sábado, 31 de Outubro de 2009

TEMPOS PASSADOS QUE PARECEM DE HOJE - ATÉ HÁ POETA!

Entre os papéis do seu arquivo pessoal, Fernando Vieira de Sá encontrou e entregou-nos para publicação no blogue uns versos de José Régio, de 1959, que reflectem preocupações que atravessam os tempos e ainda hoje mantêm a sua actualidade. O título deste post é de FVS e, como é hábito, revela o seu extraordinário e rico sentido de humor.
Sátira ao prometido aumento de vencimentos em Janeiro de 1959

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento,
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos, - só! - por seu ofício,
Receber, a bem dele... e da nação.

Em 1959 no dia de uma reunião de antigos alunos, assino este soneto

José Régio

sábado, 17 de Outubro de 2009

CONCEITOS ETERNOS QUE VALE A PENA RECORDAR

Aqui deixamos hoje, também 17 de Outubro, este recorte que Vieira de Sá nos entregou para publicação no seu blogue, acompanhado de uma pequena e elucidativa nota: «Este cai como "sopa no mel".» Reproduzimo-lo tal como nos chegou:

«NESTA FARSA HA TODAVIA UMA
MORALIDADE. VEJA-SE COMO O
MUNDO SE ACHA EM CARNE VIVA,
E QUÃO DÉBIL É A ATADURA
ENTRE UM GOVERNO ABSOLUTO
E O SEU POVO! UM FOGUETE
DADO A DESHORAS PODE TALVEZ
DECIDIR A SORTE DE PORTUGAL»
Almeida Garrett, «O Palinuro», Jornal do Exílio, Londres 17 de Outubro de 1830

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

ENCONTRO EM MANTELÃES COM UM GRANDE VULTO DA REPÚBLICA

«O estudo sobre "O Queijo Nacional de Tipo Holandês", em colaboração com Eugénio Tropa, mais tarde professor catedrático, levou-me um dia a Paredes de Coura onde, segundo vagas informações, foram feitas as primeiras tentativas para fabricar (ou imitar) o queijo holandês, que se importava em grandes quantidades da Holanda, chamando-lhe "queijo flamengo".
[...]
Por volta das duas da tarde estávamos batendo à porta do palacete de Mantelães onde Bernardino Machado vivia. Eu não queria acreditar que dentro de momentos iria ser apresentado a uma figura mítica que para mim se agigantava de tal modo que me parecia impossível enfrentá-la sem uma emoção incontida, descambando em frivolidade de gestos e palavras, caindo numa bajulação que só traria e levaria a uma situação que eu queria que transparecesse respeitosa e admirativa mas não aduladora.
[...]
E a propósito dos estudos que me ocupavam, a pouco e pouco embrenha-se na floresta da história de que ele próprio era obreiro de primeira fila. Não sei como o tempo se sumiu em toda aquela tarde onde me deu a sensação de estar lendo uma História de Portugal Contemporâneo, em que os protagonistas me aparecem em carne viva e os factos me dão a expressão de qualquer coisa humana em tempo real, pela alma que emanava da progenitura intelectual do estadista ali vitalizando o momento. Podia aqui reproduzir quase ipsis verbis essa interminável conversa em que Bernardino Machado, quase sempre de pé e passeando ao longo do salão onde estávamos, gesticulando e dirigindo-me a palavra fazendo-me entrar no assunto como sendo eu hodierno dos factos, querendo com isso provocar a crítica que ele não dispensava. [...] Uma conversa criativa e transmigrante no tempo. Por isso inesquecível.»

Ler mais em Fernando Vieira de Sá, Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», pp. 135-138.
As gravuras acima, do palacete e da antiga Fábrica de Lacticínios (1879) de Mantelães - Paredes de Coura, pertencem ao blogue «Bernardino Machado», criado e animado pelo nosso querido Amigo Dr. Manuel Sá-Marques, neto do «vulto da República» que aqui homenageamos na passagem dos 99 anos do 5 de Outubro de 1910.

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

ADIVINHA

Quem é, quem é...
É português, do sexo masculino, doutor honoris causa em Literatura pela Universidade de Goa e afirma:
«Nunca me engano e raramente tenho dúvidas».

Aceitam-se respostas para a caixa de comentários deste blogue ou para f.vieiradesa@gmail.com


Fernando Vieira de Sá
23 de Setembro de 2009

AINDA SOBRE O SIGNO ANIVERSARIANTE - A PROPÓSITO DE UMA PRENDA VALIOSA

Neste encontro de família e amigos, minha neta Inês presenteou-me com um livro que, segundo ela, certamente me iria agradar sua leitura. Como sempre acertou. Trata-se de uma obra intitulada Evocação - A minha vida com Che, de Aleida March (Editorial Presença, 2009), sendo a autora casada com o dito Che, mãe de cinco filhos e companheira de seu marido em todos os momentos da revolução e tempos de vitória.

Trata-se de um texto impregnado de humanismo, dando alto exemplo das virtudes femininas, desde as maternais, bem marcadas, à companheira de seu marido em todos os envolvimentos da revolução e tempos de vitória, dando alto exemplo de amor, valentia e sentido de missão, exaltando o espírito que enobrece o feminismo com que a Natureza brinda as mulheres, tornando-as diáfana presença, usando-a. Não é só a Madre Teresa de Calcutá que, aliás, não consta ter tido filhos, no que todos acreditam. Aleida, contudo, foi heróica, tanto como mãe estremosa de seus filhos, como perante os riscos dos confrontos em nome da libertação de Cuba, antes «casa de passe» para serviço do «gringo» animalesco, mas endinheirado. Dificilmente se poderia conceber a possibilidade de Aleida acompanhar tão estreitamente o seu companheiro se este se comportasse como assassino, o que eu próprio discuto, denunciando neste blogue, em 18-I-2009, sob o título «Contra um Novo Hino à Ignorância»: chamando a atenção para esta grotesca difamação, que só se admite quando vinda de um almocreve vendendo peçonha. Mais grave foi a guarida dada pelo suplemento da Visão (3/4 de XII-2008) que oferece o seu espaço a um artigo de cujo conteúdo ressalta em destaque esta bacorada odienta apontada a Che e não só:

«CUSTA ACREDITAR
NA EVOLUÇÃO
DE UM REGIME QUE
TEM COMO ÍCONE
DE EXPORTAÇÃO
UM ASSASSINO:
"CHE" GUEVARA»
Convida-se e solicita-se esta leitura, pois só lendo na fonte se acredita ao que chega a boçalidade.

Fernando Vieira de Sá
Fotografias gentilmente cedidas pela Editorial Presença, a quem agradecemos.

quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

AGRADECIMENTO

Longe estava de ser alvo da vaga de felicitações vindas do espaço «Internet», saudando-me pelos meus 95 anos de existência, parecendo querer disputar façanha de paciência e teimosia, como se estivesse maldosamente a dificultar a vida à Caixa de Aposentações, procurando baralhar os cálculos e as percentagens aos responsáveis das contas da sustentabilidade de fundos face à rentabilidade que um montão de tropeços parece querer sabotar.

Segundo a afirmação de um probo sacerdote em homilia versada em missa de núpcias, onde os jovens abundavam acompanhando os nubentes e nós assistíamos por deferência com os pais do noivo, o dito sacerdote evocava aos crentes, e não tanto, acusando, erguendo os braços ao céu: «Essa velhada que por aí anda, que não faz nada e para a qual todos nós pagamos...». Palavras ditas de cima de um púlpito cristão. Abençoadas palavras entre os crentes... O silêncio calou. A intenção, ao que parece, teria sido a de querer ser simpático à jovem assistência presente na mira de arranjar freguesia. Já fora do templo cochichava-se o episódio. Valha a verdade, inédita descaidela.

Podia este crime longevidade (que faz o desespero dos «manga-de-alpaca» e o inconformismo do cura desbocado) passar oculto. Pela minha parte nada fiz de motu proprio para suscitar tal desaforo do clérigo, prejudicando os cálculos dos honestos (por enquanto) responsáveis devotados à nossa Segurança Social, bem como das nossas almas sob custódia do Divino Senhor, como se sabe...

Contrariamente, fiquei sensibilizado com tantas palavras de incentivo à vida vindas de amigos e amigas, por vezes de longe e de fora de Portugal ou pensando eu já ausentes em qualquer memória.

O responsável de tal publicidade e de implícito desacato a instituições à guarda dos impolutos funcionários - nunca é demais sublinhar - guardiões e condutores dos destinos da Pátria, o responsável, repito, foi o meu velho (antigo, quero dizer) amigo Luís Guerra que, dos meus graneis de prosa modesta, produziu como editor - Moinho de Papel - quatro títulos da mais perfeita e cuidada qualidade que a sua competência e amor à arte - e só - ao lapidar a rocha, encastoou a jóia, abrilhantando uma prosa de restritos aliciantes - vida de samaritano, palcos de subdesenvolvimento e fome, guerra, desconforto e luta contra o despotismo, temas que não apelam ao convite da leitura.
Pela minha parte, acho que cumpri o meu dever de cidadão do mundo, denunciando, informando sobre a vida onde ela se processa, longe dos asfaltos e das elites. Quanto aos outros, cada um age segundo os seus critérios e horizontes. Não é só rezar e pedir a Deus. Ao «arregaçar as mangas», os deuses também agradecem quando se serve a causa nobre e não se surripia bens alheios.
Resumindo:
1 - Para Luís Guerra, e aqui incluo a Lurdes, sua mulher, e seus filhos, vai todo o meu reconhecimento pela amizade que me dispensam e ajuda que me têm oferecido tornando-me o fardo mais leve, menos pesado.
2 - A todos os outros amigos e amigas, muito comovidamente agradeço a vossa disponibilidade em terem acedido a esta manifestação de afecto de todos vós, contribuindo com as vossas mensagens para fazer deste dia Um Dia, grande como as vossas palavras, Não pelos 95, mas pela alegria de me recrear sentimentos remotos de amigos e amigas, tão maravilhosos quanto já inesperados num mundo em que só a «cotação da Bolsa» tem a palavra útil. Há excepções. Nem tudo é liberalismo global.
Iniludivelmente, filho, nora, netos e netas e até dois bisnetos, fizeram presença, emprestando calor, amor e vivência ao momento. Só uma ausência senti. Contingências do ciclo da existência que só a mim diz respeito.
Com todo o meu coração,
Fernando Vieira de Sá

terça-feira, 25 de Agosto de 2009

AINDA OS 95 ANOS DE VIEIRA DE SÁ - DEPOIMENTO DE JOSÉ VEIGA SIMÃO

Caro Doutor Vieira de Sá,

Meu Caro Amigo

O Vieira de Sá faz 95 anos, hoje dia 20 de Julho de 2009. Tenho imensa pena da inclemência de obrigações que nos comandam a vida, não ter permitido, nos últimos quinze anos, manter consigo os diálogos frontais e criativos em que a dureza saudável de opiniões diversas era alimento natural da adesão ao objectivo último: servir e prestigiar o nosso Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial e, através dele, o Estado português. A amizade com Vieira de Sá transcendia e sublimava convicções políticas. O Presidente do LNETI viu sempre nele o investigador culto, actualizado e competente, um obreiro exemplar de uma instituição ao serviço das empresas familiares e das pequenas e médias empresas, tão desprezadas pela maioria dos governos, para quem os negócios da intermediação são prioritários em relação aos negócios da criação. O resultado para o País é conhecido.

Apesar de tudo, a verdade é que muitas empresas inovadoras na área das indústrias agro-alimentares do norte ao sul do País, do continente às regiões autónomas, beneficiaram das iniciativas e actividades que a “equipa de Vieira de Sá” realizou ao longo de muitos anos, desde os tempos do Instituto Nacional de Investigação Industrial. O saber, o saber fazer e o fazer desses técnicos e investigadores foi absorvido por centenas de empresas e permanecerá como fermento da renovação necessária a uma equilibrada industrialização do País, que novas gerações, alguns, seus discípulos, haverão de protagonizar. Os 95 anos não afastam a esperança.

As leis imorais que abrem portas a negócios de património científico e tecnológico, conquistado pelo esforço de muitos e com apoio internacional, associadas a práticas de gestão duvidosa determinaram processos lentos de extinção, incoerentes como aconteceu ao LNETI, em nome de falsos reformismos, não serão suficientes para destruir “escolas de saber”, como a de Vieira de Sá.

Fernando Vieira de Sá permanece como símbolo de dedicação ao trabalho sério e honrado, de alguém que continua a sonhar com um futuro melhor para a “inteligência nacional”.

José Veiga Simão

18.8.09

segunda-feira, 20 de Julho de 2009

FERNANDO VIEIRA DE SÁ - 95 ANOS

Há 95 anos, no dia 20 de Julho de 1914 (segunda-feira, como hoje), nascia em Alcântara, na cidade de Lisboa, Fernando Peixoto Vieira de Sá, filho de Mário Pedro de Alcântara Vieira de Sá (1888-1979) e de Maria Luiza Bandeira Peixoto (1891-1982). Para assinalar este importante acontecimento, damos hoje a palavra aos Amigos e a todos quantos, com ele, de alguma forma, contactaram e foram tocados por este extraordinário exemplo de vida. De uma vida que não é apenas longa e plena de realizações e experiências, mas, e sobretudo, de uma vida vivida sempre a olhar em frente e orientada por princípios que se consubstanciam e manifestam na verticalidade e na recusa visceral do medo, da subserviência, do pessimismo e do comodismo. Parabéns Vieira de Sá. Luís Guerra

***
FERNANDO:

Já somos ambos membros do “Clube dos Macróbios”!
Eu faço, em Novembro, 90 anos… Tu, hoje, fazes 95… Começamos a estar um pouco velhos… Mais dia, menos dia, começam a chamar-nos “velhotes”!…
Enquanto tal não acontece, porém, aqui vai um Grande Abraço de Parabéns, pelo dia de hoje, com o desejo que “contes muitos e bons”, como antigamente se dizia…
Pergunto, a mim próprio: Qual a razão que nos liga? Será apenas o facto de termos um bisavô comum?

Na realidade, se os primeiros anos da nossa infância decorreram num ambiente familiar, em breve, os nossos caminhos da vida afastaram-nos e, no decurso de mais de 40 anos, só vagamente, por um ou outro parente, por amigos comuns, tinha notícias suas e acompanhei a sua brilhante carreira… O seu diploma de Médico Veterinário; o seu primeiro abordar dos problemas relacionados com a produção e utilização do leite e dos seus derivados; a sua estadia em Inglaterra – em plena II Guerra Mundial – como bolseiro do Instituto de Alta Cultura; a sua pertença à FAO e as suas aventuras no Brasil, no México, na Tailândia e no Paquistão, em Angola e em Moçambique, etc., divulgando as vantagens do consumo do leite e dos seus derivados, entre populações subdesenvolvidas e exploradas, com fome, ignorância e superstição…
Escrevendo, denunciando e protestando corajosamente contra situações de miséria; criando e organizando unidades, economicamente viáveis, para a produção integral do leite e seus produtos… Que sei eu… Na sua luta contra a miséria talvez chegasse a ir vender, ou dar, leite até “casa do Diabo mais velho”…

Um pouco menos jovem, continua a escrever, agora, as suas memórias…

Em Abril de 2004, vi – via Internet – a notícia da inserção na colecção «Percursos da Memória», edição Moinho de Papel, de um novo livro de Fernando Vieira de Sá, recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos». Ora eu, dada a minha formação matemática, fui e sou admirador de Bento Caraça, de todos os seus trabalhos, particularmente, dos Conceitos Fundamentais da Matemática, salvo erro segundo volume da «Biblioteca Cosmos».
Imensamente interessado com a notícia, resolvi telefonar a Fernando Vieira de Sá e daí surgiu uma nova fase das nossas vidas e das nossas relações… É com prazer que recordamos familiares já desaparecidos; episódios da nossa infância; amigos, preocupações e interesses comuns…
Mas encontrei, sobretudo, para além do investigador sábio e realista, alguém muito delicado e muito sensível, respeitador do pensamento e das ideias dos outros, sem que isso impeça, no entanto, a assunção corajosa e recta das suas próprias ideias e ideais…
Fernando Vieira de Sá é um homem recto… Um homem que tem por hábito “falar claro e m… direito”…

Voltando ao princípio…

FERNANDO:

Aqui segue um Grande Abraço de Parabéns, pelo dia de hoje, com o desejo que “contes muitos e bons”, como antigamente se dizia…

RUY
[Ruy de Paiva e Pona]
***

Um abraço apertado! De parabéns pelo dia do aniversário, mas também de gratidão! O Vieira de Sá sabe bem o que lhe devemos, pelo muito que nos tem ensinado e por o termos como exemplo.
Embora o nosso convívio se tenha iniciado só há uns anos, para mim, nas minhas recordações, o Vieira de Sá é já uma vivência muito antiga. Não conheci pessoalmente a Maria Elvira, mas quando visito o Vieira de Sá, a sua presença é permanente!
São inesquecíveis os bons tempos passados com queridos e bons Amigos! Recordamos com saudade o “nosso” General Vasco Gonçalves e o encantador José Branco Rodrigues.

20 de Julho de 2009
Manuel Machado Sá Marques

***

PARABÉNS!

Imagino não ser nada fácil ter 95 anos!
Dizia algures no seu blogue, que, nas conversas com os amigos, já não se falava de futuro, mas apenas do passado das suas vidas. Mas, a meu ver, é de futuro que se trata, quando disponibiliza ao público as suas vivências, as suas ideias, contributo precioso aos que, no activo, buscam referências nos caminhos percorridos por outros.
Fico sempre emocionada quando penso no Dr. Vieira de Sá, com 95 anos, que continua, como homem empenhado que sempre foi, a sua luta por um mundo melhor, utilizando agora as armas do momento.
Dia 20 de Julho! Nesta data bonita, se eu pudesse, segurava bem a sua mão e, sentindo fresco da manhã no rosto, subiríamos a um ponto alto da Estrela, para assistir ao nascer do sol. Antes de descer, dir-lhe-ia acreditar, que os pequenos passos conseguidos, dos que lutam por causas nobres, só poderão conduzir à Paz!
O meu abraço muito amigo de parabéns e os meus votos de boa saúde.
Angelina Barbosa

***

Recordando o «Apeadeiro de Chobela» o encarregado do mesmo, na altura, dá o sinal de partida pelos 95 anos do colega Vieira de Sá para que continue a sua vida de produção, recordando que ele também encontrou um apeadeiro de recepção de leite, na cidade de Maputo, e conseguiu transformá-lo numa central leiteira.

Com um abraço do
Morgado [Fernando de Pinho Morgado]

***

Conheci o Dr. Vieira de Sá em 1986 quando fui estagiar para a Unidade de Indústrias Lácteas do DTIA, pouco depois de se ter reformado de Director desse Departamento. Durante os 20 anos que por lá fiquei, tive o privilégio de privar com ele, pois sempre manteve o interesse pela actividade do Departamento e particularmente pela Unidade que criou, alimentando a amizade que genuinamente sentia por todos os seus elementos. Recordo com alguma nostalgia as curiosas e divertidas histórias que sempre tinha para contar, sobre factos verídicos que presenciou ou viveu ao longo da sua invejável experiência de trabalho e aventura por quase todo o mundo. Marcou-me a forma digna, corajosa e directa como sempre o vi abordar publicamente assuntos, por vezes polémicos, sem receios de evidenciar tudo em que convictamente acreditava, independentemente das consequências. Saí há três anos daquele Departamento (ainda antes da "Autópsia"), porque infelizmente, já não se encontram Vieiras de Sá.

Desejo-lhe um muito feliz dia de Aniversário. Recordá-lo-ei sempre.

Um forte abraço

Luísa [Luísa Bivar Roseiro]

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Caro F. V. de Sá (e Luís Guerra)

Para os dois, mas muito particularmente para o Primeiro, quero dizer que nunca conheci ninguém que tão livremente e com uma certa alegria de viver "fizesse do velho novo"; e do novo, o presente que o futuro nos poderá trazer. Mesmo que não traga!

Como hei-de provar o que acabo de dizer? É simples. Nunca ninguém me chamou, com a idade que julgo que tenho e tenho, um Jovem. O F.V. de Sá chamou-me. E eu acreditei. Por isso estou satisfeito por nos conhecermos.

Parabéns. E já que mudou de século, mude também de década.

Um Abraço para os dois

António Neves Berbém

***

Nesta data de festa quero enviar ao Dr. Vieira de Sá um excerto do prefácio das minhas provas de agregação, apresentadas em Julho de 2004. Surge aqui como uma das minhas maiores referências profissionais.
«Conheci o Dr. Fernando Vieira de Sá no meu primeiro dia de trabalho na belíssima sala da biblioteca do Departamento de Tecnologias das Indústrias Alimentares. De aspecto austero, o Dr. Vieira de Sá tinha por hábito fazer uma visita diária aos laboratórios do Departamento, envergando uma bata imaculada, conversando com os funcionários e imprimindo às actividades a motivação necessária a um ritmo eficaz. Aos mais novos distribuía generosamente a sua extensa experiência profissional e a riqueza do seu espírito. O Dr. Vieira de Sá é uma personalidade sem fronteiras que estendeu a sua actividade a vários continentes ao serviço da FAO e posteriormente do governo português. Tendo-se dedicado à tecnologia alimentar trabalhou na Ásia, América do Sul e nas províncias ultramarinas portuguesas em África. Durante muitos anos os seus trabalhos sobre tecnologia do leite e lacticínios publicados em revistas internacionais foram referência e os seus vários livros técnicos ainda hoje fazem Escola. Durante as diversas conversas que manteve comigo dei conta que a sua aparente austeridade facilmente dava lugar a uma saudável abertura, por onde se vislumbrava uma visão esclarecida rara nos investigadores que conheci na altura. O grupo de investigação em que me inseri foi criado devido à sua visão sobre as tendências da tecnologia, a sua compreensão do desenvolvimento das tecnologias biológicas e a necessidade de implementação dessas valências no nosso País. Desde a primeira hora, o Dr. Vieira de Sá foi um cúmplice, e sem dúvida um instigador, da minha aventura europeia na busca de evolução científica e conhecimento de realidades diferentes. O apoio que recebi então tinha em vista a obtenção de competência técnica como investimento para o futuro da instituição, garantindo desta forma que havia uma adaptação às novas realidades sociais e económicas. Possuir o grau de Mestre ou de Doutor era absolutamente irrelevante em comparação com a obra que esperava ver desenvolvida e realizada. Na década de oitenta o ambiente que se vivia nos Laboratórios do Estado era de confiança. Criaram-se condições para o aparecimento de grupos modernos contratando jovens motivados e disponíveis para a actividade científica.»
Desejo um dia muito feliz e muitos anos de um contínuo exemplo às novas gerações.
Um abraço do sempre amigo
José Carlos Roseiro
***

Muitos Parabéns!

Caro Vieira de Sá, conhecê-lo e ter a honra de conviver consigo (a maior parte das vezes por telefone) é maravilhoso!
Agradeço-lhe a sua juventude e, mais do que tudo, o partilhar comigo algumas das suas muitas histórias, sempre tão ricas e cheias de sabedoria.
O Vieira de Sá é um exemplo para todos nós com a sua Grande Vida e sobretudo para todos quantos passam a vida a lamentar-se de tudo, mas que nada fazem para mudar.
Prova do grande ser humano que é, continua independente e capaz de tudo fazer com grande autonomia. Os seus chás são os melhores!
É com carinho que recordo o dia em que lhe disse que ainda chegava aos 100 anos, ao que o Vieira de Sá me respondeu: «Não me deseje isso, é o pior que me podem desejar, pois já não tenho com quem partilhar as minhas lembranças». Nós - eu, o Luís e os nossos filhos, que gostam muito de si - não conhecemos as coisas tal como as viu mas estaremos sempre presentes para o ouvir falar delas e das suas vivências com muito carinho e amizade.
Mais uma vez Parabéns por tão bela data!
Um grande beijinho da amiga
Maria de Lurdes Guerra

***

Querido Fernando

Ao recordar, quando o sol nascia, que completas hoje 95 anos, abri a janela, contemplei os campos de Serpa na lonjura da planície alentejana, meditei durante alguns minutos sobre a tua longa e bela caminhada pela estrada da vida e pensei: o Fernando, sempre resmungão e julgando-se um pouco esquecido, tem um talento especial para demolir os contra-revolucionários e toda a escória humana que em Portugal se mascara de esquerda, mas ignora o que os amigos pensam dele.
Eu sou um deles .
Nos últimos anos raramente nos temos encontrado porque vivo longe de Lisboa. Mas estás presente em mim diariamente. Numa síntese do teu perfil direi que reforça a esperança verificar que neste tempo de crise global da civilização existem homens como tu.
Pelo teu eticismo, pela coerência e firmeza do teu combate desde a juventude pela revolução social, pela tenacidade com que colocaste o teu talento de cientista e escritor ao serviço das grandes causas – vejo em ti, Fernando, não apenas um humanista mas o paradigma do revolucionário exemplar. Até no amor foste grande, na relação de contornos quase mágicos que mantiveste com a Maria Elvira, tua companheira.
Uma solidariedade comum com os povos do Terceiro Mundo em luta pela independência autêntica abriu portas a intermináveis conversas sobre países que ambos conhecemos bem e que amamos, sobretudo o México, o Afeganistão e Cuba. Mais de uma vez, recordando as tuas lutas, sobem na minha memória personagens da grande geração de revolucionários russos de 17 porque há em ti traços do carácter dessa gente maravilhosa.
Falo com frequência da vida útil que difere da biológica. Também ai és uma inflorescência. Aos 95 anos continuas a pensar e escrever como um jovem.
Aguardando a festa do teu centenário, aqui vai o abraço de parabéns do teu amigo e camarada
Miguel Urbano
***
Caro Amigo
Venho neste dia 20 de Julho desejar-lhe um dia muito feliz.
É com muita alegria que lhe dou os meus parabéns e desejo que continue com saúde, com actividades diversas, nomeadamente com a escrita, que tanto agrada e enriquece o leitor. Refiro, nomeadamente, as Cartas na Mesa, que tanto prazer me deu, pela beleza da sua escrita e pelo interesse do seu conteúdo.
Penso neste dia 20, no convívio em Cascais, com os meus Pais, posteriormente no Algarve, em casa dos meus Tios. É sempre com grande prazer que me lembro das conversas vivas em que também participei um pouco e na amizade genuína que testemunhei.Lembro igualmente o apoio do Dr. Vieira de Sá em momentos difíceis, quando o meu Pai foi operado ou na doença do meu Tio José Branco Rodrigues.
Gosto sempre muito de contactar com o Dr.Vieira de Sá, pessoalmente ou via telefónica/ mail, de participar no seu convívio, de dar continuidade, conjuntamente com a minha Mãe (ou com os meus irmãos) à amizade que existia com o meu Pai, toda a alegria da amizade que a solidariedade e identidade de valores consolida.
Um grande abraço do
José Diogo (Gonçalves)

***
Apesar de não ter trabalhado directamente com o Dr. Vieira de Sá, conctatei com ele, via INETI e via Dra. Manuela Barbosa. Esteve presente em muitos dos almoços da nossa Unidade - a UIL - por ele fundada. Nutro um carinho muito grande pelo Dr. Vieira de Sá e admiro muito tudo o que fez, juntamente com a Dra. Manuela - a minha antiga chefe, e hoje amiga. Aqui vai o meu testemunho e deixo os meus votos de Parabéns:

95 primaveras,
uma data tão especial.
Requer uma comemoração,
única e sensacional.
Nesta surpresa, não poderia,
deixar de participar.
Desejo-he um dia muito feliz,
e que o continue a recordar.
Sou a Sandra Pinto, a ex-UILiana,
gostei muito de consigo contactar.
Guardo boas recordações,
de quando nos ía visitar.

Beijinhos de Parabéns da

Sandra Pinto da Silva


***
Grande e muito querido amigo
Fernando Vieira de Sá

MUITOS PARABÉNS!

Ao pensar em si, não podemos nunca deixar de evocar a Sra. D. Maria Elvira, a sua companheira, senhora de extraordinárias inteligência, doçura e sensibilidade cujo sorriso e olhar, brilhantes, nos permanecem na memória impregnada de saudade e ternura, por ela.

O casal Vieira de Sá, destacava-se no grupo dos grandes amigos de nossos pais, Aida e Vasco.
Uma profunda comunhão de ideias e empatia pessoais, uniu os dois casais numa dadivosa amizade e profícua cumplicidade. Os sentimentos que nutriam entre si, construíram, uma muito enriquecedora e exemplar ligação, plena de afectos, lealdade, integridade, que, estamos certos, lhes proporcionou uma profunda alegria nas suas vidas.

A conversa, cujo nível e profundidade de análise os arrebatava, horas sem fim. Os temas interessantíssimos, onde se evidenciava a notável riqueza e experiência de vida do casal Vieira de Sá, as fabulosas histórias narradas com o requintado humor que a sua extraordinária inteligência confere a Fernando Vieira de Sá, enfim, os acalorados e cúmplices debates sobre todo o tipo de assuntos, constituíram o sedimento dessa exemplar amizade.

Dos encontros, muito frequentes, recordo as visitas à “casa de Sesimbra”, de onde os nossos pais, vinham sempre maravilhados pelo convívio, pela beleza da obra de arquitectura e dos jardins, onde as plantas e as flores eram amorosamente escolhidas e cuidadas pela Sra. D. Maria Elvira.

Quando vinham a Cascais eram, também, formidáveis sessões e serões de conversa.

A profunda amizade e companheirismo entre Vasco e Fernando, levou-os a um convívio intenso, a partilharem férias, enfim, a conversarem todos os dias, nem que fosse só por telefone.

A Maria Elvira e o Vasco partiram.
A Aida e o Fernando perduram a amizade.
Alguns “ incómodos” da passagem dos anos, remeteram-nos às suas casas.
O Fernando mantém o convívio com lindos ramos de flores que, gentilmente, faz chegar a casa da Aida, nos dias comemorativos, acompanhados de cartões com comoventes dizeres que a levam a sorrir e a enchem de saudade.

Um grande bem-haja, Sr. Dr., pela amizade com que distinguiu nossos pais.
Continue a escrever, por favor, pois o seu saber acumulado é imenso e nós precisamos tanto de aprender, como precisamos imenso de si.

É uma felicidade e um privilégio conhecê-lo e dedicar-nos a sua amizade.

4 Grandes e Apertados Abraços Muito Amigos

Aida, Maria João, Vítor, Vasquinho
Gonçalves

***

Muy querido amigo Fernando,

Ante todo disculpe que no le escriba de mano propia, pero llevo un mes en el hospital, consecuencia de una insuficiencia cardiaca crónica, pero, aunque lentamente, voy mejorando. Es precisamente en momentos como estos, cuando uno se complace en recordar, que surge con gran intensidad el recuerdo de los amigos más queridos y añorados, y usted, amigo Fernando, viene en cabeza junto con la dulce memoria de María Elvira... ¡Cuántos bellos momentos no hemos compartido, de sobremesa, junto con Victorio en nuestro México, a quién tanto he de agradecer, en particular por el haber permitido el tipo de amistad que nos une desde hace tantos años y a pesar de la distancia. ¡Cómo recuerdo la pasión que usted siempre puso en su trabajo, cómo con Victorio querían arreglar el mundo y cómo María Elvira con su ternura y su mano artística alegraba nuestro entorno con sus obras florales!!!
Y no sabe qué inmensa alegría me procura verlo tan activo, tan creativo vísperas de sus 95 años!!! Reciba mis más calurosas felicitaciones con motivo de tan importante aniversario, que espero lo pase rodeado de todos los suyos, y que a pesar de la distancia le llegue todo el cariño que esta familia le tiene y le tendrá siempre. Yo sé que para Magaly usted es una de las personas más importantes de su infancia y ella y Daniel siempre recuerdan con emoción los días que pasaron con usted y María Elvira en Portugal y el cariño con que los recibieron a ellos y a mis nietos.
¡MUY FELIZ CUMPLEAÑOS, MUY QUERIDO FERNANDO!

Su amiga de siempre,

Antía Culebra

***

Muy querido y presente Fernando,
¡¡¡Es al amigo, al hombre de ejemplar integridad y al luchador por un mundo mejor que, desde estas tierras canadienses, saludamos y felicitamos con motivo de tan augusto aniversario con gran admiración, respeto y sobre todo con gran cariño y contando celebrar juntos sus 100!!!
¡Qué alegría poder celebrarle, aunque sea por este medio, sus 95 años! Un motivo más para reiterarle nuestro afecto y desearle mucha salud, bienestar y lindos proyectos. Hemos estado pensando mucho en usted con mamá, quien como sabe, está hospitalizada y como paso mucho tiempo con ella estos días, nos damos el lujo de compartir tranquilamente y la familia Vieira de Sá es sujeto de frecuente y grata conversación. Y con Daniel y los chicos rememoramos los inolvidables días pasados en Sesimbra, las deliciosas sardinas preparadas por Fernando, los paseos al pueblo y cómo todo mundo saludaba cordialmente a Fernando y a María Elvira, la visita todavía más memorable a la cooperativa agrícola y no se nos olvidará nunca la botella de Porto de 1945 que nos regalaron a nosotros estudiantes mochileros que cuidamos como un tesoro durante todo el viaje por Europa y luego de regreso a Canadá, donde la tomamos con mis padres a la salud de los Vieira. Hoy levantamos nuestra copa a la salud y felicidad de Fernando Vieira de Sá, hombre excepcional, a quien con gran orgullo y respeto llamamos AMIGO.
¡¡¡Muy felices 95!!!
Magaly, Daniel, Eric y Alionka

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O Fernando Vieira de Sá é um amigo modelar, daqueles amigos do coração que estão sempre connosco nos bons momentos e nos muito maus. Veterinário, nutricionista, antropólogo, foi alto funcionário da FAO em muitos países, onde prestou serviços inestimáveis.
Como bem sabem os seus amigos, foi um antifascista inquebrantável e um militante comunista de ampla e generosa visão do mundo e de absoluta lealdade para com o seu Partido.
Nesta hora de festa, quero saudar, com um fraternal abraço, o cientista, o escritor, que já nos deu uma valiosa obra de testemunho e reflexão, o camarada, companheiro de horas felizes e de horas amargas, sempre animado pela esperança de um futuro melhor para a Humanidade.
Querido Fernando, estreito-te ao peito, de punho erguido, sorrindo como tu sempre soubeste sorrir à ilusão, à adversidade e à vitória.
Urbano Tavares Rodrigues

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Ao Fernando Vieira de Sá
Nos meus tempos do MUD Juvenil e ainda antes de ter o prazer de com ele conviver, Fernando Vieira de Sá fazia parte da “constelação” dos colaboradores da Cosmos dirigida por Bento de Jesus Caraça. Esta editora/colecção constituiu para nós uma referência cultural ao serviço da luta em que estávamos envolvidos por uma sociedade livre e justa.
Anos depois viemos a ser “colegas” na FAO, embora em áreas distintas. Apraz-me recordar o prestígio profissional de que o Fernando Vieira de Sá gozava, aliado ao respeito que merecia como funcionário internacional ao serviço dos valores das Nações Unidas e da cooperação entre os povos.
Depois das ricas e humanas memórias que escreveu e que tivemos o prazer de ler, não vou aqui evocar os episódios de que foi actor e que revelam o sistema de valores sociais que sempre marcaram as suas atitudes e relação com os outros.
Tivemos, depois do 25 de Abril, várias oportunidades de colaborar e de nos encontrar entre amigos, em Portugal. Vêm-me à memória os bons momentos que partilhámos num pequeno restaurante do Cais do Sodré, conjuntamente com o Dr. Herculano Vilela, como “cobaias” de um novo queijo que o Fernando tinha produzido e queria “testar”…
Fomos mantendo contacto à volta de efemérides e batalhas políticas e cívicas ao longo de todos estes anos, partilhadas com grandes amigos já desaparecidos como António e Vasco Gonçalves, Monteiro Baptista, José Branco Rodrigues e com outros que continuam coerentemente a defender os ideais e objectivos de Abril.
Nos tempos que correm, neste mundo globalizado – que rima como mercantilizado – saudamos, a Maria Eduarda e eu, nesta data, e com amizade, a solidariedade humana e a frontalidade das posições do Fernando que nos encoraja a todos a não baixar os braços na busca de um mundo melhor.

Mário Ruivo
20 de Julho de 2009
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Amigo Vieira de Sá

Não podia deixar passar este dia em que completas 95 anos sem deixar o meu testemunho de amizade e admiração por mais um aniversário, numa vida de Homem que sonhou, realizou e teve uma vida exemplar, de cidadão, dirigente, colega de trabalho e amigo.
Desde o tempo em que me foste apresentado como “chefe” do Departamento de Tecnologia e Indústrias Alimentares, onde era estagiária, que desenvolvemos uma amizade que ainda hoje perdura. Foste, sem me ter dado conta na altura, uma pessoa que pelo exemplo moldou a minha forma de estar na vida. O rigor, o sentido crítico, a insatisfação constante, o tentar fazer sempre melhor, a transparência na conduta, o não se conformar com o estabelecido, a liderança sem subserviência e sua importância na realização de projectos, os objectivos com prioridade no colectivo, o entusiasmo.
A postura de Serviço Público que imprimias ao Departamento no apoio técnico dado às Indústrias Alimentares, como se pretende actualmente, era já feito nos finais dos anos 60 com formação a quadros das empresas, apoio analítico e consultadoria, transferência tecnológica e inovação.
Tenho presente a tua sempre pronta colaboração na leitura crítica de textos e da minha tese de Doutoramento.
As horas de conversa quando nos encontramos! Conseguimos estar horas a falar sobre diversos temas deliciando-me e aprendendo com a tua vasta cultura e com a boa disposição e o sentido de humor que te é peculiar, narras factos e episódios por ti vividos, aqui ou no estrangeiro, recentes ou de há muito tempo, afirmando a tua prodigiosa memória.
Por vezes, no quotidiano vamos espaçando os contactos, até porque distamos nas nossas residências de cerca de 500 Km, mas nem por isso a amizade sofre qualquer beliscadela e muitas vezes damos connosco a pensar se o melhor da vida não será o cultivar das verdadeiras amizades!
É um privilégio ter-te como amigo. No dia dos teus 95 anos, quero associar-me ao grupo de amigos que te envia um grande abraço de Parabéns.
Conceição Martins
Vila Real 20/07/09
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Ao caro Amigo Vieira de Sá
É sempre um gosto e uma grande honra conhecer alguém que comemora o seu 95º Aniversário. Mas quando esse alguém marcou a nossa vida profissional e é nosso amigo de longa data, a honra é redobrada.
Assim, ergo neste dia simbolicamente a minha taça pelo seu Aniversário, felicitando-o por mais um ano vivido e pela sua coragem e determinação em acompanhar os desenvolvimentos do século XXI...!
A sua reacção permanente aos sinais da «nossa modernidade», sinal de que está bem atento ao que se passa no mundo, e a sua curiosidade, tão característica do seu profundo saber, fá-lo chegar ao dia de hoje felizmente com boa disposição e sentido de humor.
Faço votos que o mesmo se repita com saúde e bem-estar nos anos vindouros.
Com um grande abraço de amizade, relembrando também neste dia, com saudade, a figura ímpar de Maria Elvira.
Manuela Barbosa
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Caro Fernando Vieira de Sá,
Pede-me o amigo Luís Guerra que escreva algumas palavras para alimentar o blogue neste seu 95º aniversário. Não poderia recusar esta oportunidade de assinalar tão memorável data, embora não seja tarefa que consiga fazer com facilidade, mais habituado que estou a arranjar os textos dos outros do que a escrever os meus próprios.
Decerto haverá outros muito mais habilitados a escrever sobre o amigo Fernando. O nosso convívio não vem de há muito tempo, nem tem sido muito assíduo. Muito do nosso conhecimento começou por ser indirecto: ao paginar os seus livros, mesmo antes de nos conhecermos, fui-me apercebendo, e tornando admirador, da frontalidade do seu carácter, da sua intransigência na defesa dos seus ideais. Nos escassos — mas ricos — encontros que tivémos, pude confirmar esses traços, mas também experimentar a sua simpatia, o seu sentido de humor, a sua agradável convivialidade. Em suma, rapidamente reconheci na sua pessoa aquilo que posso identificar como mais um rico exemplo de vida e de conduta cívica. É por isso que, sempre, e sobretudo nesta data simbólica, lhe quero deixar um forte abraço de reconhecimento e de felicitações. Os meus sinceros parabéns!

Joaquim António Silva
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Ao Homem, ao Amigo e ao Camarada Fernando Vieira de Sá, um abraço de grande admiração e respeito pelo ser humano que és e pelo exemplo de vida que nos tens dado.
Parabéns, Fernando, pelo teu aniversário!
Um beijo
Bárbara [Freitas]
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Para o meu amigo Fernando
Há quem diga que «os grandes amigos se fazem na juventude» como se a amizade não pudesse crescer entre diferentes gerações. Nunca concordei. Os Amigos são absolutamente intemporais. Sobretudo quando os ideais humanistas e as causas da cultura e da liberdade nos são comuns.

Foi o livro Cartas na Mesa (2004) que me revelou a escrita de Fernando Vieira de Sá e fez nascer a vontade de o conhecer pessoalmente. Era a minha vertente de investigadora a segredar-me que o Fernando personificava uma riqueza vivencial extremamente importante para a nossa contemporaneidade. E não me enganava.

O nosso encontro aconteceria no lançamento do livro Ecos do México (11 de Novembro de 2005) na Associação 25 de Abril, numa sala a transbordar de amigos e admiradores, e a visita a sua casa passados alguns dias.

Entrar naquela casa, ali à Lapa, foi um deslumbramento que ainda hoje se mantém. Nela proliferam os livros e as obras de arte a testemunharem as mais diversificadas andanças de uma vida. Tal como pontificam as memórias dos afectos que foi semeando pelos caminhos percorridos e, sobretudo, a «presença viva» da sua companheira da longa caminhada, a sra D. Elvira, há anos desaparecida e que muito gostaria de ter conhecido.

Conhecer-te, Fernando, foi das experiências mais ricas da minha vida. Ter-te como Amigo, um privilégio de que me sinto para sempre devedora.
Uma superior inteligência e lucidez microscópica fazem de ti um ser fascinante e um jovem cujos 95 anos apenas se reflectem nas articulações que o tempo corroeu e com as quais ironizas.
Por isso te visito sempre com o maior prazer e passo horas em amenas conversas, muitas vezes num regresso ao passado que me seduz. Porque junto a ti nunca damos pelo passar das horas.

És um ser humano de excepção. Admiro a tua coragem, a tua verticalidade, a tua combatividade e o teu carácter impoluto que nortearam uma vida caldeada pelos ideais republicanos, pela luta contra a ditadura e pelas utopias que Abril nos trouxe. E em que continuamos a acreditar.

Parabéns, querido Fernando!
Júlia Coutinho

domingo, 12 de Julho de 2009

ANTÓNIO MARTINS MENDES - UM GRANDE VETERINÁRIO


A fatídica notícia da morte do Prof. Doutor António Martins Mendes era aguardada a todo o momento. Uns dias antes, sem o saber, fazia-lhe a última chamada telefónica para Elvas, aonde se acolheu com sua mulher, Gina, para beneficiar da proximidade de seu filho, médico nessa cidade. Ele respondeu da cama com sílabas apagadas, mas nutridas da consciência do momento que se aproximava, pedindo-me para desligar porque as suas forças já não suportavam o esforço de qualquer audição e muito menos a voz. Despedi-me sem haver resposta, E, no meu íntimo, logo entendi que tinha ouvido talvez as últimas sílabas da sua existência.
A notícia chegou no dia 1 de Julho. Estava preparado para perder um grande amigo, um grande vulto da veterinária portuguesa, em todos os aspectos que enriquecem a vida, a sociedade e a portugalidade que tanto recebeu do seu labor. Pena é que, como em tantos casos, o aproveitamento de tanto empenho é recebido com um encolher de ombros que logo se manifesta nas dificuldades de editar a sua obra num volume, facilitando o acesso à consulta e ao estudo, aproveitando-a em toda a sua pujança de conhecimento e autoridade.
Mas, o meu sentimento alarga-se à companheira de toda a sua vida, Gina, cuja saúde é de há muito tempo da maior precariedade, E que a partir de agora tem de juntar à sua extrema debilidade o sofrimento que representa a maior solidão de todas as solidões expectáveis - a perda de quem para ela representava a maior força que se opunha à sua decrepitude, bem expressa à vista de todos.
FICA A SAUDADE PARA TODO O SEMPRE
Findava o último combate de uma batalha que fora exemplo de modéstia, perseverança e saber, títulos com cujos itens se consolidam as civilizações.
Também, e sobretudo, fica uma obra de grande peso específico científico e historiográfico, fazendo parte do legado deixado pela colonização portuguesa nem sempre norteada pelas melhores causas, mas que neste caso muito se fica a dever a Martins Mendes, destacando especialmente o profundo levantamento realizado em «Origens dos Serviços Veterinários de Angola» e em «A História do Laboratório Central de Patologia Veterinária de Angola», registando variadíssimas fontes de informação, num tempo em que não existia ou não era comum a Internet e os arquivos não primavam pela facilidade de consulta, publicados em Veterinária Técnica e na Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias. Igual contributo doou a Moçambique, onde leccionou na Faculdade de Veterinária da Universidade Eduardo Mondelane, deixando um trabalho de pesquisa bibliográfica publicado sob o título «Criação dos Serviços Pecuários de Moçambique», publicado na Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias.
Do mesmo modo, e no campo da patologia microbiana, um longo trabalho se anota sobre «A Peripneumonia Contagiosa Exsudativa dos Bovinos em Portugal», in Veterinária Técnica. Anote-se ainda «Homenagem a: Louis Pasteur (1822-1895)», por ocasião do Centenário da morte do sábio, sendo este um precioso documento de pesquisa, exigindo uma profunda análise de consulta bibliográfica. Outros trabalhos se poderiam citar. Apenas se deram exemplos.
PARA QUE TUDO ISTO CONSTE E SIRVA A CULTURA
Em minha opinião a maior homenagem substantiva à memória de Martins Mendes que se lhe pode fazer seria editar os seus escritos em volume de larga lombada para facilidade de consulta, enriquecendo a cultura portuguesa, valorizando a sua presença colonial, nem sempre encomiástica.
Martins Mendes serviu o ensino veterinário superior na cátedra da Escola Superior de Medicina Veterinária (a Casa Mãe), regressando a ela após a descolonização, deixando para trás o seu frutífero trabalho.
Os encontros que conduziram à nossa amizade começaram em Nova Lisboa, onde passei algumas vezes em estadias de semanas em tarefas de trabalho. Também em Moçambique, onde permaneci, entre outras visitas, seis meses por conta da Cooperativa dos Criadores de Gado, com a finalidade de estudar e propor acções que levassem ao melhoramento do abastecimento de leite à cidade de Lourenço Marques e ao funcionamento da Cooperativa no sector do leite, desde a produção e abastecimento domiciliário de Lourenço Marques, passando pelo transporte e processamento. Mais tarde, e com a descolonização, os meus encontros com Martins Mendes eram rotina e aí aprofundámos o nosso convívio e conversas, o que nos levou até ao fim inevitável. Há sempre um dia.
Mas... nem tudo é trabalho. Um copo em boa cavaqueira entre amigos corta a rotina e conforta a alma.



[Lx. 20.05.97 / Meu Caro Vieira de Sá / Conforme te falei envio-te as minhas últimas publicações - 5 no total. Agora vou deixar a malta respirar... eu próprio preciso também de repouso! Especial atenção merece a última, acabada de sair na Vet. Técnica. / A reunião de sábado 17 foi ótima. Bom convívio e amena cavaqueira. Bom vinho! Comida ótima e a Vossa inultrapassável hospitalidade. / Foi bom. Obrigado. Meu e da Gina. Cumprimentos nossos a tua mulher. / Um abraço amigo / do Martins Mendes]
Com este cartão de Martins Mendes, escrito há 12 anos, recordo hoje um encontro de amigos em minha casa que me cobre de saudade de um tempo em que, apesar das idades já provectas, ainda nos podíamos dar ao luxo de pensar em futuros.
Hoje, a tarefa é transmitir experiência passada. O mundo não começa com cada um, como a juventude pensa.


Fernando Vieira de Sá
***

Associo-me a esta homenagem, recordando os nossos encontros nos lançamentos dos livros de Vieira de Sá e um telefonema que me fez felicitando-me por essa inicitiva editorial. Deixo aqui, também, três citações que colhi de dois dos textos a que se refere Fernando Vieira de Sá:
«Os que me conhecem, sabem que não sou especialista em questões de Ecologia. Situo-me entre os homens comuns que se preocupam com as consequências das desigualdades extremas existentes entre os países do chamado "terceiro mundo" e as grandes potências industrializadas, e com as tragédias que resultaram da simples extensão aos trópicos das técnicas agrícolas dos países avançados. Preocupo-me também, naturalmente, com os riscos tecnológicos - o risco do ozono, o risco nuclear, o risco biotecnológico.»
[«Nota Breve: A Propósito de uma Tradução», in Revista da Ordem dos Médicos Veterinários, Dezembro de 1996]
«O problema é que os habitantes de provavelmente nove décimos do continente africano - o tropical que mais nos interessa - passa fome. Fome de "comida" e não apenas de proteínas de origem animal... O mesmo talvez se poderá dizer de vastas regiões de outros Continentes com populações igualmente carenciadas! A Natureza não ajuda e o Homem - "os Homens" - com ela colaboram, matando, destruindo, inutilizando. Em vez de sementes plantam minas... Vejo as imagens da televisão e interrogo-me, de aqui a quantos anos os habitantes do Afeganistão ou do Paquistão e de outros países terminados em "ão" serão capazes de produzirem aquilo que comem ou terão dinheiro que pague apenas o transporte dos alimentos que outros mais felizardos deitam para os caixotes do lixo?»

[«Cartas ao Editor (...), in Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias (2002) Supl. 117: 1-16]
«Insisto que é erro crasso decretar que os problemas (científicos, económicos, humanos, etc.) são os mesmos "desde o Minho a Timor" ou da Holanda à Indonésia ou de Cuba à China... Globalização sim... "ma non troppo"! Querer contrariar, corrigir ou modificar a natureza, ignorando suas leis, pode ser o fim dos globalizadores...»

[Ibidem]
Recordarei sempre a sua extraordinária simpatia e modéstia, qualidades que só as grandes inteligências e os homens bons conseguem assumir, para nada necessitando de se pôr em bicos de pés.
Luís Guerra

domingo, 5 de Julho de 2009

VASCO GONÇALVES - PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA

O texto de Vieira de Sá, evocando Vasco Gonçalves em mais uma passagem de aniversário da sua morte, deu origem a três comentários, dois enviados directamente para a caixa de comentários do referido texto e um que nos chegou via correio electrónico. Porque o exemplo de Vasco Gonçalves não pode cair no esquecimento, trazemos ao corpo do blogue os comentários de Júlia Coutinho, Miguel Urbano Rodrigues e Ruy de Paiva e Pona, a quem agradecemos esta participação.

Querido Fernando,

Fico sempre seduzida pela maneira afectuosa e simultâneamente pedagógica como evocas os amigos da tua vida.Vasco Gonçalves foi, para além do amigo que evocas, um homem excepcional a quem todos muito devemos. Foi a nossa utopia tornada realidade... ainda que por pouco tempo... porém, o suficiente para ficar na História como o Grande Amigo do Povo Português. Pena não ter seguidores.
Júlia Coutinho [19 de Junho de 2009]

PARABÉNS!
Escasseia-me o tempo para acompanhar o teu blogue, mas vi hoje a magnífica foto do General com a D. Aida, e alguns textos teus, todos no teu nível. Parabéns pelo bom trabalho que estás a realizar. Abraço fraterno
Miguel Urbano [19 de Junho de 2009]
Meu Caro Fernando:

Li, com todo o interesse, o in-memoria que escreveste comemorando o 4º aniversário da morte do General Vasco Gonçalves. Nele encontro, uma vez mais, toda a tua delicadeza e sensibilidade em relação àqueles que merecem, ou mereceram, o teu respeito e a tua amizade.
O General Vasco Gonçalves foi um militar culto, inteligente e com “larga visão progressista” como dizes, preocupado com os problemas sociais e com a sua solução. Penso, porém, que Vasco Gonçalves foi, sobretudo, um homem sincero e honesto, um homem de bem, um homem bom...
Com o 25 de Abril, julgou chegado o momento de dar execução aos seus sonhos. Porém, com a ingenuidade de todos os grandes reformadores, habituado a comandar tropas que lhe obedeciam, esqueceu toda a resistência e inércia da sociedade cujas regras de vivência pretendia modificar, em beneficio dos mais fracos.
Não me parece que a resistência a que me refiro seja apenas a das classes dominantes. Também essa inércia e resistência se verifica, em grande escala, na classe dos dominados, daqueles que iriam beneficiar com as reformas do sistema económico.
Diz o povo que:

“Quando a esmola é grande, o pobre desconfia...”

É nessa desconfiança, na sua experiência de milénios, que reside toda a sua resistência à mudança e aos reformadores...
No teu texto, dizes que foram quatro os governos provisórios presididos por Vasco Gonçalves; é verdade, mas não esqueças que todos eles se estenderam, cumulativamente, ao longo de um ano... Um relâmpago fulgurante, momentâneo, face às centenas de anos requeridos...
Tu, homem de cultura, certamente leste o Êxodo, o segundo livro do Pentateuco dos judeus, no qual se descreve a acção de um grande reformador da sociedade do tempo... Verdade ou mito, descreve-se neste livro a luta de Moisés para libertar os judeus, escravos, oprimidos e explorados pela classe dominante do Egipto.
Pois bem, se foi relativamente fácil vencer a classe dominante; foram os escravos, os explorados, que se revoltaram protestaram, quiseram mesmo assassinar Moisés, o seu libertador... Foram, necessários quarenta anos[1] para levar este povo rebelde de escravos para a terra prometida, a terra onde corria leite e mel...
A primeira geração não chegou lá...
O Prof. Abel Salazar, num dos seus livros[2], diz que, citando de cor,

«Sob o ponto de vista económico, social, intelectual e emotivo, o mundo actual tende a sair fora dos limites do seu Sistema Histórico, mas reage contra esta tendência porque outro Sistema Histórico significa outra civilização. Ora este Presente é já Passado e simultâneamente é já Futuro pois que o período de declínio de um Sistema, o seu período de decadência é, ao mesmo tempo, o prelúdio de um novo Sistema. Por esta razão, a decomposição, a desagregação actual está grávida de futuro e contém nas suas entranhas um mundo novo, uma nova civilização mas num reflexo instintivo de vida e de conservação, reage e tenta conservar o seu próprio Sistema.»

A passagem, de um Sistema para o outro Sistema, exige tempo...
Vou terminar estas tão longas divagações. Com elas quis encontrar uma explicação para o facto, que referes, do nome do General Vasco Gonçalves nunca ter sido referido na última comemoração do 25 de Abril nem ter sido lembrado no quarto aniversário do seu falecimento.
Lembraste-te tu!
Lembraste com saudade e respeito pelos valor material e mental pela humildade que demonstrou ao aceitar desconsiderações à sua pessoa perante a consideração de valores mais elevados. Mas, sobretudo, lembraste Vasco Gonçalves como um grande amigo e, isso, releva tudo o mais...

Um abraço do

Ruy [30 de Junho de 2009]
[1] Nesses tempos longínquos os anos eram, possivelmente, muito maiores que no nosso tempo!
[2] Abel Salazar – A Crise da Europa, Lisboa, Edições Cosmos, 1942.

quinta-feira, 11 de Junho de 2009

EM MEMÓRIA DE VASCO GONÇALVES, FALECIDO A 11 E SEPULTADO A 13 DE JUNHO DE 2005

Dias que carregam consigo uma comoção que os anos não dissipam, Pelo contrário, à medida que o tempo passa a vida ensina dia-a-dia à sedimentação memoriável desses tempos ainda quase presentes na vida que nos envolve, leva-nos a sentir em cada um de nós, e a muitos milhares de portugueses, a perda de um dos maiores estadistas de larga visão progressista, de racionalidade histórica e sociológica que não hesitou, ao longo de quatro governos provisórios (II a V) a que presidiu (17 de Julho de 1974 a 8 de Agosto de 1975), levar a sério as nacionalizações da Banca de Valores e outras com etiqueta de urgência, pois é de todos sabido, velho e revelho, que todas as crises de base em valores bolsistas - as searas do capitalismo - geram no sistema afim onde se acantona toda a magia das ciências financeiras e ocultas, criando todas as manigâncias técnicas de acumulação oculta da riqueza, embora algumas possam ser ilegais, o que é convidativo, sendo o acto auto-supervisado, o mesmo é dizer, confiante no estratagema legalista implícito, podendo os seus ideólogos passearem-se pelas ruas, cumprimentados cavalheirescamente, ninguém apodando-os daquilo que são - salteadores de cofres em proveito próprio.
Neste painel de vivências que nos entraram portas adentro por todos os canais da TV quis Vasco Gonçalves, em tempo útil, evitar o panorama costumeiro apetecido, fazendo as nacionalizações da Banca, e não só. Aparentemente era o que os milhares e milhares de cidadãos pediam na rua com angústia: DIREITOS, não especificamente uma nacionalização fosse do que fosse, mas um acautelamento que pudesse pôr em segurança valores contra a pilhagem e fugas de capitais para o estrangeiro, tudo para evitar o que acabou por acontecer em catadupa com o golpe de mestre contra-revolucionário, perpetrado pelo ícone do socialismo lusitano (e outros), por ele próprio assumido com orgulho, tendo por consultor e homem-de-mão da CIA, já afeito ao desideratum, pois, por sua decisão, assassinou Salvador Allende, bombardeando o palácio presidencial do Chile, tendo o presidente sido eleito por eleições livres, o que não joga com qualquer defesa da democracia ameaçada, mas sim interesses espúrios, como aqui em Portugal. O agente em questão era Carlucci, ex-embaixador do EUA. Aqui em Portugal, a justificação do golpe foi a preocupação tida pelo ícone-astrólogo que profetizava que a revolução estava evoluindo para uma ditadura proletária e era urgentíssimo atalhar o mal pela raiz. A propósito: Berlusconi há dias também declarava que não admitiria no parlamento italiano deputados («gente», como se exprimiu) mal vestidos e a cheirar mal. Foi notícia na TV com gargalhada em todo o planeta - há sempre mais um!
Tudo aconteceu com a queda do governo de Vasco Gonçalves, iniciando-se assim outro ciclo, agora gizado para o saque que Vasco Gonçalves se empenhava em evitar. O resto, todos sabem o que sofreram na pele e continuam a sofrer. As nacionalizações de Vasco Gonçalves foram anuladas e substituídas por outras nacionalizações, estas pagas pelo cidadão para repor as quantias surripiadas dos cofres bancários que ficaram às moscas, E isto para evitar as falências, levando o país para o desastre inconfesso e ainda imaculado.
Paga o justo pelo pecador
Perante isto, o ícone-adivinho deve ter ficado orgulhoso pelo seu palpite, evitar a ditadura dos maltrapilhos e malcheirosos. Opções. Pergunta-se agora ao Bandarra moderno o que chama a isto que se está presenciando. Ilusionismo? Falperra? Democracia? Ciência? Drama?
Em tudo isto, só me admira a lata estanhada do ícone das ciências ocultas em aparecer à luz do dia; isto, se acaso ele próprio não estiver orgulhoso, É uma pergunta que fica no ar... há outras.
Não era, portanto, a nacionalização da Banca que também preocupa os berlusconistas, visto que agora é o governo, ele próprio, que nacionaliza a torto e a direito (chama ao Estado) e paga a conta dos roubos, a «dolorosa», só no esforço em pôr tampões (pensos higiénicos) contra a hemorragia de dinheiro, financiando, i. e., nacionalizando. Deduz-se assim que há nacionalizações e nacionalizações. Umas, para proteger da rapina as finanças pública, privada e aforros, para estancar na medida do possível os excessos da burla dos falcões em proveito próprio. Estas são as patrióticas. Outras, para repor o rapinanço inominável, instalado pela liberdade banqueira e democrática «quanto-basta». Tudo isto à conta do palpite do profeta e cartomante diplomado. O adivinho do palpite pode abrir banca na Feira da Ladra. Não era, portanto, a nacionalização em si que horrorizava os clássicos, Era, sim, de essas quantias irem servir o Povo e a Nação, o futuro de todos nós, E não os carteiristas de colarinho branco da nossa praça que se abotoaram com o que puderam, com a benção dos ícones assumidos e as escrupolosas sentinelas (Banco de Portugal) com a ajuda dos seus cruzados, derramando o dinheiro dos outros.
Ninguém foi preso
Com este fim, que é do conhecimento de todo o cidadão atónito, a figura de Vasco Gonçalves avoluma-se agigantadamente, Por isso foi incinerado seu nome, sua figura, seu tempo, ao ponto de, aquando da última celebração do 25 de Abril, haver programas televisivos em que o nome de Vasco Gonçalves nunca foi proferido... uma forma de fuzilamento da figura.
A sua virtuosidade sem mácula, tanto quanto a valores materiais como morais, tendo tido a humildade de por todos os meios de que podia dispor para manter a unidade dos militares de Abril, até ao ponto de, por vezes, passar por cima de algumas desconsiderações à sua pessoa, dizendo-me (em privado, modestamente), quando eu comentava o facto, que «Portugal e o espírito da Revolução estão acima da minha pessoa». Eu até podia citar nomes, e bem sonantes, mas se o fizesse não satisfazia a sua memória, mas tenho pena, até alguns declaradamente arrependidos com a mesma lata estanhada como se nada fosse... Caras de pau! Estou a vê-los.
Nestas palavras soltas sinto-me como se estivesse num serão em sua ou minha casa cavaqueando até às tantas, comentando com sincera vontade de tudo poder ser conseguido dentro dos parâmetros legais e justos. Portugal merecia. Para falperra, chega.
Anda cá abaixo ó Marquês... Socorro
O desaparecimento físico de Vasco Gonçalves foi sentido em todo o Portugal por todos aqueles que sonhavam numa Era de irmandade, de solidariedade, progresso. Lembrai o 1º de Maio do ano da Revolução. Quem nesse dia participou nunca mais se esquecerá e nunca mais irá assistir a um momento igual, que desfaz totalmente a ideia reaccionária de pensar que o povo não sabe de que lado está a honra, a verdade, o futuro da Nação. Isso sentiu-se, espelhou-se nos milhares de cidadãos que o acompanharam até à campa, na certeza que ficará na História e na memória de todos aqueles que acreditaram na sua imaculidade política e cívica.
Assim, o seu desaparecimento tem duas vertentes. Uma, física - a morte biológica; outra, a presença mental, sentimental, gratidão, que perdurará na História quando esta for escrita à distância dos factos.
Daqui cumprimento a minha querida Amiga Sra. D. Aida com o muito carinho que por ela sinto, bem como em relação a seus filhos Maria João e Vítor, que sempre os integrei na mesma amizade e respeito. Tudo forjado em sentimentos que perduram enquanto por cá andarmos.
Fernando Vieira de Sá
Lisboa, 11 de Junho de 2009

sábado, 23 de Maio de 2009

PARA A HISTÓRIA DA SOCIEDADE PORTUGUESA DE CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

Como complemento ao texto anterior, e por considerarmos ser um importante documento para a história da Sociedade Portuguesa de Ciências Veterinárias, publicamos hoje parte de uma longa carta (23 pp.) de Fernando Vieira de Sá dirigida, em 1997, aos seus colegas da SPCV.
Prezados Colegas da SPCV
Lisboa, 03 de Dezembro de 1997
Acuso a recepção da v. prezada carta-circular de 9 de Setembro que muito agradeço e à qual excepcionalmente vou responder.
Não é por qualquer espécie de sentimento de menosprezo pelos meus Colegas, nomeadamente os Corpos Gerentes da Sociedade, ou de indiferença pelo seu próprio destino, que desde há muitos anos me tenho vertido ao silêncio e à abstenção relativamente a toda a correspondência que me é dirigida veiculando informações e convocatórias de índole associativa o que, no íntimo, me sensibiliza sem contudo me atrever a dar azo a qualquer tipo de participação. Tal oportunidade é já para mim inviável.
Desta vez, porém, sinto que a presente carta-circular de 9 de Set. transuda grande e emotiva sensação de desânimo, seguida de apelo quase expressando uma despedida in articulo mortis, não sem antes antever a hipótese de uma milagrosa oblativa que - passo a citar - "permita melhorar o nível de adesão à SPCV", [cientes de que] "isso só será possível através de realizações que beneficiem os Colegas a ela associados".
Procura-se assim - continuo a citar - "a elaboração de um programa de actividades que melhor represente as preocupações e interesses dos Associados".
Perante tal depoimento, de cuja justeza de diagnóstico não duvido, mas não tanto das prescrições debelatórias do mal, hesitei muito (daí o atraso desta resposta) em, ao fim de tantos anos de afastamento, decidir-me tomar o tempo dos Colegas, no lúcido entendimento de que as opiniões de um octogenário bem medido, nada ou muito pouco poderem interessar a uma Direcção (ou seus representados) portadora de outras referências, alheia a tudo e a todos, que não sejam fac-símile da sua própria geração em processo de se converter no modelo cultural do homem do 3ºmilénio, cujo desabrochamento já se encontra em plena fase de mutação.
Ora, eu sou um espécimen genuíno do século XX, aquele século que, segundo o autor do livro A Era dos Extremos foi o mais curto de toda a vida da humanidade, já que começou em 1914 (tal como eu) com o eclodir da 1ª Grande Guerra Mundial e veio a terminar em 1991 com a queda do Muro de Berlim, dois marcos que alteraram irreversivelmente a vida e o equilíbrio do Mundo e dos povos, fazendo com que nada voltasse a ser o que era antes. Assim sendo, 77 anos da minha existência foram consumados e consumidos entre essas balizas cruciais - verdadeiro período em que se exibiram as mais eloquentes e dramáticas contradições de uma Era em extinção - o que leva a sentir-me já fora do meu habitat e, como tal, feito intruso no meio dos obreiros de uma sociedade empenhada na construção do Homem Novo, na esperança, talvez, de atingir a almejada robotização global de todos os comportamentos, dispensando os valores e os conceitos que moldaram o carácter da minha geração, que nada tem que ver com a perspectiva sumamente individualista, mecanista e consumista dos Novos Tempos, padrões estes que nunca me guiaram. Com esta diatribe não estou, nem a pôr Virtude na minha geração, nem Defeito na geração seguinte, mas apenas dizendo que são Coisas diferentes, que passaram a não poder ser equacionáveis dentro dos mesmos cânones valorativos das respectivas filosofias de vida e da sociedade. Hoje, vive-se a crise da transição. Dramática, porque já não se ajusta ao passado próximo, nem se comporta como uma consciência esclarecida frente à interrogação do futuro.
Face a todas estas adversas circunstâncias mandaria o bom-senso incitar-me a prosseguir o meu prudente e bem avisado silenciamento aos ecos vindos da Direcção da SPCV neste momento tão difícil da sua história. Contudo, ainda afeito aos sentimentos de solidariedade e associativismo que sempre cultivei, e ao meu amor e respeito que sempre devotei à Nossa Sociedade, levam-me a correr o risco de vos dirigir algumas palavras, honestamente sem a menor convicção do seu interesse prático... e até teórico, mas apenas para fazer sentir que os vossos esforços e empenhamento, na busca de soluções, são seguidos e agradecidos por muitos colegas que, tal como eu, depositam a maior confiança e esperanças nos guardiões das Ciências Veterinárias consubstanciadas nessa vetusta e centenária Casa de tão prestigiosa história agremiativa e interventiva. As minhas sugestões, portanto, só servirão para mostrar que nos obrigámos a pensar com a melhor das boas vontades, isto sem qualquer outra pretensão de conveniência ou auto-convencimento.
Desde ainda estudante olhei para a Sociedade com venerando respeito perfilando-se no meu imaginário como a Ara onde se sagrava a valorosidade das Ciências Veterinárias de criação portuguesa e custodiava todo o seu conteúdo intelectual e científico, constituindo-se em património de indelével importância no quadro da cultura e do progresso nacionais, e conquistado prestígio entre as suas congéneres das várias outras áreas científicas nacionais e estrangeiras. A SPCV legitima o direito ao respeito reclamado por uma classe profissional ainda mal avaliada pelos consensos das diversas elites intelectuais portuguesas. O seu desaparecimento ou extinção corresponderia a uma traição aos nossos antecessores, às nossas glórias, aos nossos Mestres, aos nossos vindouros. Ninguém merece tal desfecho. Nem nós próprios.
A classe veterinária sempre se mostrou com fraca apetência para o actus rerum, o que lhe tem trazido bastos prejuízos. Está, de um modo geral, longe do Terreiro do Paço e é pouco atraída para o Humanismo e para as Ciências Sociais na sua melhor asserção, o que não tem nada a ver com a política de cordel. Estas duas circunstâncias, a meu ver, têm-lhe sonegado oportunidades de ensaiar o visionamento grande-angular dos magnos problemas económicos, sociais e, genericamente, do desenvolvimento que toda a humanidade enfrenta e Portugal sente na pele como sarna canina.
O passado da SPMV/SPCV que vem desde o raiar do século, apresentava-se-me como um alfobre de glórias a que se juntaram momentos da maior relevância científica e nacional, e que na nossa Sociedade foram motivo de históricos debates que se repercutiram em positiva intervenção e prestigiante imagem junto dos Poderes Públicos.
A Sociedade tinha voz em muitas decisões do Governo no âmbito da sanidade, produção animal e ensino veterinário. Foi por assim dizer um órgão consultivo quase obrigatório do Governo. Tenho ainda na memória o nome desses ilustres Colegas e o enunciado dos problemas que os preocupavam que, sendo de índole veterinária, alargavam-se sempre aos campos da economia e das políticas de desenvolvimento a preconizar. Conheci tudo isso muito antes de me licenciar, já que tive a bem-aventurança de meu Pai ser agrónomo, formado pelo ex-Instituto de Agronomia e Veterinária e de muitos desses nomes ilustres, pessoas e assuntos fazerem presença na Casa Paterna.
No entanto, o que eu desconhecia quando assim pensava com a ingenuidade própria da juventude, era que no momento da minha licenciatura (1938) a SPMV vivia (ou vegetava?) uma dolorosa crise de enjeitamento, quase rejeição ou displicência. E, mais do que por qualquer outra razão circunstancial - que não vou descartar -, ter sido o seu encurralamento desamoroso num sótão escuro e poeirento da velha Escola em obras ocupando um tapume feito de portas velhas que o director da Escola condescendeu que aí se instalasse a enjeitada Sociedade, a Causa, como que a estocada misericordiosa do diestro, que levaria às portas da morte aeternum vale, essa relíquia. Quanto à actividade, essa roçava as raias do mais profundo dos comas, reduzindo-se praticamente à cobrança das quotas, que só se mantinha por abnegada e beática teimosia de um velho e modesto Cobrador (o Moreira) que foi o verdadeiro anjo da guarda, impoluto guardião dos valores patrimoniais da Sociedade, incluindo o dinheiro colectado (dos que pagavam, já que os barões se sentiam desobrigados dessas mesquinhezas) que os membros da Direcção recusavam aceitar das suas mãos e que por isso o modesto funcionário guardava debaixo do colchão como cão de fila. A este heróico funcionário talvez se tivesse ficado a dever a sobrevivência da Sociedade até que a superação da crise fosse conseguida... não por causa desses "gestores", mas apesar deles.
Com efeito, por inimaginável que possa parecer, o presidente da direcção da SPCV de então era, simultaneamente, o director da Escola Superior de Medicina Veterinária. Um professor. É difícil admitir, mas aconteceu. Com esta denúncia só peço que "não se tome a nuvem por Juno". Só aconteceu. Há sempre um "Acontece", como a nódoa que cai no melhor pano.
Por essa época formava-se uma geração de veterinários disposta a desencalhar esse velho símbolo que a Sociedade ilustrava - qual cruzador Adamastor, mito representativo do Ultimato de 1890 que ofendeu e humilhou Portugal. Heroína, também, desse sentimento patriótico rendido à erudição, houve que chamá-la de novo à procela das Ciências da Veterinária, o que foi feito numa operação surpresa, a que se poderia dar o nome de "força de intervenção" embora pacífica mas denunciadora da situação, ilustrada com a fotografia das vergonhosas instalações, legendando-se "A FOTO DA VERGONHA", a qual foi tomada com cumplicidades várias e absoluto segredo. Com ela sai um MANIFESTO exortando à ajuda moral e material de todos os veterinários de norte a sul, ilhas e ultramar para que rapidamente a Sociedade possa recuperar a dignidade perdida. Foi a pedra no charco. O brio e o orgulho da classe despertados. Um grande movimento nasceu. Uma subscrição entre colegas rendeu o suficiente para a Sociedade se instalar no Largo do Chiado em confortáveis dependências da Associação Central da Agricultura Portuguesa, mediante a respectiva renda, e pudesse adquirir todo o mobiliário condizente. Esta resposta não tinha nada que ver, e até se contradizia, com as votações do "Sim" ou "Não" nas AG (a que nunca assisti por discordância absoluta do referendo) quando se pôs o dilema "Sociedade versus Ordem/Sindicato" com o resultado favorável à segunda. É que uma coisa era a Classe - todos os veterinários - outra coisa eram as AG mais sensíveis, sobretudo à Ordem, vendo nela apenas uma conquista social, como então era vista a sua falta considerada discriminatória em relação à existente Ordem dos Médicos. Por isso a exigiam. As AG eram na realidade a expressão de uma minoria. E a prova foi eloquente sem lugar a dúvidas e especulações. Ninguém ia dar dinheiro por uma coisa que votava à extinção.
Houve quem não gostasse e se sentisse enxovalhado por fedelhos desrespeitosos e mal comportados e acusados de violadores da porta do "reduto". Mas, não foi só por isso. Iniciou-se a campanha da actualização de quotas atrasadas - em muitos casos vários anos - (e não eram os mais anónimos que o faziam) e a entrega imediata dos livros da biblioteca, em grande parte retirados sem requisição, mas que o velho funcionário registava discretamente na sua escrita. Assombrosa dedicação...
Por estas e por outras, que não vêm ao caso, este período foi alvo de um certo branqueamento de dupla finalidade: minimizar a importância dos factos; reduzir ao anonimato os tais fedelhos, que os próprios promoviam para retirar aos factos qualquer carácter de imaturidade. Por isso, esses mesmos fedelhos trouxeram para a sua "Causa" um Professor, figura de proa e respeitado que aceitou a sua candidatura a Presidente da Sociedade. Os fedelhos não lutavam por penachos.
De 1943 a 1945 as receitas subiram 40% o que se ficou devendo, não só a uma significativa entrada de sócios, como à cobrança de quotas em considerável atraso, como se houvesse duas categorias de sócios, ambos com os mesmos direitos: os sócios que são sócios e os sócios que não são sócios. Estes últimos, os dignitários; os outros, a patuleia. Desrespeitosamente foram caçados privilégios que, sem terem jamais sido conferidos por alguém, foram assumidos por muitos, ou por hábitos de inveterado desleixo, ou por deliberada intenção por se considerarem com direito a pôr e dispor da Sociedade, recebendo tudo sem dar nada.
Estava instalada a confiança e crescia o entusiasmo e a esperança.
Aprofundaram-se os contactos com a Guiné, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Macau, Timor e Ilhas. Em todos estes territórios encontrou-se um delegado ad hoc para representar e dinamizar na região as actividades da Sociedade, captando novos membros, recolectando as quotas e angariando colaborações para a Revista, dando informações de foro veterinário. Abre-se uma delegação no Porto onde existia um importante núcleo de colegas com grande iniciativa, trabalho científico, experiência e espírito colectivo. Revigoram-se as relações com outros países, sobretudo Brasil e outras Sociedades. Expande-se a permuta da Revista com outras congéneres estrangeiras, incluso a China, Japão, etc. Comemora-se (em 1952) com grande comparência de colegas o cinquentenário da Sociedade com um rico programa de actividades - visitas de interesse profissional, conferências, convívios, banquetes, etc. - tendo-se publicado um número especial da Revista (nº 342-343) [Revista de Medicina Veterinária - Órgão da Sociedade Portuguesa de Ciências Veterinárias, Vol. XLVII, Julho-Dezembro de 1952. Passou a Revista de Ciências Veterinárias em Janeiro de 1953]. Remodela-se a Revista com novas rubricas e actualiza-se a sua publicação atrasada de alguns anos. Fazem-se novos estatutos, nascendo a Sociedade Portuguesa de Ciências Veterinárias, dando assim mais coerência ao título de Sociedade tendo em conta as actividades dos veterinários fora do ramo estrito da Medicina, mas dentro das competências curriculares da sua licenciatura, campo em que muitos exercem a sua actividade profissional (leite, carnes, lãs, curtumes e pescado). Elegem-se destacadas personalidades portuguesas e estrangeiras sócios honorários, tais como: Prof. José Miranda do Vale, único sobrevivente fundador da Sociedade e figura de grande prestígio; Prof. José Maria Rosell, lactologista de renome internacional que em Portugal, a convite do Director-Geral dos Serviços Pecuários, leccionou cursos de especialização leiteira a mais de duas dezenas de veterinários; Prof. Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina. Tudo iniciativas que nunca tiveram nada a ver com condecorações oficiais em praça pública ou com salamaleques a ministros.
Com esta rapidíssima e sumária revisão sobre os acontecimentos ocorridos em escassos cinco ou sete anos, quem poderá imaginar que dez anos antes (1934) a Sociedade estava votada à dissolução por uma votação em AG da Sociedade na alternativa Ordem/Sindicato? Como se fossem instituições intersubstituíveis? Como se fosse a mesma coisa um Órgão Corporativo, obediente e submisso às regras do estado e uma Associação livre, de expressão científica, de discussão aberta sem tabus políticos e medos policiais? Era a época. A mesmíssima época contemporânea daquel'outra em que aqui ao lado as tropas de Franco, os "Carlistas requetés" berravam a plenos pulmões "viva a morte, abaixo a inteligência" e cá se encerrava a Escola de Magistério Primário por falta de candidatos, num país com 30 ou 40% de analfabetos e quando em muitas escolas primárias era o "regente de ensino", um indivíduo apenas com a 4ª classe, o leccionador. O que interessava uma Sociedade científica a menos?
Não falo da Ordem ou Sindicato agora integrados no regime democrático e que nada têm que ver com o passado. Mas falo da Sociedade como instituição cultural, sempre livre, sempre expressando o pensamento colectivo dos seus membros. Agora como antes.
A Ordem e o Sindicato hoje são órgãos de Classe respeitáveis e indispensáveis ao exercício da democracia, disciplina e ética de classe e defesa dos direitos profissionais. O processo evolutivo e transição de um regime para o outro nem sempre tem sido fácil e rectilíneo, mas está em boas mãos, e eu acredito que a Direcção actual - para só falar desta - terá todo o apoio e confiança da Classe Veterinária para que a SPCV continue a cumprir os seus mais altos desígnios.
Na minha opinião a crise da Sociedade é mais um fenómeno cíclico que uma calamidade sem solução.
No escalpelamento, embora superficial, que fiz da crise de quarenta - que me atrevo afirmar ter roçado as raias do abismo - ficou claro não ter sido o recurso a "realizações que beneficiem os colegas" que fez melhorar o nível de adesão à Sociedade, só porque não era o problema do número de sócios o maior responsável da situação, mas sim o de fazer ressuscitar o perfil de dignidade e respeito esquecidos da nossa única colectividade científica que o desgaste do tempo foi deixando atenuar-se, por demasiado saprofitismo sobre a memória das glórias do passado em prejuízo da construção do futuro, como se essas tais glórias fossem obrigadas a suportar as insuficiências e incapacidades presentes.
O problema não está, portanto, a meu ver, em inventar benefícios para aliciamento de sócios, como se se tratasse de uma promoção comercial. O problema está em sensibilizar todos os protagonistas das Ciências Veterinárias para o amor próprio e colectivo pelas suas realizações e progresso na defesa da economia nacional e da saúde pecuária e humana, posturas que não se revêem nas imagens do tipo de veterinários emprestando a imagem e o título para reclamos de comida para o cão.
Evidentemente, há que captar mais sócios, mas também há que actualizar conceitos a começar pelos próprios estatutos que terão de ser remodelados, não na continuidade dos espartilhos de "madame" modelo "Arte Nova", mas de acordo com as transformações operadas desde a própria profissionalização das Ciências Veterinárias num sistema diferenciado de licenciaturas, até às adaptações provenientes do alargamento da inter-acção das instituições nacionais, comunitárias e outras estrangeiras, nomeadamente, no âmbito da lusofonia, por forma a posicionar a SPCV nos fluxos da cooperação em programas integrados da informação e da sua projecção como entidade presente, activa e capacitada dos seus membros como intelectuais, como cientistas, como cidadãos do Mundo, atentos e críticos. É altura de esquecer as "Conversas em família", lembrando os velhos tempos da "Primavera Caetanista", em que mudando o nome, se fica sob a mesma nirvânica infalibilidade do statu quo.
[...]

sábado, 18 de Abril de 2009

SOCIEDADE PORTUGUESA DE CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

POR MOR DE UMA DIGNIDADE EM RISCO




NOVOS «JOVENS TURCOS»



PRECISA-SE

«Funérea campa com fragor rangeu»




é logo o que aflora à mente, soletrando com emoção a trágica lírica de Soares de Passos de seu livro Poesias (1865), ao ouvir por casualidade que a Sociedade Portuguesa de Ciências Veterinárias (SPCV) teve ordem de despejo da sua sede, ocupando uma área da antiga Escola Superior de Medicina Veterinária (desactivada) em favor do alargamento das instalações contíguas da Polícia Judiciária, tendo dois meses para empacotar os seus pertences a fim de serem armazenados num cubículo, cedido como esmola sem motejo da consciência de quem quer que seja, na nova agora Faculdade, à laia de purgatório sem data para exumação, recaindo fatidicamente em idêntica fossa de onde saíra há mais de 60 anos, jazendo então num sótão entre tabiques feitos de portas velhas do edifício em obras de acabamento e para onde fora chutada em tempos de anemia social por força da castração ideológica e cívica que muitos conheceram na pele e ficaram baptizados, o que foi a sorte, face ao que se passa na actualidade. A História repete-se. É um pouco o que dizia Brito Camacho, sempre sarcástico: «As cadeiras são as mesmas, os c.. é que variam».
Valeu o acaso de uma nova geração recém-diplomada ter sabido do atentado quando alguns desses jovens pretenderam inscrever-se sócios, como sendo um dever ético e complementar, logo despertando a obrigação de lançar um Manifesto, com fotografia do antro (só assim se acreditava) - fotografia captada por fotógrafo profissional, às escondidas e em horas mortas. O perigo era a denúncia (nunca descartável) e as consequências pidescas, que as havia em toda a parte, mas tinha-se de correr o risco. A mocidade é heróica, o que lhe dá beleza -, a delapidação dos valores morais e históricos que o casus belli espelha, apelando à consciência de classe, ao decoro, à decência, ao pudor e à impossibilidade de funcionamento e delapidação dos valorosos objectivos da instituição, iniciativa que, levando o caso para a chalaça, alguém baptizou de movimento dos «Jovens Turcos», de que fala a História Universal (Novos Otomanos, 1865), revolucionários intelectuais turcos lutando por novo espírito e Nova Ordem, outras perspectivas de vida e outra consciência de cruzada, que é tudo quanto o caso presente alveja. Em boa verdade os barões da Classe não aprovam e classificam-na de desordeira e desrespeitosa face aos egrégios vultos mais visíveis e ao catecumenato da doutrina oficial. O antro não é desrespeitoso? - pergunta-se.
Da denúncia resultou um renascer da actividade que bem pode espelhar-se nas comemorações do cinquentenário da Sociedade que se retratou no volume especial da Revista de Medicina Veterinária (Julho-Dezembro 1952, nº 342-343) [ler também F. Vieira de Sá, Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», pp. 61-64], onde entre muitas iniciativas se regista a subscrição, aberta entre veterinários, que ultrapassou todas as expectativas e que permitiu a compra de móveis para a nova sede em dependência alugada à Associação Central da Agricultura Portuguesa, no Largo do Chiado, em edifício que ocupa toda a frente do fundo do largo (2º andar) e, posteriormente, em idênticas cláusulas, na Rua D. Dinis - nº 2, ao Rato, com entrada privativa. A subscrição totalizou a quantia de 12 333$40 (cerca de 4.000 euros, para os valores de hoje, segundo tabelas do Banco de Portugal), o que para o tempo e as circunstâncias foi empresa inusitada.
Mas, só como exemplo, cita-se ainda: as receitas da Sociedade, que se saldavam em 18 contos (1937), subiram a 96 contos (1945); as despesas com a revista, no mesmo período, foram de 6 e 32 contos, respectivamente.
Não seria justo silenciar um gesto de alto significado e até inesperado, cheio de sentimentos de grande simbolismo que é possível contemplar e que se deve à memória do veterinário José Maria dos Santos [JMS], cujo testamento (cfr. em site que indicamos mais à frente) é um exemplo da sua bondade e escrupulosidade, difícil de ultrapassar em bons sentimentos. JMS foi um dos fundadores da SPMV

sendo ainda um jovem profissional que, aliás, exerceu durante escasso tempo, o que não o impediu de ficar no Quadro de Honra de Civismo da Classe só por essa iniciativa, pois casara-se com uma pequena proprietária agrícola, fazendo desse embrião uma fortuna calculada em 10.000 contos (1913) e propriedades que se estendem por uma área superior a 40.000 hectares, qualquer coisa como 400 quilómetros quadrados de terra (não se trata de latifúndios, mas de desenvolvimento produtivo: o maior olival do mundo, a maior vinha do mundo, etc. Eu próprio conheci Machados, Rio Frio, o mesmo é dizer o maior olival e a maior vinha do mundo, respectivamente.
No site que abaixo indicamos, e que recomendamos a consulta, lê-se o seu assombroso testamento, não esquecendo todos os seus parentes e colaboradores de todos os níveis. Entre estes herdeiros um deles de primeira linha de geração, que já não recordo o nome, foi quem subscreveu a maior e invulgar dádiva, justificando-a, dizendo ser uma forma de homenagear a memória do seu antepassado, numa carta que dirigiu à Sociedade. Ele, se fosse vivo, faria o mesmo, sem sombra de dúvida, afirma.


Na presente deplorável conjuntura vista por qualquer prisma, não se deveria conceber ocultar e não discutir a decisão de expulsar a Sociedade da sua casa, pois essa propriedade pertence ao Ministério da Educação e, ainda por cima, mantendo o vínculo na Veterinária que sempre serviu, quando a Judiciária está vinculada ao Ministério da Justiça, consequentemente a outro património. Nada, portanto, justificaria a anexação, como se fosse o corredor de Danzig e a sua brutal ocupação pelas tropas nazis... todos se lembram, sem saudades. No presente caso é a comodidade e o espaço desejável à Polícia que tem prioridade. À luz da razão e dos valores em causa é um atentado à lei do mais forte para atender à comodidade alheia, pois na prática a SPCV - que é Científica, não de Recreio - é que vê a sua actividade paralisada por tempo indefinido, talvez para sempre, o que significa um enxovalho à cultura, o que não se admite num país que pretenda ser civilizado e culto. Tudo isto cheira a Terceiro Mundo, a indiferença, a falta de sensibilidade. Mas a polícia já pode espanejar-se. Um grande avanço no progresso da Pátria. É notícia de TV.
Tudo isto que aqui se escreve constituiria com a maior das facilidades o peso e qualidade dos argumentos para discutir em qualquer tribuna ou praça pública. Porém, a verdade é que tudo correu na maior indiferença, ou, pelo menos, silêncio e mansidão, o que resultou num vexame de um enterro culminando na vala comum, como produto fora do período de validade.
Teria sido mais nobre a investida de quaisquer novos «Jovens Turcos». Talvez os resultados tivessem sido diferentes. E que não fossem, pelo menos era um julgamento público, a verdade sabida para quem a má consciência não gosta e lhe chama arruaça, pé rapado e outros mimos.
Não culpo pessoas, que passam. O que fica é que é emblemático - a entidade -, neste caso a Universidade, pendor de Cultura, pólen da Ciência, à qual se exige alargar a cátedra ao palco da vida e mais sensibilidade.
A profissão veterinária sem uma vertente de intervenção científica associativa actuante, não passa de uma profissão de alveitar. É isso que se quer? Há que meditar. E, para isso, é preciso honorificar as suas instituições. Não se confunda Sociedade Científica com Ordem ou Sindicato. São coisas diferentes, não são intersubstituíveis. A SPCV é a cátedra superior de respeitabilidade que a Classe exige e a que tem direito.
Justificar-se-ia um amplo debate de toda a Classe sobre esta delicada situação: a SPCV encaixotada sine die. Que futuro? Há que reflectir. Há que acordar. Ninguém o faz por nós.

F. Vieira de Sá
Lisboa, Abril de 2009
Agradecemos ao Eng. Ruy Paiva e Pona a preciosa colaboração que prestou ao indicar-nos o texto que o leitor pode encontrara no link acima referido.

sábado, 14 de Março de 2009

BERNARDINO MACHADO

Daqui saudamos vivamente o aparecimento do blogue «Bernardino Machado», da autoria de seu neto, o nosso ilustre e grande Amigo Dr. Manuel Machado Sá Marques, prefaciador do livro Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos». Nesta obra, Fernando Vieira de Sá, nas pp. 135 e ss., fala-nos emocionadamente do encontro e da «conversa inesquecível» que manteve, em Mantelães, com o Presidente Bernardino Machado.

domingo, 8 de Fevereiro de 2009

«OPERAÇÃO DULCINEIA» - O ASSALTO AO «SANTA MARIA». CATORZE DIAS QUE ABALARAM SALAZAR E SURPREENDERAM O MUNDO


O assalto ao Santa Maria, em Janeiro de 1961, visto por Fernando Vieira de Sá a partir do México, é um dos capítulos incontornáveis do livro Ecos do México - Da História e da Memória, pp. 195-218, cuja leitura hoje sugerimos. Deixamos aqui uma pequena citação (p. 203) a propósito: «Nesse dia 24 de Janeiro de 1961 toda a imprensa mundial sacudiu o mundo com a notícia de oito colunas de um acontecimento tão inédito quanto insólito: o assalto em alto-mar a um transatlântico quando este sulcava majestoso as tíbias e plácidas águas antilhanas a caminho do seu destino: Flórida e depois Lisboa. Mais inédito e mais insólito ainda, por esse feito já ter sido consumado ao alvorecer da madrugada de 22 de Janeiro, só se tornando conhecido, logo à escala mundial e de chofre, na manhã de 24.
O tal transatlântico era, nem mais nem menos, o Santa Maria, de bandeira portuguesa, a "menina dos olhos" da frota mercante de Portugal.»

quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

MARIA ELVIRA [1917-1999]

No dia 5 de Fevereiro de 1917, faz hoje 92 anos, nasceu em Lisboa Maria Elvira Andrade Mendes de Magalhães. Para assinalar a data, aqui deixamos as palavras de Fernando Vieira de Sá a pp. 42-43 de Viagem ao Correr da Pena e o registo fotográfico da singela homenagem que se fez nas pp. 48 e 49 dessa mesma obra.

«A minha sorte, porém, vinha sendo construída desde há muito mais tempo e penso muitas vezes: o que teria sido eu, ou o meu percurso, sem essa incomparável companheira que foi de todas as horas, cuja influência tão delicada e sábia não se fazia sentir, mas definitivamente actuava sempre com inteligência, bom-senso, humanismo, bondade e concórdia? Todos os que a conheceram e com ela conviveram nas mais diversas oportunidades a admiravam [...]. Quando, por excepção, [ocorria] algum daqueles vulgares atritos susceptíveis de criar cenários ou relacionamentos menos claros com as pessoas, Maria Elvira superava-os, voando muito mais alto, mostrando o seu distanciamento com a maior discrição, mas também com o seu grande carácter de mulher sensível, sem nunca deixar de manifestar a sua peremptória personalidade. A sua presença era, simultaneamente, a distinção de mãos dadas com a afabilidade. Renegava a idolatria. Não sei o que seria, mas não seria eu, nem nada de melhor. Se hoje me sinto realizado com aquilo que pretendi fazer nesta viagem pela existência a ela e só a ela o devo.»

quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

JURAMENTO DE HIPÓCRATES

Dando seguimento às palavras de ontem sobre o Dr. Monteiro Baptista, publicamos hoje o texto de Fernando Vieira de Sá que faz parte (pp. 37-42) do livro Homenagem a Dr. Luís Manuel Monteiro Baptista - Dos seus amigos e admiradores, oferecido por ocasião do seu 75º aniversário, no dia 3 de Fevereiro de 2001. Reproduzimos ainda o retrato que João Abel Manta realizou para a circunstância daquele aniversário e que abre o referido livro de homenagem.

«João Abel Manta; retrato original do Dr. Monteiro Baptista, realizado para a circunstância do seu 75.º aniversário»

«Não sei se alguma vez - ou, pelo menos, na Era Moderna - o Juramento de Hipócrates constituiu (ou constitui) norma de acto público obrigatório para que o candidato ao exercício profissional da medicina a pratique de pleno direito, empenhando a sua honra, probidade, consciência e outros meritórios atributos; ou se, pelo contrário, tais requisitos não passam de uma alegoria para -não obstante o cerimonial normativo não fazer presença física - chamar, mesmo assim, a atenção à implícita obrigatoriedade de cumprir as prerrogativas para as quais o mesmo faz apelo.

Para mim, as duas hipóteses têm o mesmo valor:

uma, é espectáculo; a outra é um estado de espírito.

A primeira, amplamente desacreditada; a segunda, expressa pela evidência - a prática em si mesma, o que significa que nenhuma delas se torna necessária, já que a consciência, a honra, a probidade, etc., etc., não surgem nem se alteram na sua génese por simples jura, pois que, se não houver a dita consciência, a dita honra, a dita probidade à partida - intrinsecamente existentes nos cromossomas - jamais existirão depois. E o espectáculo muito menos o consegue.

Veja-se, por exemplo, as múltiplas vezes a que se assiste nos écrans da TV a juramentos de honra com a mão solenemente espalmada sobre a Bíblia, sobre o Corão, sobre qualquer Constituição de Estado, ou até contra o peito em gesto de entrega dadivosa dos mais nobres sentimentos que trespassam o coração e a mente, e aí, logo aí, já os actores se estão traindo sem pejo, mesmo sabendo que todos sabem do perjúrio. E quem o faz? Não é nenhum anónimo cidadão. Não, são altos dignitários que até se julgam donos do Mundo e juízes em causa alheia.

Apesar de tudo, não se pode jamais ignorar o Juramento de Hipócrates como ponto de referência, não só para médicos, como para todos aqueles a que muita da doutrina nele contida é aplicável na conduta do Homem perante a Sociedade e a sua própria consciência.

Mas, quem foi Hipócrates? Cognominado «O Grande» por Platão, "O Divino" por Apolónio, "O Admirável Criador da Beleza" por Galeno, Hipócrates foi o primeiro construtor e arquitecto da medicina como ciência e como prática, segundo o pensamento racionalista. Mas, também foi um humanista de grande vulto, um observador atento da natureza humana, um "viandante colhendo experiência e sabedoria", um investigador sobre as causas próximas e remotas dos males expressos por sinais discrásicos do corpo, relacionando-os com o ambiente e os elementos exteriores, o que significa dizer ter descoberto a "Ciência do diagnóstico", ou seja, a arte, a intuição, a inteligência e a mais importante e difícil de toda a prática da medicina, pois sem um diagnóstico seguro, a cura é aleatória e, se errado ou tardio for feito, poderá ser fatal e a medicação será sempre sintomatológica.

Este intróito, por descabido que pareça, pois dá a impressão de querer "ensinar o padre-nosso ao vigário" é, no entanto, essencial para poder caracterizar Monteiro Baptista, com mais correcto abrangimento e precisa dimensão, colocando-o na órbita de um seu predecessor, não por juramento, mas por sua própria essência. Este procedimento por ser eu a adoptá-lo pode não merecer o crédito de muitos críticos. Contudo, tenho a convicção que dificilmente ele será contestado por toda a multitude de pacientes que Monteiro Baptista atendeu e tratou, muitos deles livrando de sofrimentos e sombrias - por raras ou complexas - patologias, algumas delas bem mais próximas da morte, do que da vida. Esses, sim, me apoiarão as vezes que forem precisas. Escuso de perguntar-lhes. Sei.

Terá Monteiro Baptista feito, ou apenas lido em voz baixa, o Juramento de Hipócrates? Não sei, nem isso é relevante. O que é importante afirmar sem receio de desmentido, é que no citado juramento, não há uma única ideia, uma única acção, um único conselho, uma única expressão humanística que Monteiro Baptista não tenha praticado, sem nisso ter empenhado toda a sua diligência, abnegação e espontaneidade que só a natureza íntima do seu carácter pode garantir sem recurso a qualquer jura.

Como tal, o histórico e paradigmático juramento que é, em última análise, uma peça de autêntica apelação à integridade moral, cívica, profissional e irrepreensibilidade de obediência aos códigos éticos que regulamentam as suas práticas, representam para Monteiro Baptista, sua categórica natureza de homem e cidadão, plasmada numa modéstia comovedora e reluzente de uma grandeza cristalina.

Em conclusão: Hipócrates "O Grande" ou "O Admirável", como foi chamado, foi o iniciador da prática científica da medicina e o descobridor da arma mais valiosa do seu exercício - o diagnóstico - como método de pesquisa e avaliação das causas remotas da doença; o humanista ao serviço da dor e da vida; e o renovador da mentalidade corrente do seu tempo, rejeitando as crenças e magias como meios de cura, criando e desenvolvendo o método científico e dialéctico, fundando assim as bases da medicina moderna. Pela mesma época Esculápio, chamado "o patrono da medicina" ainda se fazia acompanhar da serpente tida como zeladora da saúde, tal como hoje ainda se acendem velas aos santos pedindo curas ou agradecendo-as aos deuses, tendo passado, entretanto, 2500 anos.

A "decalage" no tempo que separa Hipócrates dos nossos dias, não permite comparações para além de meras consensualidades de princípios, lógicas e racionalismo que no diagnóstico atinge a sua maior marca, fundamentos que, por si só, justificam que se possa concluir:

SE HIPÓCRATES FOI "O GRANDE" MONTEIRO BAPTISTA

É O SEU VIVO E ACABADO EXEMPLO

Não quero terminar este depoimento que escrevi por constrangimento, criado pela ausência, de não manifestar exactamente como sinto este solene momento de consagração de um homem que, além de tudo, é um amigo, benesse que fiquei devendo ao 25 de Abril que nos aproximou e irmanou nos mesmos ideais e que, ao contrário de outras conquistas que a Revolução nos trouxe, esta foi irreversível.

Nesta sequência é imperativo da consciência alargar esta homenagem a outra figura que é parte integrante e conteúdo intangível da pessoa em foco, sobretudo levando em linha de conta de querermos festejar o seu septuagésimo quinto aniversário de nascimento. Refiro-me à Dra. Georgette Banet, sua mulher e também distinta médica.

Para além disso (agora em cenário de maior irmandade), Georgette é, em todos os vectores da sua personalidade, o prolongamento substantivo de Luís Manuel. E, neste contexto, gozar a delícia do convívio que sempre é oferecido no seu lar a todos os amigos que a ele se acolhem ao calor de uma hospitalidade sem rebuço, e uma camaradagem de fraterna comunhão de pensamento é um privilégio, e, desde logo, uma reconfortante paragem no tempo e um rejuvenescedor alento. E Georgette, na sua nata delicadeza feminina com fímbrias da "La Douce France", donde descende, é sem dúvida alguma a referência mais importante a considerar e enaltecer quando se palpita ao redor da vida do

Dr. Luís Manuel Monteiro Baptista

que abraço pelo grande dia 3 de Fevereiro de 2001

e ambos felicito.»

terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

MONTEIRO BAPTISTA [Lisboa, 3-II-1926; Lisboa, 16-V-2007]

Faz hoje oito anos, um grupo de amigos e admiradores do Doutor Luís Manuel Monteiro Baptista festejava com alegria e fraternidade os seus 75 anos, reunindo num jantar a que não faltaram todos os ingredientes de uma festa de alto sentimento de admiração e gratidão que se transmudam em respeito e sincera expressão do muito que lhe ficaram devendo de dedicação pelos seus pacientes que logo se convertia em amizade respeitosa e sentimento de confiança quando o sentiam à cabeceira do leito, nem que fosse alta noite, deixando por vezes de sair de Lisboa no fim-de-semana quando o estado de algum doente o preocupava, podendo necessitar de alguma urgência.

Não é fácil esquecer ou minimizar este grande vulto da medicina de tão altos sentimentos humanos com que honrou uma profissão que tanto enobrece quem assim a pratica, o que me inspirou a escrever o depoimento que fez parte de um volume com depoimentos de outras presenças nesse jantar.

Este apontamento tem por fim reavivar em todos nós a sua memória para que se mantenha forte a chama do seu exemplo e para que os vindouros também se possam enriquecer com tão altos exemplos.

Estou seguro que aqueles amigos, muitos deles colegas de profissão, participaram no jantar e traduziram o seu sentimento na mensagem fixada no livro de homenagem publicado e que todos guardam, estão sentindo também tudo quanto aqui se escreveu, o que me conforta. «Amigos do meu amigo, meus amigos são», assim diz o ditado. E assim sinto neste momento de saudade. A todos abraço no mesmo crer com que sentimos a vida, a existência, a paz universal.

Fernando Vieira de Sá

Lisboa, 3 de Fevereiro de 2009

domingo, 1 de Fevereiro de 2009

A «NAU PORTUGAL»

A história da construção da Nau Portugal para a Exposição do Mundo Português [1940], sob projecto de Quirino da Fonseca, do desastre ocorrido no dia do bota-abaixo, presenciado por Fernando Vieira de Sá, Maria Elvira e um grupo de amigos, e do derradeiro golpe de misericórdia dado pelo ciclone de Fevereiro de 1941, é relatada nas pp. 138-145 do livro Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos» e é, nas palavras do autor, «o fac-símile das enganosas políticas que têm levado Portugal ao último grau de desenvolvimento dos países da Europa e muitos outros.» Uma leitura, ou releitura, que se aconselha.

sábado, 31 de Janeiro de 2009

RECORDANDO «LISBOA EM CAMISA», UM COMENTÁRIO OPORTUNO A PROPÓSITO DO DESENRASCANÇO NACIONAL

Recebemos para publicação no blogue mais um texto do incansável e muito atento Vieira de Sá, desta vez em torno do tema do, genuinamente nacional, desenrascanço. Ocasião também para recordar um dos seus livros, a que vale sempre a pena regressar, O Leite em Lisboa - História do Seu Abastecimento, editado em 1991, e para darmos uma espreitadela a um excerto de uma carta do Padre António Vieira e à deliciosa história humorística da cabra que um lisboeta instalou nas águas-furtadas de um prédio da baixa pombalina contada no Lisboa em Camisa, de Gervásio Lobato. Ocasião sobretudo para reflectir sobre os eternos problemas, de ontem e de hoje, que afectam a Cousa Pública nacional.
Aproveitamos para renovar o pedido de intervenção a todos quantos, com os seus comentários, queiram participar activamente neste blogue. Ficamos à espera e, desde já, muito agradecidos a todos os que aqui venham partilhar reflexões. OBRIGADO.


Foto das pp. 170 e 171 de Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», onde se refere o livro O Leite em Lisboa - História do Seu Abastecimento.

A propósito de um caricato episódio que relato em posfácio do meu livro O Leite em Lisboa - História do Seu Abastecimento [Lisboa, Clássica Editora, 1991], que se ocupa da história do abastecimento de leite à cidade, e onde se faz a resenha de uma longa lista de diplomas oficiais e resoluções da Câmara Municipal de Lisboa, cobrindo um período que vem desde 1830 a 1990, esbarra-se com um quadro metendo altas entidades oficiais e universitárias, talvez gerador de incredulidade se não fosse confirmado tim-tim por tim-tim documentalmente. Não sendo assim, poder-se-ia pensar tratar-se de plágio de Gervásio Lobato, comediógrafo e evocador dos costumes lisboetas, em que se destaca o episódio humorístico relatado no seu livro Lisboa em Camisa (a sua obra, de 1894, mais reeditada), onde a dado passo um lisboeta é forçado a comprar uma cabra, levando-a para as águas-furtadas do prédio onde vivia, na baixa pombalina. E para que o animal não estranhasse cobriu o chão com uma alfombra verde a sugerir um relvado. Já nesse tempo se lutava contra a precariedade na procura de leite, sendo o de cabra o mais consumido.

Passaram entretanto 120 anos e, contudo, em termos de desenrascanço - que é o que está em causa -, embora dentro de outro contexto mais complexo, implicando autoridades oficiais e académicas, inspirado no título de Gervásio Lobato, e embora não se trate de um livro mas tão-somente de um apontamento, lembrei-me de lhe dar o título de Lisboa em Tanga, usando a imagem que reflecte a penúria dos tempos, o que aliás não se trata de uma invenção minha, pois um Primeiro Ministro deste reino, há alguns anos, usou essa indumentária como vestimenta adequada aos habitantes de Portugal, e que eu agora adequo à capital denunciando um quadro verídico descrito em posfácio a que dei o nome de «Cesse tudo quanto a musa antiga canta».

Todo este intróito, que me pareceu necessário, vem justificar a justeza de um comentário feito pelo Padre António Vieira numa carta dirigida a Duarte Ribeiro de Macedo (diplomata e escritor, 1618-1680), datada de 5 de Setembro de 1678, que reza assim: «De resto, os portugueses não são apenas brandos no castigo dos crimes e delitos. São também excessivamente brandos na execução das leis que se elaboram, mas poucas as que se cumprem, ou por falta de persistência, ou por espírito de favoritismo. Os portugueses fazem quase sempre política pessoal. Querem Deus para si e o Diabo para os outros. Às vezes o mesmo indivíduo, que ontem aprovava uma lei, já hoje a repudia e não lhe obedece, porque ela o atinge.»

Já lá vão trezentos anos. Temos todos os recordes de conservadorismo... recorde-se BOTAS.

Todos estes fenómenos são conhecidos. Actualmente tudo se aperfeiçoou teoricamente, legislando-se para haver um Tribunal Constitucional para analisar os conteúdos legais no sentido da sua constitucionalidade.

A verdade é que, com uma frequência crónica, e porque não é obrigatória a análise prévia sobre a constitucionalidade dos textos, às tantas todos discutem a constitucionalidade do preceito. E só por exaustão é que se recorre ao parecer idóneo em sede própria (Tribunal Constitucional). Mas também pode acontecer o assunto ser resolvido a favor do mais forte, mais importante, mais altivo e pretensioso, e ninguém fala em Tribunal Constitucional, porque cada um quer ter razão... e ponto final. E, por vezes, o erro vem logo desde o alvor do processo que, em vez de começar pela consulta em sede própria, decide de cima do seu púlpito que, nesse caso, é como se fosse o tribunal. Tudo ao arrepio da Lei.

Conclusão: 1º - estamos como em 1678 por direito consuetudinário; 2º - a maior aptidão do governante ou dirigente da Cousa Pública é o desenrascanço. Escuso-me a dar exemplos, mas que os há, há.

Em Portugal, tal como a cabra de Lisboa em Camisa, pasta-se numa alcatifa verde já bastante rapada pelo pisoteio do íncola: o Zé Povinho, o das Caldas de Rafael.

Fernando Vieira de Sá

Lisboa, Janeiro de 2009

domingo, 25 de Janeiro de 2009

PODER, AMBIÇÃO E GANÂNCIA

«A cegueira do poder e da ambição e ganância é outra prerrogativa do homem "racional" que os irracionais de quatro patas, de asas ou barbatanas, não possuem. Não inventaram a pólvora que tanto orgulho veio trazer ao homem. Mas, em contrapartida, não destruíram o planeta como o tal "inteligente" está fazendo com toda a força e brutalidade de que nenhum irracional é capaz.»
Fernando Vieira de Sá, Viagem ao Correr da Pena, p. 31.

domingo, 18 de Janeiro de 2009

CONTRA UM NOVO HINO À IGNORÂNCIA

Como resposta a um artigo de opinião publicado no suplemento «Visão História/Cuba - 50 Anos de Revolução» [nº3/4-XII-2008], da revista Visão, recebemos o seguinte texto de reacção e esclarecimento da autoria de Fernando Vieira de Sá, desfazendo a confusão, nada ingénua, que o autor do artigo estabelece entre os termos «assassino» e «guerrilheiro».

Soube por um qualquer órgão de comunicação que uma próxima edição do suplemento «Visão História», da revista Visão, seria dedicado a Cuba, necessariamente à sua revolução que, em 1 de Janeiro de 2009, completou 5o anos de idade, continuando a alimentar paixões, tanto no sentido heróico e patriótico, como no repúdio da ameaça à ordem e à paz social mantida por gente credenciada para manter a região caribeña conformada com a história e dependências que lhe calharam em sorte; e, com isso, garantindo os privilégios do vizinho acautelados. Perante este anúncio, e interessado pelo assunto, já que acompanhei a revolução desde os seus primeiros dias, igual a todos os que gostam de sentir-se cidadãos do mundo, mas também, mais tarde, por questões relacionadas com problemas que tinham que ver com algum auxílio que eu poderia proporcionar ao desenvolvimento da produção leiteira do país, na senda da revolução agrária e no âmbito da minha especialização em leitaria tropical (ver, neste blogue, as etiquetas «Lechería Tropical», «Cuba», «Ramón Castro»), logo acorri ao ponto de venda dos jornais, encomendando o suplemento da revista que saiu em 4-XII-2008, pagando 4,90 €, nada barato.
Chegado o dia D, prantei-me frente ao quiosque e, mesmo ali, por azar meu, abri o suplemento da revista pela folha final e deparei com um artigo de opinião com uma fotografia do autor, José Ribeiro e Castro, no canto superior esquerdo. De chofre, salta-me à vista esta chamada de atenção para o alvo de estimação seleccionado, qual comprimido para engolir ao pequeno almoço:

«CUSTA ACREDITAR
NA EVOLUÇÃO
DE UM REGIME QUE
TEM COMO ÍCONE
DE EXPORTAÇÃO
UM ASSASSINO:
"CHE" GUEVARA»

Agora sou eu e, certamente, muita gente a quem custa a acreditar que uma declaração deste teor possa ser proferida por alguém minimamente instruído que, desde logo, aponta para um analfabetismo visceral de quem se apresta a botar loas em questões complexas, quando ignora canhestramente os significados de «assassino» e «guerrilheiro» (todos sabem ter sido Che Guevara um guerrilheiro), que todos os dicionários definem como sendo antinómicos, com cargas morais e objectivos opostos, que não são susceptíveis de sobreposição. Só uma bacorada saída de um ignorante poderia escrever o que se lê em letras gordas neste quadradinho de prosa que acaba por se converter em diploma de inscícia do indivíduo que o escreveu. Mas, escrevendo-o, ofende o idioma (por chocarreado), ofende a própria revista, retirando-lhe probidade e decoro, cujo revisor talvez tivesse confundido «liberdade de expressão» com «ignorância», suporte de uma libertinagem que fere a verdade exigível por qualquer leitor respeitoso.
Assim, o autor prestou um mau serviço ao seu partido (assunto interno) e à Instrução Primária Nacional, que aqui se manifesta canhestramente. E foi uma má companhia para os restantes colaboradores. Cada um balizará os efeitos, de acordo consigo próprio.
É este o meu desapontamento, tratando-se da Visão onde, neste suplemento dedicado ao cinquentenário da revolução cubana, escrevem pessoas que mereceriam melhor companhia, pelo menos maior decência e alfabetização.
Só a possibilidade deste esclarecimento público, oferecido de bandeja, paga o custo da revista.

Fernando Vieira de Sá
Janeiro de 2009

sábado, 20 de Dezembro de 2008

BOAS FESTAS 2008-2009

Foto de Magaly Sala-Skup

sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

VICTORIO SALA TOLO [BONANZA, 14/II/1892 - MONTREAL, 17/I/1983]

Acabámos de receber um texto muito comovente de Magaly Sala-Skup, filha de D. Victorio Sala, um grande amigo que Vieira de Sá conheceu no México e de quem nos fala em Viagem ao Correr da Pena (pp. 396 e ss.). Trata-se de alguém que foi um elemento essencial para a história do livro Lechería Tropical. Sem a sageza de D. Victorio Sala, o livro não teria sido editado (fora, entretanto, considerado «dispensável» pelas entidades portuguesas contactadas para a sua eventual edição no nosso país), não conheceria a extraordinária recepção em meios universitários da América Latina, nem aportaria a Cuba em formato de edição revolucionária.
Ilustramos o texto com fotografias da família Sala que a amabilidade de Magaly Sala-Skup também nos fez chegar.

Que belo testemunho este! Muito, muito obrigado, Magaly.

Victorio Sala Tolo nació el 14 de febrero de 1892 en Bonanza, un pueblo de los Pirineos, ubicado entre Cataluña, Aragón y Francia. Su sed de cambio y de justicia social se despertó desde muy joven. A los 15 años tuvo que salir de España por actividades anti-monárquicas! Profesor de formación, Victorio Sala dirigió durante muchos años una casa editorial en Barcelona, su ciudad de adopción, donde participó a la creación de sindicatos y partidos políticos de izquierda y luchó por la República, que defendió con toda su alma durante la Guerra Civil. Ocupó puestos de gran confianza en el Gobierno de Negrín, y jugó un notable papel en la lucha contra las fuerzas franquistas. Defendió Barcelona hasta el último momento, cuando tuvo que huir con sus hombres y la que fue su compañera de toda la vida, Antía Culebra.
Atravesó la frontera a pie, como tantos miles tuvieron que hacerlo, después de haber rechazado la oferta, por el puesto que ocupaba, de sacarlo de España en avión. Quiso compartir su destino con sus compañeros de lucha. Al llegar a Francia, lo aprehendieron los franceses y lo metieron a un campo de concentración en el Sur de Francia, cerca de Perpiñán, de donde logró escaparse gracias a la ayuda de campesinos franceses vecinos del campo. Embarcó hacia el exilio, a México, junto con Antía, en el barco Sinaya, nave que estuvo a punto de naufragar varias veces. En México, todos los refugiados españoles fueron recibidos con gran cariño y solidaridad, cosa que jamás olvidará, otorgándoles de inmediato la nacionalidad mexicana. Junto con varios otros intelectuales, fundó una casa editorial, Ediapasa, en México que fracasó cuando estalló la Segunda Guerra Mundial. A partir de ese momento, vivió el recorrido de tantos miles y miles de refugiados en el mundo, tratando de sobrevivir como fuera. Victorio se descubrió entonces talentos de cocinero (el que jamás había cocinado) y abrió un restaurante en la calle Melchor Ocampo del D.F.
Un restaurante que por la excelencia de su comida y por la estatura humana e intelectual de Victorio y Antía se volvió un lugar de encuentro de grandes intelectuales que soñaban de un mundo mejor. Entre ellos el pintor mexicano Gironella, la esposa del muralista Siqueiros que venía a buscar regularmente comida para llevarle a su esposo que en esos momentos se encontraba en la cárcel, el escritor Gabriel García Márquez quien leía a sus amigos partes de su Cien años de soledad y el veterinario portugués Fernando Vieira de Sá y su esposa Maria Elvira, con quienes se desarrolló una entrañable amistad.
Victorio Sala Tolo, fue conocido no sólo por su lucha y su cocina pero también por su gran integridad, honestidad, generosidad y respeto del ser humano.

[Magaly Sala-Skup, 19-XII-2008]

sábado, 13 de Dezembro de 2008

A «BATALHA DE INGLATERRA»


Maria Elvira e Fernando Vieira de Sá
Londres, Trafalgar Square, 13-XII-1942, faz hoje precisamente 66 anos.
Foto de Fernando Pessa

«A nossa "Batalha de Inglaterra", foi ganha sem lugar a dúvidas. Todos os objectivos foram conquistados. A vitória foi nossa e só nossa. (...) Foi, na realidade, dir-se-ia, uma guerra de trincheiras, acochados atrás do perigo, cavando diariamente a lura que nos levaria a cumprir a estratégia deliberadamente planeada para a posse dos direitos que também nos pertenciam (...).»

F. Vieira de Sá, Viagem ao Correr da Pena, cit., p. 43.
Sobre a experiência a dois, em plena II Guerra Mundial, em Inglaterra ver Viagem ao Correr da Pena, nomeadamente o «Prefácio de Coisa Nenhuma», p. 15 e ss. Na p.43 há uma fotografia, no mesmo local e na mesma data, onde estão outros amigos, entre os quais Fernando Pessa.

sábado, 6 de Dezembro de 2008

CONFISSÃO E CONFIDÊNCIA

O meu livro Autópsia a Um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares, dedicado aos trabalhadores do Estado não foi bem olhado, se é que os dirigentes de qualquer grau conhecedores, lho mostraram, potenciando as angústias que se soltam nas avenidas, exigindo os seus mais intrínsecos direitos. Às vezes falta qualquer coisa, quiçá convicção, para que se leve os afectados e responsáveis a esquadrinhar as razões (autópsia) das dores das maleitas, mais do que o boiar à tona da água. Eu sei que os tempos são de recessão e o dinheiro não dá para tudo, e é preciso criar prioridades, como sejam bandeiras e cartazes, essas coisas que se colam nas paredes, que se lêem depressa e não se fale mais nisso... missão cumprida. No entanto, não está fora de questão a necessidade de Estudar (com letra grande) as profundezas dos problemas, e que não se pense que tais estudos são só para os caturras desprovidos de sentido reivindicativo, mas também - e sobretudo - para os porta-bandeira e «figuras de proa», qual caravela seiscentista, com as velas ao léu para que todos as vejam e cumprimentem.
Não quero de modo algum impingir o livro a quem quer que seja, e nunca me atreveria a publicá-lo sem ter uma opinião sobre o seu interesse, o que me foi brindado com generosas palavras pela pena de um destacado parlamentar e militante sindicalista, fazendo, inclusivamente, a apresentação do trabalho que pode ser lida neste blogue e que tem todo o meu reconhecimento. O livro expressa uma ampla experiência de 20 anos discutida em todos os aspectos do topo à base da hierarquia. Alguém já fez igual? Seria de pensar antes de arquivar. Somos o que somos, mas é preciso ser-se mais. Sem ler e investigar não se vai lá.
Eu tenho pensado muito neste fenómeno (este mesmo da autópsia) procurando razões lógicas para a enigmática defecção observada de um bater de porta.
Alea jacta est - os dados estão lançados. Por erro pus sempre o álibi do lado dos destinatários e presumíveis motores das respectivas organizações, absolvendo o autor (eu) da indiferença dos responsáveis e aderentes do sector a quem o livro foi dedicado, não esquecendo o seu anúncio na Internet. O pensar é sempre um bom sistema de procurar a verdade. Pensar é investir. De qualquer modo, um destes dias em que se acorda com o raciocínio mais despegado de convicções preconcebidas, veio-me de repente um arejo de racionalidade, caindo instantaneamente de borco numa interpretação do fenómeno que aqui estou comentando. Outra verdade.
ESTA A CONFISSÃO. AGORA A CONFIDÊNCIA
A confidência só se lê na Internet quando se quer ler o que lá se procura, o que dá proveito, o que se quer encontrar, daí a segurança da confidencialidade da seguinte declaração que fica aqui só entre amigos interessados na consulta deste blogue. Pensemos: aqui para nós, os da «velha guarda», o verdadeiro culpado deste desinteresse aparente ou real por parte dos sindicalistas, sindicalizados e funcionários públicos a quem dediquei o trabalho, mas que até hoje, parece, não souberam do caso por falta de consulta da Internet. O responsável, repito, fui eu. Com todas as letras: EU.
Cá vai: a minha falta de psicologia da comunicação verbal e escrita ao escolher como título para o livro a prosaica palavra «autópsia», escrita sobre um fundo de linhas esfumadas num cinzento de luto aliviado, foi fatal. Metia-se pelos olhos dentro. Mas, não aconteceu. Tudo foi como se nada se tivesse passado. As consciências esqueceram e estão com Deus misericordioso, que tudo desculpa. Eu não queria acreditar, quando esgotados os pressupostos, aconteceu abrir-se o escaninho da caixa craniana e, num golpe de asa, surgiu num momento desfocado fora de horas, filosofando sobre tantas que nos alimentam a vida e nos ensinam, embora nem todas confortáveis ao espírito.
Na verdade não lembra a ninguém metaforizar com palavra de tão mau gosto (autópsia) e, ainda por cima, dirigida a uma população martirizada e supersticiosa por tanto desabamento de infortúnios que vêm caindo sobre os seus salários e garantias usando a tal palavra demoníaca.
Dêem-se as voltas que se quiser. Autópsia, seja ela ao Papa, a um camaleão ou a um Serviço Público, cheira sempre a morgue, a cadáver, a mesa de dissecação anatómica, a tripas ao léu, a mau cheiro. O título certo, apelativo, que deveria ter sido sugerido por uma empresa especializada em marketing seria (ou é) qualquer ideia que se abra à vida, que seja futuro, amor. Por exemplo, Afrodite...


OS SEGREDOS DE AFRODITE
SONHOS E PESADELOS DA FUNÇÃO PÚBLICA
Título e subtítulo sugerem, logo em primeira análise, a dupla noção de Beleza da Verdade Nua e Crua e Amor ao Trabalho, muito pouco reconhecido. Querendo ir mais longe com palavras derivadas, encontrar-se-ão decerto outros estímulos que não são para desperdiçar. Afrodi é a raiz.

Ilustração de A. Calbet

Ilustrando, esta imagem sexy enchendo a capa com a gravura da deusa grega do Amor, Afrodite, fazendo por si só passar a mensagem escaldante de um alto espírito de verdade, que só se cumpre com o amor puro de uma deusa da Antiguidade Grega.

Tudo isto fica aqui em segredo. Não desejo interromper outros silêncios, esses por carência de fair play.

Fernando Vieira de Sá
Lisboa, 6 de Dezembro de 2008

segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

O REINO DA ESTUPIDEZ - II

Como complemento dos textos anteriores, sobre as PME, reproduzimos o texto, também da lavra de Fernando Vieira de Sá, inserto na contracapa do livro O Reino da Estupidez nos Caminhos da Fome - Memória de tempos difíceis, cit.
«Trazer para a ribalta editorial o acérvulo que preenche a terceira parte deste livro [Memória (textos de imprensa, 1946-89)] - por cuja importância e valor só os factos respondem e as consciências ponderam - significa o dever do avivar dessa memória para a confrontar com as realidades entretanto ocorridas em Portugal e no Mundo no campo das ideias, das ideologias e das instituições, com um duplo fim: contrariar a tendência instalada de esquecer ou deturpar factos de interesse crucial para a compreensão do panorama actual; procurar uma racionalidade de sinal positivo ou denúncia de conduta perversa para aquela resposta tão almejada e cada vez mais tão distante quanto urgente.
O fio condutor desta trajectória é a complexa Indústria Alimentar, cuja génesis mergulha na agricultura e o terminus na distribuição dos produtos e, por extensão, na fome, meta até agora desprezível nos sistemas que a provocam e ignoram, mas dela se nutrem.
É à volta de tão abrangente e sinuoso itinerário que as questões de ordem científica, técnica, económica, política e social são abordadas e discutidas, tendo por mote os alimentos e paradigma as PME, vítimas dos modelos macroeconómicos em vigor, embora a retórica oficial lhes cante hosanas. Destes aspectos se ocupam as primeira [Alienações e desvios no estabelecimento de estruturas de desenvolvimento na produção agro-alimentar] e segunda [Reflexões políticas para a compreensão de certos aspectos económicos e sociais da actualidade] partes do livro, funcionando os Apêndices [I. Indústria leiteira e administração pombalina; II. O mirabolante sonho do Rei Formiga. Uma fábula] como ilustrações, a "água-forte", de cenários avulsos da cultura e estadismo lusitanos.»

O REINO DA ESTUPIDEZ - I

A referência, no texto anterior, ao livro O Reino da Estupidez nos Caminhos da Fome - Memória de tempos difíceis, Edições Cosmos, 1996, fez-nos recordar o início de uma grande Amizade que estabelecemos, então como editor daquela importante chancela editorial, com Fernando Vieira de Sá e trouxe-nos também à memória as circunstâncias que rodearam a decisão de publicar o Prefácio de Eduardo Moradas Ferreira, entretanto falecido. Por isso, e em jeito de homenagem ao prefaciador, aqui deixamos aquele «Prefácio inacabado», antecedido da nota editorial de FVS.


«A súbita morte do querido amigo Moradas Ferreira deixou inconclusivo o prefácio que ele me havia prometido escrever para este livro, acerca do qual conhecia toda a sua arquitectura, pensamentos e objectivos, questões que, tal como a mim, o interessavam e constituíam muitas das suas preocupações humanísticas. Por isso ele se devotou com todo o seu habitual empenho a tão generosa e fraterna tarefa, logo que acordada ficou a gratificante colaboração, consubstanciada num aval de incontestável autoridade a um autor e a um texto, ambos tão carecidos de notoriedade e tão despojados de aliciadoras expectativas.
Foi a generosidade e grande amizade da Lídia, sua companheira de toda a vida, que descobrindo, entre os papéis avulsos sobre a sua mesa de trabalho, umas páginas de rascunho do que viria a ser certamente o projecto do prefácio, teve a bondade de dispensá-las se acaso pudessem ser aproveitadas.
Lido o referido esquisso, considerei-o desde logo um admirável depoimento, totalmente integrado em toda a filosofia e objectivos do livro e, como tal, logo por mim emotivamente aceite como um belo peristilo a um conteúdo imerecedor de tanto lustre, que não poderei jamais subestimar toda a carga sentimental que lhe acrescento pelo facto de se tratar da última (ou das últimas, pelo menos) mensagem que Moradas Ferreira deixou a todos nós, da qual eu tive a bem-aventurança de ser o portador assumido. Se final ou mais requinte literário faltava ainda ao escrito, ele se mostra dispensável, porque dizer mais e melhor cairia em redundância ou apenas literatismo.
Neste sentido o prefácio inacabado foi aprovado também pelos editores. [F.V.d.S.]


Neste livro o Dr. Vieira de Sá apresenta uma panorâmica da sua actividade científica e profissional em que ele revela que, de acordo com a máxima de Pulido Valente, pensou sempre como homem de acção e agiu como homem de pensamento.
Dividiu a sua actividade entre o laboratório e o campo e assim percorreu todos os Continentes, estudando com visão científica e humana a produção de alimentos, particularmente nos países em desenvolvimento.
Os seus estudos e observações abarcam quase 60 anos de intensa actividade, quase toda a duração deste século, qualificado por Eric Hobshawm como The Age of Extremes, século que viu os homens subir aos cumes de desenvolvimento técnico e científico e simultaneamente cometer os mais bárbaros, repelentes e numerosos crimes da história da humanidade.
Um século curto que o já referido Hobshawm considera iniciado com a guerra de 1914 que após uma trégua termina em 1945, e que finda com o colapso dos países socialistas da Europa em 1991.
Estamos à entrada de um novo milénio, perplexos, num mundo de violência, de fome e exclusão social.
Perplexos e buscando com angústia as vias de sobrevivência. O Dr. Vieira de Sá, que nunca confundiu crescimento económico com desenvolvimento, foi sempre uma voz corajosa, inconformada e irreverente.
Nunca o seu encerramento no laboratório o fez esquecer a vida no exterior, com todas as injustiças e sofrimentos das pessoas concretas.
Amigo de Bento Caraça, sempre perfilhou a ideia de que a cultura integral do indivíduo continua a ser um problema fulcral para o seu envolvimento harmonioso.
Em 1933 Bento Caraça referindo-se à época que então se vivia, disse: "Época singular! em que podemos assistir às manifestações do mais alto poder criador e do mais persistente esforço de sistematização - Einstein e Broglio - e, paralelamente, à desorganização total da vida económica e à destruição deliberada precisamente daquilo de que a maioria carece".
Estas palavras continuam actuais, 60 anos decorridos, e o Dr. Vieira de Sá nunca as esqueceu ao longo da vida.
Se os trabalhos do Dr. Vieira de Sá, quer a nível de laboratório quer na sua aplicação prática, visaram sempre a melhoria qualitativa e quantitativa da produção agro-pecuária, nos seus escritos nunca esqueceu o carácter eminentemente social do seu trabalho. Nunca deixou de verberar os erros cometidos por ignorância e os mais graves por ganância, que têm conduzido ao absurdo do mundo actual - produção abundante, por vezes excessiva, de alimentos variados e de qualidade e fome e extremos de subnutrição nunca em tão grande escala sofridos pela humanidade.
Materialista convicto, Vieira de Sá nunca temeu confrontos, nunca recuou perante contratempos, nunca usou palavras tíbias ou menos claras. Sempre se manifestou desassombradamente e é surpreendente como não se nota uma quebra de entusiasmo ao analisarmos, agora em conjunto, os escritos desde a juventude até à actualidade. É uma verticalidade que nunca será de mais sublinhar.
A análise dos trabalhos publicados pelo Vieira de Sá ao longo de 50 anos mostra que o seu pensamento, embora sempre enriquecido por mais conhecimentos teóricos e uma maior experiência, sempre obedeceu a uma linha progressista de inspiração materialista (marxista). Sempre foi um pensamento de vanguarda, e, como tal, incómodo.
A história está a dar razão aos receios tantas vezes expressos nas críticas de Vieira de Sá. O ambiente não tem sido defendido, a natureza (na qual se inclui o homem) tem sido violentada e sacrificada e é cada vez mais geral a ideia que é indispensável suspender e alterar o curso actual do processo de crescimento/desenvolvimento.» [op. cit., pp. X-XII].

domingo, 30 de Novembro de 2008

O DRAMA DAS PME - POR DETRÁS DO PANO DE FERRO

Sob o título geral de «O DRAMA DAS PME», recebemos para publicação no blogue dois textos de Fernando Vieira de Sá. Deixamos aqui hoje o segundo, «POR DETRÁS DO PANO DE FERRO», com referências ao livro O Reino da Estupidez Nos Caminhos da Fome - Memória de tempos difíceis, editado em 1996 pelas Edições Cosmos.
Os economistas de vanguarda e de turno, ensopados em estatísticas e regras de três, assepticamente livres dos esporos de humanismo e da fome, reduzindo tudo a números, a unidades e percentagens, obcecados pelas leis da concorrência, naturalmente não tiram os olhos dos cálculos a que a frieza dos algarismos conduz, fazendo desses resultados pilares orientadores principais, necessários e suficientes no âmbito de uma contabilidade confiante e conselheirática, dentro de cujos parâmetros se pode manobrar, tendo como área de acção táctica e estratégica - para fins de rendimento e produtividade - a seara viva chamada Bolsa de Valores, onde se cultiva a imaginação, o segredo, a disponibilidade e, se possível, a espionagem para lograr os melhores resultados que exige olho vivo, destreza e isenção de preconceitos. Isto, quando se joga o risco. A verdade é que os financeiros e carrascos do dinheiro, estimulados pelos ventos de monção que sopram para dentro, e no desprezo por qualquer coisa que lhe pareça retrógrado, ultrapassado e improdutivo de qualquer avanço civilizador acompanhando a maré, dando como consequência a destruição sistemática de todo o tecido PME, desastre, não só para Portugal, como para toda a Europa, sendo responsável do desemprego crescente, devido à falência da pequena courela, donde saía a maior percentagem de géneros alimentícios, obrigando à importação de tudo quanto há vindo de todos os continentes. Por certa distorção mental e de vivência, ao referir-me a PME, tenho sempre a tendência a tomar como padrão as PME alimentares, pelo que, peço aos críticos, tenham esta nota em consideração, embora com todas as PME aconteça o mesmo, dentro dos seus âmbitos.
Portugal, hoje, é um país de serviços, um país dependente do estrangeiro, dos artigos mais básicos da alimentação com uma factura de pagamento ao exterior gravíssima.
Segundo o calendário político do país, que a TV se encarrega de informar das suas virtualidades, as PME surgem sempre como bandeira, o que não se ajusta às frequentes notícias saídas na imprensa nacional, com censuras aos governos pela sua falta de sensibilidade nessa questão de tão alta actualidade. Como exemplo, transcreve-se o seguinte texto, de Eva Cabral, retirado da secção de Economia do Diário de Notícias de 28-III-2007:
«Conselho Económico critica "falta de atenção" às PME - O Conselho Económico e Social (CES) critica a "falta de atenção dada às pequenas e médias empresas (PME)" pelo Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN), o envelope financeiro das verbas que Portugal vai receber de Bruxelas entre 2007 e 2013.
Adriano Pimpão, relator deste parecer do CES, fez questão de frisar ontem, aos deputados da Comissão Parlamentar de Economia, que "se trata seguramente de um lapso" a falta de referências às PME por parte do QREN. Segundo o conselho, "muitos dos problemas estruturais que o país enfrenta só serão resolvidos com sucesso se houver por parte das pequenas e médias empresas uma capacidade empresarial acrescida nas áreas da gestão, da inovação de produtos e de processos pela via do investimento, da criação de empregos de qualidade e da produção de bens e serviços de maior valor acrescentado". O CES recomenda mesmo uma "rigorosa e transparente avaliação do custo-benefício dos grandes projectos" e recorda que no Programa Operacional de Valorização do Território estão incluídos os chamados grandes projectos, que representam mais de um terço do investimento previsto no QREN, quadro que globalmente está estimado em cerca de 44 mil milhões de euros. Bruto da Costa, presidente do CES, referiu, por seu lado, que Portugal tem "uma falta de enquadramento em matéria de estratégia de desenvolvimento". Citou, ainda, um estudo sobre o fenómeno da pobreza, que está a ultimar, e em que se concluiu que do universo de pobres existentes em Portugal um terço está empregado e outro terço é pensionista.»
Para não ir mais longe, basta recordar algumas linhas por mim escritas, já então mostrando certo cansaço de tantos bis. Foi isso, no meu livro O Reino da Estupidez nos Caminhos da Fome - Memória de tempos difíceis, Edições Cosmos, 1996, já lá vão doze anos, uma eternidade, mas o panorama, para não dizer igual, é péssimo, o desgaste e os problemas são cada vez mais indignantes. Neste livro muitas são as citações relacionadas com a situação, das quais, quase ao acaso, algumas aqui se reproduzem [cf. pp. 240-242]:
«É progressivamente crescente em todo o Mundo, e nomeadamente nos de tecnologia mais avançada e nos que empregam esforços mais concretos e racionais em prol do seu desenvolvimento económico e social, o funcionamento de estabelecimentos escolares de ciência e tecnologia de alimentos. Só nos Estados Unidos, e a título de mero exemplo, existem quarenta e sete Universidades onde o ensino da ciência e tecnologia de alimentos está institucionalizado, muitas dessas Universidades funcionando em estreita ligação com a indústria, para apoio técnico sistemático.
Portugal, pese à sua implantação europeia, não possui esse tipo de ensino sob uma forma curricular global. Tais matérias dispersam-se como manta de retalhos por várias escolas superiores, num verdadeiro bluff que não leva a lugar nenhum. Nem vale a pena escrever mais sobre esta miseranda realidade, à qual os respectivos professores parecem tão bem adaptados e conformados.
[...]
Há que reconhecer que toda a reconversão industrial da preparação e transformação de alimentos depende de que os seus quadros técnicos estejam à altura das responsabilidades. Não pode mais continuar-se a utilizar o improviso, autodidactismo, o amadorismo, em questões tão complexas.
[...]
2. Milhares de pequenas e médias empresas.
Outro ponto importante: a extrema pulverização da indústria, além da sua própria diversidade. Existem milhares de pequenas e médias empresas dispersas por todo o País, representando a ocupação e sustentáculo de muitos mais milhares de trabalhadores e respectivas famílias.
[...]
Estas empresas, individualmente, têm um significado económico pequeno, dir-se-á, mesmo, insignificante. Porém, em conjunto, elas assumem uma importância das mais significativas na economia portuguesa.
Sob o ponto de vista técnico, como é de prever, é extremamente precário, a todos os títulos, o seu parque industrial, ao que se alia uma técnica deficiente e empírica, que acarreta as consequências mais graves, quer em rentabilidade, quer em qualidade. Contudo, não se deve menosprezar certos produtos da indústria caseira (que, aliás, devem ser considerados num esquema diferente do da pequena e média empresa e que tem muito de positivo para a valorização regional e turística), pois essa participação constitui um verdadeiro alfobre de interesse para a economia doméstica, e, nomeadamente, agrícola.
3. Um apoio indispensável.
[..]
No entanto, é de esperar que o Estado venha a tomar uma participação directa em muitas dessas empresas, quer por ter forçosamente de as gerir por abandono ou desinteresse dos proprietários ou por ameaça de falência, a fim de garantir o emprego e a produção necessária ao consumo, quer intervindo directamente nos aspectos tecnológicos, dos quais depende a promoção da qualidade e a obtenção de melhores rendimentos. Em qualquer dos casos, o INII pode e deve desempenhar um papel de primordial relevo nesses processos, pois tem quadros com experiência que permitem a montagem imediata desses serviços com a dimensão que se tornar indispensável. Basta, para tanto, que lhe sejam facultados os meios humanos e materiais que permitam a esses quadros uma autêntica intervenção. Isto não significa de nenhum modo uma atitude de proteccionismo ou de paternalismo, que, além de tudo, são sentimentos incompatíveis com ambições de conquista de mercados externos, e com as investidas que possam surgir do exterior por forçadas penetrações das nossas fronteiras aduaneiras, derivadas de acordos internacionais a que Portugal se veja ligado.
Pode dizer-se que, no momento actual [anos noventa do século passado], o DTIA tem iniciadas intervenções do tipo das acima mencionadas, mas é evidente que essa participação terá de ser amplamente aumentada e completada com adequado apoio do sector económico em matéria de gestão» [No presente todo este apoio foi selvaticamente desmantelado. Hoje não há apoio técnico e científico às PME].
Fernando Vieira de Sá
23 de Novembro de 2008

domingo, 23 de Novembro de 2008

O DRAMA DAS PME - CONCORRÊNCIA, VALOR ABSOLUTO

Sob o título geral de «O DRAMA DAS PME», recebemos para publicação no blogue dois textos de Fernando Vieira de Sá. Deixamos aqui hoje o primeiro, sobre «CONCORRÊNCIA, VALOR ABSOLUTO», uma reflexão muito actual sobre a CRISE e os «truques» que a provocaram e que estão já na origem de novos «aperfeiçoamentos da marosca».
As Pequenas e Médias Empresas (PME) são com frequência citadas nos paleios e bate-papos dos arautos da política à roda de uma mesa em qualquer canal TV, sem nunca mostrar ciência sobre fenómenos de definição objectiva e de contornos precisos gerados neste sector. É, por assim dizer, um clima que neste caso se expressa em estado de graça sem querer denunciar a verdadeira razão do mau-estar e consequências desastrosas que se vêem a olho nu. Contudo, a complexidade da questão é cada vez maior, na medida em que a doutrina da concorrência, exigindo redução de custos de produção e, por acrescento, comercialização, adoptando a teoria da concentração e monopólio, seguindo em frente com resultados progressivamente positivos, só exigindo mais para ganhar mais de um ponto de vista financeiro. Nada mais. E tudo isto funciona às mil maravilhas, já que os resultados financeiros assentam em esferas, o que deleita os investidores de 1ª grandeza, já que os de 2ª e de 3ª, etc., esses, também acabam por ser engolidos, ficando a aguardar alguma regurgitação do predador.
Eis o retrato da engrenagem e a conclusão inequívoca. Neste capítulo, a inovação é de magia, pois a imaginação para lograr melhores resultados não tem limites. É como nos crimes comuns, porque nos casos em questão a moral é de funil e os seus cérebros são consagrados especialistas em ciência financeira que, com subtileza contabilística, vão sempre à frente dos esquemas de controlo clássicos. É evidente que não são todos, mas que são muitos, são. E os operacionais também não se chamam burlões, mas outra coisa inócua, como gestores, consultores, peritos, cujo sucesso no negócio depende do segredo e não há confessionário que se diga seguro. Daí a bomba. Ninguém sabe nada, enquanto não rebenta.
O sucesso inspira a imaginação e até induz a outras fontes produtivas, truques onde se pode arrecadar mais receitas. É o caso das contabilidades paralelas fugindo aos impostos, off-shore e muitos outros truques.
Muito se poderia acrescentar sobre a dinâmica capitalista que, no auge do seu desenvolvimento, vem cair na concentração global criando a CRISE, que presentemente está em pleno desabrochar, aliás, prevista por Marx há mais de um século, prognosticando cientificamente que só no fundo da crise o socialismo teria viabilidade de implantação. É implícito que, em favor desta concentração de riqueza que absorve as economias menores, as PME estiveram sempre na linha da conversão dos parâmetros do peso da propriedade, começando pela propriedade rústica na linha da sua extinção, tida por absurda, face às novas técnicas de produção e outros factores.
Vem a propósito recordar um episódio que teve o condão da sua justeza de raciocínio nato, instintivamente puxando-lhe o pé para a verdade (aqui não foi o pé, mas o raciocínio), e vai daí cair em Marx. estava dito sem o querer... Abrenúncio!!! Passou-se isto num desses bate-papos na TV onde se juntavam três ou quatro mestres da orquestra política acarinhada, diga-se: o Zé, o Manel e o Toino, por exemplo, perorando a propósito da CRISE. Descrevia um deles a evolução da crise que (ainda) se vive. E de tal maneira o companheiro se expressava com toda a gentileza e convicção que eu, com espanto, colei-lhe imediatamente a tese que defendia com a de Marx escrita há mais de um século. Tintim por tintim, o que me espantou o arrojo, mas não estava enganado, pois um dos companheiros presente, digerindo palavra por palavra ouvida, teve exactamente o mesmo pensamento e diz: «Cai-se assim no socialismo, não é verdade?» Marx também concluiu o mesmo, como se sabe, o que quer dizer que o socialismo só se alcançará por exaustão evolutiva do capitalismo e não por rebelião das massas a quem falta os meios, por isso só em crise profunda e colapso poderão ter êxito. À interrogação, responde prontamente o mestre, sorrindo, como quem diz a palavra-chave: «Nem pensar, seria o caos, todos a falar ao mesmo tempo sem ninguém se entender, isto num processo que exige segredo, exigência, estudo, estruturas. O que há a fazer terão de ser os mesmos, já experientes, retirando da experiência as falhas cometidas, e edificar o sistema (capitalista) com as devidas seguranças reforçadas». No meu comentário íntimo, na altura, achei este pensamento profundamente ingénuo vindo donde vinha, mas monolítico, ou seja, sem outra saída credível possível, esquecendo-se que, na presente crise, não faltavam medidas já existentes de fiscalização e acompanhamento do conhecimento de todos, de cunho oficial e privado, obedecendo a regras pretorianas dirigidas ao cumprimento rigoroso de toda a operacionalidade de ambos os sistemas privado e governamental, mas a que todos os intervenientes altos responsáveis se abstiveram, de comum acordo, de recorrer e usar para todos os efeitos do controlo, o que foi determinante na presente crise, como tem sido largamente denunciado.
Deve dizer-se, portanto, que o sistema em causa poderia ser bom e precavia-se de todos os desvios da correcta acção, os quais foram abusadamente ignorados e sigilados segundo a regra de oiro do sistema.
E são estes mesmos senhores, segundo aquele amigo que, quando o outro concluía ter-se chegado ao socialismo por falência do capitalismo, respondia: «Nunca, agora com a experiência recolhida estamos em condições de todos os aperfeiçoamentos.» Quais? - pergunto eu agora? Mais sigilo? Aí está a ciência do truque pendente de uma importante investigação. Tudo para se chegar ao capitalismo absoluto, irreversível, uma espécie de divindade... já faltou mais!
Por agora, «tudo como dantes, quartel-general em Abrantes».
O sigilo que se exige é o aperfeiçoamento da marosca e um seguro de risco, talvez pago pelo Governo.
Fernando Vieira de Sá
23 de Novembro de 2008

domingo, 16 de Novembro de 2008

A TODOS OS SERVIDORES DA FUNÇÃO PÚBLICA, FRATERNALMENTE

A fim de oferecer aos interessados um melhor conhecimento do conteúdo do livro Autópsia a Um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares, publicamos hoje o seu índice, antecedido da dedicatória que F. Vieira de Sá fez a «todos os servidores da Função Pública»:

Dedico este trabalho de selecção documental e de crítica de processos a todos os servidores da Função Pública, independentemente de categorias, vínculo ao Estado ou precariedade de funções. Fraternalmente Fernando Vieira de Sá
ÍNDICE
Apresentação
A questão / O denominador comum / História da Pré‑História / Grande Cruzada /A Sucessão
LIVRO BRANCO
Manifesto – Verão de 1975 [A revolução]
Publicações Periódicas (Difusão Restrita) Editadas pelo DTIA/LNETI
Nota Prévia – do que se escreve e descreve no Livro Branco
ANAIS
ANAIS 1979
Índice I — Introdução XIII — FILAGRO XIV — Visitas ao Departamento XVII — Perspectivas Futuras
ANAIS 1980 I — Introdução VIII — Participação em Congressos, Simpósios, Etc. XVI — Visitas ao Departamento XVII — Perspectivas Futuras
ANAIS 1981 I — Introdução XIII — Órgãos Consultivos e de Informação XVI — Visitas ao Departamento XVII — Perspectivas Futuras ÍNDICE
ANAIS 1982 I — Introdução VI — Formação e Actualização de Quadros (Cursos e Estágios, Reuniões Científicas e Visitas de carácter formativo e informativo) VII — Cursos e Estágios para Quadros da Indústria e Outras Instituições incluindo Universidades VIII — Participações em Congressos, Simpósios, Etc. XVI — Visitas ao Departamento XVIII — Perspectivas Futuras ANAIS 1983 I — Introdução VII — Acções de Formação para Quadros da Indústria e Outras Instituições incluindo Universidades XVI — Visitas ao Departamento XVIII — Perspectivas Futuras
FOLHA INFORMATIVA MENSAL – Editoriais
Abril 1981: [O Dever de Informar]
Maio 1981: [Ameaça ao Uso da Palavra Escrita]
Junho 1981: [O Orçamento Não é uma Peça Burocrática]
Julho 1981: [O Descalabro do Comércio Externo, na Área Alimentar]
Agosto 1981: [Racionalização dos Meios de Trabalho]
Setembro 1981: [Informação e Relações Públicas]
Outubro 1981: [Desconforto na Falta de Decisão sobre Carreiras Profissionais]
Novembro 1981: [A Burocracia como Modo de Estar na Vida à Mesa do Orçamento]
Dezembro 1981: [O DTIA Sabe o que Quer]
Janeiro 1982: [A Democratização da Ciência]
Fevereiro 1982:[Funcionamento do DTIA em Discussão]
Março 1982: [Reflexões Sobre o Tipo de Investigador que ao DTIA Interessa]
Abril 1982: [A Proibição do Debate de Ideias]
Maio 1982: [Do Servir e do Servir‑se]
Junho 1982: [Planeamento para «Inglês Ver». Leia-se UE]
Julho 1982: [A Valsa das Instalações]
Agosto 1982: [Repentino Convite à Reflexão]
Setembro 1982: [DTIA Olha à Internacionalização]
Outubro 1982: [Na Senda das Opções. A Carreira de Investigação em Discussão]
Novembro 1982: [O Fim de um Projecto]
Dezembro 1982: [Auto-exclusão, Drama do Absentismo]
Maio 1983: [Noticiário]
Novembro 1983: [Noticiário]
Julho 1984 (Suplemento): [Despedida]
Julho 1984: [Passagem de testemunho e despedidas]
Simpósio Internacional «As Indústrias Agro‑Alimentares e o Desenvolvimento Rural» e 1º Congresso Nacional de Indústrias Agro‑Alimentares
Antecedentes: Causas e Objectivos
Índice
Introdução
Para uma Melhor Compreensão e Intervenção Administrativa do Estado no Sector das Indústrias Alimentares
Conclusões
Ensino e Profissionalização da Ciência e Tecnologia dos Alimentos
Conclusões
Correspondência [Destinatários]
26/XII/80 — Presidente do LNETI
10/II/82 — Director do ITI
2/III/82 — Director do ITI
9/XI/82 — Prof. Romero
17/II/83 — Presidente do LNETI
16/V/83 — Director do ITI
26/V/83 — Presidente do LNETI
26/V/83 — Director do ITI
25/XI/83 — Prof. Veiga Simão
12/VI/84 — Prof. Veiga Simão
15/VI/84 — Director do ITI
9/VII/92 — Prof. Veiga Simão
12/XI/2001 — Presidente do INETI
Conclusão
Posfácio
A Citação
Post Scriptum [ano de 2006]

sábado, 8 de Novembro de 2008

INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (VII)

E terminamos hoje a publicação do texto que pedimos a Vieira de Sá sobre algumas peripécias interessantes da sua «Incursão pelas Armas», dando assim continuação à nossa intenção de ir registando neste blogue alguns dos «ecos da memória» de alguém cuja vida atravessou quase todo o século XX - um século de grandes guerras e de selvajarias várias que não podemos esquecer - e que continua atento e participante na aventura de ir construindo um século XXI que vai avançando cheio de incertezas e nuvens negras, mas também com alguns ténues sinais de que é possível manter a esperança na inteligência humana.
[continuação]
TEMPOS DE ESPERA E DE GUERRA - Pensava eu que, terminada a instrução obrigatória da escola de milicianos, ficaria para toda a vida livre de quaisquer compromissos militares. Guardei o meu fardamento, do qual fazia parte um par de botas altas de bela qualidade que me fora emprestado, poucos anos antes, e mais tarde oferecido por uma amiga, viúva recente de um oficial elegante, lembrando-se que poderia fazer-me jeito se por coincidência me servisse. Experimentei e era exactamente o número... as botas do defunto, um inédito princípio de vida militar. É quase para dizer «Como é que vou descalçar esta bota?!».
Os tempos eram terrivelmente preocupantes, já que a Guerra Civil de Espanha terminou em Janeiro de 1939 (trinta e dois meses de Guerra Civil) - sucedendo-se sem intervalo a II Guerra Mundial (1939-1945) -, durante a qual se perpetraram verdadeiros crimes contra a Humanidade, ceifando um milhão de vidas, onde os nazis ensaiaram gratuitamente os seus aperfeiçoamentos aeronáuticos de bombardeamento sobre alvos populacionais, como no caso de Guernica (1937), uma pacata vila sem nenhuma peculiaridade de interesse estratégico, aniquilando toda a população pacífica, arrepiando toda a gente com o mínimo de sentimentos civilizados, crime este fixado para a História da Selvajaria por Picasso numa tela imortal e uma das suas obras mais célebres. Já não falando do genocídio de muitos milhares de pessoas encerradas na arena da Praça de Touros de Badajoz, fuziladas e para cujo espectáculo (assim se anunciava) houve convites para portugueses que aí acorreram em ar de festa com a bênção salazarista... cheios de fé cristã.
Pela minha parte, durante o ano de 1942, na companhia de Maria Elvira, minha mulher, encontrava-me em Inglaterra, auferindo de uma bolsa de estudo na Universidade de Reading, experimentando a guerra in loco com todos os riscos e proveitos que perseguíamos, já descritos em diversas ocasiões. Experimentámos receios de diversa índole, um deles quando da cedência da base das Lajes, nos Açores, ao abrigo da aliança anglo-portuguesa, o que poderia originar a invasão das tropas nazis, e, se tal tivesse ocorrido, nós poderíamos recolher a um campo de estrangeiros sob vigilância. Nada aconteceu, mas risco sempre houve e conseguimos, em fins de 1942, regressar sãos e salvos. Chegados a Portugal passavam as mesmas preocupações e Salazar, para evitar pânico na população, resolve mobilizar as tropas, chamando-lhe apenas «manobras militares», consistindo em criar uma 4ª Divisão, com sede no Cartaxo, tendo como finalidade defender-nos de qualquer invasão através da ponte sobre o Tejo, a única que ao tempo existia.
Chegado de Inglaterra, e ao Serviço da Direcção-Geral dos Serviços Pecuários, fui colocado em Coimbra. Já com as «manobras» em curso, e tendo sido mobilizados alguns dos meus colegas mais antigos, não percebi por que razão não fui chamado.
Aqui começa uma campanha surda, vinda dos colegas, acusando-me de ser protegido por algum truta. Era totalmente falso. Como tinha a consciência limpa, deixei-os gozar. Mas, uma manhã, estando na Intendência de Pecuária, vem o contínuo dizer que estava ali um polícia que precisava de falar comigo. Vi imediatamente que tinha chegado a minha vez, de tal modo que, quando o polícia chega com um papel, antes mesmo de dizer qualquer palavra, eu adiantei-me: «Onde está a convocatória para assinar?». A partir deste momento, e informada a família, foi fazer a mala e ir à gaveta ressuscitar a farda e as botas altas do defunto. No dia seguinte, estava a caminho do Porto para me apresentar no Regimento de Infantaria 6. A campanha contra as minhas cunhas acabou.
Novamente fardado, apresentei-me ao Comandante, por sinal muito civilizado, sendo também médico com consultório aberto. Eu olhava para todo aquele ambiente e pensava como me iria safar de tudo aquilo, não percebendo nada de orgânica funcional, de regulamentos e procedimentos que não foram ensinados na altura devida, por mais que eu esquadrinhasse a memória, concluindo que esse tempo foi pura perda de tempo, salvando-se para meu interesse a equitação que pagou as dificuldades em que agora me via metido. Não sabendo eu nada, resolvi proceder por minha conta usando a racionalidade. E quando me vinha o sargento enfermeiro dizer «Meu alferes isso não pode ser porque o regulamento...» não dizia mais porque, de imediato, eu respondia: «O regulamento agora sou eu». E tudo seguia.
Como era regra, ao fim do dia tinha despacho com o Comandante, onde o informava das minhas resoluções, sem atender a regulamentos, que não tinha e não podia estudá-los sobre a ocorrência. Como tal actuava profissionalmente num critério de bom senso, sem burocracia. Ele, não só sempre aprovou as minhas decisões, como me apoiava.
Tudo isto foi para mim uma experiência impensável, mas que acabou (mas muito mais tarde) por ser interessante.
Mas a grande surpresa estava para vir. À chegada do comboio-militar ao Cartaxo, o que só aconteceu após intermináveis horas de viagem, transportando um regimento completo, implicando umas centenas de mulas e todo o material de guerra, etc., vá de apear tudo isto para um cais à dimensão da povoação. Falta-me imaginação para traduzir por palavras escritas o pandemónio que se instala e que, mal comparado, me fazia lembrar as notícias da imprensa a propósito da retirada de Rommel [Erwin Johannes Eugen Rommel, «A Raposa do Deserto», 1891-1944] depois da derrota do Afrika Korps na batalha de El Alamein, no Egipto (1942), que estava ainda muito presente em toda a gente do mundo a quem a imprensa chegou. Eu olhava para tudo e não fazia a menor ideia de qual seria a minha actuação. Atender as mulas? Ajudá-las a sair do vagão? Fazer-lhes festinhas para as sossegar, dizendo-lhes ao ouvido que era só uma brincadeira de mau gosto? Em boa verdade, a tropa também não estaria mais preparada do que eu. Onde estavam os chefes?
A minha sorte foi ter encontrado três colegas - dois milicianos e um de carreira - que andavam à minha procura para terem comigo uma reunião urgente. O assunto era grave. O que se passava? Afastámo-nos da balbúrdia e fomos reunir à distância. Queriam eles, por camaradagem, pôr-me ao corrente de uma bizarra situação, mas muito grave para o nosso desempenho profissional e militar. Acontece que, chegando a Cabo Verde, onde havia um destacamento militar, uma remessa de alimentos onde havia carne imprópria para consumo, em início de putrefacção, o veterinário devolveu-a à procedência, dado que o regulamento proibia a sua inutilização no destino. Quando a carne chegou a Lisboa, o ministro [Santos Costa] ficou furioso, com o pretexto de que «em tempo de guerra não se limpam armas» e afirmava: «Vai para comer é para comer mesmo». Como tal castiga, com registo na caderneta disciplinar, e declara que essa carne terá de ser consumida, dê por onde der. Acontece que essa mesma carne é despachada para o Regimento de Infantaria 6, no Cartaxo. Aqui ninguém sabia do acontecido e, naturalmente, o veterinário rejeitou a carne. E, apesar de não ter dúvidas, chamou os colegas para darem parecer e ambos confirmaram a rejeição, pois a carne, que já estava em más condições de salubridade em Cabo Verde, ao fim de mais de um mês estava em estado deplorável, de tal modo que, não só foi rejeitada, como foi imediatamente enterrada para evitar males maiores, fazendo um «auto de notícia» destinado ao Ministério, na boa fé de ter actuado com critério indiscutível. A decisão do ministro, que ficou furioso por a carne ter sido enterrada, não tendo sido usada no rancho ou, então, devolvida, foi castigar os três veterinários com castigo registado na caderneta de disciplina. Dois dos veterinários eram milicianos e diziam com humor que tal castigo na vida civil era um atestado de conduta exemplar, pelo facto de a sua atitude respeitar e defender a saúde pública. Já o veterinário militar, por causa do castigo registado, viu o seu futuro prejudicado, atrasando e dificultando a sua progressão na carreira militar.
Os tempos de manobras seguiram-se sem percalços, sempre à espera do inimigo, que afinal não veio. Para mim, valeu-me uma grande experiência e ter tido a sorte de encontrar um Comandante, médico em simultâneo, com uma grande abertura ao racional critério de decisão, apreciando por isso o meu critério de responsabilidade, sempre tendo o Comandante ao corrente dos problemas, se é que de problemas se tratava. Do que se tratava era de usar a responsabilidade.
Isto valeu-me quando já no Porto e no quartel, indo, no final da missão, despedir-me do Comandante, fui vestido à paisana. Quando os camaradas me viram disseram em uníssono: «Eh pá, não podes ir à paisana, o Comandante não te recebe». Eu respondi: «Agora já não posso ir mudar de roupa, já não há tempo e já tenho tudo emalado». E insistiam: «Eh pá, não podes. Vais ver!...». Entrei e o Comandante nada disse. Conversámos um pouco, perguntando-me se, caso houvesse a circunstância de nova mobilização ou se entrássemos em guerra, me poderia requisitar, porque tinha gostado do meu trabalho sem os berbicachos de que muita gente faz gala. Já na despedida, o Comandante, dando-me um abraço, diz: «Doutor, estou a ver que estava farto desta vida»... e olhou para mim varrendo a vista pela minha indumentária. Eu entendi a repreensão e respondi: «Meu comandante, nem me fale!». E assim acabaram as manobras. Cá fora, os camaradas aguardavam-me e ficaram espantados: «Então, o tipo não te repreendeu?». «Não - respondi - e estou aqui vivo». Não faltaram os protestos e dichotes: «Pois é, vêm para aqui estes milicianos, fazem o que querem e nós é que nos tramamos. Não é justo. E ainda se riem de nós». Etc. etc. etc.
É pena, há muita coisa que não se pode explicar. A única explicação é o medo.

Fernando Vieira de Sá

Outubro/Novembro de 2008

domingo, 26 de Outubro de 2008

JOSÉ BRANCO RODRIGUES [1912-2008]

No dia 26 de Setembro de 2008, faz hoje um mês, falecia em Lisboa José Branco Rodrigues, razão pela qual aqui deixamos um emocionado e belíssimo texto de Fernando Vieira de Sá. Tivemos também o privilégio de conhecer Branco Rodrigues, um ser humano especial na sua simplicidade e desinteressada amizade. Recordamo-lo com saudade, mas com a certeza de que o testemunho fica e perdurará na nossa memória e na daqueles a quem consigamos transmitir este extraordinário exemplo de vida.

A morte de Branco Rodrigues exerceu em mim uma sensação que nunca tinha experimentado e que se enraíza numa profunda ideia de irmandade que vem de um tempo em que, com epicentro na Europa mas com réplicas em todo o mundo, deflagrou a I Guerra Mundial.
Branco Rodrigues nasceu em 1912. Eu nasci em 1914, tempo de gestação e eclosão do grande conflito bélico (1914-1918), donde nasceria uma sociedade que alterou organicamente o statu quo ante da vida e, seguramente, actuou sobre as famílias e todo o evolutivo pensamento de que os recentes nascituros serviram de cobaias das recém-implantadas vivências.
Sem nos darmos conta disso, a verdade é que, com o desaparecimento de Branco Rodrigues, pela primeira vez senti que, afinal, o nosso encontro e conhecimento, dir-se-ia, recente, evoluiu instintivamente assente em uma aproximação oculta e temporal que agora, com a sua morte, senti que alguma coisa do meu estar alterou os estímulos da memória, dando-me a sensação de ter perdido alguém que, para mim, sem me dar conta, era tanto, como um amigo de vivências paralelas. Éramos, por assim dizer, produtos gémeos face ao alvor de uma novelíssima Nova Era nascida connosco, fazendo parte de nós.
Agora, neste particular aspecto e sem referência à época comum que nos assistiu à nascença, fiquei só, como relíquia desse mundo que nos ia formar. Nunca pensei que a sua falta neste mundo me tivesse atingido tanto por tal ausência. E, no entanto, vivemos dezenas e dezenas de anos, dir-se-ia, quase toda a vida sem nada sabermos um do outro, pois só nos vimos pela primeira vez em casa de Mário Neves [1912-1999], nascido também em 1912, um grande amigo comum, quando este caiu numa cadeira inutilizado pela doença que se arrastou fatidicamente, cumprindo a sentença de prisão perpétua que lhe calhou por acasos da existência. E nós, eu e Branco Rodrigues, cumprindo uma dívida que a amizade e o dever facultativo impõem, aí íamos fazer-lhe companhia com grande frequência, alimentando sempre uma conversa animada, esquecendo as circunstâncias que se esqueciam. Pois foi aí que de jure et de facto nos conhecemos, afinal somente quando a idade, já sem idade, nos começava a rondar a porta e nós a bater-lhe com ela na cara.
Mário Neves faleceu e nós continuámos a nossa relação, que já não tinha retorno, encontrando-nos frequentemente, incluso em Sesimbra, onde eu e Maria Elvira [1917-1999] recebíamos amigos em dias de fraternidade, o que ainda hoje faz presença na memória e na saudade, mas já com muitas baixas. O cerco aperta-se...
Mais recentemente os nossos encontros e conversas eram somente telefónicos. As circunstâncias iam-nos restringindo os espaços de manobra, ficando-nos como modesto recurso os telefonemas diários para uma saudação e já isso era um apego a todo o nosso passado de relação de amizade. A falta desse contacto diário atingiu-me, como não me passaria pela cabeça atingir os meus tempos de ocupação mental e refrescamento pela voz e pela banal notícia de «nada de novo», ajudando-nos a existir.
Branco Rodrigues era um homem especial. Vivia mais para os amigos do que para si mesmo. Era pessoa que se dedicava intensamente aos amigos, sempre atento aos aniversários, às homenagens em vida e na morte, intervindo nas celebrações de tudo o que enaltecesse alguém que o merecesse. Lembro aqui, e registo, a grande preocupação de Branco Rodrigues, desde há um ano, com a celebração do centenário do general Vasco Gonçalves [1921-2005] com o seu receio de que caia no esquecimento ou menor relevo por falta da devida antecipação na sua organização. Por isso desunhava-se em contactos, prevendo que ele poderia não estar já vivo para agitar, para dar o seu contributo e pedir o de outros. Esta seria a mais sublime homenagem a Branco Rodrigues, que, levando-a a cabo, seria sem dúvida alguma uma dupla homenagem.
Tudo isto aqui escrito lembra e homenageia Branco Rodrigues, um homem modesto, só pensando nos outros, fossem eles vivos ou mortos. A sua figura esfumava-se com total discrição. Quem lhe quisesse falar em qualquer celebração, por exemplo, teria de ir à última fila, onde o encontraria silencioso e apagado, mas sempre atento a tudo.
É com saudade e respeito que dedico estas palavras à sua memória.



Fernando Vieira de Sá
Lisboa, 26 de Outubro de 2008

sábado, 25 de Outubro de 2008

INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (VI)

[continuação]
Agora era só esperar pelo ano seguinte para me apresentar no Regimento de Cavalaria 2 - Lanceiros da Rainha, pois em tempos da Monarquia a rainha era sempre a patrona do Regimento, onde passei uma das melhores férias da minha vida, aprendendo equitação, montando os melhores cavalos e assistido pelos melhores cavaleiros da época, concursistas em torneios internacionais. Recordo com saudade as cavalgadas pelas colinas de Monsanto, pisando o mesmo solo que o rei D. Dinis percorria nas caçadas aos ursos (ainda não existia o parque), os dias no campo de obstáculos, o volteio no picadeiro, etc. Por casualidade, já licenciado, passei dois ou três meses na Estação Zootécnica Nacional, Fonte Boa, Vale de Santarém, onde continuei a montar, nessa ocasião percorrendo a lezíria, campo aberto, de uma beleza sem par, onde a vida cresce de energia e o espírito se desfaz em poesia e optimismo. Valeu a pena.
Valeu-me este passado, quando alguns anos mais tarde, em Cuba, Ramón Castro planeou uma excursão à Sierra Maestra para me mostrar lugares onde passaram as colunas revolucionárias, mas Fidel proibiu com receio de algum desastre pelo facto de eu ir a cavalo. Foi preciso eu explicar muito bem que montar a cavalo não me causava qualquer dificuldade e que, se fosse preciso, escreveria uma carta responsabilizando-me de qualquer percalço, ao que Fidel acedeu sem mais dúvidas. Venci alvos nunca premeditados.
Para concluir, este período de instrução, e fazendo uma reflexão sobre a sua utilidade, já o fazendo com a experiência que iria adquirir e que na altura estava longe de ser realidade, dir-se-ia que, honestamente, não me lembro por mais que escave a memória de qualquer coisa útil em qualquer participação, como veio a acontecer. Tirando a equitação, e por eu estar interessado no assunto, nada, nada mesmo, assimilei que me viesse a ser útil em qualquer futuro. Pareceu-me tudo um manancial de regras oficiantes a que não se ajusta uma prática onde o imprevisto é lei.
2. OS CURSOS - O curso de oficial miliciano processava-se em dois dos períodos de férias do último ano do curso. Neste caso, o meu primeiro período, como já disse, processou-se no Regimento de Cavalaria 2 - Lanceiros da Rainha. Para mim correspondeu à prática da equitação, um tempo que para mim foi de grande prazer e proveito. Não o esqueço e teve em mim um bom incentivo de teor desportivo evoluindo para outras práticas físicas. Quanto ao resto, muito honestamente, mal me lembro de qualquer lição que tivesse alguma coisa de interesse, isto do ponto de vista militar, pois as palestras, no seu conteúdo, não eram mais do que uma continuação do ensino universitário, não se acrescentando nada de especificamente militar. O segundo período passava-se no Hospital Veterinário Militar, cuja ubicação se situava a poucos metros do Regimento de Cavalaria 7, ou seja na Boa-Hora. Isto deu como resultado que, logo que me despachava dos deveres no hospital, corria para o Regimento e aí ficava várias horas até me mandarem embora. Daí ter tido a sorte de mais dois meses de prática equestre.
No Hospital repete-se a mesma continuação universitária. De alguma coisa especificamente militar, na realidade não me recordo. Toda esta orientação, que nada tinha de militar, mais tarde mostrou a sua inutilidade quando me vi em manobras e não sabia por que ponta lhe havia de pegar, dificuldades a que me referirei à frente.

Os Cães de Guerra - De todas as lições recebidas neste período de instrução já declarei atrás que tudo o que se palestrou foi de tal vulgaridade que pouco ou nada, por mais esforços que faça, ficou retido na memória. Em linguagem dos tempos de hoje chamar-se-ia a este estado de espírito o «buraco do ozono» do planeta, sendo que aqui o planeta é o nosso mundo craniano. No entanto, uma excepção é de toda a justiça relevar. Foi a palestra sobre cães de guerra, não só pelo seu intrínseco interesse (uma informação que não era conhecida) como por uma certa filosofia que da lição se desprende, como na sua avaliação em termos mais abrangentes. Por tais razões achei oportuno relatar.
A lição, como já referi, era sobre cães de guerra. O instrutor desperta logo a atenção. Assim: Corria a I Guerra Mundial, conhecida por «Guerra das Trincheiras», em que os dois países beligerantes - França e Alemanha -, frente a frente e corpo a corpo, se debatiam, saindo das suas trincheiras, pelejando em terreno de ninguém. Durou isto quatro anos de beligerância a que se Juntaram a Bélgica, a França e depois a Inglaterra, Portugal e, do outro lado, os países de Leste. No estudo estratégico da beligerância, os observadores militares e estrategos, começaram a ter dificuldades em descobrir como os exércitos do lado alemão davam toda a sensação de dispor de informações que prejudicavam os ataques-surpresa, o que os levou a uma séria investigação, da qual resultou a descoberta do cão-correio, cão-estafeta, enfim um novo meio de comunicação à distância que, na época, era muito escassa e de modesta qualidade: telefones de campanha, telégrafo, código Morse, pombo-correio aberto ao tiro certeiro, e não sei se mais algum.
Ora bem, descoberto o segredo de comunicação através dos cães, os investigadores dos aliados logo começaram a estudar todo esse campo. Concluíram então que os alemães já estudavam o assunto desde há muitos anos, possuindo na altura cães de raça apurada para os efeitos desejados, quartéis de cães de guerra adestrados no ofício de mensageiro ao domicílio, etc., etc.
Sem perda de tempo, do lado aliado começa o improviso de caçar cães onde os houvesse, desde o vira-latas até ao pastor alemão, caçando homens para treinadores, sabendo tanto como os cães, etc., etc. Mas - enfatiza o nosso instrutor - «a verdade é que com todos estes improvisos os nossos cães lá se desenrascaram e cumpriram tão bem como os do inimigo que vinham de academias caninas». Chegado a este momento e a esta declaração, ouve-se do fundo da sala de aula uma voz pensadora de quem medita mais para lá das palavras. O que se ouve é isto, em atmosfera de silêncio, referindo-se à conclusão do instrutor: «Eram os milicianos meu tenente, eram os milicianos. Cá estamos nós também aqui como rafeiros». Salta uma grande gargalhada. O instrutor embatuca e faz um sorriso sardónico.
E até ao fim da instrução, a respeito de tudo e de nada, ouvia-se: «Eram os milicianos... somos os cães-correio da I Grande Guerra».

[continua]

sábado, 18 de Outubro de 2008

INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (V)

1. COMEÇANDO PELO PRINCÍPIO - Corria o ano de 1937. Fazia já um ano que começara a Guerra Civil de Espanha. Estava eu no 4º Ano do Curso de Medicina Veterinária. Teria neste ano de me apresentar à inspecção médica (vulgo «sortes») e, sendo apurado, seguir-se-ia o primeiro período de instrução militar, ingressando no Curso de Oficiais Milicianos, pois é aí o viveiro do Exército e da Marinha para civis licenciados onde se caldeiam as mais altas virtudes do cidadão deslapidado ou mal entalhado para arrostar os perigos que sempre enfrentam as grandes nações e pátrias de altos exemplos de honra e patriotismo. Esses saberes e entregas que aí se aprendem e, sofregamente, aspiram ficar à altura dos mestres e momentos onde a glória os aguarda. Isto é o que a etiqueta do curso suscita. Cá estamos. A pergunta é: estaremos à altura?
Após este intróito, que se impunha para que todos lembrem que nem tudo é mau, nem tudo é fado, cá estamos, repito, arrostando o veredictum dos Juízes, as sentinelas da herança pátria, egrégios exemplos...
Nada, porém, resiste à ferrugem que tudo mina, mesmo o que se julgaria protegido da perversão dos costumes, a corrupção da sociedade. A verdade é outra, embora não se escreva. Com efeito, ao contrário, tradicionalmente e na generalidade dos casos, todos os varões desejariam reprovar na inspecção médica e, como tal, ser dispensados dos deveres militares. Comigo, porém, passava-se o contrário. Também os desígnios eram outros e mais modestos, menos ambiciosos, mais pessoais. Pode condenar-se, mas aplaudir seria desaforo. Assim, é simplesmente justo. Nunca me julguei com estatura para tão altos desígnios. Em boa verdade desejaria ser aprovado - do que não tinha a menor dúvida, dada a minha compleição física - por duas razões: 1º. - terminado o curso e apto para o serviço militar, poderia concorrer ao quadro de veterinário militar se por acaso houvesse algum concurso de admissão; 2º. - e o mais aliciante, que consistiria em aprender equitação, o que só poderia concretizar sem custos fazendo o curso de oficial miliciano na arma de cavalaria. Nesse tempo, com menos de metade do século XX percorrido (escrito assim é mais ponderável) o Exército tinha os melhores cavaleiros do país. Porém, nesse ano as coisas iriam correr de forma diferente, dir-se-ia, ao invés da rotina, sacrificando a impoluta dignidade profissional em dose dupla (militar e civil). O patriotismo e a ética, quer militar quer médica, cedem às instruções indignas vindas do Alto, em formato de boato, o mesmo é dizer de Salazar, para que os mancebos de Lisboa, e particularmente de Alcântara, na base de uma inaptidão diagnosticada para a prática militar, conferida pela respectiva Junta Médica, e assim precaver qualquer infiltração de vírus subversivos carreados para dentro dos quartéis pelos indivíduos vindos de um meio duvidoso face à segurança da sociedade. A razão era simples. A Espanha era assediada desde há um ano pela Guerra Civil. Franco corria pela implantação do fascismo em Espanha, uma espécie de Cid, O Campeador, que também por aí cavalgou há bem mil anos, derramando sangue e morte selvaticamente como se fossem ambos da mesma cepa, o mesmo ADN, com o fito de expulsar o poder republicano democraticamente alcançado nas urnas, derrotando a ditadura de Primo de Rivera (1931-1935), exilando-se o rei Afonso XIII que se acolhe ao sol do Estoril. Portugal, para os fascistas e reis, era um paraíso. Outros, mais tarde, fizeram o mesmo.

A Mentira, «A Bem da Nação» - É bom recordar que, nesse tempo, a classe operária, concreta e personalizada, afirmava-se quase exclusivamente em Lisboa, nomeadamente em Alcântara, onde se erguia o complexo industrial da CUF, único exemplo significativo de Revolução Industrial inspirada pelos novos ventos que começaram a soprar após o fim da I Grande Guerra (1914-1918) na Europa. Perante este espectro, tudo podia acontecer; isto é, ser reprovado na inspecção médica. A preocupação aumentava à medida que se ia conhecendo a invulgar alta percentagem de mancebos dispensados. Chegado o meu dia, vi-me às tantas numa sala perfilado numa linha de quinze matulões, todos em cuecas, aguardando a sua vez para ser inspeccionado por uma Junta de três ou quatro médicos militares. Pelo aspecto físico, se fosse em tempos normais, todos seguramente seriam apurados. Porém, até à minha vez, teriam sido observados uns dez, cuja maioria ficou dispensada. Eu falava só. Olhava os médicos, simples capatazes do regime, o quadro de uma pátria ajoelhada aos pés do ditador a preço sem preço. Servidão.
Desta feita, e desde logo identificado com os «bons exemplos» e os brios aí praticados «A Bem da Nação» ou, quiçá, da humanidade, deixando para trás feito entulho o que fez a história dos tais heróis cuja memória se enxovalha em favor de outros alvos e outra moral. É preciso chamar a atenção para o pormenor de que esta inspecção tinha lugar no Quartel-General, ao tempo funcionando no Palácio das Necessidades, recebendo a brisa alcantarense transportando o vírus inquietante. Ouvindo, finalmente, o meu nome, avancei até junto da mesa onde esperavam os actores da peça que, um a um, iam manobrando à minha volta, exibindo os clássicos gestos e aparelhagem de diagnóstico usuais nestes actos profissionais e, não demorando o veredictum, dá o resultado/ordem: «Está dispensado, pode seguir». Mostrei-me surpreendido porque me sentia são como um pêro e disse, quase ofendido: «Veja o sr. doutor, eu pensava que tinha saúde para dar e vender e agora oiço esta. Preciso saber o que se passa para consultar um médico imediatamente». O médico fica um pouco surpreendido e confuso e o que lhe veio à cabeça foi dizer: «Não é nada de grave, mas fica livre. É melhor prevenir que remediar». «Não é bem assim sr. doutor, de qualquer modo quero saber o que me afecta, para me tratar e cuidar». Resposta: «Mas não está contente por ficar livre?». «Não é o caso nem se põe essa questão de querer ou não querer». O médico mostra algum embaraço em manter o diálogo e acaba por dizer: «Está bem, se quer ficará apurado. E em que arma gostaria de servir?» «Não sabia que se podia escolher, mas se me dá essa oportunidade, gostaria de ir para cavalaria». Desta feita e desde logo identificado com o brio militar e profissional dos respeitáveis facultativos, que poderão defender a Pátria de perigos medonhos mas, quanto a honra e brio profissional, estamos conversados... É uma vergonha. A nobreza de Salazar era ter a Pátria a seus pés.

[Continua...]

terça-feira, 14 de Outubro de 2008

INCURSÃO PELAS ARMAS

Brevemente aqui se escutarão mais alguns «Ecos da Memória», desta feita sobre a «Incursão pelas Armas» de Fernando Vieira de Sá, com peripécias das «sortes» no quartel-general, ao tempo a funcionar no Palácio das Necessidades, ali bem perto da Alcântara da CUF e dos mancebos portadores de perigosos vírus subversivos, entre outras saborosíssimas histórias que vão do Regimento de Cavalaria 2-Lanceiros da Rainha até ao Cartaxo... onde se fala de equitação, cães de guerra, mulas, carne podre, etc... sempre à espera do invasor alemão!!!

Aqui ficam dois registos fotográficos, um de 30-X-1943, por ocasião das manobras militares na região do Cartaxo, sendo FVS Alferes-Veterinário, outro, datado de 1-VI-1953, sendo FVS já, então, graduado Tenente-Miliciano do Serviço Veterinário Militar.



domingo, 12 de Outubro de 2008

A CRISE - CADA COISA TRAZ EM SI A SUA CONTRADIÇÃO

No preciso momento em que todos os debates e análises se ocupam da tão propalada crise e se tenta descobrir a pólvora seca debaixo de água, camuflando os verdadeiros responsáveis de mansos cordeiros e de "vítimas", recordámos, esta tarde, em conversa com Vieira de Sá que, já em 2004, no seu livro Viagem ao Correr da Pena, o autor se debruçava sobre os problemas inerentes ao capitalismo selvagem, ao neoliberalismo e à globalização.
Deixamos aqui alguns excertos, que mais parecem escritos sobre a realidade que estamos a viver em pleno ano de 2008.
*
«Viver a utopia era, mesmo assim, possível. Havia boas razões para isso, com a esperança de que, com o fim da Guerra Mundial, a democracia seria, por direito próprio, proclamada para valer. Porém, o grande revés de tudo isso que era pensado foi, desde logo, a sobrevivência de Salazar e Franco após a derrota do nazi-fascismo. E, a partir daí, toda a reconstituição paulatina - apenas com a mudança da sede do Reich para a América do Norte - dos ambicionados poderes hegemónicos de domínio absoluto do Mundo, agora com armas mais poderosas, nãp só militares como económicas, e o totalitarismo da globalização. No entanto a utopia existe, configurada na implosão do capitalismo selvagem, ele próprio, quando chegado ao cume da sua última etapa de crescimento. Então renascerá das cinzas um novo mundo. Será para daqui a vinte, trinta anos? Os momentos históricos não se contam por minutos, horas, ou dias, contam-se por decénios e séculos. Isto se o planeta aguentar a destruição a que está sendo sujeito em favor apenas do banditismo do capitalismo selvagem, tomando, pelo dinheiro e pelas armas de destruição maciça, a riqueza de todos, o que já esteve mais longe, bem mais longe desse fim já em curso, sem esquecer o caos ecológico.
[...]
Assistimos agora ao mais inédito acontecimento da história do mundo. A aproximação suicida do pico de abrangimento e concentração da riqueza do planeta por mor do imperialismo expresso no neoliberalismo global, incluindo as riquezas de Marte, se lá as houver, vislumbrando-se que o século XXI venha a assumir-se a arena presumível da sua defecção, quando for chegado o último degrau da própria contradição, como dialecticamente é mister, e cujos sinais objectivos de sustentação se vão sentindo cada vez mais ameaçados, apontando para a inevitável derrocada, tão global quanto o ecumenismo das forças opostas se avolumam, não sendo fácil apor soluções intermédias, pois não se trata de reformar um sistema, mas de substituí-lo, invertendo os propósitos científicos de índole sociológica e de desenvolvimento económico, o que apraz alcançar com urgência e determinação. A experiência fala por si. É imperioso ir ao encontro desse desideratum, travando o passo quanto antes ao devorismo grassante, despertando as consciências frente a riscos de outra gravidade e de bem mais sérias consequências e incerta resolução, pois estas são já do foro das patologias ainda mal conhecidas que ensombram os cientistas e o mundo.
[...]
Derrubou-se o muro de Berlim, o "muro da vergonha" como se lhe chamou. Derrube-se agora o muro da fome, o muro da demência, o muro da morte, o muro do holocausto de uma civilização que agoniza. Todos são o mesmo muro. Mas estes agora não são da vergonha, mas do crime calculado e premeditado.
O problema agudiza-se e cada vez mais vertiginosamente (tempo da história). E também mais vertiginosamente se aproxima do pleno e dialéctico princípio de que "cada coisa traz em si a sua contradição" (Marx). Assim, o globalismo neoliberal não poderá evoluir para lá dos seus próprios limites que se consubstanciam na autofagia. E quando já fervilha a contestação das inquietantes turbas de esfomeados, de desempregados, de sem-abrigo, de sem-direitos em todos os recantos da Terra, todos sistematicamente orientados para um sistema filosófico de expoente inverso, ou seja, valorizando e dignificando o trabalho e garantindo os direitos estruturantes fundamentais, em última análise, o direito inerente à dignidade humana, dando aqui relevo à sanidade mental, a mais dramática de todas as sanidades.»
Fernando Vieira de Sá, «Prefácio de Coisa Nenhuma», Viagem Ao Correr da Pena, cit., pp. 17-18, 20.

domingo, 5 de Outubro de 2008

CARTAS, VIAGEM, ECOS, AUTÓPSIA



domingo, 28 de Setembro de 2008

ECOS DA MEMÓRIA (IV)

«OLHANDO ARQUIVOS, FAZENDO HISTÓRIA. NOVO CONCEITO: "LEITARIA TROPICAL". O PROBLEMA
Contra os interesses económicos dos países de climas temperados e em favor do desenvolvimento dos países quente (antigas colónias, protectorados e/ou submetidos ao capital das economias avançadas) vi-me pela primeira vez imprevisivelmente confrontado num Simpósio Internacional em Amalfi, Itália, ao debater questões de produção e utilização de leite em países quentes, dando-me a oportunidade de impor novas visões e conceitos técnicos, científicos e económicos, diferenciando em termos de identidades específicas e comportamentos de acção concernentes à produção e utilização do leite em diferentes condições climáticas e desenvolvimento global. A história vem de longe e, para se perceber em todo o seu sentido temporal, aconselha-se e recomenda-se a leitura, no meu livro Viagem ao Correr da Pena, do capítulo "A viagem dos incómodos e das surpresas" (pp. 71 ss.), cujos incómodos foram muitos, mas as surpresas muito maiores e imprevisíveis... só lendo se entende o que está em causa.
Apesar de todo o rechaço sofrido resolvi ir em frente, aproveitando a primeira oportunidade, ao ter sido convidado pela organização do XIV Congresso Internacional de Leitaria (1956) para proferir uma das três conferências plenárias programadas e cujo título define o objectivo de minha escolha que discuti em Amalfi: "The problem of a sufficient supply of milk in hot countries, particulary in relation to milk producing animals - the cow, buffalo, sheep and goat" (idioma do regulamento do congresso) que mereceu uma referência no jornal Il Tempo, de Roma, de 27-IX-1956, que aqui se reproduz em parte:

"[...] L'intervento più importante di ieri al 14. Congresso internazionale del latte e stato quello del prof. Vieira de Sá, il quale ha riferito sul rifornimento di una quantità sufficiente di latte ai paesi a clima caldo, in rapporto all'animale produttore: mucca, bufala, pecora e capra.
In particolare è stata esaminata, con abbondanza di riferimenti tecnici, l'interferenza del clima sia all'equatore che nelle zone tropicali e dei monsoni. Si tratta di problemi complessi che investone l'igiene, il trasporto, la lavorazione particolare del latte sia per l'alimentazione diretta che per la trasformazione industriale. D'altra parte l'incremento della produzione è il dato fondamentale, giacchè se il volume di latte commerciabile non è sufficiente, límpresa è anti-economica."

Em 1962 fui convidado para «Opener of Discussion» da Secção X - Tema 1 do XVI Congresso Internacional de Leitaria (Copenhaga), "The keeping of cattle in 'milk colonies' as opposed to traditional village units; problems in connection with the keeping of cows and buffaloes in urban districts" [tratava-se de Carachi, Bombaim e outras cidades, onde corriam explorações-piloto muito badaladas por Korodi (técnico indiano que eu conhecia e encantava Pederson, Chefe de Serviços da FAO)], tendo apresentado, adicionalmente, uma intervenção de fundo com o título: "The Establishment of the Milk Colonies Must be Considered From Many Viewpoints, Specially Those Concerning Farming Economy».

A designação «Leitaria Tropical» consagra-se na literatura sobre o tema. O meu livro Lechería Tropical confirma o avanço e espalha-se por toda a América Central e Sul. Em Portugal não se viu interesse.

O industrial milanês teve de se ajustar aos tempos que exigem progresso e ideias; e actos adaptados às exigências da ciência e da civilização; e sobretudo longe da mentalidade que se presenciou no logro "amalfiano".»
FVS
Setembro de 2008

sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

TESTEMUNHO (III) - PRODUTOS TRADICIONAIS, CONGRESSO COM HISTÓRIA, UM EXEMPLO E UMA AMIZADE QUE PERDURAM

Em resposta a um mail que enviámos para saber qual o Congresso que a levou a Cuba em 1990 - tema abordado no texto anterior - recebemos este testemunho de Conceição Martins, amiga de Vieira de Sá. Conceição Martins é Professora Catedrática da UTAD - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Aqui ficam as suas palavras e o nosso agradecimento, em nome do blogue e do Dr. F. Vieira de Sá:

«(...) O Congresso a que fui era «36th Internacional Congress of Meat Science and Technology» realizado em Havana de 27 de Agosto a 1 de Setembro de 1990. Apresentei um poster «Chemical characteristics of ALHEIRA - a Traditional Portuguese Saussage». O tema dos produtos tradicionais de salsicharia sempre me foi caro por razões familiares (o meu pai iniciou uma unidade artesanal de salsicharia em 1946 que foi evoluindo e tem actualmente 45 colaboradores e na qual eu também sou sócia). O meu estágio de licenciatura realizou-se no INETI, em presunto, onde conheci o Dr. Vieira de Sá e ocorreu o incidente de me tratar por tu (naquela altura era tudo mais formal). O tratamento, a admiração e a amizade perduram. Assimilei o espírito incutido pelo Dr. Vieira de Sá no Departamento onde era estagiária e continuei a cultivá-lo pela vida fora: a importância do trabalho em equipa, a interdisciplinaridade, o interessante e enriquecedor que é trabalhar com outras formações, o importante de se ser rigoroso, produtivo e com espírito de missão, de como líder defender a discussão sem subserviência, o entusiasmo de se fazer coisas. Estando eu agora a ler o seu último livro dou-me conta o quanto foi importante na minha carreira académica e na minha postura perante o trabalho, toda essa postura que bem absorvi. Foi para mim um privilégio ter em 1970/71 trabalhado no Departamento, mais especificamente na área de microbiologia com a Dra. Ilda Cruz . Mantive sempre contacto com o DTIA ao longo do tempo e mesmo relações de parceria em assuntos profissionais. Quando ia a Lisboa a visita ao DTIA fazia parte do programa da deslocação para discussão de assuntos de carácter profissional (desempenhava o lugar de técnica de uma PME do sector das carnes ) mais tarde integrando a universidade o DTIA foi fonte de conhecimento, manancial de bibliografia, fonte de conhecimento analítico e técnico, e parceria no projecto de caracterização da salsicharia tradicional. Continuei no tema na investigação e ainda hoje o nosso grupo de investigação na UTAD tem a sua âncora nos produtos tradicionais. Nestas visitas ao DTIA a confraternização na hora de almoço era também um ponto importante no cimentar de relações de amizade que o tempo e a distância não desmoronaram. (...) Quando disse ao Ramón Castro que tínhamos um amigo em comum, FVS, virei estrela, dispensou a tradutora e fiquei eu de intérprete, acompanhando-o todo o tempo que esteve no congresso. No dia anterior tinha estado a falar com o Fidel Castro. Foi um congresso com história.
Conceição Martins»

quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

ECOS DA MEMÓRIA (III)

Doutora Conceição Martins e Ramón Castro Ruz (Habana, 31 de Agosto de 1990).

Sabendo da sua ida a Cuba participar activamente num Congresso, pedi-lhe imediatamente para ser portadora de uma mensagem de amizade para Ramón que me acompanhou sempre nas minhas digressões em toda a ilha, ao que ela logo se prontificou gostosamente. Daí a mensagem de Ramón que aqui se reproduz:
«Al querido profesor Vieira de Sá,
de Su hermano Ramón Castro Ruz / Habana 31-8-90 Querido profesor, lo saludo, con la portadora, Estimada Maria. Siempre lo recordamos y lo esperamos.
Lo quiere Ramón Castro Ruz».


À Conceição, ao oferecer-lhe o meu último livro, Autópsia a Um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do DTIA, dediquei-o, escrevendo: «Por todas as razões terias direito a receber uma cópia desta peça shakespeareana, pois de drama se trata (uma autópsia é sempre drama). Mas acresce o facto de nesse elenco teres participado por algum tempo no papel de estagiária com um desempenho de muito bom quilate.

E até me recordo daquele aparte dela, em tom ofendido, advertindo-me que não me autorizava a tratá-la por tu, por não haver razões para tal. Respondi-lhe que continuaria a tratá-la por tu, mas, em contrapartida, pedia-lhe que me tratasse de igual para igual, pois eu exercito mais a fraternidade do que outras práticas amorfas e de catálogo que a sociedade usa sem nada dentro. E assim ficou a lição muito fácil. E a nossa fraternidade manteve-se e já conta muitos anos. Se assim não fosse teria o nosso relacionamento sido igual? Duraria para toda a vida? Fica a dúvida.» FVS

sábado, 20 de Setembro de 2008

ECOS DA MEMÓRIA (II)

Graça Mexia, Manuel João da Palma Carlos, Annie, F. Vieira de Sá e Armanda Fonseca na embaixada de Portugal em Habana (arquivo FVS).

No dia seguinte à minha chegada a Habana, fui cumprimentar o Comandante Fidel Castro e agradecer-lhe o convite para visitar Cuba. Conversámos um bocado, dizendo-me ele que me agradecia toda a crítica que eu entendesse fazer. E que iria saber de mim diariamente através da sua secretária Annie, uma portuguesa em quem ele depositava toda a confiança. E assim todas as manhãs Annie me telefonava, conversando um pouco. Por vezes encontrava-a na embaixada de Portugal. Um desses dias alguém tirou esta foto. Da esquerda para a direita: Graça Mexia (médica), Palma Carlos (embaixador), meu contemporâneo do Liceu Passos Manuel [por isso eu ia à embaixada com alguma frequência para conversar de tempos idos e beber uma cerveja], Annie, eu e Armanda Fonseca (Presidente da Direcção da Associação de Amizade Portugal-Cuba). FVS

ECOS DA MEMÓRIA (I)

COM ESTE TEXTO INAUGURAMOS UMA NOVA RUBRICA, «ECOS DA MEMÓRIA», ONDE FERNANDO VIEIRA DE SÁ NOS TRARÁ ALGUNS APONTAMENTOS E RECORDAÇÕES SUGERIDOS POR FOTOS, RECORTES E OUTROS DOCUMENTOS DO SEU ARQUIVO
Com Ramón Castro, em 1975, de visita a um Centro de Inseminação Artificial em
Valles de Picadura (arquivo FVS)
Esta foto é do próprio dia em que cheguei a Cuba. Tendo embarcado em Lisboa à noite, cheguei a Habana às 6 da manhã. Aí, Ramón Castro informou do programa do dia: - tomar o jipe, agarrar nas malas e deixá-las à porta do hotel; - partir de imediato para visitas de trabalho de modo a vir almoçar à «Bodeguita del Medio», lugar histórico por aí se ter conspirado contra Baptista e por ter sido pouso de escritores como Hemingway e Neruda, entre outros. Aí nos aguardariam alguns convidados de Ramón e um grupo folclórico para animar o repasto. Aí chegados quase ao fim da tarde, o grupo já tinha saído convencido de que já não iríamos. Assim é a etiqueta cubana... llega cuando llega. Só se ouviram algumas canções cantadas pelos resistentes à demora.
Tendo permanecido em Cuba uma semana, mal vi Habana, andando sempre por montes e vales, sem deixar de visitar Valles de Picadura, onde se desenvolvia o projecto de desenvolvimento leiteiro, sob os preceitos recomendados no meu livro Lechería Tropical (edição revolucionária de 1967, mas que eu conheci em 1975). Antes este vale era um campo estéril e pedregoso. Em 1975 era um prado fértil onde pastavam centenas de vacas leiteiras de alta produção.
Foram dias de trabalho, mas também de muita fraternidade. Saí de Cuba quase cubano e nunca mais deixei de seguir a sua trajectória política e, sobretudo, o desenvolvimento pecuário. Voltei lá mais duas vezes, sobretudo para observar o progresso leiteiro. FVS

domingo, 14 de Setembro de 2008

DISTRIBUIÇÃO REVOLUCIONÁRIA, EM CUBA, DE LECHERÍA TROPICAL

A MENSAGEM
(exemplar de F. Vieira de Sá)
Cf. Viagem ao Correr da Pena, p. 399: «A edição revolucionária foi a maneira que o Governo revolucionário de Cuba encontrou para ter acesso à obra, devido ao bloqueio norte-americano à ilha e que ainda se mantém ao fim de quarenta anos. Não só a edição foi produzida, como oferecida aos ganadeiros com a seguinte mensagem:
"Compañero:
Este libro tiene un gran valor, por eso se te entrega gratuitamente. Vale por el trabajo acumulado que significan los conocimientos que encierra; por las horas de esfuerzo investidas en confecionarlo; porque sintetiza un paso de avance en la lucha del hombre por ser tal. Su mayor valor estará dado, sin embargo, por el uso que tú hagas de él. Porque estamos seguros de eso uso, y por su gran valor, se te entrega gratuitamente.
EDICION REVOLUCIONARIA"»

EDIÇÃO REVOLUCIONÁRIA, EM CUBA, DO LIVRO LECHERÍA TROPICAL


Edição revolucionária de Lechería Tropical, La Habana, 1967.
Exemplar de F. Vieira de Sá, com alguns autógrafos/dedicatórias, oferecido em 11 de Setembro de 1975, por Ramón Castro, irmão de Fidel, com a seguinte dedicatória: «A mi querido hermano Fernando - defensor de la segunda madre de la humanidad - en su recorrido por Cuba. Valles de Picadura, Ramón Castro 11/9 - 75.

LECHERÍA TROPICAL - EDIÇÃO REVOLUCIONÁRIA, «FUZILAMENTO» E RESSUREIÇÃO DE F. VIEIRA DE SÁ

Diz Fernando Vieira de Sá na p. 392 de Viagem ao Correr da Pena, no capítulo já citado no texto anterior:

«Eu só vim a tomar conhecimento do meu "fuzilamento", como autor, após o 25 de Abril, ou seja oito anos mais tarde [a edição revolucionário é de 1967]. Através do primeiro contacto de Portugal com Cuba o jornalista Alpedrinha, e algumas semanas depois o Dr. Cruz Oliveira, na altura secretário de Estado da Saúde, no seu regresso a Lisboa, me procuram transmitindo-me um convite do Governo na pessoa do Ramon Castro, irmão de Fidel Castro, para visitar Cuba em agradecimento da contribuição que constituiu o meu livro para a orientação do projecto leiteiro, já então implantado. Aceitei o convite, que muito me honrou, tendo-me dado mais satisfação o dito "fuzilamento" que qualquer dinheiro que pudesse auferir pela venda dos direitos de autor de uma edição comercial. O "fuzilado", em nome de uma causa legítima, agora ressuscitado em nome de um reconhecimento. Para, no âmbito da divulgação do conhecimento científico e técnico, a maior de todas as recompensas é ter a confirmação da utilidade da sua obra, com a certeza de que para isso não contribuiu nada mais do que o seu conteúdo, o seu trabalho, e não a cunha ou lamber os pés a qualquer personalidade influente ou ainda entrar para o partido no poleiro, que no meu caso teria de ser a União Nacional ou a Legião Portuguesa para ter as portas abertas para as bibliotecas do Estado adquirirem as suas obras. Valeu a pena não vender a alma ao diabo... vale sempre a pena.»

LECHERIA TROPICAL - «COSTURANDO» A EDIÇÃO

Jiquilpan - Michoacan, México, 1960/61. Maria Elvira e Fernando Vieira de Sá . Fotos coladas no exemplar do autor com a seguinte nota manuscrita:
«escrevendo o livro Lechería Tropical cujo original em português foi rasgado (por revolta) por as editoras portuguesas não o terem querido publicar... por falta de interesse do assunto, segundo justificavam. Isto num país tropicalista.»

Mas para conhecer toda a história à volta deste livro sugere-se a leitura do capítulo «Acasos - A História de Um Livro», in Fernando Vieira de Sá, Viagem ao Correr da Pena, pp. 389-403, que começa precisamente com outra nota do Autor que reza assim: «ACASOS - A HISTÓRIA DE UM LIVRO / Cujo manuscrito em língua pátria foi, pelo autor, rasgado, por o ter considerado dispensável, tal como o afirmou o director da Escola Superior de Medicina Veterinária quando o representante da editora em Portugal o foi apresentar para aquisição pela Biblioteca do estabelecimento. O Ministério do Ultramar procedeu de igual forma.»

LECHERÍA TROPICAL - A EDIÇÃO DA UTHEA, CIDADE DO MÉXICO

A edição da UTEHA - Unión Tipográfica Editorial Hispano-Americana, México, 1965 (exemplar do Autor).

LECHERÍA TROPICAL - MAIS DOIS RECORTES

«LECHERIA TROPICAL. Dr. F. Vieira de Sá. Traducida al español por el Profesor Dr. Carlos Luis de Cuenca. Libro encuardernado de 350 páginas, editado por Unión tipográfica editorial Hispano Americana de Méjico y distribuida en España por la casa Montaner y Simón de Barcelona, 1965.
Una obra escrita en portugués por el especialista que es el Dr. Vieira de Sá y vertida al castellano por una figura tan preeminente dentro de la veterinaria española como la del Prof. Dr. Carlos Luis de Cuenca, no precisaría más comentario, por que de por sí sola se halaba pero no podemos menos de dedicarle unas líneas, muchas menos de las que merece, después de una primera lectura.
La parte primera estudia el medio ambiente y la productividad, considerando el clima y bioma, luego la acción directa del clima sobre el animal e inmediatamente la acción indirecta del mismo, terminando esta parte con las características de los animales en estas regiones y las consecuencias finales debida al clima. En la segunda parte considera las especies y razas que producen la leche en estos países de clima cálido: bovina - bufalina - cabra y la forma de mejorar el ganado lechero en los trópicos. En la tercera parte surge con toda fuerza el saber de quien ha trabajado en esos climas para la FAO, presenta los sistemas de explotación, los principios básicos de alimentación y la defensa sanitária del ganado y en la cuarta parte de un estudio extraordinario logrado sobre la tecnología lechera tropical, la economía lechera y la organización en aquellas zonas.
En este libro dedicado como su título lo indica a lechería tropical, no sólo aprenderá mucho el que haya de trabajar en aquellos climas sino que también todo el que a temas lactológicos se dedica.»
Anales de lactología y química agrícola
, Zaragoza, 12, 1966, p.16.
«Lechería Tropical - por Fernando Vieira de Sá - Edição da Union Tipografica Editorial Hispano Americana, México, 1965.
Esta obra, que se integra na "Biblioteca Tecnica de Agricultura y Ganaderia" publicada pela prestigiosa Editorial Hispano-Americana, cobre de maneira detalhada e completa o campo dos conhecimentos relativos à produção de leite nos países tropicais, o que a torna, por isso, de consulta muito útil aos técnicos que labutam nessas regiões, mormente aos médicos-veterinários que operam nas nossas províncias ultramarinas, embora os estudantes das nossas faculdades de Medicina Veterinária encontrem também neste magnífico trabalho um amplo e valioso repositório de informações sobre a economia leiteira em tão vasta zona do Globo.
O livro reflete, como é óbvio, a grande erudição e a larga cultura unânimemente reconhecidas ao Autor, que é, sem dúvida, na actualidade, um dos nomes mais brilhantes da Classe. O volume, que compreende um total de 348 + XIV páginas, é, como se disse, uma edição da UTEHA, da cidade do México, primorosamente impresso e valorizado com uma excelente introdução do prof. Carlos Luis de Cuenca, da Faculdade de Veterinária de Madrid, o qual se encarregou igualmente da tradução desta primeira edição em língua castelhana. Completam a obra, além de uma extensa recensão bibliográfica, numerosas gravuras e adequados índices, que valorizam sobremaneira tão relevante volume.
Fernando Marques»
Revista de Ciências Veterinárias, Vol. LXIII, fasc. 405 de 1968, p. 45.

LECHERÍA TROPICAL - ALGUNS RECORTES DA IMPRENSA DA ESPECIALIDADE


AO SERVIÇO DE UMA IDEIA UNIVERSAL DE FRATERNIDADE

«VIEIRA DE SA, Fernando: Lechería tropical. Un volumen de 348 págs., 16 x 23 cm., 97 grabados y un mapa. Unión Tipográfica Editorial Hispano Americana. México, 1965. Traducción: Carlos Luís de Cuenca.

Como resultado de una misión desempeñada por el autor bajo la confianza de altos organismos internacionales, y de una vocación plena a la zootecnia lechera, nació este libro en el que el autor condensa un cúmulo de problemas de índole biológica, económica, de costumbres y de tradiciones relacionadas con la producción lechera. Obra didáctica, a más de informativa, constituida según el esquema de una temática esbozadora que responde al deseo del autor de no abrumar con datos excesivos a quienes deben buscar soluciones a problemas, sin que falten los rigurosamente necesarios a los especialistas. Dedicado a los estudios de producción lechera tropical y de exploración biológica de las zonas tropicales al servicio de la producción lechera bovina, el autor ha recorrido en veinte años, prácticamente, todo el mundo no solamente para documentarse, sino para aportar soluciones y buscar los remedios mediatos o inmediatos de problemas difíciles. Las zonas áridas y secas, las estepes abrasadas, las desiertas, las vegetaciones xerofíticas, las poblaciones animales y humanas depauperadas, fue lo que este hombre exploró al servicio de una idea universal de fraternidade. Al regressar a su país después de realizar importantes misiones internacionales, le ha ofrecido el espléndido libro que hoy se presenta a los lectores de habla española, en el que se recogen los años transcurridos en pleno trabajo, frente a las fuerzas de la naturaleza y a los problemas de los hombres. Hemos de darle gracias por su esfuerzo.

INDICE: Introducción.-El medio ambiente y la productividad lechera.-El animal productor de leche.-Mejora del ganado lechero en los trópicos.-Explotación del ganado lechero en los trópicos.-Tecnología, economía y organización de la empresa lechera.»

[Revista espanhola de Zootecnia, núm. 2 (68), s/d, pp. 100-101.]

sábado, 13 de Setembro de 2008

LECHERÍA TROPICAL - RECOLHA DE VALIOSAS EXPERIÊNCIAS

«VIEIRA DE SA (F.).-Lechería tropical.-Un volumen de 249 páginas, con 97 ilustraciones.-MEJICO,1965.
El veterinario don Fernando Vieira de Sá, figura bien conocida en los medios internacionales lecheros, como consecuencia de su larga estancia de trabajo en la Organización de las Naciones Unidas para la Agricultura y la Alimentación, há publicado un interesante libro, en el que se recogen las valiosas experiencias adquiridas personalmente a través de numerosos años de actividad en países cálidos.»
[Revista espanhola de leitaria, nº.58, Dezembro de 1965]

UMA VIDA EXEMPLARMENTE VIVIDA

Aqui se deixa, com a promessa de mais pormenores sobre a edição do livro Lechería Tropical, de Fernando Vieira de Sá, um recorte saído no Diário de Lisboa no dia 12 de Novembro de 1965:
«Do México, em edição da "Unión Tipográfica Editorial Hispano-Americana", chega-nos a versão em espanhol de um notável estudo do médico veterinário e distintíssimo técnico de lacticínios dr. Fernando Vieira de Sá, traduzido e prefaciado pelo professor da Universidade de Madrid dr. Carlos Luís de Cuenca. Reflectindo a projecção internacional dos trabalhos de um técnico português que conquistou por mérito próprio um prestígio invulgar no estrangeiro, "Lechería Tropical" constitui brilhante contribuição para o desenvolvimento da produção alimentar no sector a que se consagra. [...]

Esta obra, como escreve no prefácio o prof. Cuenca, é o fruto de uma dedicação total ao serviço de uma vocação plena, de uma experiência vivida e de uma documentação em primeira mão, postas à disposição de quem pode e deve aproveitá-las. Com a sua autoridade incontestável, o mestre espanhol salienta o valor humano de personalidades como a do dr. Vieira de Sá, que "prestam ignorada e anonimamente os maiores serviços à Humanidade". Depois de trabalhar longamente em Portugal, não só em serviços oficiais como na direcção técnica de empresas de lacticínios, o dr. Vieira de Sá percorreu grande parte da África em missões de assistência técnica, foi consultor técnico da F.A.O. para problemas da especialidade nos países tropicais e permaneceu no México durante cinco anos como orientador de importantes realizações pecuárias e industriais nesse país. No livro técnico que a editora mexicana publicou em língua espanhola reflecte-se uma vida exemplarmente vivida, além de uma cultura e de uma vocação técnica consagradas.

A edição é apresentada em excelente nível gráfico, com fotogravuras e um mapa em policromia, correspondendo ao nível internacional deste trabalho que honra os autênticos valores científicos e técnicos do nosso País».

quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

O TEMPO DAS CEREJAS

Nova referência a este blogue, agora no http://tempodascerejas.blogspot.com/, de Vítor Dias, a quem agradecemos estas palavras:

«É com grande respeito e admiração que chamo a atenção para o blogue em boa hora criado sobre a vida e as obras do dr. Fernando Vieira de Sá, chegado este ano aos 94 anos e tendo atrás de si todo um percurso científico, cívico e político digno da maior consideração. Clicando sobre a imagem de cima, pode aceder ao blogue e encomendar as obras de F. Vieira de Sá, um camarada que daqui saúdo com imensa estima.»

E não se esqueça: sempre que possa, visite «o tempo das cerejas»!

quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

PARABÉNS, FERNANDO!

«Parabéns a uma pessoa especial
O meu querido amigo Fernando Vieira de Sá faz hoje 94 anos !
PARABÉNS, FERNANDO!
que continues a ser a pessoa que és, com o empenhamento cívico de sempre e igual nobreza de espírito, o camarada e o amigo disponível e atento. Por muitos e bons anos! Conheçam-no aqui!
(Lisboa, 20 de Julho de 1914)»
Assim assinalava Júlia Coutinho em http://ascausasdajulia.blogspot.com/, fez ontem um mês, a passagem do 94º aniversário de Fernando Vieira de Sá, remetendo os leitores para este blogue. Em nome do blogue e do aniversariante o nosso OBRIGADO.

sábado, 26 de Julho de 2008

A DISTÂNCIA DO TEMPO

«Começo a sentir a distância do tempo.
É como se, por artes mágicas, quando tudo parecia ter acontecido ontem, fosse de súbito surpreendido no olhar para trás e, ao enxergar longínquas imagens de memórias de intemporal passado, sentisse como que um eco repercutido na abóboda de uma catedral gótica cheia de silêncio a que os vitrais dão solene transparência, fazendo-nos perscrutar passos de peregrino, misto de um vivido imaginário que, sem saber os porquês, nos captaram os sentidos transmudando o real em sonho de uma viagem sem retorno. Após tudo, o andar deambulando por esse mundo fora, surge agora abruptamente nada mais do que a sensação de esse tudo não ter sido senão um conto igual aos muitos que o velho hortelão, nas seroadas à volta da lareira alentejana, onde o tronco de azinho se consumia em brasido e borralho, contava aos meninos, para que fossem dormir, não tanto a pensar na história mas, enquanto o sono não chega, reviver o aconchego do recanto da chaminé e a entoação da voz daquele homem rude, velho, de fartas suiças avolumando-lhe as faces, que, com as suas mãos duras das calejas da enxada, chegava a si o mais miúdo de todos nós - ou o mais metediço - e o aninhava no seu colo, privilégio sempre disputado por todos. Estar sentado no colo do mestre hortelão Alcibíadas Augusto, poeta ainda por cima - e repentista - era todo um intróito para um sono sem sobressaltos.
Estou vendo-o na horta de São Bento, frente à Cartuxa em pano de fundo (que diz-se estarem ambos ligados por um túnel para os frades e as freiras se encontrarem, pois São Bento era convento de freiras e Cartuxa de frades e os dois muito devotos) com a sua sachola cuidando de encaminhar a água pelo regueiro até aos canteiros dispostos em linha, onde crescem as hortaliças, o feijão carrapato trepando pelos caniços, as beldroegas, ou os morangos quando era tempo deles, por horas a fio até o sol se sumir por detrás das últimas cumeadas que limitavam o poente para lá do alto dos moinhos. Era tempo de chegar a casa, ali a dois passos, e preparar para a ceia que não era farta. Já então a sopa fumegava e os aromas das ervas faziam a boca quando entravam pelas narinas e abriam o apetite puxando a um naco de um queijinho seco e salgado cortado com a navalha a preceito, pedindo um trago de vinho por cada pedaço cortado, uso que só o alentejano sabe gerir.
Apesar de lisboeta, a minha infância e juventude ficaram sempre ligadas ao Alentejo, desde Estremoz, Évora, Vidigueira e por aí fora onde aprendi a viver o campo...»
F. Vieira de Sá, «Prefácio de Coisa Nenhuma», Viagem ao Correr da Pena, cit., pp. 15-16

domingo, 6 de Julho de 2008

«BIBLIOTECA COSMOS»

Foto: Manuel Guerra [exemplares do autor]

Reler «Os Livros do Compromisso», in Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», cit., pp. 121 ss. Estes dois livros vieram a lume nos meses de Maio e Junho de 1945.

Em 2005, da edição de Ecos do México - Da História e da Memória, fizeram-se sessenta exemplares numerados de I a LX e sessenta numerados de 1 a 60, assinados pelo autor, comemorativos dos 60 anos da edição destes dois livros da «Biblioteca Cosmos», dirigida por Bento de Jesus Caraça, havendo ainda exemplares disponíveis para quem os desejar adquirir.

JOSÉ MARIA ROSELL

«O autor deste pequeno livro de divulgação, Dr. Fernando Vieira de Sá, conseguiu realizar uma obra que constitui uma utilíssima contribuição para o reconhecimento público do valor da produção e consumo dos lacticínios, na saúde e economia dos povos.
Actuando pelos seus cargos oficiais na resolução dos problemas práticos e científicos que suscitam as indústrias do leite em Portugal, esta sua publicação, que tivemos o privilégio de ler antes de ser impresa, é, como outras do mesmo autor, a melhor demonstração da capacidade e autoridade já reveladas na sua actividade profissional.
A presente monografia pode bem considerar-se uma apologia equilibrada das variadíssimas utilizações do leite, como alimento ou matéria-prima aplicada em numerosas indústrias, e deveria ser lida por todos os portugueses, porque nela se descrevem por forma comprimida, mas completa, os aspectos mais modernos da lactologia actual, os lacticínios de maior interesse na alimentação, bem como alguns produtos industriais obtidos do leite. Estamos certos de que os leitores deste pequeno volume, que, se algum defeito tem, é o de não ter podido resultar mais extenso, não deixarão de o ler com o maior interesse, avaliando devidamente a razão por que todos os países progressivos dedicam os maiores esforços à propaganda e fomento das indústrias lácteas, com a finalidade de assegurarem aos seus habitantes o consumo de produtos do mais elevado rendimento biológico na nutrição.
Por termos dedicado uma parte, não pequena, da nossa vida à realização de tão fecundo objectivo nalguns países amigos, e por termos em grande apreço as faculdades de inteligência e trabalho do Dr. Fernando Vieira de Sá - nosso jovem discípulo - gostosamente acedemos a escrever algumas linhas sobre o valor nutritivo dos produtos lácteos, como introdução a este livro.
[..]»
José Maria Rosell, in «Introdução», Os Derivados do Leite na Alimentação e na Indústria, Lisboa, Edições Cosmos, Junho de 1945, pp. 5-6.
Ver referências de F. Vieira de Sá ao Prof. Rosell - lactologista catalão, médico de formação - nas pp. 124-125 de Cartas na Mesa...

sábado, 5 de Julho de 2008

TESTEMUNHO (II) - «APENAS UM TESTEMUNHO»

Recebemos um belíssimo e enternecedor texto-testemunho de Angelina Barbosa, recordando os tempos de trabalho no Parque Natural da Serra da Estrela e o contacto com Vieira de Sá, Maria Elvira e netos. Aproveitamos para agradecer esta participação e para solicitar, a quem o desejar, outros testemunhos.
Apenas um testemunho

Foi há 28 anos! Ao folhear estes livros, que agora me chegaram, vem-me à memória os meus primeiros anos de trabalho no Parque Natural da Serra da Estrela.
Estava em causa o pastoreio e o queijo artesanal. Uma actividade de grande tradição e, claro, se houvesse vontade, de grande futuro.
Uma equipa de técnicos com formação social, foi chamada a elaborar um programa, faseado no tempo, com o objectivo de dar um novo fôlego a esta actividade. E um conjunto de iniciativas foram sendo concretizadas, nomeadamente, o estudo de caracterização do pastoreio e a organização de concursos para apuramento da qualidade.
Faltava a componente técnica. E surge o nome do Dr. Vieira de Sá. Um dos elementos da equipa conhecia o seu trabalho de investigação acerca do queijo artesanal de ovelha, por terras da Estrela.
Não me era estranho o nome. Soube agora que trabalhou durante algum tempo na região de Aveiro, onde nasci. Sendo duma família de agricultores então produtora de leite, provavelmente um nome referido lá em casa e captado ainda em criança.
Organizado o regulamento do concurso, fomos ao LNETI, pedir a sua opinião e também apoio de um técnico que integrasse o júri. Éramos uma equipa de três elementos. Uma ligeira espera e mandaram-nos entrar. Apresentações feitas, dissemos ao que vínhamos. Depois de alguns ajustes ao texto do regulamento, surge a frase “ Sim eu mesmo irei”. Não veio só. Da sua equipa veio também a Dra Manuela Barbosa.
“Sim eu mesmo irei”. Tudo tão simples! Situação rara neste nosso país.
Quando saímos do LNETI, estávamos entusiasmadíssimos, pela resposta afirmativa. Éramos agora uma equipa mais completa e, sobretudo, muito motivada.
E durante cinco anos, no período de Carnaval, trabalhou connosco. E sempre o acompanhou Maria Elvira, sua mulher e, quando possível, os seus netos.
Foram anos de trabalho em prol da qualidade do Queijo Serra da Estrela, uma experiência marcante, pelos resultados conseguidos, pelo muito que aprendi e, sobretudo, pela Amizade, que o tempo não conseguiu apagar, quando a vida naturalmente nos traçou outros destinos. Para mim um privilégio.
Lembro com emoção e muita saudade a sua mulher, Maria Elvira. A serenidade, a lucidez, o sorriso, a sua palavra amiga. A minha sentida homenagem.
E agora, olho estes títulos e acho que sou uma pessoa com sorte. Eu tenho nas minhas mãos as obras, com o registo de vida, que o Dr. Vieira de Sá nos quis deixar!


Reconhecida, envio daqui o meu abraço amigo.


Angelina de Sousa Barbosa

3/07/08

quinta-feira, 3 de Julho de 2008

RECORDANDO BENTO DE JESUS CARAÇA E A «BIBLIOTECA COSMOS»

«O principal motivo destas páginas assentou no desejo de dar maior conhecimento, nomeadamente aos meus colegas veterinários, de um acervo de correspondência enviada por mim ao Prof. Bento de Jesus Caraça, através da qual se discutiu e balizou o interesse de incluir no programa editorial da "Biblioteca Cosmos" uma secção contemplando temas do âmbito da «Produção e Indústria Animal na Civilização Humana", contribuindo assim, não só para um maior universo de intervenção cultural popular da publicação, como ilustrando, ao vivo, a generosa disponibilidade da direcção de Bento Caraça à frente dessa sua grande iniciativa que foi a Cosmos nunca descurando o esmero ou subestimando a finalidade.
Agora, com a publicação da aprimorada obra Biblioteca Cosmos. Um Projecto Cultural do Prof. Bento de Jesus Caraça (Novembro de 2001) com que a Fundação Calouste Gulbenkian quis comemorar o centenário do nascimento de Bento Caraça, e onde se aflora tal assunto como exemplo de engajamento e participação dos colaboradores, materializadores do referido projecto, pareceu-me de todo o propósito dar a conhecer um pouco mais detalhadamente a história desse labor que, directa e indirectamente, acabou por se confundir com todas as outras colaborações vindas das respectivas áreas de expressão humana, criando assim um dos mais acabados exemplos de divulgação em língua portuguesa dos grandes temas que configuram e enaltecem a humanidade em todas as suas vertentes do pensamento e acção.»

«Nota Prévia», Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», Lisboa, Moinho de Papel, 2004, pp. 13-14.

domingo, 29 de Junho de 2008

PARA QUE HAJA LEITE EM ABUNDÂNCIA

Fernando Vieira de Sá em Roma, em Maio de 1957, enquanto técnico da FAO


«Escolhi ser médico-veterinário,
e ainda estudante do 3º ano me iniciei pelos estudos de Lactologia.»
in «Introdução» de Curriculum Vitae apresentado, em Janeiro de 1980, ao Júri do Concurso Público para Investigador-Coordenador do Laboratório Nacional de Investigação Industrial do Ministério da Indústria.

A GRANDE TAREFA

«... por quase dez anos de deambulação pelo Mundo foi minha principal tarefa estudar e propor medidas de desenvolvimento leiteiro nos mais diversos países da Ásia, África e América Latina, a maioria pertencente à zona intertropical. [...] Convivi com chineses, indonesos, indús, turco-mongois, uzbeckes, kurdos, árabes, bantus, zulus, coanhamas, guaranis, incas, jivaros, colorados, aztecas, tarascos, tarahumaras, totonacas, mayas, etc., etc., que à parte a côr da pele, o formato dos olhos, o tipo de cabelo, o perfil crâneo-facial, o grau de hibridação, ou seja, o traço antropológico ou a língua em que se expressam e que os diferencia, um grande traço comum os une, que é a sua dolorosa luta pela sobrevivência, a sua pungente existência entre infindáveis riquezas, exploradas, aliás, pelo mundo industrializado. Após duas ou três voltas ao Mundo, ou após dez anos de contactos com tais populações fica a sensação da extrema semelhança dos problemas que afligem esses povos, dos quais o mais relevante é o da exploração a que são submetidos pelo mundo industrializado e que tem feito com que o tipo de intervenção técnica neles desenvolvido, se tenha dirigido mais à exploração das riquezas renováveis e degradação das não renováveis, do que à defesa e valorização do seu património.
Este contacto exerceu forçosamente uma grande influência nos meus conceitos de técnico e cientista, pois creio que a grande tarefa que um e outro deverá assumir como prioritária, será a de tentar reduzir em forma sistemática e progressiva o grande fosso que separa o Norte do Sul, o explorador do explorado, o mundo industrializado do mundo subdesenvolvido.»
F. Vieira de Sá, in «Introdução» de Curriculum Vitae apresentado, em Janeiro de 1980, ao Júri do Concurso Público para Investigador-Coordenador do Laboratório Nacional de Investigação Industrial do Ministério da Indústria.

segunda-feira, 12 de Maio de 2008

TESTEMUNHO (I) - OS TRÊS «ECOS DO MÉXICO»

Recebemos de Ruy de Paiva e Pona, familiar de F. Vieira de Sá, um texto - inspirado pela leitura de Ecos do México: Da História e da Memória e de um poema de Viagem ao Correr da Pena - que a seguir se reproduz sem mais comentários.
FERNANDO:

Vejo com satisfação que te converteste, ou te converteram, aos segredos da Internet! São inúmeras as suas vantagens das quais não é a menor o permitir que deixe o testemunho de quanto aprecio a força com que demonstras as tuas ideias quer quando recordas o passado quer quando, nas nossas conversas, criticas o presente e arquitectas o futuro…

Não sei se já reparaste que só existe o «passado»…

Quanto ao «futuro», não é mais que um tempo potencial medido por uma sucessão de imagens virtuais por nós concebidas; o «presente» é uma mera fronteira de transição entre o tempo real, passado, e o tempo virtual, futuro. Quando pensamos no presente… é já passado…

Como escreve o autor de «As Palavras Caladas», na nossa vida há dois mundos: um «mundo exterior», por um lado, mundo real definido pela passagem das coisas e das pessoas, das crianças que nascem e dos velhos que morrem, o mundo que divide as pessoas conforme a sua riqueza, o seu poder, a sua saúde ou a sua beleza; por outro lado há um «mundo interior», mundo da luz que esbate os muros, as divisões e os contrastes, que produzem a ilusão do tempo! Será este o tempo interior de Bergson?

E, vem isto a propósito da leitura dos teus livros, particularmente dos «Ecos do México», que estive agora a reler. Nele encontro três livros: o primeiro relata a História do México desde a origem pré-colombiana até à actualidade, da sua cultura e da sua arte; no segundo revives uma vida de cinco anos mexicanos, marcantes para a Maria Elvira e para ti, na recordação a dois da paisagem e das gentes, do trabalho feito e da aventura…; finalmente, no epílogo, no «Regresso ao Torrão», num livro de duas páginas, condensas o teu mundo interior e onde ressalta a importância da participação da Maria Elvira, «uma mulher inteligente, dinâmica, estudiosa e culta, com grande bom-senso, corajosa, determinada e com um grande sentido da vida, da conciliação e da bondade, tudo na aparência de uma modéstia comovente» como tu dizes.

Também a mim me comoveu!

Como tu, quase com as mesmas palavras, recordo a Maria Helena que «com a sua maneira de ser modesta e quase apagada esteve sempre presente; companheira sempre disponível e constante, sempre pronta, com a sua inteligência e o seu bom-senso, a dar o conselho e a ajuda certos nos instantes e nas circunstâncias difíceis da nossa vida. Sempre pronta a receber os meus amigos e dos meus filhos, sempre pronta a governar e a manter a casa impecável… e tudo sem dar nas vistas, sem se sentir! A sua sensibilidade às circunstâncias e às pessoas fazia que aqueles com quem contactava ficassem suas amigas…»

No teu poema «Metamorfose» dizes, numa visão premonitória, palavras que creio se aplicam às nossas duas Mulheres:
Partiste,
mas deixaste na terra raízes.
O tempo venceu-te,
mas deixaste na terra raízes.

Um abraço grande do

RUY

sábado, 3 de Maio de 2008

CATÁLOGO - ENCOMENDAS

Foto: Manuel Guerra
AUTÓPSIA A UM DEPARTAMENTO CIENTÍFICO DO ESTADO - LIVRO BRANCO DO DEPARTAMENTO DE TECNOLOGIA DAS INDÚSTRIAS ALIMENTARES
Apresentação (in http://fvieiradesa.blogspot.com/) de Eugénio Rosa
isbn 978-972-99081-3-2 312 pp. pvp (iva incluído): 16,00
ECOS DO MÉXICO - DA HISTÓRIA E DA MEMÓRIA
Prefácio de Miguel Urbano Rodrigues
isbn 972-99081-2-5 224 pp. pvp (iva incluído): 15,00
VIAGEM AO CORRER DA PENA
Apresentação de Urbano Tavares Rodrigues
isbn 972-99081-1-7 408 pp. pvp (iva incluído): 18,00
CARTAS NA MESA - RECORDANDO BENTO DE JESUS CARAÇA E A
«BIBLIOTECA COSMOS»
Prefácio de Manuel Machado Sá Marques
isbn 972-99081-0-9 176 pp. pvp (iva incluído): 10,00

Os pedidos deverão ser dirigidos a f.vieiradesa@gmail.com ou para Blogue F. Vieira de Sá Apartado 51 Cova da Piedade 2806-801 Almada.
Após comprovativo de transferência bancária [para a conta da CGD com o NIB 003506620001294940002] ou recepção de cheque, enviaremos [com OFERTA DE PORTES] os livros solicitados. Agradecemos indicação de nome, morada e nº de contribuinte, necessários para a factura a enviar juntamente com os livros. Para esclarecimento de quaisquer dúvidas queira contactar-nos através do mail ou apartado acima indicado.

quinta-feira, 1 de Maio de 2008

O LIVRO DA AUTÓPSIA


APRESENTAÇÃO DE EUGÉNIO ROSA

Regista-se aqui, com os agradecimentos do autor, o texto elaborado pelo economista Eugénio Rosa para apresentação do novo livro de F. Vieira de Sá, Autópsia a Um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares:
BREVES PALAVRAS DE APRESENTAÇÃO
Num momento em que se procura culpabilizar os trabalhadores da Administração Pública de todas as deficiências de que ela enferma e, esta, dos males do País; numa altura em que os trabalhadores da função pública são acusados de «privilegiados» para os isolar dos outros trabalhadores, para assim atacar mais facilmente os seus direitos, o livro do Dr. Fernando Vieira de Sá, Autópsia a um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares, de que foi director durante vários anos, tem uma actualidade muito grande. E isto por várias razões. Em primeiro lugar, porque, como o próprio autor refere, «não interessa que o Livro Branco seja deste ou daquele departamento. O que se passa aqui passa-se em todo o lado» da Administração Pública; portanto o caso do Departamento de Tecnologias das Indústrias Alimentares (DTIA) não é um caso isolado, mas um entre muitos, servindo apenas de exemplo. Em segundo lugar, porque o DTIA, apesar de se situar num sector fundamental para o País (recorde-se que, em 2007, Portugal gastou com a importação de produtos alimentares 313,9 milhões de euros e, com a importação de produtos agrícolas, 1 451 milhões de euros, e que 60% do que consome nesta área é já estrangeiro); repetindo, apesar do DTIA poder ter um papel importante na melhoria da qualidade e da competitividade da indústria alimentar portuguesa, o certo é que nunca existiu, como o livro do Dr. Vieira de Sá prova de uma forma clara e fundamentada, um verdadeiro apoio e um aproveitamento eficaz das capacidades e competências que existiam nesses Departamento para promover o desenvolvimento de um sector fundamental para o abastecimento do País, como são as indústrias alimentares, por parte quer do governo quer dos responsáveis do Instituto a que este departamento pertencia. Em terceiro lugar, apesar desta falta de apoio e de aproveitamento, verificou-se, por parte de quem dirigia o DTIA bem como de muitos dos seus trabalhadores altamente qualificados, um esforço, para não dizer mesmo uma luta contínua, para, por um lado, dotar o Departamento dos meios mínimos indispensáveis à realização da sua missão, que era de interesse nacional, e, por outro lado, para que o DTIA, mesmo com meios e apoios reduzidos, pudesse exercer a sua missão da melhor forma em prol do desenvolvimento das indústrias alimentares do País, cujos produtos, nomeadamente os tradicionais, definem também a nossa cultura. E quando depois de muitos anos de esforços e luta com esse objectivo, vêem que ele não foi atingido, sentem uma profunda amargura, principalmente por tudo aquilo que o País perdeu e continua a perder. A própria história das vicissitudes da entidade a que o DTIA pertencia mostra bem a forma como os diversos serviços da Administração Pública, mesmo os fundamentais para o desenvolvimento e modernização do País, têm sido tratados pelos sucessivos governos. Assim, o DTIA surge, embora ainda de uma forma embrionária e, enfrentado muitas resistências, no Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII) criado em 1957 permanecendo aí até 1976, quando este Instituto é extinto. Em 1977, surge o Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial (LNETI) que funciona até 1992 onde permanece o DTIA sendo, nessa altura, transformado no Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação (INETI) que se mantém, na prática, até 2008 pois, em 2006, o governo de Sócrates aprovou o Decreto-Lei 208/2006, que extinguiu aquele Instituto tendo as suas atribuições sido repartidas por quatro entidades diferentes, a saber: as relativas aos domínios da energia e geologia integrados no Laboratório Nacional de Energia e Geologia, IP, uma entidade nova a criar; as atribuições relativas à metrologia integradas no Instituto Português da Qualidade, IP; as atribuições relativas às indústrias alimentares, portanto aquelas que caíam no âmbito do DTIA, integradas no Instituto Nacional de Recursos Biológicos do Ministério da Agricultura; e as no domínio das tecnologias de saúde relevantes no Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, IP, do Ministério da Saúde. No entanto, no fim de Março de 2008, a indefinição e, a consequente, paralisação dos serviços era grande porque, por um lado, essa repartição de atribuições ainda não se tinha concretizado e, por outro lado, os orçamentos dos Laboratórios do Estado continuavam por cumprir. E não é de afastar a hipótese que, daqui a poucos anos, tudo isto seja de novo baralhado e repartido, até tendo em conta a forma e a consistência como foram repartidas todas estas atribuições em que muitas vezes foram ignorados os objectivos verdadeiros e concretos como estavam ou deviam ser utilizadas. A leitura atenta do livro Autópsia a um Departamento Científico do Estado e, nomeadamente, do Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares, que é uma parte daquele, leva-nos ao interior da Administração Pública, ao esforço diário e tenaz da esmagadora maioria dos seus trabalhadores e de muitos dos seus responsáveis para que a qualidade dos serviços públicos melhore e para que eles sirvam de uma forma eficiente a população e o País, assim como os obstáculos, dificuldades, incompreensões, falta de apoio e de estímulo que continuamente enfrentam. Os pequenos poderes que existem muitas vezes no seio dos serviços públicos, materializado em muitas das chefias, em que a competência técnica e a dedicação ao serviço público não foi o critério fundamental da sua nomeação, e que a Lei 12-A/2008 (Lei de Vínculos, Carreiras e Remunerações) aprovada também pelo governo de Sócrates, veio dar mais poderes; repetindo, estes pequenos poderes muitas vezes funcionam como obstáculos importantes à prestação de um serviço público com qualidade que os portugueses e o País tanto necessitam. A leitura dos «Anais do DTIA», de periodicidade anual, assim como da «Folha Informativa do DTIA», de periodicidade mensal, publicados durante vários anos, por iniciativa do director do DTIA, que era também o principal redactor, e que é autor deste livro, dá-nos bem uma ideia viva e palpitante da realidade da Administração Pública por dentro e do esforço e luta dos seus trabalhadores. É por isso que terminamos esta apresentação como a iniciámos: a Autópsia a Um Departamento Científico do Estado – Livro Branco do DTIA é um livro actual que merece ser lido com atenção. Bem haja ao seu autor que, apesar de se ter aposentado, ainda é um exemplo de lucidez e combatividade na defesa dos serviços públicos e dos trabalhadores da Administração Pública, indispensáveis à população, nomeadamente as de mais baixos rendimentos, e ao desenvolvimento e modernização do País.
Eugénio Rosa,
[economista]

O REENCONTRO DO AUTOR E DA SUA OBRA... AGORA EM FORMA DE LIVRO


Foto: Um amigo anónimo que compareceu à sessão
Sessão de apresentação, em Lisboa, no 1º de Maio de 2008.

HOJE... À TARDINHA

Foto: Manuel Guerra 1-V-2008

Já vem a caminho... e ainda cheira a tinta da tipografia!

quarta-feira, 30 de Abril de 2008

AS PROVAS

Foto: Joaquim António Silva [Quitó] 30-IX-2007

terça-feira, 29 de Abril de 2008

1º DE MAIO DE 2008

Depois de alguns meses de trabalho silencioso, retomamos a actividade deste espaço dedicado à vida e obra de Fernando Vieira de Sá. No próximo 1º DE MAIO lançaremos aqui o seu NOVO LIVRO... que abre com a seguinte dedicatória:

Dedico este trabalho de selecção documental e de
crítica de processos a todos os servidores da Função
Pública, independentemente de categorias, vínculo ao
Estado ou precariedade de funções.
Fraternalmente


A apresentação será da responsabilidade do economista Eugénio Rosa.

Esteja atento(a)! Apareça! Divulgue!

OBRIGADO.

domingo, 4 de Novembro de 2007

A-dos-Negros, 20-VII-2005 - 91º Aniversário



Fotos: Joaquim António Silva [Quitó], fotógrafo, músico e designer gráfico.
Sessão de fotografias em casa dos amigos Quitó, Idalina e Ana Margarida, em A-dos-Negros,
no dia do 91º aniversário de Vieira de Sá, depois de um almoço em Caldas da Rainha.
Selecção de uma foto para o livro Ecos do México - Da História e da Memória.
Na última foto o registo de uma chamada de parabéns!

Miguel Urbano Rodrigues

«Ecos do México foi uma surpresa.
Esperava um livro diferente pelas referências ao tema em cartas enviadas por Fernando Vieira de Sá para Havana onde então eu residia.
E diferente porquê?
Sempre que, a partir de Cuba, eu visitava o México e escrevia sobre a história e a cultura daquele país, ele evocava em comentários impregnados de emoção momentos ali vividos. As suas cartas, extensas, tinham a estrutura de breves ensaios. Nelas o amor pelo México enquadrava um interesse incomum pela história social e uma reflexão aberta a múltiplos azimutes sobre o passado e o presente do povo de Juárez.
Mais tarde, numa das nossas longas conversas, sugeri-lhe que reunisse em livro textos e apontamentos que, condensando vivências, permitissem ao leitor português formar uma ideia da riqueza da sua experiência no México, ou, para ser mais preciso, do redescobrimento permanente da vida proporcionado pela grande aventura existencial que foram os cinco anos decisivos que ali passou ao serviço da FAO.
Em Ecos do México Vieira de Sá foi mais longe. A Obra não cabe no género memorialístico. Ele não se limitou a condensar recordações, integrando-as na sua mundividência. Sentiu a necessidade de escrever um livro em que o cenário humano do México que conheceu, há quase meio século, é iluminado por uma introdução sobre a sociedade pré-colombiana destruída pelos espanhóis e alguns capítulos dedicados à história posterior à Independência e à Revolução Maderista e aos seus desdobramentos.
O convite para alinhavar este Prefácio nasceu da paixão comum pelo México.
A atracção exercida por esse país vem da adolescência, quando me caiu nas mãos um livro sobre o cerco e a destruição de Tenochtitlán, a legendária capital asteca. O relato da defesa da cidade e do genocídio do seu povo marcaram a tal ponto a minha juventude que Cuauhtémoc, o tlatoani tenochca, o último imperador, mais tarde assassinado por ordem de Cortés, passou a ocupar um lugar cimeiro no panteão dos meus heróis favoritos.
O ajustamento do real imaginado ao real concreto somente se concretizou muitos anos depois. O encontro foi um acto de amor. Nove visitas ao México tornaram mais denso e complexo o fascínio.
Cada vez que ali volto caminho durante horas pelas salas do Museu de Antropologia cuja atmosfera encantatória me projecta no coração da história profunda das grandes civilizações da Meso América. Revisitar, ao lado da Catedral, as ruínas do Grande Templo de Tenochtitlán e perder-me na multidão que circula pela imensidão do Zocalo - a mais grandiosa Praça do Continente Americano - é outra peregrinação de ateu.
Faz poucos meses, em breve passagem pelo país, voltei a outro lugar mágico: a Teotiuhacan das pirâmides do Sol e da Lua, a Cidade dos Deuses que já era um lugar despovoado quando os astecas por ali passaram no século XIV rumo à laguna onde fundariam Tenochtitlán.
Em raros países sobe em mim como no México, em cada regresso, um impulso tão forte de acrescentar algo ao que já escrevi sobre temas que desencadearam essa necessidade de transmitir ideias e sensações que faz do escritor um escravo da palavra. Acontece e é incontrolável.
Sei que Vieira de Sá me entende. Compartilhamos a síndrome mexicana, um mal benigno, indefinível.
O leitor vai identificá-lo nos capítulos em que, evocando pessoas e momentos, tenta e consegue demonstrar que uma história trágica, moldada por uma cadeia ininterrupta de desastres, é paralelamente uma sementeira contínua de epopeias, de heróis, de talentos, de actos criadores de beleza, de rupturas revolucionárias que respondem a aspirações eternas da condição humana.
No país dos extremos - Vieira de Sá retoma a expressão - surgiu ao longo dos séculos aquela que é como totalidade, a mais bela e profunda cultura das Américas. Uma terra na qual fusões dolorosas e inacabadas, inseparáveis do genocídio, geraram um povo mestiço que não é ainda uma nação harmoniosa, mas que desponta como imagem da humanidade futura.
As mais belas páginas de Ecos do México são por isso, na minha perspectiva, precisamente aquelas em que Fernando Vieira de Sá - com o conhecimento acumulado de intelectual trota mundos e a sensibilidade do revolucionário que se mantém fiel ao seu ideário de combatente comunista - esboça um grande painel do México contraditório - uma terra prodigiosa à qual os EUA roubaram pelas armas mais de metade do seu território, um país quase inimaginável onde nasceram, lutaram ou criaram arte eterna, para bem da humanidade, seres como Chuauhtémoc, Hidalgo, Morelos, Juárez, Zapata, Pancho Villa, Lázaro Cárdenas, Juan Rulfo, Diego Rivera, Orozco e Siqueiros.
É comovedor que aos 90 anos Fernando Vieira de Sá tenha escrito um livro como Ecos do México, que, entre muitos outros, tem o mérito, raro, de obrigar o leitor a meditar sobre a grande aventura da vida.

Miguel Urbano Rodrigues
Serpa, Abril de 2005»


Miguel Urbano Rodrigues, Prefácio do livro Ecos do México - Da História e da Memória, Colecção «Percursos da Memória - 3», pp. 9-11.

Urbano Tavares Rodrigues

«Peripécias e Reflexões de um Trota-Mundos

Fernando Vieira de Sá, cientista, homem de cultura, médico veterinário especialista em produção e abastecimento de leite a centros urbanos, consultor da FAO durante muitos anos, em que percorreu o mundo e se relacionou com pessoas e terras, com o seu saber e a sua afabilidade, é também uma personalidade ética, respeitada por amigos e adversários.
A sua já longa vida ao serviço de causas democráticas e da revolução social, pô-lo à prova inúmeras vezes, dando-lhe ocasião de revelar lucidez, coragem e total dedicação aos seus ideais.
Tudo isso podemos observar ou deduzir deste seu atraente livro de memórias e também de afectos, que no-lo mostra em situações bem diversas, sempre sereno, espirituoso e aberto à compreensão do mundo. A sua concepção marxista da história e do futuro está bem presente no modo como vê e interpreta os factos, desde aqueles em que visivelmente o futuro se constrói até ao anedótico e ao burlesco.
É um racionalista com humor, claro e elegante na escrita, apaixonado pelas antigas civilizações, como se nota nas suas memórias e reflexões sobre povos e culturas, sempre convicto da necessidade do progresso e da importância da vontade na construção da cidade colectiva.
Um certo sentido do romanesco e da aventura, temperado pela ironia, dá algum sal e colorido a peripécias como as que o autor compendiou na parte do livro intitulada "A Viagem dos Incómodos e das Surpresas". Recordações avulsas, cenas pícaras, conclusões com certa filosofia empírica abundam nos relatos que se estendem do convite para visitar Nápoles à prova dos nove que se faz em Quito.
As páginas sobre a Tailândia são saborosas, cheias de inesperado e pitoresco e dessa humanidade profunda que Fernando Vieira de Sá projecta na transcrição de todas as suas experiências. Há também textos de particular comicidade como "Um corte de cabelo que acaba à bofetada". E não faltam informações preciosas sobre a realidade que nos são dadas constantemente em apontamentos sobre, por exemplo, as matérias-primas, as marcas do subdesenvolvimento e o avanço da industrialização. Temos assim neste livro múltiplas perspectivas, que vão do esquisso jornalístico à impressão pessoal.
E o volume espraia-se por terras e mares, do Indo-Cuch afegão ao Equador, onde Vieira de Sá, explorando o outrora império dos Incas, nos fala do clima, das gentes e costumes, da sua subida ao alto da Cordilheira, das vivências do andarilho.
No Brasil, em "Missão humanitária à americana", pinta o Rio de Janeiro, alude a uma evocação de Vieira da Silva, brinca com o inesperado, graceja com os frutos do acaso, surpreende-nos em "Levanta-se o véu" e "A imoralidade da história".
Depois vêm o Paraguai, Moçambique, a Líbia, onde há uma praga de gafanhotos e pedras que tombam do céu; e vemos Bombaim, na Índia, e o Bengladesh, que o narrador, com ironia dramática, chama "O paraíso da fome" e por fim o "Sonho de uma noite de Verão em Times Square".
É um livro muito variado, que instrui e diverte e nos aproxima mais ainda deste homem de esquerda generoso e íntegro que, após uma vida tão rica em andanças e batalhas, que as teve de sobra, ainda sabe rir e comover-se como um jovem e dar-nos, numa prosa desenvolta, muito dos tesouros que amealhou no seu deambular pela vida e pelo mundo.

Urbano Tavares Rodrigues»


Urbano Tavares Rodrigues, Prefácio do livro Viagem ao Correr da Pena - Colecção «Percursos da Memória - 2», pp.11-12

Manuel Machado Sá Marques

«Meu bom Amigo:

Não podia perder esta oportunidade de exprimir a minha opinião sobre o seu novo livro Cartas na Mesa!
Já o tinha felicitado quando me deu a ler o manuscrito, e lembra-se como tanto insisti para que ele fosse editado?
Estas poucas páginas são assim mais uma carta para a mesa!
Como refere, estas suas «Memórias» foram despertadas pela leitura da correspondência trocada com o Professor Bento de jesus Caraça e a recordação da relação então estabelecida. Correspondem à altura da minha juventude, quando comprava os «livrinhos» da Cosmos, que tão importantes forma na minha formação. Também foi no tempo em que li pela primeira vez os seus livros sobre leite. Mas quando, no final da década de cinquenta, centrei a minha vida profissional no apoio ao doente diabético e à luta contra as chamadas «doenças da nutrição», foi imperioso o estudo de toda a sua obra, considerada pelo meu Mestre exemplar e indispensável. Mas não o conhecia «de corpo e alma». Só após o 25 de Abril, no convívio com amigos comuns, reunidos por laços afectivos e por pensamento político-social afim, passei a contar com a sua amizade, a saber quem era o Vieira de Sá e a apontar a sua vida coerente e exemplar. Juntei a sua pessoa à de meu Pai (o Professor Alberto Sá Marques), á de meu Avô (o Presidente Bernardino Machado) e à de meu Mestre (o Doutor Ernesto Roma). Os seus ensinamentos tinham toda a carga da verdadeira pedagogia - a força do exemplo.
"É indispensável ligar o passado ao futuro. As novas conquistas do pensamento não se opõem às antigas, acrescentam-nas". Este seu livro tem uma actualidade dialéctica e espero que seja lido como um compêndio de civismo, pois o seu conteúdo é revolucionário e humanista. Aprendemos como e porque surgem as dificuldades a quem deseja uma racionalização da produção e distribuição em toda a actividade do homem. Lê-se com optimismo porque aposta nas nossas verdadeiras qualidades, nas virtudes do povo português. As cartas na mesa são do jogo de sempre. O que acontece é os baralhos terem diferentes desenhos dos reis, dos valetes, das damas, das espadas, e tantas vezes cartas viciadas... O jogo continua a ser o mesmo, a luta do homem pela sua libertação, contra a opressão e exploração pelo seu semelhante. Com cerca de noventa anos ainda é um jovem que fala em "tornar possível o impossível". E consegue-o!
Lembra nas suas memórias a figura de Bernardino Machado, e sabe a veneração que tenho por meu Avô! É um "grande vulto da República" que ainda hoje afronta muita gente reaccionária ou ignorante! Conheceu-o pessoalmente em Mantelães, logo após o seu regresso do exílio, tinha então oitenta e nove anos. Também tive a sorte de poder conviver com meu Avô em Mantelães e depois na Senhora da Hora, durante as férias grandes dos anos de 1940 a 1943.
Sabe que não fiquei a conhecer o Minho de forma a poder descrevê-lo como o Vieira de Sá consegue fazer em tão poucas palavras, nem fui calcorrear alguns dos lugares históricos do Porto, que meu Avô aconselhava a visitar? Ficava antes preso a ouvi-lo, não querendo perder as suas constantes e pedagógicas lições, com discussões acesas e vivas, como ele tanto gostava. Era bem como o descreve, uma pessoa atraente e inesquecível. sabe, Vieira de Sá, também quando vou a sua casa por uns minutos, acabo por ficar horas!
Na introdução ao livro Os Derivados do Leite na Alimentação e na Indústria, José Maria Rosell escreveu que o Vieira de Sá "conseguiu realizar uma obra que constitui uma utilíssima contribuição para o reconhecimento público do valor da produção e consumo dos lacticínios, na saúde e na economia dos povos". Mas a sua vida, o seu pensamento e a sua acção, ultrapassam o campo da actividade profissional, como se prova com a leitura deste livro. Esta verdade ficará ainda mais marcada quando possuirmos os outros dois volumes de memórias que felizmente virão a lume dentro em breve.

Meu caro e bom Vieira de Sá, aceite um apertado e cordial abraço deste seu

Manuel Machado Sá Marques
Lisboa, 10 de Dezembro de 2003»

Manuel Machado Sá Marques, Prefácio do livro Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», Colecção «Percursos da Memória - 1», pp. 9-11.

Percursos da Memória - 3

«Ecos do México foi uma surpresa.
Esperava um livro diferente pelas referências ao tema em cartas enviadas por Fernando Vieira de Sá para Havana onde então eu residia.
[...]
A obra não cabe no género memorialístico. Ele não se limitou a condensar recordações, integrando-as na sua mundividência. Sentiu a necessidade de escrever um livro em que o cenário humano do México que conheceu, há quase meio século, é iluminado por uma introdução sobre a sociedade pré-colombiana destruída pelos espanhóis e alguns capítulos dedicados à história posterior à Independência e à Revolução Maderista e aos seus desdobramentos».

Miguel Urbano Rodrigues, in contracapa de Ecos do México - Da História e da Memória

Percursos da Memória - 2

«Fernando Vieira de Sá, cientista, homem de cultura, médico veterinário especialista em produção e abastecimento de leite a centros urbanos, consultor técnico da FAO durante muitos anos, em que percorreu o mundo e se relacionou com pessoas e terras, com o seu saber e a sua afabilidade, é também uma personalidade ética, respeitada por amigos e adversários.
A sua já longa vida ao serviço de causas democráticas e da revolução social, pô-lo à prova inúmeras vezes, dando-lhe ocasião de revelar lucidez, coragem e total dedicação aos seus ideais.
Tudo isso podemos observar ou deduzir deste seu atraente livro de memórias e também de afectos, que no-lo mostra em situações bem diversas, sempre sereno, espirituoso e aberto à compreensão do mundo».


Urbano Tavares Rodrigues, in contracapa de Viagem ao Correr da Pena

Percursos da Memória - 1

«O primeiro objectivo desta obra foi publicar a correspondência que o autor dirigiu a Bento de Jesus Caraça, propondo-lhe a inclusão na «Biblioteca Cosmos» de uma secção sobre «Produção e Indústria Animal». Mas acabou por resultar em algo mais vasto. Aqui se fala, numa linguagem viva e plena de sábia ironia, dos tempos de estudo e de bombardeamentos em Inglaterra, de encontros com António Ferro no SNI, Bernardino Machado em Mantelães e António Aleixo e Tossan no sanatório de Covões, da Coimbra da Universidade, da Vértice e da Coimbra Editora, das vivências em Aveiro durante e após a II Guerra Mundial, das recordações dos tempos românticos da aviação na Escola de Aviação Naval de S. Jacinto, do desastre no bota-abaixo da Nau Portugal, construída para a Exposição do Mundo Português, do desenrascanço lusitano e da má qualidade do queijo nacional, do iletrismo das classes dirigentes, dos encontros e recontros provocados por uma vida norteada por valores avessos ao oportunismo, à corrupção, ao servilismo acéfalo e à ganância de todos os tempos. Trata-se de um precioso documento de alguém que atravessou o século XX e se mantém, quase a completar noventa anos de vida, a sonhar e a acreditar que o impossível pode, em cada dia, tornar-se possível. Em Viagem ao Correr da Pena, a editar também na colecção «Percursos da Memória», Vieira de Sá revelar-nos-á os caminhos de uma vida que percorreu mundos e culturas de vários países da Europa, África, Ásia e Américas, detendo-se mais detalhadamente no seu querido México, onde viveu durante alguns anos.»
Luís Guerra, in contracapa do livro Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos».

Biobibliografia

Fernando Vieira de Sá nasceu em Lisboa em 20 de Julho de 1914, cidade onde reside. Médico veterinário, licenciou-se na Escola Superior de Medicina Veterinária e tirou o curso de Medicina Sanitária do Instituto Superior de Higiene Dr. Ricardo Jorge. Foi bolseiro do Instituto para a Alta Cultura no National Institute for Research in Dairyng e na Universidade de Reading, em Inglaterra.
Fez parte dos quadros técnicos da Direcção-Geral dos Serviços Pecuários e da Junta Nacional de Produtos Pecuários. Exerceu funções de consultor técnico na FAO, Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Uinidas, tendo assessorado programas de desenvolvimento e produção em vários países. Dirigiu a secção de Indústrias Lácteas do Instituto Nacional de Investigação Industrial e, como investigador-coordenador, assumiu a direcção do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares do Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial.
Foi secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Ciências Veterinárias, director da Revista de Ciências Veterinárias e colaborador assíduo de revistas e jornais. Participou activamente em diversos simpósios e congressos, nacionais e internacionais, de Biotecnologia, Leitaria e Produção Animal.
Publicou, entre outras obras, O Leite na Alimentação Humana, Cosmos, 1945; Os Derivados do Leite na Alimentação e na Indústria, Cosmos, 1945; Lechería Tropical, Unión Tipográfica Editorial Hispano-Americana, México, 1965 / La Habana (edição revolucionária), 1967; As Cabras, Livraria Popular Francisco Franco, 1982; As Vacas Leiteiras, Clássica Editora, 7ª ed., 1988; O Leite e os Seus Derivados, Clássica Editora, 5ª ed., 1988; A Cabra, Clássica Editora, 2ª ed., 1990; O Leite em Lisboa - História do Seu Abastecimento, Clássica Editora, 1991; O Reino da Estupidez nos Caminhos da Fome. Memória de Tempos Difíceis, Cosmos, 1996; Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», Moinho de Papel, 2004; Viagem ao Correr da Pena, Moinho de Papel, 2004; Ecos do México - Da História e da Memória, Moinho de Papel, 2005; Autópsia a Um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares, Moinho de Papel, 2008.
A partir do dia 1 de Novembro de 2007, o seu editor desde 1996, mantém o blogue http://fvieiradesa.blogspot.com/ sobre a sua vida e obra, onde o próprio Fernando Vieira de Sá vai publicando alguns textos novos de intervenção sobre temas actuais e portadores, também, de riquíssimos «ecos da memória».

quinta-feira, 1 de Novembro de 2007

Cartas na Mesa