amorosidade, sempre exemplarmente reconhecida, fazendo assim distribuir amor e mais amor em vendavais de felicidade. Por isso mesmo ele estava ali, agora presente ao reino do Inferno, pois sentia na sua consciência um remorso, face ao compromisso conjugal, que só no Inferno se redimia.
Nesta altura o Diabo, que tinha ouvido todo o depoimento desabonatório numa óptica do espartilho convencional, adverte: «Lamento, mas não posso recebê-lo, pois, contrariamente à sua convicção, o senhor é uma alma generosa, fazendo feliz não uma mas tantas mulheres, tantas quantas a sua permissividade acolhe. E, se me pede prova, vou-lhe provar a verdade das minhas palavras, mostrando-lhe no écran da minha instalação televisível, que estou ligando à Terra para assistir ao que está a passar-se no cemitério a poucas horas do seu funeral, à beira da sua campa, em que o quadro é um montão de jovens amantes, todas a carpir lágrimas de dor, encharcando lenços, incluindo a consorte, partilhando com as outras o sofrimento da morte do ente amado, ignorando rivalidades, sentindo só o que dele receberam - amor sem condições». Todas univocamente o choravam. «Lamento - conclui o Diabo - esta sua alma que me bate à porta, está equivocada quanto à sentença. O seu repouso é no Reino do Céu». E, não lhe perguntando mais nada, toca a campainha, chamando o servente, e dando-lhe ordem para conduzir aquela alma ao elevador que a levaria ao Céu, pois que era aí o lugar do seu eterno repouso.

Aqui em Portugal, o filme termina exactamente no momento em que o elevador arranca, deixando as plateias penduradas quanto ao título do filme, pois não vêem qualquer coerência com a história.
Eu, por acaso, nesse tempo estava fora do país como já referi, mas vendo o filme, que ao tempo era uma obrigação para as coisas do espírito, achei-o uma obra de arte e o seu título magistral e de grande consenso humano e crítica subtil, contrariamente ao que em Portugal se ajuizou.
A resposta a esta flagrante contradição quanto à justificação de um título de sentido oposto, estava somente neste pormenor: em Portugal, o ditador empedernido, informado do guião da história, manda que a Censura corte o final do filme, quando o elevador arranca para o Céu, eliminando a cena da sua chegada ao Paraíso Celeste, que no original era assim como observei: a chegada ao destino, e a alma penada («alma do purgatório que o povo ignorante supõe aparecer em figura humana por expiação de algum grande pecado», segundo o Dic. Morais Silva, Rio de Janeiro, 1899) preparando-se para sair, calha que nesse exacto momento entra uma diva que, essa sim, ia recovada para o Inferno, o que fez com que o recém-chegado, após uma breve hesitação, resolvesse reentrar no habitáculo donde saíra, clamando: «O CÉU PODE ESPERAR», frase que Salazar achou pecaminosa e a atitude desrespeitosa e herege. O elevador desce. A história finda.
O MAGAREFE - A amputação mutila tudo. Salazar dorme tranquilo sem escrúpulos estéticos, fabricando um aleijão sem sentimento de qualquer espécie. Há memórias e memórias. Umas de circunstância, outras as dos Povos que não se esquecem por mais lixívia que os sucessores, que os há e activos, consumam. Por isso se avalia, por este exemplo, até que ponto o povo português foi amputado de valores de toda a espécie, especialmente a dignidade, que hoje anda pela rua da amargura. Conclusão: há temas antigos que nunca perdem actualidade.

Dirigindo-me agora a João Lopes, quero felicitá-lo pelas suas intervenções, de muita classe, que eu sempre leio com prazer. Agradeço-lhe ter-me dado azo a refrescar ideias e sentimentos. Aprende-se.
Fernando Vieira de Sá
Lisboa, 6 Fevereiro de 2010

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

MARIA ELVIRA [1917-1999]


No dia 5 de Fevereiro de 1917, faz hoje 93 anos, nasceu em Lisboa Maria Elvira Andrade Mendes de Magalhães. À semelhança do que fizemos no ano passado, deixamos aqui algumas palavras de Fernando Vieira de Sá sobre Maria Elvira, a companheira de tantos anos, colhidas no livro Viagem ao Correr da Pena:
«Já após a sua morte, em 1999, li pela primeira vez o seu diário sintético (5x8cm) de que desconhecia a existência, encontrando-o casualmente nos seus haveres. Era um diário escrito em curtas frases que exprimiam sentimentos do tamanho de poemas sem nunca se pressentir arrependimento ou contrariedade, mas onde se exprimiam relevantemente a saudade do filho, a saudade de todos, a dedicação ao trabalho de ambos e a coragem de enfrentar o perigo com serenidade.
[...]
Esta pequenina agenda nunca a tinha visto. Está escrita com uma letra minúscula que mal se lê sem lupa. Estas frases soltas quase reflectem toda a rotina da nossa vida entre o trabalho e a pressão da guerra [FVS e ME estavam em Londres, em plena Guerra], entre as saudades e a chegada de uma carta que tardava, entre um warning (sereias que anunciavam a aproximação de bombardeamentos inimigos) e um all clear (anunciando céu limpo).»