«O Muro de Berlim ruiu e o seu entulho fez a prosperidade de uma nova indústria de amuletos e bentinhos, a reforçar o filão das relíquias milagreiras, os escapulários das terras do Evangelho em vias de extinção. A poderosa União Soviética desmoronou-se como um baralho de cartas. Abolidas a foice e o martelo, ficou em seu lugar o histrião desfraldando o pavilhão - matriz da águia bicéfala - da fulgente, autocrática e imperial grande Rússia, agora de regresso, metamorfoseada de democrática, ao convívio das nações livres (?), depois de sepultada a medonha tirania. [...] Afirma-se mesmo, com dionisíaca e insciente euforia, que o Socialismo perdera a razão de ser por já não haver lugar à luta de classes, só porque foi decidido não haver classes. E também não haver ideologias. [...]
segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
MURO DE BERLIM
«O Muro de Berlim ruiu e o seu entulho fez a prosperidade de uma nova indústria de amuletos e bentinhos, a reforçar o filão das relíquias milagreiras, os escapulários das terras do Evangelho em vias de extinção. A poderosa União Soviética desmoronou-se como um baralho de cartas. Abolidas a foice e o martelo, ficou em seu lugar o histrião desfraldando o pavilhão - matriz da águia bicéfala - da fulgente, autocrática e imperial grande Rússia, agora de regresso, metamorfoseada de democrática, ao convívio das nações livres (?), depois de sepultada a medonha tirania. [...] Afirma-se mesmo, com dionisíaca e insciente euforia, que o Socialismo perdera a razão de ser por já não haver lugar à luta de classes, só porque foi decidido não haver classes. E também não haver ideologias. [...]
sábado, 31 de Outubro de 2009
TEMPOS PASSADOS QUE PARECEM DE HOJE - ATÉ HÁ POETA!
Entre os papéis do seu arquivo pessoal, Fernando Vieira de Sá encontrou e entregou-nos para publicação no blogue uns versos de José Régio, de 1959, que reflectem preocupações que atravessam os tempos e ainda hoje mantêm a sua actualidade. O título deste post é de FVS e, como é hábito, revela o seu extraordinário e rico sentido de humor. Sátira ao prometido aumento de vencimentos em Janeiro de 1959Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento,
E o Decreto da fome é publicado.
Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.
E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,
Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos, - só! - por seu ofício,
Receber, a bem dele... e da nação.
Em 1959 no dia de uma reunião de antigos alunos, assino este soneto
José Régio
sábado, 17 de Outubro de 2009
CONCEITOS ETERNOS QUE VALE A PENA RECORDAR
«NESTA FARSA HA TODAVIA UMA
MORALIDADE. VEJA-SE COMO O
MUNDO SE ACHA EM CARNE VIVA,
E QUÃO DÉBIL É A ATADURA
ENTRE UM GOVERNO ABSOLUTO
E O SEU POVO! UM FOGUETE
DADO A DESHORAS PODE TALVEZ
DECIDIR A SORTE DE PORTUGAL»
Almeida Garrett, «O Palinuro», Jornal do Exílio, Londres 17 de Outubro de 1830
segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
ENCONTRO EM MANTELÃES COM UM GRANDE VULTO DA REPÚBLICA
quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
ADIVINHA
Aceitam-se respostas para a caixa de comentários deste blogue ou para f.vieiradesa@gmail.com
Fernando Vieira de Sá
23 de Setembro de 2009
AINDA SOBRE O SIGNO ANIVERSARIANTE - A PROPÓSITO DE UMA PRENDA VALIOSA

NA EVOLUÇÃO
DE UM REGIME QUE
TEM COMO ÍCONE
DE EXPORTAÇÃO
UM ASSASSINO:
"CHE" GUEVARA»
quarta-feira, 26 de Agosto de 2009
AGRADECIMENTO
Longe estava de ser alvo da vaga de felicitações vindas do espaço «Internet», saudando-me pelos meus 95 anos de existência, parecendo querer disputar façanha de paciência e teimosia, como se estivesse maldosamente a dificultar a vida à Caixa de Aposentações, procurando baralhar os cálculos e as percentagens aos responsáveis das contas da sustentabilidade de fundos face à rentabilidade que um montão de tropeços parece querer sabotar.
Segundo a afirmação de um probo sacerdote em homilia versada em missa de núpcias, onde os jovens abundavam acompanhando os nubentes e nós assistíamos por deferência com os pais do noivo, o dito sacerdote evocava aos crentes, e não tanto, acusando, erguendo os braços ao céu: «Essa velhada que por aí anda, que não faz nada e para a qual todos nós pagamos...». Palavras ditas de cima de um púlpito cristão. Abençoadas palavras entre os crentes... O silêncio calou. A intenção, ao que parece, teria sido a de querer ser simpático à jovem assistência presente na mira de arranjar freguesia. Já fora do templo cochichava-se o episódio. Valha a verdade, inédita descaidela.
Podia este crime longevidade (que faz o desespero dos «manga-de-alpaca» e o inconformismo do cura desbocado) passar oculto. Pela minha parte nada fiz de motu proprio para suscitar tal desaforo do clérigo, prejudicando os cálculos dos honestos (por enquanto) responsáveis devotados à nossa Segurança Social, bem como das nossas almas sob custódia do Divino Senhor, como se sabe...
Contrariamente, fiquei sensibilizado com tantas palavras de incentivo à vida vindas de amigos e amigas, por vezes de longe e de fora de Portugal ou pensando eu já ausentes em qualquer memória.
terça-feira, 25 de Agosto de 2009
AINDA OS 95 ANOS DE VIEIRA DE SÁ - DEPOIMENTO DE JOSÉ VEIGA SIMÃO
Meu Caro Amigo
O Vieira de Sá faz 95 anos, hoje dia 20 de Julho de 2009. Tenho imensa pena da inclemência de obrigações que nos comandam a vida, não ter permitido, nos últimos quinze anos, manter consigo os diálogos frontais e criativos em que a dureza saudável de opiniões diversas era alimento natural da adesão ao objectivo último: servir e prestigiar o nosso Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial e, através dele, o Estado português. A amizade com Vieira de Sá transcendia e sublimava convicções políticas. O Presidente do LNETI viu sempre nele o investigador culto, actualizado e competente, um obreiro exemplar de uma instituição ao serviço das empresas familiares e das pequenas e médias empresas, tão desprezadas pela maioria dos governos, para quem os negócios da intermediação são prioritários em relação aos negócios da criação. O resultado para o País é conhecido.
Apesar de tudo, a verdade é que muitas empresas inovadoras na área das indústrias agro-alimentares do norte ao sul do País, do continente às regiões autónomas, beneficiaram das iniciativas e actividades que a “equipa de Vieira de Sá” realizou ao longo de muitos anos, desde os tempos do Instituto Nacional de Investigação Industrial. O saber, o saber fazer e o fazer desses técnicos e investigadores foi absorvido por centenas de empresas e permanecerá como fermento da renovação necessária a uma equilibrada industrialização do País, que novas gerações, alguns, seus discípulos, haverão de protagonizar. Os 95 anos não afastam a esperança.
As leis imorais que abrem portas a negócios de património científico e tecnológico, conquistado pelo esforço de muitos e com apoio internacional, associadas a práticas de gestão duvidosa determinaram processos lentos de extinção, incoerentes como aconteceu ao LNETI, em nome de falsos reformismos, não serão suficientes para destruir “escolas de saber”, como a de Vieira de Sá.
Fernando Vieira de Sá permanece como símbolo de dedicação ao trabalho sério e honrado, de alguém que continua a sonhar com um futuro melhor para a “inteligência nacional”.
José Veiga Simão
18.8.09
segunda-feira, 20 de Julho de 2009
FERNANDO VIEIRA DE SÁ - 95 ANOS
Já somos ambos membros do “Clube dos Macróbios”!
Eu faço, em Novembro, 90 anos… Tu, hoje, fazes 95… Começamos a estar um pouco velhos… Mais dia, menos dia, começam a chamar-nos “velhotes”!…
Enquanto tal não acontece, porém, aqui vai um Grande Abraço de Parabéns, pelo dia de hoje, com o desejo que “contes muitos e bons”, como antigamente se dizia…
Pergunto, a mim próprio: Qual a razão que nos liga? Será apenas o facto de termos um bisavô comum?
Na realidade, se os primeiros anos da nossa infância decorreram num ambiente familiar, em breve, os nossos caminhos da vida afastaram-nos e, no decurso de mais de 40 anos, só vagamente, por um ou outro parente, por amigos comuns, tinha notícias suas e acompanhei a sua brilhante carreira… O seu diploma de Médico Veterinário; o seu primeiro abordar dos problemas relacionados com a produção e utilização do leite e dos seus derivados; a sua estadia em Inglaterra – em plena II Guerra Mundial – como bolseiro do Instituto de Alta Cultura; a sua pertença à FAO e as suas aventuras no Brasil, no México, na Tailândia e no Paquistão, em Angola e em Moçambique, etc., divulgando as vantagens do consumo do leite e dos seus derivados, entre populações subdesenvolvidas e exploradas, com fome, ignorância e superstição…
Escrevendo, denunciando e protestando corajosamente contra situações de miséria; criando e organizando unidades, economicamente viáveis, para a produção integral do leite e seus produtos… Que sei eu… Na sua luta contra a miséria talvez chegasse a ir vender, ou dar, leite até “casa do Diabo mais velho”…
Um pouco menos jovem, continua a escrever, agora, as suas memórias…
Em Abril de 2004, vi – via Internet – a notícia da inserção na colecção «Percursos da Memória», edição Moinho de Papel, de um novo livro de Fernando Vieira de Sá, recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos». Ora eu, dada a minha formação matemática, fui e sou admirador de Bento Caraça, de todos os seus trabalhos, particularmente, dos Conceitos Fundamentais da Matemática, salvo erro segundo volume da «Biblioteca Cosmos».
Imensamente interessado com a notícia, resolvi telefonar a Fernando Vieira de Sá e daí surgiu uma nova fase das nossas vidas e das nossas relações… É com prazer que recordamos familiares já desaparecidos; episódios da nossa infância; amigos, preocupações e interesses comuns…
Mas encontrei, sobretudo, para além do investigador sábio e realista, alguém muito delicado e muito sensível, respeitador do pensamento e das ideias dos outros, sem que isso impeça, no entanto, a assunção corajosa e recta das suas próprias ideias e ideais…
Fernando Vieira de Sá é um homem recto… Um homem que tem por hábito “falar claro e m… direito”…
FERNANDO:
Aqui segue um Grande Abraço de Parabéns, pelo dia de hoje, com o desejo que “contes muitos e bons”, como antigamente se dizia…
RUY [Ruy de Paiva e Pona]
Embora o nosso convívio se tenha iniciado só há uns anos, para mim, nas minhas recordações, o Vieira de Sá é já uma vivência muito antiga. Não conheci pessoalmente a Maria Elvira, mas quando visito o Vieira de Sá, a sua presença é permanente!
São inesquecíveis os bons tempos passados com queridos e bons Amigos! Recordamos com saudade o “nosso” General Vasco Gonçalves e o encantador José Branco Rodrigues.
20 de Julho de 2009
Manuel Machado Sá Marques
Imagino não ser nada fácil ter 95 anos!
Dizia algures no seu blogue, que, nas conversas com os amigos, já não se falava de futuro, mas apenas do passado das suas vidas. Mas, a meu ver, é de futuro que se trata, quando disponibiliza ao público as suas vivências, as suas ideias, contributo precioso aos que, no activo, buscam referências nos caminhos percorridos por outros.
Fico sempre emocionada quando penso no Dr. Vieira de Sá, com 95 anos, que continua, como homem empenhado que sempre foi, a sua luta por um mundo melhor, utilizando agora as armas do momento.
Dia 20 de Julho! Nesta data bonita, se eu pudesse, segurava bem a sua mão e, sentindo fresco da manhã no rosto, subiríamos a um ponto alto da Estrela, para assistir ao nascer do sol. Antes de descer, dir-lhe-ia acreditar, que os pequenos passos conseguidos, dos que lutam por causas nobres, só poderão conduzir à Paz!
O meu abraço muito amigo de parabéns e os meus votos de boa saúde.
Caro Vieira de Sá, conhecê-lo e ter a honra de conviver consigo (a maior parte das vezes por telefone) é maravilhoso!
Agradeço-lhe a sua juventude e, mais do que tudo, o partilhar comigo algumas das suas muitas histórias, sempre tão ricas e cheias de sabedoria.
O Vieira de Sá é um exemplo para todos nós com a sua Grande Vida e sobretudo para todos quantos passam a vida a lamentar-se de tudo, mas que nada fazem para mudar.
Prova do grande ser humano que é, continua independente e capaz de tudo fazer com grande autonomia. Os seus chás são os melhores!
É com carinho que recordo o dia em que lhe disse que ainda chegava aos 100 anos, ao que o Vieira de Sá me respondeu: «Não me deseje isso, é o pior que me podem desejar, pois já não tenho com quem partilhar as minhas lembranças». Nós - eu, o Luís e os nossos filhos, que gostam muito de si - não conhecemos as coisas tal como as viu mas estaremos sempre presentes para o ouvir falar delas e das suas vivências com muito carinho e amizade.
Ao recordar, quando o sol nascia, que completas hoje 95 anos, abri a janela, contemplei os campos de Serpa na lonjura da planície alentejana, meditei durante alguns minutos sobre a tua longa e bela caminhada pela estrada da vida e pensei: o Fernando, sempre resmungão e julgando-se um pouco esquecido, tem um talento especial para demolir os contra-revolucionários e toda a escória humana que em Portugal se mascara de esquerda, mas ignora o que os amigos pensam dele.
Eu sou um deles .
Nos últimos anos raramente nos temos encontrado porque vivo longe de Lisboa. Mas estás presente em mim diariamente. Numa síntese do teu perfil direi que reforça a esperança verificar que neste tempo de crise global da civilização existem homens como tu.
Pelo teu eticismo, pela coerência e firmeza do teu combate desde a juventude pela revolução social, pela tenacidade com que colocaste o teu talento de cientista e escritor ao serviço das grandes causas – vejo em ti, Fernando, não apenas um humanista mas o paradigma do revolucionário exemplar. Até no amor foste grande, na relação de contornos quase mágicos que mantiveste com a Maria Elvira, tua companheira.
Uma solidariedade comum com os povos do Terceiro Mundo em luta pela independência autêntica abriu portas a intermináveis conversas sobre países que ambos conhecemos bem e que amamos, sobretudo o México, o Afeganistão e Cuba. Mais de uma vez, recordando as tuas lutas, sobem na minha memória personagens da grande geração de revolucionários russos de 17 porque há em ti traços do carácter dessa gente maravilhosa.
Falo com frequência da vida útil que difere da biológica. Também ai és uma inflorescência. Aos 95 anos continuas a pensar e escrever como um jovem.
Aguardando a festa do teu centenário, aqui vai o abraço de parabéns do teu amigo e camarada
É com muita alegria que lhe dou os meus parabéns e desejo que continue com saúde, com actividades diversas, nomeadamente com a escrita, que tanto agrada e enriquece o leitor. Refiro, nomeadamente, as Cartas na Mesa, que tanto prazer me deu, pela beleza da sua escrita e pelo interesse do seu conteúdo.
Penso neste dia 20, no convívio em Cascais, com os meus Pais, posteriormente no Algarve, em casa dos meus Tios. É sempre com grande prazer que me lembro das conversas vivas em que também participei um pouco e na amizade genuína que testemunhei.Lembro igualmente o apoio do Dr. Vieira de Sá em momentos difíceis, quando o meu Pai foi operado ou na doença do meu Tio José Branco Rodrigues.
Gosto sempre muito de contactar com o Dr.Vieira de Sá, pessoalmente ou via telefónica/ mail, de participar no seu convívio, de dar continuidade, conjuntamente com a minha Mãe (ou com os meus irmãos) à amizade que existia com o meu Pai, toda a alegria da amizade que a solidariedade e identidade de valores consolida.
Fernando Vieira de Sá
MUITOS PARABÉNS!
Ao pensar em si, não podemos nunca deixar de evocar a Sra. D. Maria Elvira, a sua companheira, senhora de extraordinárias inteligência, doçura e sensibilidade cujo sorriso e olhar, brilhantes, nos permanecem na memória impregnada de saudade e ternura, por ela.
O casal Vieira de Sá, destacava-se no grupo dos grandes amigos de nossos pais, Aida e Vasco.
Uma profunda comunhão de ideias e empatia pessoais, uniu os dois casais numa dadivosa amizade e profícua cumplicidade. Os sentimentos que nutriam entre si, construíram, uma muito enriquecedora e exemplar ligação, plena de afectos, lealdade, integridade, que, estamos certos, lhes proporcionou uma profunda alegria nas suas vidas.
A conversa, cujo nível e profundidade de análise os arrebatava, horas sem fim. Os temas interessantíssimos, onde se evidenciava a notável riqueza e experiência de vida do casal Vieira de Sá, as fabulosas histórias narradas com o requintado humor que a sua extraordinária inteligência confere a Fernando Vieira de Sá, enfim, os acalorados e cúmplices debates sobre todo o tipo de assuntos, constituíram o sedimento dessa exemplar amizade.
Dos encontros, muito frequentes, recordo as visitas à “casa de Sesimbra”, de onde os nossos pais, vinham sempre maravilhados pelo convívio, pela beleza da obra de arquitectura e dos jardins, onde as plantas e as flores eram amorosamente escolhidas e cuidadas pela Sra. D. Maria Elvira.
Quando vinham a Cascais eram, também, formidáveis sessões e serões de conversa.
A profunda amizade e companheirismo entre Vasco e Fernando, levou-os a um convívio intenso, a partilharem férias, enfim, a conversarem todos os dias, nem que fosse só por telefone.
A Maria Elvira e o Vasco partiram.
A Aida e o Fernando perduram a amizade.
Alguns “ incómodos” da passagem dos anos, remeteram-nos às suas casas.
O Fernando mantém o convívio com lindos ramos de flores que, gentilmente, faz chegar a casa da Aida, nos dias comemorativos, acompanhados de cartões com comoventes dizeres que a levam a sorrir e a enchem de saudade.
Um grande bem-haja, Sr. Dr., pela amizade com que distinguiu nossos pais.
Continue a escrever, por favor, pois o seu saber acumulado é imenso e nós precisamos tanto de aprender, como precisamos imenso de si.
É uma felicidade e um privilégio conhecê-lo e dedicar-nos a sua amizade.
4 Grandes e Apertados Abraços Muito Amigos
Anos depois viemos a ser “colegas” na FAO, embora em áreas distintas. Apraz-me recordar o prestígio profissional de que o Fernando Vieira de Sá gozava, aliado ao respeito que merecia como funcionário internacional ao serviço dos valores das Nações Unidas e da cooperação entre os povos.
Depois das ricas e humanas memórias que escreveu e que tivemos o prazer de ler, não vou aqui evocar os episódios de que foi actor e que revelam o sistema de valores sociais que sempre marcaram as suas atitudes e relação com os outros.
Tivemos, depois do 25 de Abril, várias oportunidades de colaborar e de nos encontrar entre amigos, em Portugal. Vêm-me à memória os bons momentos que partilhámos num pequeno restaurante do Cais do Sodré, conjuntamente com o Dr. Herculano Vilela, como “cobaias” de um novo queijo que o Fernando tinha produzido e queria “testar”…
Fomos mantendo contacto à volta de efemérides e batalhas políticas e cívicas ao longo de todos estes anos, partilhadas com grandes amigos já desaparecidos como António e Vasco Gonçalves, Monteiro Baptista, José Branco Rodrigues e com outros que continuam coerentemente a defender os ideais e objectivos de Abril.
Nos tempos que correm, neste mundo globalizado – que rima como mercantilizado – saudamos, a Maria Eduarda e eu, nesta data, e com amizade, a solidariedade humana e a frontalidade das posições do Fernando que nos encoraja a todos a não baixar os braços na busca de um mundo melhor.
Mário Ruivo
20 de Julho de 2009
Não podia deixar passar este dia em que completas 95 anos sem deixar o meu testemunho de amizade e admiração por mais um aniversário, numa vida de Homem que sonhou, realizou e teve uma vida exemplar, de cidadão, dirigente, colega de trabalho e amigo.
Desde o tempo em que me foste apresentado como “chefe” do Departamento de Tecnologia e Indústrias Alimentares, onde era estagiária, que desenvolvemos uma amizade que ainda hoje perdura. Foste, sem me ter dado conta na altura, uma pessoa que pelo exemplo moldou a minha forma de estar na vida. O rigor, o sentido crítico, a insatisfação constante, o tentar fazer sempre melhor, a transparência na conduta, o não se conformar com o estabelecido, a liderança sem subserviência e sua importância na realização de projectos, os objectivos com prioridade no colectivo, o entusiasmo.
A postura de Serviço Público que imprimias ao Departamento no apoio técnico dado às Indústrias Alimentares, como se pretende actualmente, era já feito nos finais dos anos 60 com formação a quadros das empresas, apoio analítico e consultadoria, transferência tecnológica e inovação.
Tenho presente a tua sempre pronta colaboração na leitura crítica de textos e da minha tese de Doutoramento.
As horas de conversa quando nos encontramos! Conseguimos estar horas a falar sobre diversos temas deliciando-me e aprendendo com a tua vasta cultura e com a boa disposição e o sentido de humor que te é peculiar, narras factos e episódios por ti vividos, aqui ou no estrangeiro, recentes ou de há muito tempo, afirmando a tua prodigiosa memória.
Por vezes, no quotidiano vamos espaçando os contactos, até porque distamos nas nossas residências de cerca de 500 Km, mas nem por isso a amizade sofre qualquer beliscadela e muitas vezes damos connosco a pensar se o melhor da vida não será o cultivar das verdadeiras amizades!
É um privilégio ter-te como amigo. No dia dos teus 95 anos, quero associar-me ao grupo de amigos que te envia um grande abraço de Parabéns.
Decerto haverá outros muito mais habilitados a escrever sobre o amigo Fernando. O nosso convívio não vem de há muito tempo, nem tem sido muito assíduo. Muito do nosso conhecimento começou por ser indirecto: ao paginar os seus livros, mesmo antes de nos conhecermos, fui-me apercebendo, e tornando admirador, da frontalidade do seu carácter, da sua intransigência na defesa dos seus ideais. Nos escassos — mas ricos — encontros que tivémos, pude confirmar esses traços, mas também experimentar a sua simpatia, o seu sentido de humor, a sua agradável convivialidade. Em suma, rapidamente reconheci na sua pessoa aquilo que posso identificar como mais um rico exemplo de vida e de conduta cívica. É por isso que, sempre, e sobretudo nesta data simbólica, lhe quero deixar um forte abraço de reconhecimento e de felicitações. Os meus sinceros parabéns!
Joaquim António Silva
Parabéns, Fernando, pelo teu aniversário!
Um beijo
Foi o livro Cartas na Mesa (2004) que me revelou a escrita de Fernando Vieira de Sá e fez nascer a vontade de o conhecer pessoalmente. Era a minha vertente de investigadora a segredar-me que o Fernando personificava uma riqueza vivencial extremamente importante para a nossa contemporaneidade. E não me enganava.
O nosso encontro aconteceria no lançamento do livro Ecos do México (11 de Novembro de 2005) na Associação 25 de Abril, numa sala a transbordar de amigos e admiradores, e a visita a sua casa passados alguns dias.
Entrar naquela casa, ali à Lapa, foi um deslumbramento que ainda hoje se mantém. Nela proliferam os livros e as obras de arte a testemunharem as mais diversificadas andanças de uma vida. Tal como pontificam as memórias dos afectos que foi semeando pelos caminhos percorridos e, sobretudo, a «presença viva» da sua companheira da longa caminhada, a sra D. Elvira, há anos desaparecida e que muito gostaria de ter conhecido.
Conhecer-te, Fernando, foi das experiências mais ricas da minha vida. Ter-te como Amigo, um privilégio de que me sinto para sempre devedora.
Por isso te visito sempre com o maior prazer e passo horas em amenas conversas, muitas vezes num regresso ao passado que me seduz. Porque junto a ti nunca damos pelo passar das horas.
És um ser humano de excepção. Admiro a tua coragem, a tua verticalidade, a tua combatividade e o teu carácter impoluto que nortearam uma vida caldeada pelos ideais republicanos, pela luta contra a ditadura e pelas utopias que Abril nos trouxe. E em que continuamos a acreditar.
Parabéns, querido Fernando!
domingo, 12 de Julho de 2009
ANTÓNIO MARTINS MENDES - UM GRANDE VETERINÁRIO
Associo-me a esta homenagem, recordando os nossos encontros nos lançamentos dos livros de Vieira de Sá e um telefonema que me fez felicitando-me por essa inicitiva editorial. Deixo aqui, também, três citações que colhi de dois dos textos a que se refere Fernando Vieira de Sá:
domingo, 5 de Julho de 2009
VASCO GONÇALVES - PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA
Fico sempre seduzida pela maneira afectuosa e simultâneamente pedagógica como evocas os amigos da tua vida.Vasco Gonçalves foi, para além do amigo que evocas, um homem excepcional a quem todos muito devemos. Foi a nossa utopia tornada realidade... ainda que por pouco tempo... porém, o suficiente para ficar na História como o Grande Amigo do Povo Português. Pena não ter seguidores. Júlia Coutinho [19 de Junho de 2009]
Li, com todo o interesse, o in-memoria que escreveste comemorando o 4º aniversário da morte do General Vasco Gonçalves. Nele encontro, uma vez mais, toda a tua delicadeza e sensibilidade em relação àqueles que merecem, ou mereceram, o teu respeito e a tua amizade.
“Quando a esmola é grande, o pobre desconfia...”
É nessa desconfiança, na sua experiência de milénios, que reside toda a sua resistência à mudança e aos reformadores...
A primeira geração não chegou lá...
«Sob o ponto de vista económico, social, intelectual e emotivo, o mundo actual tende a sair fora dos limites do seu Sistema Histórico, mas reage contra esta tendência porque outro Sistema Histórico significa outra civilização. Ora este Presente é já Passado e simultâneamente é já Futuro pois que o período de declínio de um Sistema, o seu período de decadência é, ao mesmo tempo, o prelúdio de um novo Sistema. Por esta razão, a decomposição, a desagregação actual está grávida de futuro e contém nas suas entranhas um mundo novo, uma nova civilização mas num reflexo instintivo de vida e de conservação, reage e tenta conservar o seu próprio Sistema.»
A passagem, de um Sistema para o outro Sistema, exige tempo...
Um abraço do
Ruy [30 de Junho de 2009]
quinta-feira, 11 de Junho de 2009
EM MEMÓRIA DE VASCO GONÇALVES, FALECIDO A 11 E SEPULTADO A 13 DE JUNHO DE 2005
Dias que carregam consigo uma comoção que os anos não dissipam, Pelo contrário, à medida que o tempo passa a vida ensina dia-a-dia à sedimentação memoriável desses tempos ainda quase presentes na vida que nos envolve, leva-nos a sentir em cada um de nós, e a muitos milhares de portugueses, a perda de um dos maiores estadistas de larga visão progressista, de racionalidade histórica e sociológica que não hesitou, ao longo de quatro governos provisórios (II a V) a que presidiu (17 de Julho de 1974 a 8 de Agosto de 1975), levar a sério as nacionalizações da Banca de Valores e outras com etiqueta de urgência, pois é de todos sabido, velho e revelho, que todas as crises de base em valores bolsistas - as searas do capitalismo - geram no sistema afim onde se acantona toda a magia das ciências financeiras e ocultas, criando todas as manigâncias técnicas de acumulação oculta da riqueza, embora algumas possam ser ilegais, o que é convidativo, sendo o acto auto-supervisado, o mesmo é dizer, confiante no estratagema legalista implícito, podendo os seus ideólogos passearem-se pelas ruas, cumprimentados cavalheirescamente, ninguém apodando-os daquilo que são - salteadores de cofres em proveito próprio.Paga o justo pelo pecador
Perante isto, o ícone-adivinho deve ter ficado orgulhoso pelo seu palpite, evitar a ditadura dos maltrapilhos e malcheirosos. Opções. Pergunta-se agora ao Bandarra moderno o que chama a isto que se está presenciando. Ilusionismo? Falperra? Democracia? Ciência? Drama?
Ninguém foi preso
Com este fim, que é do conhecimento de todo o cidadão atónito, a figura de Vasco Gonçalves avoluma-se agigantadamente, Por isso foi incinerado seu nome, sua figura, seu tempo, ao ponto de, aquando da última celebração do 25 de Abril, haver programas televisivos em que o nome de Vasco Gonçalves nunca foi proferido... uma forma de fuzilamento da figura.
Anda cá abaixo ó Marquês... Socorro
O desaparecimento físico de Vasco Gonçalves foi sentido em todo o Portugal por todos aqueles que sonhavam numa Era de irmandade, de solidariedade, progresso. Lembrai o 1º de Maio do ano da Revolução. Quem nesse dia participou nunca mais se esquecerá e nunca mais irá assistir a um momento igual, que desfaz totalmente a ideia reaccionária de pensar que o povo não sabe de que lado está a honra, a verdade, o futuro da Nação. Isso sentiu-se, espelhou-se nos milhares de cidadãos que o acompanharam até à campa, na certeza que ficará na História e na memória de todos aqueles que acreditaram na sua imaculidade política e cívica.
sábado, 23 de Maio de 2009
PARA A HISTÓRIA DA SOCIEDADE PORTUGUESA DE CIÊNCIAS VETERINÁRIAS
Lisboa, 03 de Dezembro de 1997
Acuso a recepção da v. prezada carta-circular de 9 de Setembro que muito agradeço e à qual excepcionalmente vou responder.
sábado, 18 de Abril de 2009
SOCIEDADE PORTUGUESA DE CIÊNCIAS VETERINÁRIAS
«Funérea campa com fragor rangeu»
Agradecemos ao Eng. Ruy Paiva e Pona a preciosa colaboração que prestou ao indicar-nos o texto que o leitor pode encontrara no link acima referido.
sábado, 14 de Março de 2009
BERNARDINO MACHADO
domingo, 8 de Fevereiro de 2009
«OPERAÇÃO DULCINEIA» - O ASSALTO AO «SANTA MARIA». CATORZE DIAS QUE ABALARAM SALAZAR E SURPREENDERAM O MUNDO
quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009
MARIA ELVIRA [1917-1999]
«A minha sorte, porém, vinha sendo construída desde há muito mais tempo e penso muitas vezes: o que teria sido eu, ou o meu percurso, sem essa incomparável companheira que foi de todas as horas, cuja influência tão delicada e sábia não se fazia sentir, mas definitivamente actuava sempre com inteligência, bom-senso, humanismo, bondade e concórdia? Todos os que a conheceram e com ela conviveram nas mais diversas oportunidades a admiravam [...]. Quando, por excepção, [ocorria] algum daqueles vulgares atritos susceptíveis de criar cenários ou relacionamentos menos claros com as pessoas, Maria Elvira superava-os, voando muito mais alto, mostrando o seu distanciamento com a maior discrição, mas também com o seu grande carácter de mulher sensível, sem nunca deixar de manifestar a sua peremptória personalidade. A sua presença era, simultaneamente, a distinção de mãos dadas com a afabilidade. Renegava a idolatria. Não sei o que seria, mas não seria eu, nem nada de melhor. Se hoje me sinto realizado com aquilo que pretendi fazer nesta viagem pela existência a ela e só a ela o devo.»
quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009
JURAMENTO DE HIPÓCRATES
«João Abel Manta; retrato original do Dr. Monteiro Baptista, realizado para a circunstância do seu 75.º aniversário»
«Não sei se alguma vez - ou, pelo menos, na Era Moderna - o Juramento de Hipócrates constituiu (ou constitui) norma de acto público obrigatório para que o candidato ao exercício profissional da medicina a pratique de pleno direito, empenhando a sua honra, probidade, consciência e outros meritórios atributos; ou se, pelo contrário, tais requisitos não passam de uma alegoria para -não obstante o cerimonial normativo não fazer presença física - chamar, mesmo assim, a atenção à implícita obrigatoriedade de cumprir as prerrogativas para as quais o mesmo faz apelo.
Para mim, as duas hipóteses têm o mesmo valor:
uma, é espectáculo; a outra é um estado de espírito.
A primeira, amplamente desacreditada; a segunda, expressa pela evidência - a prática em si mesma, o que significa que nenhuma delas se torna necessária, já que a consciência, a honra, a probidade, etc., etc., não surgem nem se alteram na sua génese por simples jura, pois que, se não houver a dita consciência, a dita honra, a dita probidade à partida - intrinsecamente existentes nos cromossomas - jamais existirão depois. E o espectáculo muito menos o consegue.
Veja-se, por exemplo, as múltiplas vezes a que se assiste nos écrans da TV a juramentos de honra com a mão solenemente espalmada sobre a Bíblia, sobre o Corão, sobre qualquer Constituição de Estado, ou até contra o peito em gesto de entrega dadivosa dos mais nobres sentimentos que trespassam o coração e a mente, e aí, logo aí, já os actores se estão traindo sem pejo, mesmo sabendo que todos sabem do perjúrio. E quem o faz? Não é nenhum anónimo cidadão. Não, são altos dignitários que até se julgam donos do Mundo e juízes em causa alheia.
Apesar de tudo, não se pode jamais ignorar o Juramento de Hipócrates como ponto de referência, não só para médicos, como para todos aqueles a que muita da doutrina nele contida é aplicável na conduta do Homem perante a Sociedade e a sua própria consciência.
Mas, quem foi Hipócrates? Cognominado «O Grande» por Platão, "O Divino" por Apolónio, "O Admirável Criador da Beleza" por Galeno, Hipócrates foi o primeiro construtor e arquitecto da medicina como ciência e como prática, segundo o pensamento racionalista. Mas, também foi um humanista de grande vulto, um observador atento da natureza humana, um "viandante colhendo experiência e sabedoria", um investigador sobre as causas próximas e remotas dos males expressos por sinais discrásicos do corpo, relacionando-os com o ambiente e os elementos exteriores, o que significa dizer ter descoberto a "Ciência do diagnóstico", ou seja, a arte, a intuição, a inteligência e a mais importante e difícil de toda a prática da medicina, pois sem um diagnóstico seguro, a cura é aleatória e, se errado ou tardio for feito, poderá ser fatal e a medicação será sempre sintomatológica.
Este intróito, por descabido que pareça, pois dá a impressão de querer "ensinar o padre-nosso ao vigário" é, no entanto, essencial para poder caracterizar Monteiro Baptista, com mais correcto abrangimento e precisa dimensão, colocando-o na órbita de um seu predecessor, não por juramento, mas por sua própria essência. Este procedimento por ser eu a adoptá-lo pode não merecer o crédito de muitos críticos. Contudo, tenho a convicção que dificilmente ele será contestado por toda a multitude de pacientes que Monteiro Baptista atendeu e tratou, muitos deles livrando de sofrimentos e sombrias - por raras ou complexas - patologias, algumas delas bem mais próximas da morte, do que da vida. Esses, sim, me apoiarão as vezes que forem precisas. Escuso de perguntar-lhes. Sei.
Terá Monteiro Baptista feito, ou apenas lido em voz baixa, o Juramento de Hipócrates? Não sei, nem isso é relevante. O que é importante afirmar sem receio de desmentido, é que no citado juramento, não há uma única ideia, uma única acção, um único conselho, uma única expressão humanística que Monteiro Baptista não tenha praticado, sem nisso ter empenhado toda a sua diligência, abnegação e espontaneidade que só a natureza íntima do seu carácter pode garantir sem recurso a qualquer jura.
Como tal, o histórico e paradigmático juramento que é, em última análise, uma peça de autêntica apelação à integridade moral, cívica, profissional e irrepreensibilidade de obediência aos códigos éticos que regulamentam as suas práticas, representam para Monteiro Baptista, sua categórica natureza de homem e cidadão, plasmada numa modéstia comovedora e reluzente de uma grandeza cristalina.
Em conclusão: Hipócrates "O Grande" ou "O Admirável", como foi chamado, foi o iniciador da prática científica da medicina e o descobridor da arma mais valiosa do seu exercício - o diagnóstico - como método de pesquisa e avaliação das causas remotas da doença; o humanista ao serviço da dor e da vida; e o renovador da mentalidade corrente do seu tempo, rejeitando as crenças e magias como meios de cura, criando e desenvolvendo o método científico e dialéctico, fundando assim as bases da medicina moderna. Pela mesma época Esculápio, chamado "o patrono da medicina" ainda se fazia acompanhar da serpente tida como zeladora da saúde, tal como hoje ainda se acendem velas aos santos pedindo curas ou agradecendo-as aos deuses, tendo passado, entretanto, 2500 anos.
A "decalage" no tempo que separa Hipócrates dos nossos dias, não permite comparações para além de meras consensualidades de princípios, lógicas e racionalismo que no diagnóstico atinge a sua maior marca, fundamentos que, por si só, justificam que se possa concluir:
SE HIPÓCRATES FOI "O GRANDE" MONTEIRO BAPTISTA
É O SEU VIVO E ACABADO EXEMPLO
Não quero terminar este depoimento que escrevi por constrangimento, criado pela ausência, de não manifestar exactamente como sinto este solene momento de consagração de um homem que, além de tudo, é um amigo, benesse que fiquei devendo ao 25 de Abril que nos aproximou e irmanou nos mesmos ideais e que, ao contrário de outras conquistas que a Revolução nos trouxe, esta foi irreversível.
Nesta sequência é imperativo da consciência alargar esta homenagem a outra figura que é parte integrante e conteúdo intangível da pessoa em foco, sobretudo levando em linha de conta de querermos festejar o seu septuagésimo quinto aniversário de nascimento. Refiro-me à Dra. Georgette Banet, sua mulher e também distinta médica.
Para além disso (agora em cenário de maior irmandade), Georgette é, em todos os vectores da sua personalidade, o prolongamento substantivo de Luís Manuel. E, neste contexto, gozar a delícia do convívio que sempre é oferecido no seu lar a todos os amigos que a ele se acolhem ao calor de uma hospitalidade sem rebuço, e uma camaradagem de fraterna comunhão de pensamento é um privilégio, e, desde logo, uma reconfortante paragem no tempo e um rejuvenescedor alento. E Georgette, na sua nata delicadeza feminina com fímbrias da "La Douce France", donde descende, é sem dúvida alguma a referência mais importante a considerar e enaltecer quando se palpita ao redor da vida do
Dr. Luís Manuel Monteiro Baptista
que abraço pelo grande dia 3 de Fevereiro de 2001
e ambos felicito.»
terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009
MONTEIRO BAPTISTA [Lisboa, 3-II-1926; Lisboa, 16-V-2007]
domingo, 1 de Fevereiro de 2009
A «NAU PORTUGAL»
sábado, 31 de Janeiro de 2009
RECORDANDO «LISBOA EM CAMISA», UM COMENTÁRIO OPORTUNO A PROPÓSITO DO DESENRASCANÇO NACIONAL
Foto das pp. 170 e 171 de Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», onde se refere o livro O Leite em Lisboa - História do Seu Abastecimento.
A propósito de um caricato episódio que relato em posfácio do meu livro O Leite em Lisboa - História do Seu Abastecimento [Lisboa, Clássica Editora, 1991], que se ocupa da história do abastecimento de leite à cidade, e onde se faz a resenha de uma longa lista de diplomas oficiais e resoluções da Câmara Municipal de Lisboa, cobrindo um período que vem desde 1830 a 1990, esbarra-se com um quadro metendo altas entidades oficiais e universitárias, talvez gerador de incredulidade se não fosse confirmado tim-tim por tim-tim documentalmente. Não sendo assim, poder-se-ia pensar tratar-se de plágio de Gervásio Lobato, comediógrafo e evocador dos costumes lisboetas, em que se destaca o episódio humorístico relatado no seu livro Lisboa em Camisa (a sua obra, de 1894, mais reeditada), onde a dado passo um lisboeta é forçado a comprar uma cabra, levando-a para as águas-furtadas do prédio onde vivia, na baixa pombalina. E para que o animal não estranhasse cobriu o chão com uma alfombra verde a sugerir um relvado. Já nesse tempo se lutava contra a precariedade na procura de leite, sendo o de cabra o mais consumido.
Passaram entretanto 120 anos e, contudo, em termos de desenrascanço - que é o que está em causa -, embora dentro de outro contexto mais complexo, implicando autoridades oficiais e académicas, inspirado no título de Gervásio Lobato, e embora não se trate de um livro mas tão-somente de um apontamento, lembrei-me de lhe dar o título de Lisboa em Tanga, usando a imagem que reflecte a penúria dos tempos, o que aliás não se trata de uma invenção minha, pois um Primeiro Ministro deste reino, há alguns anos, usou essa indumentária como vestimenta adequada aos habitantes de Portugal, e que eu agora adequo à capital denunciando um quadro verídico descrito em posfácio a que dei o nome de «Cesse tudo quanto a musa antiga canta».
Todo este intróito, que me pareceu necessário, vem justificar a justeza de um comentário feito pelo Padre António Vieira numa carta dirigida a Duarte Ribeiro de Macedo (diplomata e escritor, 1618-1680), datada de 5 de Setembro de 1678, que reza assim: «De resto, os portugueses não são apenas brandos no castigo dos crimes e delitos. São também excessivamente brandos na execução das leis que se elaboram, mas poucas as que se cumprem, ou por falta de persistência, ou por espírito de favoritismo. Os portugueses fazem quase sempre política pessoal. Querem Deus para si e o Diabo para os outros. Às vezes o mesmo indivíduo, que ontem aprovava uma lei, já hoje a repudia e não lhe obedece, porque ela o atinge.»
Já lá vão trezentos anos. Temos todos os recordes de conservadorismo... recorde-se BOTAS.
Todos estes fenómenos são conhecidos. Actualmente tudo se aperfeiçoou teoricamente, legislando-se para haver um Tribunal Constitucional para analisar os conteúdos legais no sentido da sua constitucionalidade.
A verdade é que, com uma frequência crónica, e porque não é obrigatória a análise prévia sobre a constitucionalidade dos textos, às tantas todos discutem a constitucionalidade do preceito. E só por exaustão é que se recorre ao parecer idóneo em sede própria (Tribunal Constitucional). Mas também pode acontecer o assunto ser resolvido a favor do mais forte, mais importante, mais altivo e pretensioso, e ninguém fala em Tribunal Constitucional, porque cada um quer ter razão... e ponto final. E, por vezes, o erro vem logo desde o alvor do processo que, em vez de começar pela consulta em sede própria, decide de cima do seu púlpito que, nesse caso, é como se fosse o tribunal. Tudo ao arrepio da Lei.
Conclusão: 1º - estamos como em 1678 por direito consuetudinário; 2º - a maior aptidão do governante ou dirigente da Cousa Pública é o desenrascanço. Escuso-me a dar exemplos, mas que os há, há.
Em Portugal, tal como a cabra de Lisboa em Camisa, pasta-se numa alcatifa verde já bastante rapada pelo pisoteio do íncola: o Zé Povinho, o das Caldas de Rafael.
Fernando Vieira de Sá
Lisboa, Janeiro de 2009
domingo, 25 de Janeiro de 2009
PODER, AMBIÇÃO E GANÂNCIA
domingo, 18 de Janeiro de 2009
CONTRA UM NOVO HINO À IGNORÂNCIA
Soube por um qualquer órgão de comunicação que uma próxima edição do suplemento «Visão História», da revista Visão, seria dedicado a Cuba, necessariamente à sua revolução que, em 1 de Janeiro de 2009, completou 5o anos de idade, continuando a alimentar paixões, tanto no sentido heróico e patriótico, como no repúdio da ameaça à ordem e à paz social mantida por gente credenciada para manter a região caribeña conformada com a história e dependências que lhe calharam em sorte; e, com isso, garantindo os privilégios do vizinho acautelados. Perante este anúncio, e interessado pelo assunto, já que acompanhei a revolução desde os seus primeiros dias, igual a todos os que gostam de sentir-se cidadãos do mundo, mas também, mais tarde, por questões relacionadas com problemas que tinham que ver com algum auxílio que eu poderia proporcionar ao desenvolvimento da produção leiteira do país, na senda da revolução agrária e no âmbito da minha especialização em leitaria tropical (ver, neste blogue, as etiquetas «Lechería Tropical», «Cuba», «Ramón Castro»), logo acorri ao ponto de venda dos jornais, encomendando o suplemento da revista que saiu em 4-XII-2008, pagando 4,90 €, nada barato.
Chegado o dia D, prantei-me frente ao quiosque e, mesmo ali, por azar meu, abri o suplemento da revista pela folha final e deparei com um artigo de opinião com uma fotografia do autor, José Ribeiro e Castro, no canto superior esquerdo. De chofre, salta-me à vista esta chamada de atenção para o alvo de estimação seleccionado, qual comprimido para engolir ao pequeno almoço:
«CUSTA ACREDITAR
NA EVOLUÇÃO
DE UM REGIME QUE
TEM COMO ÍCONE
DE EXPORTAÇÃO
UM ASSASSINO:
"CHE" GUEVARA»
Agora sou eu e, certamente, muita gente a quem custa a acreditar que uma declaração deste teor possa ser proferida por alguém minimamente instruído que, desde logo, aponta para um analfabetismo visceral de quem se apresta a botar loas em questões complexas, quando ignora canhestramente os significados de «assassino» e «guerrilheiro» (todos sabem ter sido Che Guevara um guerrilheiro), que todos os dicionários definem como sendo antinómicos, com cargas morais e objectivos opostos, que não são susceptíveis de sobreposição. Só uma bacorada saída de um ignorante poderia escrever o que se lê em letras gordas neste quadradinho de prosa que acaba por se converter em diploma de inscícia do indivíduo que o escreveu. Mas, escrevendo-o, ofende o idioma (por chocarreado), ofende a própria revista, retirando-lhe probidade e decoro, cujo revisor talvez tivesse confundido «liberdade de expressão» com «ignorância», suporte de uma libertinagem que fere a verdade exigível por qualquer leitor respeitoso.
Assim, o autor prestou um mau serviço ao seu partido (assunto interno) e à Instrução Primária Nacional, que aqui se manifesta canhestramente. E foi uma má companhia para os restantes colaboradores. Cada um balizará os efeitos, de acordo consigo próprio.
É este o meu desapontamento, tratando-se da Visão onde, neste suplemento dedicado ao cinquentenário da revolução cubana, escrevem pessoas que mereceriam melhor companhia, pelo menos maior decência e alfabetização.
Só a possibilidade deste esclarecimento público, oferecido de bandeja, paga o custo da revista.
Fernando Vieira de Sá
Janeiro de 2009
sábado, 20 de Dezembro de 2008
sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008
VICTORIO SALA TOLO [BONANZA, 14/II/1892 - MONTREAL, 17/I/1983]
Acabámos de receber um texto muito comovente de Magaly Sala-Skup, filha de D. Victorio Sala, um grande amigo que Vieira de Sá conheceu no México e de quem nos fala em Viagem ao Correr da Pena (pp. 396 e ss.). Trata-se de alguém que foi um elemento essencial para a história do livro Lechería Tropical. Sem a sageza de D. Victorio Sala, o livro não teria sido editado (fora, entretanto, considerado «dispensável» pelas entidades portuguesas contactadas para a sua eventual edição no nosso país), não conheceria a extraordinária recepção em meios universitários da América Latina, nem aportaria a Cuba em formato de edição revolucionária.
Un restaurante que por la excelencia de su comida y por la estatura humana e intelectual de Victorio y Antía se volvió un lugar de encuentro de grandes intelectuales que soñaban de un mundo mejor. Entre ellos el pintor mexicano Gironella, la esposa del muralista Siqueiros que venía a buscar regularmente comida para llevarle a su esposo que en esos momentos se encontraba en la cárcel, el escritor Gabriel García Márquez quien leía a sus amigos partes de su Cien años de soledad y el veterinario portugués Fernando Vieira de Sá y su esposa Maria Elvira, con quienes se desarrolló una entrañable amistad.[Magaly Sala-Skup, 19-XII-2008]
sábado, 13 de Dezembro de 2008
A «BATALHA DE INGLATERRA»

sábado, 6 de Dezembro de 2008
CONFISSÃO E CONFIDÊNCIA
Ilustração de A. Calbet
Ilustrando, esta imagem sexy enchendo a capa com a gravura da deusa grega do Amor, Afrodite, fazendo por si só passar a mensagem escaldante de um alto espírito de verdade, que só se cumpre com o amor puro de uma deusa da Antiguidade Grega.
Tudo isto fica aqui em segredo. Não desejo interromper outros silêncios, esses por carência de fair play.
segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008
O REINO DA ESTUPIDEZ - II
O fio condutor desta trajectória é a complexa Indústria Alimentar, cuja génesis mergulha na agricultura e o terminus na distribuição dos produtos e, por extensão, na fome, meta até agora desprezível nos sistemas que a provocam e ignoram, mas dela se nutrem.
É à volta de tão abrangente e sinuoso itinerário que as questões de ordem científica, técnica, económica, política e social são abordadas e discutidas, tendo por mote os alimentos e paradigma as PME, vítimas dos modelos macroeconómicos em vigor, embora a retórica oficial lhes cante hosanas. Destes aspectos se ocupam as primeira [Alienações e desvios no estabelecimento de estruturas de desenvolvimento na produção agro-alimentar] e segunda [Reflexões políticas para a compreensão de certos aspectos económicos e sociais da actualidade] partes do livro, funcionando os Apêndices [I. Indústria leiteira e administração pombalina; II. O mirabolante sonho do Rei Formiga. Uma fábula] como ilustrações, a "água-forte", de cenários avulsos da cultura e estadismo lusitanos.»
O REINO DA ESTUPIDEZ - I
domingo, 30 de Novembro de 2008
O DRAMA DAS PME - POR DETRÁS DO PANO DE FERRO
domingo, 23 de Novembro de 2008
O DRAMA DAS PME - CONCORRÊNCIA, VALOR ABSOLUTO
domingo, 16 de Novembro de 2008
A TODOS OS SERVIDORES DA FUNÇÃO PÚBLICA, FRATERNALMENTE
Dedico este trabalho de selecção documental e de crítica de processos a todos os servidores da Função Pública, independentemente de categorias, vínculo ao Estado ou precariedade de funções. Fraternalmente Fernando Vieira de Sá
ANAIS 1979 Índice I — Introdução XIII — FILAGRO XIV — Visitas ao Departamento XVII — Perspectivas Futuras
Abril 1981: [O Dever de Informar]
Antecedentes: Causas e Objectivos
26/XII/80 — Presidente do LNETI
sábado, 8 de Novembro de 2008
INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (VII)
Fernando Vieira de Sá
Outubro/Novembro de 2008
domingo, 26 de Outubro de 2008
JOSÉ BRANCO RODRIGUES [1912-2008]
A morte de Branco Rodrigues exerceu em mim uma sensação que nunca tinha experimentado e que se enraíza numa profunda ideia de irmandade que vem de um tempo em que, com epicentro na Europa mas com réplicas em todo o mundo, deflagrou a I Guerra Mundial.
Branco Rodrigues nasceu em 1912. Eu nasci em 1914, tempo de gestação e eclosão do grande conflito bélico (1914-1918), donde nasceria uma sociedade que alterou organicamente o statu quo ante da vida e, seguramente, actuou sobre as famílias e todo o evolutivo pensamento de que os recentes nascituros serviram de cobaias das recém-implantadas vivências.
Sem nos darmos conta disso, a verdade é que, com o desaparecimento de Branco Rodrigues, pela primeira vez senti que, afinal, o nosso encontro e conhecimento, dir-se-ia, recente, evoluiu instintivamente assente em uma aproximação oculta e temporal que agora, com a sua morte, senti que alguma coisa do meu estar alterou os estímulos da memória, dando-me a sensação de ter perdido alguém que, para mim, sem me dar conta, era tanto, como um amigo de vivências paralelas. Éramos, por assim dizer, produtos gémeos face ao alvor de uma novelíssima Nova Era nascida connosco, fazendo parte de nós.
Agora, neste particular aspecto e sem referência à época comum que nos assistiu à nascença, fiquei só, como relíquia desse mundo que nos ia formar. Nunca pensei que a sua falta neste mundo me tivesse atingido tanto por tal ausência. E, no entanto, vivemos dezenas e dezenas de anos, dir-se-ia, quase toda a vida sem nada sabermos um do outro, pois só nos vimos pela primeira vez em casa de Mário Neves [1912-1999], nascido também em 1912, um grande amigo comum, quando este caiu numa cadeira inutilizado pela doença que se arrastou fatidicamente, cumprindo a sentença de prisão perpétua que lhe calhou por acasos da existência. E nós, eu e Branco Rodrigues, cumprindo uma dívida que a amizade e o dever facultativo impõem, aí íamos fazer-lhe companhia com grande frequência, alimentando sempre uma conversa animada, esquecendo as circunstâncias que se esqueciam. Pois foi aí que de jure et de facto nos conhecemos, afinal somente quando a idade, já sem idade, nos começava a rondar a porta e nós a bater-lhe com ela na cara.
Mário Neves faleceu e nós continuámos a nossa relação, que já não tinha retorno, encontrando-nos frequentemente, incluso em Sesimbra, onde eu e Maria Elvira [1917-1999] recebíamos amigos em dias de fraternidade, o que ainda hoje faz presença na memória e na saudade, mas já com muitas baixas. O cerco aperta-se...
Mais recentemente os nossos encontros e conversas eram somente telefónicos. As circunstâncias iam-nos restringindo os espaços de manobra, ficando-nos como modesto recurso os telefonemas diários para uma saudação e já isso era um apego a todo o nosso passado de relação de amizade. A falta desse contacto diário atingiu-me, como não me passaria pela cabeça atingir os meus tempos de ocupação mental e refrescamento pela voz e pela banal notícia de «nada de novo», ajudando-nos a existir.
Branco Rodrigues era um homem especial. Vivia mais para os amigos do que para si mesmo. Era pessoa que se dedicava intensamente aos amigos, sempre atento aos aniversários, às homenagens em vida e na morte, intervindo nas celebrações de tudo o que enaltecesse alguém que o merecesse. Lembro aqui, e registo, a grande preocupação de Branco Rodrigues, desde há um ano, com a celebração do centenário do general Vasco Gonçalves [1921-2005] com o seu receio de que caia no esquecimento ou menor relevo por falta da devida antecipação na sua organização. Por isso desunhava-se em contactos, prevendo que ele poderia não estar já vivo para agitar, para dar o seu contributo e pedir o de outros. Esta seria a mais sublime homenagem a Branco Rodrigues, que, levando-a a cabo, seria sem dúvida alguma uma dupla homenagem.
Tudo isto aqui escrito lembra e homenageia Branco Rodrigues, um homem modesto, só pensando nos outros, fossem eles vivos ou mortos. A sua figura esfumava-se com total discrição. Quem lhe quisesse falar em qualquer celebração, por exemplo, teria de ir à última fila, onde o encontraria silencioso e apagado, mas sempre atento a tudo.
É com saudade e respeito que dedico estas palavras à sua memória.
Fernando Vieira de Sá
Lisboa, 26 de Outubro de 2008
sábado, 25 de Outubro de 2008
INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (VI)
No Hospital repete-se a mesma continuação universitária. De alguma coisa especificamente militar, na realidade não me recordo. Toda esta orientação, que nada tinha de militar, mais tarde mostrou a sua inutilidade quando me vi em manobras e não sabia por que ponta lhe havia de pegar, dificuldades a que me referirei à frente.
Os Cães de Guerra - De todas as lições recebidas neste período de instrução já declarei atrás que tudo o que se palestrou foi de tal vulgaridade que pouco ou nada, por mais esforços que faça, ficou retido na memória. Em linguagem dos tempos de hoje chamar-se-ia a este estado de espírito o «buraco do ozono» do planeta, sendo que aqui o planeta é o nosso mundo craniano. No entanto, uma excepção é de toda a justiça relevar. Foi a palestra sobre cães de guerra, não só pelo seu intrínseco interesse (uma informação que não era conhecida) como por uma certa filosofia que da lição se desprende, como na sua avaliação em termos mais abrangentes. Por tais razões achei oportuno relatar.
A lição, como já referi, era sobre cães de guerra. O instrutor desperta logo a atenção. Assim: Corria a I Guerra Mundial, conhecida por «Guerra das Trincheiras», em que os dois países beligerantes - França e Alemanha -, frente a frente e corpo a corpo, se debatiam, saindo das suas trincheiras, pelejando em terreno de ninguém. Durou isto quatro anos de beligerância a que se Juntaram a Bélgica, a França e depois a Inglaterra, Portugal e, do outro lado, os países de Leste. No estudo estratégico da beligerância, os observadores militares e estrategos, começaram a ter dificuldades em descobrir como os exércitos do lado alemão davam toda a sensação de dispor de informações que prejudicavam os ataques-surpresa, o que os levou a uma séria investigação, da qual resultou a descoberta do cão-correio, cão-estafeta, enfim um novo meio de comunicação à distância que, na época, era muito escassa e de modesta qualidade: telefones de campanha, telégrafo, código Morse, pombo-correio aberto ao tiro certeiro, e não sei se mais algum.
Ora bem, descoberto o segredo de comunicação através dos cães, os investigadores dos aliados logo começaram a estudar todo esse campo. Concluíram então que os alemães já estudavam o assunto desde há muitos anos, possuindo na altura cães de raça apurada para os efeitos desejados, quartéis de cães de guerra adestrados no ofício de mensageiro ao domicílio, etc., etc.
Sem perda de tempo, do lado aliado começa o improviso de caçar cães onde os houvesse, desde o vira-latas até ao pastor alemão, caçando homens para treinadores, sabendo tanto como os cães, etc., etc. Mas - enfatiza o nosso instrutor - «a verdade é que com todos estes improvisos os nossos cães lá se desenrascaram e cumpriram tão bem como os do inimigo que vinham de academias caninas». Chegado a este momento e a esta declaração, ouve-se do fundo da sala de aula uma voz pensadora de quem medita mais para lá das palavras. O que se ouve é isto, em atmosfera de silêncio, referindo-se à conclusão do instrutor: «Eram os milicianos meu tenente, eram os milicianos. Cá estamos nós também aqui como rafeiros». Salta uma grande gargalhada. O instrutor embatuca e faz um sorriso sardónico.
E até ao fim da instrução, a respeito de tudo e de nada, ouvia-se: «Eram os milicianos... somos os cães-correio da I Grande Guerra».
[continua]
sábado, 18 de Outubro de 2008
INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (V)
Após este intróito, que se impunha para que todos lembrem que nem tudo é mau, nem tudo é fado, cá estamos, repito, arrostando o veredictum dos Juízes, as sentinelas da herança pátria, egrégios exemplos...
Nada, porém, resiste à ferrugem que tudo mina, mesmo o que se julgaria protegido da perversão dos costumes, a corrupção da sociedade. A verdade é outra, embora não se escreva. Com efeito, ao contrário, tradicionalmente e na generalidade dos casos, todos os varões desejariam reprovar na inspecção médica e, como tal, ser dispensados dos deveres militares. Comigo, porém, passava-se o contrário. Também os desígnios eram outros e mais modestos, menos ambiciosos, mais pessoais. Pode condenar-se, mas aplaudir seria desaforo. Assim, é simplesmente justo. Nunca me julguei com estatura para tão altos desígnios. Em boa verdade desejaria ser aprovado - do que não tinha a menor dúvida, dada a minha compleição física - por duas razões: 1º. - terminado o curso e apto para o serviço militar, poderia concorrer ao quadro de veterinário militar se por acaso houvesse algum concurso de admissão; 2º. - e o mais aliciante, que consistiria em aprender equitação, o que só poderia concretizar sem custos fazendo o curso de oficial miliciano na arma de cavalaria. Nesse tempo, com menos de metade do século XX percorrido (escrito assim é mais ponderável) o Exército tinha os melhores cavaleiros do país. Porém, nesse ano as coisas iriam correr de forma diferente, dir-se-ia, ao invés da rotina, sacrificando a impoluta dignidade profissional em dose dupla (militar e civil). O patriotismo e a ética, quer militar quer médica, cedem às instruções indignas vindas do Alto, em formato de boato, o mesmo é dizer de Salazar, para que os mancebos de Lisboa, e particularmente de Alcântara, na base de uma inaptidão diagnosticada para a prática militar, conferida pela respectiva Junta Médica, e assim precaver qualquer infiltração de vírus subversivos carreados para dentro dos quartéis pelos indivíduos vindos de um meio duvidoso face à segurança da sociedade. A razão era simples. A Espanha era assediada desde há um ano pela Guerra Civil. Franco corria pela implantação do fascismo em Espanha, uma espécie de Cid, O Campeador, que também por aí cavalgou há bem mil anos, derramando sangue e morte selvaticamente como se fossem ambos da mesma cepa, o mesmo ADN, com o fito de expulsar o poder republicano democraticamente alcançado nas urnas, derrotando a ditadura de Primo de Rivera (1931-1935), exilando-se o rei Afonso XIII que se acolhe ao sol do Estoril. Portugal, para os fascistas e reis, era um paraíso. Outros, mais tarde, fizeram o mesmo.
A Mentira, «A Bem da Nação» - É bom recordar que, nesse tempo, a classe operária, concreta e personalizada, afirmava-se quase exclusivamente em Lisboa, nomeadamente em Alcântara, onde se erguia o complexo industrial da CUF, único exemplo significativo de Revolução Industrial inspirada pelos novos ventos que começaram a soprar após o fim da I Grande Guerra (1914-1918) na Europa. Perante este espectro, tudo podia acontecer; isto é, ser reprovado na inspecção médica. A preocupação aumentava à medida que se ia conhecendo a invulgar alta percentagem de mancebos dispensados. Chegado o meu dia, vi-me às tantas numa sala perfilado numa linha de quinze matulões, todos em cuecas, aguardando a sua vez para ser inspeccionado por uma Junta de três ou quatro médicos militares. Pelo aspecto físico, se fosse em tempos normais, todos seguramente seriam apurados. Porém, até à minha vez, teriam sido observados uns dez, cuja maioria ficou dispensada. Eu falava só. Olhava os médicos, simples capatazes do regime, o quadro de uma pátria ajoelhada aos pés do ditador a preço sem preço. Servidão.
Desta feita, e desde logo identificado com os «bons exemplos» e os brios aí praticados «A Bem da Nação» ou, quiçá, da humanidade, deixando para trás feito entulho o que fez a história dos tais heróis cuja memória se enxovalha em favor de outros alvos e outra moral. É preciso chamar a atenção para o pormenor de que esta inspecção tinha lugar no Quartel-General, ao tempo funcionando no Palácio das Necessidades, recebendo a brisa alcantarense transportando o vírus inquietante. Ouvindo, finalmente, o meu nome, avancei até junto da mesa onde esperavam os actores da peça que, um a um, iam manobrando à minha volta, exibindo os clássicos gestos e aparelhagem de diagnóstico usuais nestes actos profissionais e, não demorando o veredictum, dá o resultado/ordem: «Está dispensado, pode seguir». Mostrei-me surpreendido porque me sentia são como um pêro e disse, quase ofendido: «Veja o sr. doutor, eu pensava que tinha saúde para dar e vender e agora oiço esta. Preciso saber o que se passa para consultar um médico imediatamente». O médico fica um pouco surpreendido e confuso e o que lhe veio à cabeça foi dizer: «Não é nada de grave, mas fica livre. É melhor prevenir que remediar». «Não é bem assim sr. doutor, de qualquer modo quero saber o que me afecta, para me tratar e cuidar». Resposta: «Mas não está contente por ficar livre?». «Não é o caso nem se põe essa questão de querer ou não querer». O médico mostra algum embaraço em manter o diálogo e acaba por dizer: «Está bem, se quer ficará apurado. E em que arma gostaria de servir?» «Não sabia que se podia escolher, mas se me dá essa oportunidade, gostaria de ir para cavalaria». Desta feita e desde logo identificado com o brio militar e profissional dos respeitáveis facultativos, que poderão defender a Pátria de perigos medonhos mas, quanto a honra e brio profissional, estamos conversados... É uma vergonha. A nobreza de Salazar era ter a Pátria a seus pés.
[Continua...]
terça-feira, 14 de Outubro de 2008
INCURSÃO PELAS ARMAS
Aqui ficam dois registos fotográficos, um de 30-X-1943, por ocasião das manobras militares na região do Cartaxo, sendo FVS Alferes-Veterinário, outro, datado de 1-VI-1953, sendo FVS já, então, graduado Tenente-Miliciano do Serviço Veterinário Militar.
domingo, 12 de Outubro de 2008
A CRISE - CADA COISA TRAZ EM SI A SUA CONTRADIÇÃO
domingo, 5 de Outubro de 2008
CARTAS, VIAGEM, ECOS, AUTÓPSIA
domingo, 28 de Setembro de 2008
ECOS DA MEMÓRIA (IV)
sexta-feira, 26 de Setembro de 2008
TESTEMUNHO (III) - PRODUTOS TRADICIONAIS, CONGRESSO COM HISTÓRIA, UM EXEMPLO E UMA AMIZADE QUE PERDURAM
quarta-feira, 24 de Setembro de 2008
ECOS DA MEMÓRIA (III)
Doutora Conceição Martins e Ramón Castro Ruz (Habana, 31 de Agosto de 1990). Sabendo da sua ida a Cuba participar activamente num Congresso, pedi-lhe imediatamente para ser portadora de uma mensagem de amizade para Ramón que me acompanhou sempre nas minhas digressões em toda a ilha, ao que ela logo se prontificou gostosamente. Daí a mensagem de Ramón que aqui se reproduz:
«Al querido profesor Vieira de Sá, À Conceição, ao oferecer-lhe o meu último livro, Autópsia a Um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do DTIA, dediquei-o, escrevendo: «Por todas as razões terias direito a receber uma cópia desta peça shakespeareana, pois de drama se trata (uma autópsia é sempre drama). Mas acresce o facto de nesse elenco teres participado por algum tempo no papel de estagiária com um desempenho de muito bom quilate.
E até me recordo daquele aparte dela, em tom ofendido, advertindo-me que não me autorizava a tratá-la por tu, por não haver razões para tal. Respondi-lhe que continuaria a tratá-la por tu, mas, em contrapartida, pedia-lhe que me tratasse de igual para igual, pois eu exercito mais a fraternidade do que outras práticas amorfas e de catálogo que a sociedade usa sem nada dentro. E assim ficou a lição muito fácil. E a nossa fraternidade manteve-se e já conta muitos anos. Se assim não fosse teria o nosso relacionamento sido igual? Duraria para toda a vida? Fica a dúvida.» FVS
sábado, 20 de Setembro de 2008
ECOS DA MEMÓRIA (II)
Graça Mexia, Manuel João da Palma Carlos, Annie, F. Vieira de Sá e Armanda Fonseca na embaixada de Portugal em Habana (arquivo FVS). No dia seguinte à minha chegada a Habana, fui cumprimentar o Comandante Fidel Castro e agradecer-lhe o convite para visitar Cuba. Conversámos um bocado, dizendo-me ele que me agradecia toda a crítica que eu entendesse fazer. E que iria saber de mim diariamente através da sua secretária Annie, uma portuguesa em quem ele depositava toda a confiança. E assim todas as manhãs Annie me telefonava, conversando um pouco. Por vezes encontrava-a na embaixada de Portugal. Um desses dias alguém tirou esta foto. Da esquerda para a direita: Graça Mexia (médica), Palma Carlos (embaixador), meu contemporâneo do Liceu Passos Manuel [por isso eu ia à embaixada com alguma frequência para conversar de tempos idos e beber uma cerveja], Annie, eu e Armanda Fonseca (Presidente da Direcção da Associação de Amizade Portugal-Cuba). FVS
ECOS DA MEMÓRIA (I)
domingo, 14 de Setembro de 2008
DISTRIBUIÇÃO REVOLUCIONÁRIA, EM CUBA, DE LECHERÍA TROPICAL
EDIÇÃO REVOLUCIONÁRIA, EM CUBA, DO LIVRO LECHERÍA TROPICAL

LECHERÍA TROPICAL - EDIÇÃO REVOLUCIONÁRIA, «FUZILAMENTO» E RESSUREIÇÃO DE F. VIEIRA DE SÁ
LECHERIA TROPICAL - «COSTURANDO» A EDIÇÃO
Jiquilpan - Michoacan, México, 1960/61. Maria Elvira e Fernando Vieira de Sá . Fotos coladas no exemplar do autor com a seguinte nota manuscrita:
«escrevendo o livro Lechería Tropical cujo original em português foi rasgado (por revolta) por as editoras portuguesas não o terem querido publicar... por falta de interesse do assunto, segundo justificavam. Isto num país tropicalista.»
Mas para conhecer toda a história à volta deste livro sugere-se a leitura do capítulo «Acasos - A História de Um Livro», in Fernando Vieira de Sá, Viagem ao Correr da Pena, pp. 389-403, que começa precisamente com outra nota do Autor que reza assim: «ACASOS - A HISTÓRIA DE UM LIVRO / Cujo manuscrito em língua pátria foi, pelo autor, rasgado, por o ter considerado dispensável, tal como o afirmou o director da Escola Superior de Medicina Veterinária quando o representante da editora em Portugal o foi apresentar para aquisição pela Biblioteca do estabelecimento. O Ministério do Ultramar procedeu de igual forma.»
LECHERÍA TROPICAL - A EDIÇÃO DA UTHEA, CIDADE DO MÉXICO
LECHERÍA TROPICAL - MAIS DOIS RECORTES
Anales de lactología y química agrícola, Zaragoza, 12, 1966, p.16.
AO SERVIÇO DE UMA IDEIA UNIVERSAL DE FRATERNIDADE
sábado, 13 de Setembro de 2008
LECHERÍA TROPICAL - RECOLHA DE VALIOSAS EXPERIÊNCIAS
UMA VIDA EXEMPLARMENTE VIVIDA
quarta-feira, 3 de Setembro de 2008
O TEMPO DAS CEREJAS
«É com grande respeito e admiração que chamo a atenção para o blogue em boa hora criado sobre a vida e as obras do dr. Fernando Vieira de Sá, chegado este ano aos 94 anos e tendo atrás de si todo um percurso científico, cívico e político digno da maior consideração. Clicando sobre a imagem de cima, pode aceder ao blogue e encomendar as obras de F. Vieira de Sá, um camarada que daqui saúdo com imensa estima.»
E não se esqueça: sempre que possa, visite «o tempo das cerejas»!
quinta-feira, 21 de Agosto de 2008
PARABÉNS, FERNANDO!
PARABÉNS, FERNANDO!
que continues a ser a pessoa que és, com o empenhamento cívico de sempre e igual nobreza de espírito, o camarada e o amigo disponível e atento. Por muitos e bons anos! Conheçam-no aqui!
(Lisboa, 20 de Julho de 1914)»
sábado, 26 de Julho de 2008
A DISTÂNCIA DO TEMPO
domingo, 6 de Julho de 2008
«BIBLIOTECA COSMOS»
Reler «Os Livros do Compromisso», in Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», cit., pp. 121 ss. Estes dois livros vieram a lume nos meses de Maio e Junho de 1945.
Em 2005, da edição de Ecos do México - Da História e da Memória, fizeram-se sessenta exemplares numerados de I a LX e sessenta numerados de 1 a 60, assinados pelo autor, comemorativos dos 60 anos da edição destes dois livros da «Biblioteca Cosmos», dirigida por Bento de Jesus Caraça, havendo ainda exemplares disponíveis para quem os desejar adquirir.
JOSÉ MARIA ROSELL
sábado, 5 de Julho de 2008
TESTEMUNHO (II) - «APENAS UM TESTEMUNHO»
Foi há 28 anos! Ao folhear estes livros, que agora me chegaram, vem-me à memória os meus primeiros anos de trabalho no Parque Natural da Serra da Estrela.
Estava em causa o pastoreio e o queijo artesanal. Uma actividade de grande tradição e, claro, se houvesse vontade, de grande futuro.
Uma equipa de técnicos com formação social, foi chamada a elaborar um programa, faseado no tempo, com o objectivo de dar um novo fôlego a esta actividade. E um conjunto de iniciativas foram sendo concretizadas, nomeadamente, o estudo de caracterização do pastoreio e a organização de concursos para apuramento da qualidade.
Faltava a componente técnica. E surge o nome do Dr. Vieira de Sá. Um dos elementos da equipa conhecia o seu trabalho de investigação acerca do queijo artesanal de ovelha, por terras da Estrela.
Não me era estranho o nome. Soube agora que trabalhou durante algum tempo na região de Aveiro, onde nasci. Sendo duma família de agricultores então produtora de leite, provavelmente um nome referido lá em casa e captado ainda em criança.
Organizado o regulamento do concurso, fomos ao LNETI, pedir a sua opinião e também apoio de um técnico que integrasse o júri. Éramos uma equipa de três elementos. Uma ligeira espera e mandaram-nos entrar. Apresentações feitas, dissemos ao que vínhamos. Depois de alguns ajustes ao texto do regulamento, surge a frase “ Sim eu mesmo irei”. Não veio só. Da sua equipa veio também a Dra Manuela Barbosa.
“Sim eu mesmo irei”. Tudo tão simples! Situação rara neste nosso país.
Quando saímos do LNETI, estávamos entusiasmadíssimos, pela resposta afirmativa. Éramos agora uma equipa mais completa e, sobretudo, muito motivada.
E durante cinco anos, no período de Carnaval, trabalhou connosco. E sempre o acompanhou Maria Elvira, sua mulher e, quando possível, os seus netos.
Foram anos de trabalho em prol da qualidade do Queijo Serra da Estrela, uma experiência marcante, pelos resultados conseguidos, pelo muito que aprendi e, sobretudo, pela Amizade, que o tempo não conseguiu apagar, quando a vida naturalmente nos traçou outros destinos. Para mim um privilégio.
Lembro com emoção e muita saudade a sua mulher, Maria Elvira. A serenidade, a lucidez, o sorriso, a sua palavra amiga. A minha sentida homenagem.
E agora, olho estes títulos e acho que sou uma pessoa com sorte. Eu tenho nas minhas mãos as obras, com o registo de vida, que o Dr. Vieira de Sá nos quis deixar!
Reconhecida, envio daqui o meu abraço amigo.
Angelina de Sousa Barbosa
3/07/08
quinta-feira, 3 de Julho de 2008
RECORDANDO BENTO DE JESUS CARAÇA E A «BIBLIOTECA COSMOS»
«Nota Prévia», Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», Lisboa, Moinho de Papel, 2004, pp. 13-14.
domingo, 29 de Junho de 2008
PARA QUE HAJA LEITE EM ABUNDÂNCIA
A GRANDE TAREFA
segunda-feira, 12 de Maio de 2008
TESTEMUNHO (I) - OS TRÊS «ECOS DO MÉXICO»
Vejo com satisfação que te converteste, ou te converteram, aos segredos da Internet! São inúmeras as suas vantagens das quais não é a menor o permitir que deixe o testemunho de quanto aprecio a força com que demonstras as tuas ideias quer quando recordas o passado quer quando, nas nossas conversas, criticas o presente e arquitectas o futuro…
Não sei se já reparaste que só existe o «passado»…
Quanto ao «futuro», não é mais que um tempo potencial medido por uma sucessão de imagens virtuais por nós concebidas; o «presente» é uma mera fronteira de transição entre o tempo real, passado, e o tempo virtual, futuro. Quando pensamos no presente… é já passado…
Como escreve o autor de «As Palavras Caladas», na nossa vida há dois mundos: um «mundo exterior», por um lado, mundo real definido pela passagem das coisas e das pessoas, das crianças que nascem e dos velhos que morrem, o mundo que divide as pessoas conforme a sua riqueza, o seu poder, a sua saúde ou a sua beleza; por outro lado há um «mundo interior», mundo da luz que esbate os muros, as divisões e os contrastes, que produzem a ilusão do tempo! Será este o tempo interior de Bergson?
E, vem isto a propósito da leitura dos teus livros, particularmente dos «Ecos do México», que estive agora a reler. Nele encontro três livros: o primeiro relata a História do México desde a origem pré-colombiana até à actualidade, da sua cultura e da sua arte; no segundo revives uma vida de cinco anos mexicanos, marcantes para a Maria Elvira e para ti, na recordação a dois da paisagem e das gentes, do trabalho feito e da aventura…; finalmente, no epílogo, no «Regresso ao Torrão», num livro de duas páginas, condensas o teu mundo interior e onde ressalta a importância da participação da Maria Elvira, «uma mulher inteligente, dinâmica, estudiosa e culta, com grande bom-senso, corajosa, determinada e com um grande sentido da vida, da conciliação e da bondade, tudo na aparência de uma modéstia comovente» como tu dizes.
Também a mim me comoveu!
Como tu, quase com as mesmas palavras, recordo a Maria Helena que «com a sua maneira de ser modesta e quase apagada esteve sempre presente; companheira sempre disponível e constante, sempre pronta, com a sua inteligência e o seu bom-senso, a dar o conselho e a ajuda certos nos instantes e nas circunstâncias difíceis da nossa vida. Sempre pronta a receber os meus amigos e dos meus filhos, sempre pronta a governar e a manter a casa impecável… e tudo sem dar nas vistas, sem se sentir! A sua sensibilidade às circunstâncias e às pessoas fazia que aqueles com quem contactava ficassem suas amigas…»
No teu poema «Metamorfose» dizes, numa visão premonitória, palavras que creio se aplicam às nossas duas Mulheres:
O tempo venceu-te,
Um abraço grande do
RUY
sábado, 3 de Maio de 2008
CATÁLOGO - ENCOMENDAS
quinta-feira, 1 de Maio de 2008
APRESENTAÇÃO DE EUGÉNIO ROSA
O REENCONTRO DO AUTOR E DA SUA OBRA... AGORA EM FORMA DE LIVRO
quarta-feira, 30 de Abril de 2008
terça-feira, 29 de Abril de 2008
1º DE MAIO DE 2008
Dedico este trabalho de selecção documental e de
crítica de processos a todos os servidores da Função
Pública, independentemente de categorias, vínculo ao
Estado ou precariedade de funções.
Fraternalmente
A apresentação será da responsabilidade do economista Eugénio Rosa.
Esteja atento(a)! Apareça! Divulgue!
OBRIGADO.
domingo, 4 de Novembro de 2007
A-dos-Negros, 20-VII-2005 - 91º Aniversário
Miguel Urbano Rodrigues
Miguel Urbano Rodrigues
Serpa, Abril de 2005»
Miguel Urbano Rodrigues, Prefácio do livro Ecos do México - Da História e da Memória, Colecção «Percursos da Memória - 3», pp. 9-11.
Urbano Tavares Rodrigues
Fernando Vieira de Sá, cientista, homem de cultura, médico veterinário especialista em produção e abastecimento de leite a centros urbanos, consultor da FAO durante muitos anos, em que percorreu o mundo e se relacionou com pessoas e terras, com o seu saber e a sua afabilidade, é também uma personalidade ética, respeitada por amigos e adversários.
A sua já longa vida ao serviço de causas democráticas e da revolução social, pô-lo à prova inúmeras vezes, dando-lhe ocasião de revelar lucidez, coragem e total dedicação aos seus ideais.
Tudo isso podemos observar ou deduzir deste seu atraente livro de memórias e também de afectos, que no-lo mostra em situações bem diversas, sempre sereno, espirituoso e aberto à compreensão do mundo. A sua concepção marxista da história e do futuro está bem presente no modo como vê e interpreta os factos, desde aqueles em que visivelmente o futuro se constrói até ao anedótico e ao burlesco.
É um racionalista com humor, claro e elegante na escrita, apaixonado pelas antigas civilizações, como se nota nas suas memórias e reflexões sobre povos e culturas, sempre convicto da necessidade do progresso e da importância da vontade na construção da cidade colectiva.
Um certo sentido do romanesco e da aventura, temperado pela ironia, dá algum sal e colorido a peripécias como as que o autor compendiou na parte do livro intitulada "A Viagem dos Incómodos e das Surpresas". Recordações avulsas, cenas pícaras, conclusões com certa filosofia empírica abundam nos relatos que se estendem do convite para visitar Nápoles à prova dos nove que se faz em Quito.
As páginas sobre a Tailândia são saborosas, cheias de inesperado e pitoresco e dessa humanidade profunda que Fernando Vieira de Sá projecta na transcrição de todas as suas experiências. Há também textos de particular comicidade como "Um corte de cabelo que acaba à bofetada". E não faltam informações preciosas sobre a realidade que nos são dadas constantemente em apontamentos sobre, por exemplo, as matérias-primas, as marcas do subdesenvolvimento e o avanço da industrialização. Temos assim neste livro múltiplas perspectivas, que vão do esquisso jornalístico à impressão pessoal.
E o volume espraia-se por terras e mares, do Indo-Cuch afegão ao Equador, onde Vieira de Sá, explorando o outrora império dos Incas, nos fala do clima, das gentes e costumes, da sua subida ao alto da Cordilheira, das vivências do andarilho.
No Brasil, em "Missão humanitária à americana", pinta o Rio de Janeiro, alude a uma evocação de Vieira da Silva, brinca com o inesperado, graceja com os frutos do acaso, surpreende-nos em "Levanta-se o véu" e "A imoralidade da história".
Depois vêm o Paraguai, Moçambique, a Líbia, onde há uma praga de gafanhotos e pedras que tombam do céu; e vemos Bombaim, na Índia, e o Bengladesh, que o narrador, com ironia dramática, chama "O paraíso da fome" e por fim o "Sonho de uma noite de Verão em Times Square".
É um livro muito variado, que instrui e diverte e nos aproxima mais ainda deste homem de esquerda generoso e íntegro que, após uma vida tão rica em andanças e batalhas, que as teve de sobra, ainda sabe rir e comover-se como um jovem e dar-nos, numa prosa desenvolta, muito dos tesouros que amealhou no seu deambular pela vida e pelo mundo.
Urbano Tavares Rodrigues»
Urbano Tavares Rodrigues, Prefácio do livro Viagem ao Correr da Pena - Colecção «Percursos da Memória - 2», pp.11-12
Manuel Machado Sá Marques
Não podia perder esta oportunidade de exprimir a minha opinião sobre o seu novo livro Cartas na Mesa!
Já o tinha felicitado quando me deu a ler o manuscrito, e lembra-se como tanto insisti para que ele fosse editado?
Estas poucas páginas são assim mais uma carta para a mesa!
Como refere, estas suas «Memórias» foram despertadas pela leitura da correspondência trocada com o Professor Bento de jesus Caraça e a recordação da relação então estabelecida. Correspondem à altura da minha juventude, quando comprava os «livrinhos» da Cosmos, que tão importantes forma na minha formação. Também foi no tempo em que li pela primeira vez os seus livros sobre leite. Mas quando, no final da década de cinquenta, centrei a minha vida profissional no apoio ao doente diabético e à luta contra as chamadas «doenças da nutrição», foi imperioso o estudo de toda a sua obra, considerada pelo meu Mestre exemplar e indispensável. Mas não o conhecia «de corpo e alma». Só após o 25 de Abril, no convívio com amigos comuns, reunidos por laços afectivos e por pensamento político-social afim, passei a contar com a sua amizade, a saber quem era o Vieira de Sá e a apontar a sua vida coerente e exemplar. Juntei a sua pessoa à de meu Pai (o Professor Alberto Sá Marques), á de meu Avô (o Presidente Bernardino Machado) e à de meu Mestre (o Doutor Ernesto Roma). Os seus ensinamentos tinham toda a carga da verdadeira pedagogia - a força do exemplo.
"É indispensável ligar o passado ao futuro. As novas conquistas do pensamento não se opõem às antigas, acrescentam-nas". Este seu livro tem uma actualidade dialéctica e espero que seja lido como um compêndio de civismo, pois o seu conteúdo é revolucionário e humanista. Aprendemos como e porque surgem as dificuldades a quem deseja uma racionalização da produção e distribuição em toda a actividade do homem. Lê-se com optimismo porque aposta nas nossas verdadeiras qualidades, nas virtudes do povo português. As cartas na mesa são do jogo de sempre. O que acontece é os baralhos terem diferentes desenhos dos reis, dos valetes, das damas, das espadas, e tantas vezes cartas viciadas... O jogo continua a ser o mesmo, a luta do homem pela sua libertação, contra a opressão e exploração pelo seu semelhante. Com cerca de noventa anos ainda é um jovem que fala em "tornar possível o impossível". E consegue-o!
Lembra nas suas memórias a figura de Bernardino Machado, e sabe a veneração que tenho por meu Avô! É um "grande vulto da República" que ainda hoje afronta muita gente reaccionária ou ignorante! Conheceu-o pessoalmente em Mantelães, logo após o seu regresso do exílio, tinha então oitenta e nove anos. Também tive a sorte de poder conviver com meu Avô em Mantelães e depois na Senhora da Hora, durante as férias grandes dos anos de 1940 a 1943.
Sabe que não fiquei a conhecer o Minho de forma a poder descrevê-lo como o Vieira de Sá consegue fazer em tão poucas palavras, nem fui calcorrear alguns dos lugares históricos do Porto, que meu Avô aconselhava a visitar? Ficava antes preso a ouvi-lo, não querendo perder as suas constantes e pedagógicas lições, com discussões acesas e vivas, como ele tanto gostava. Era bem como o descreve, uma pessoa atraente e inesquecível. sabe, Vieira de Sá, também quando vou a sua casa por uns minutos, acabo por ficar horas!
Na introdução ao livro Os Derivados do Leite na Alimentação e na Indústria, José Maria Rosell escreveu que o Vieira de Sá "conseguiu realizar uma obra que constitui uma utilíssima contribuição para o reconhecimento público do valor da produção e consumo dos lacticínios, na saúde e na economia dos povos". Mas a sua vida, o seu pensamento e a sua acção, ultrapassam o campo da actividade profissional, como se prova com a leitura deste livro. Esta verdade ficará ainda mais marcada quando possuirmos os outros dois volumes de memórias que felizmente virão a lume dentro em breve.
Meu caro e bom Vieira de Sá, aceite um apertado e cordial abraço deste seu
Manuel Machado Sá Marques
Lisboa, 10 de Dezembro de 2003»
Manuel Machado Sá Marques, Prefácio do livro Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», Colecção «Percursos da Memória - 1», pp. 9-11.
Percursos da Memória - 3
Miguel Urbano Rodrigues, in contracapa de Ecos do México - Da História e da Memória
Percursos da Memória - 2
Urbano Tavares Rodrigues, in contracapa de Viagem ao Correr da Pena
Percursos da Memória - 1
Luís Guerra, in contracapa do livro Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos».





