domingo, 30 de novembro de 2008

O DRAMA DAS PME - POR DETRÁS DO PANO DE FERRO

Sob o título geral de «O DRAMA DAS PME», recebemos para publicação no blogue dois textos de Fernando Vieira de Sá. Deixamos aqui hoje o segundo, «POR DETRÁS DO PANO DE FERRO», com referências ao livro O Reino da Estupidez Nos Caminhos da Fome - Memória de tempos difíceis, editado em 1996 pelas Edições Cosmos.
Os economistas de vanguarda e de turno, ensopados em estatísticas e regras de três, assepticamente livres dos esporos de humanismo e da fome, reduzindo tudo a números, a unidades e percentagens, obcecados pelas leis da concorrência, naturalmente não tiram os olhos dos cálculos a que a frieza dos algarismos conduz, fazendo desses resultados pilares orientadores principais, necessários e suficientes no âmbito de uma contabilidade confiante e conselheirática, dentro de cujos parâmetros se pode manobrar, tendo como área de acção táctica e estratégica - para fins de rendimento e produtividade - a seara viva chamada Bolsa de Valores, onde se cultiva a imaginação, o segredo, a disponibilidade e, se possível, a espionagem para lograr os melhores resultados que exige olho vivo, destreza e isenção de preconceitos. Isto, quando se joga o risco. A verdade é que os financeiros e carrascos do dinheiro, estimulados pelos ventos de monção que sopram para dentro, e no desprezo por qualquer coisa que lhe pareça retrógrado, ultrapassado e improdutivo de qualquer avanço civilizador acompanhando a maré, dando como consequência a destruição sistemática de todo o tecido PME, desastre, não só para Portugal, como para toda a Europa, sendo responsável do desemprego crescente, devido à falência da pequena courela, donde saía a maior percentagem de géneros alimentícios, obrigando à importação de tudo quanto há vindo de todos os continentes. Por certa distorção mental e de vivência, ao referir-me a PME, tenho sempre a tendência a tomar como padrão as PME alimentares, pelo que, peço aos críticos, tenham esta nota em consideração, embora com todas as PME aconteça o mesmo, dentro dos seus âmbitos.
Portugal, hoje, é um país de serviços, um país dependente do estrangeiro, dos artigos mais básicos da alimentação com uma factura de pagamento ao exterior gravíssima.
Segundo o calendário político do país, que a TV se encarrega de informar das suas virtualidades, as PME surgem sempre como bandeira, o que não se ajusta às frequentes notícias saídas na imprensa nacional, com censuras aos governos pela sua falta de sensibilidade nessa questão de tão alta actualidade. Como exemplo, transcreve-se o seguinte texto, de Eva Cabral, retirado da secção de Economia do Diário de Notícias de 28-III-2007:
«Conselho Económico critica "falta de atenção" às PME - O Conselho Económico e Social (CES) critica a "falta de atenção dada às pequenas e médias empresas (PME)" pelo Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN), o envelope financeiro das verbas que Portugal vai receber de Bruxelas entre 2007 e 2013.
Adriano Pimpão, relator deste parecer do CES, fez questão de frisar ontem, aos deputados da Comissão Parlamentar de Economia, que "se trata seguramente de um lapso" a falta de referências às PME por parte do QREN. Segundo o conselho, "muitos dos problemas estruturais que o país enfrenta só serão resolvidos com sucesso se houver por parte das pequenas e médias empresas uma capacidade empresarial acrescida nas áreas da gestão, da inovação de produtos e de processos pela via do investimento, da criação de empregos de qualidade e da produção de bens e serviços de maior valor acrescentado". O CES recomenda mesmo uma "rigorosa e transparente avaliação do custo-benefício dos grandes projectos" e recorda que no Programa Operacional de Valorização do Território estão incluídos os chamados grandes projectos, que representam mais de um terço do investimento previsto no QREN, quadro que globalmente está estimado em cerca de 44 mil milhões de euros. Bruto da Costa, presidente do CES, referiu, por seu lado, que Portugal tem "uma falta de enquadramento em matéria de estratégia de desenvolvimento". Citou, ainda, um estudo sobre o fenómeno da pobreza, que está a ultimar, e em que se concluiu que do universo de pobres existentes em Portugal um terço está empregado e outro terço é pensionista.»
Para não ir mais longe, basta recordar algumas linhas por mim escritas, já então mostrando certo cansaço de tantos bis. Foi isso, no meu livro O Reino da Estupidez nos Caminhos da Fome - Memória de tempos difíceis, Edições Cosmos, 1996, já lá vão doze anos, uma eternidade, mas o panorama, para não dizer igual, é péssimo, o desgaste e os problemas são cada vez mais indignantes. Neste livro muitas são as citações relacionadas com a situação, das quais, quase ao acaso, algumas aqui se reproduzem [cf. pp. 240-242]:
«É progressivamente crescente em todo o Mundo, e nomeadamente nos de tecnologia mais avançada e nos que empregam esforços mais concretos e racionais em prol do seu desenvolvimento económico e social, o funcionamento de estabelecimentos escolares de ciência e tecnologia de alimentos. Só nos Estados Unidos, e a título de mero exemplo, existem quarenta e sete Universidades onde o ensino da ciência e tecnologia de alimentos está institucionalizado, muitas dessas Universidades funcionando em estreita ligação com a indústria, para apoio técnico sistemático.
Portugal, pese à sua implantação europeia, não possui esse tipo de ensino sob uma forma curricular global. Tais matérias dispersam-se como manta de retalhos por várias escolas superiores, num verdadeiro bluff que não leva a lugar nenhum. Nem vale a pena escrever mais sobre esta miseranda realidade, à qual os respectivos professores parecem tão bem adaptados e conformados.
[...]
Há que reconhecer que toda a reconversão industrial da preparação e transformação de alimentos depende de que os seus quadros técnicos estejam à altura das responsabilidades. Não pode mais continuar-se a utilizar o improviso, autodidactismo, o amadorismo, em questões tão complexas.
[...]
2. Milhares de pequenas e médias empresas.
Outro ponto importante: a extrema pulverização da indústria, além da sua própria diversidade. Existem milhares de pequenas e médias empresas dispersas por todo o País, representando a ocupação e sustentáculo de muitos mais milhares de trabalhadores e respectivas famílias.
[...]
Estas empresas, individualmente, têm um significado económico pequeno, dir-se-á, mesmo, insignificante. Porém, em conjunto, elas assumem uma importância das mais significativas na economia portuguesa.
Sob o ponto de vista técnico, como é de prever, é extremamente precário, a todos os títulos, o seu parque industrial, ao que se alia uma técnica deficiente e empírica, que acarreta as consequências mais graves, quer em rentabilidade, quer em qualidade. Contudo, não se deve menosprezar certos produtos da indústria caseira (que, aliás, devem ser considerados num esquema diferente do da pequena e média empresa e que tem muito de positivo para a valorização regional e turística), pois essa participação constitui um verdadeiro alfobre de interesse para a economia doméstica, e, nomeadamente, agrícola.
3. Um apoio indispensável.
[..]
No entanto, é de esperar que o Estado venha a tomar uma participação directa em muitas dessas empresas, quer por ter forçosamente de as gerir por abandono ou desinteresse dos proprietários ou por ameaça de falência, a fim de garantir o emprego e a produção necessária ao consumo, quer intervindo directamente nos aspectos tecnológicos, dos quais depende a promoção da qualidade e a obtenção de melhores rendimentos. Em qualquer dos casos, o INII pode e deve desempenhar um papel de primordial relevo nesses processos, pois tem quadros com experiência que permitem a montagem imediata desses serviços com a dimensão que se tornar indispensável. Basta, para tanto, que lhe sejam facultados os meios humanos e materiais que permitam a esses quadros uma autêntica intervenção. Isto não significa de nenhum modo uma atitude de proteccionismo ou de paternalismo, que, além de tudo, são sentimentos incompatíveis com ambições de conquista de mercados externos, e com as investidas que possam surgir do exterior por forçadas penetrações das nossas fronteiras aduaneiras, derivadas de acordos internacionais a que Portugal se veja ligado.
Pode dizer-se que, no momento actual [anos noventa do século passado], o DTIA tem iniciadas intervenções do tipo das acima mencionadas, mas é evidente que essa participação terá de ser amplamente aumentada e completada com adequado apoio do sector económico em matéria de gestão» [No presente todo este apoio foi selvaticamente desmantelado. Hoje não há apoio técnico e científico às PME].
Fernando Vieira de Sá
23 de Novembro de 2008

domingo, 23 de novembro de 2008

O DRAMA DAS PME - CONCORRÊNCIA, VALOR ABSOLUTO

Sob o título geral de «O DRAMA DAS PME», recebemos para publicação no blogue dois textos de Fernando Vieira de Sá. Deixamos aqui hoje o primeiro, sobre «CONCORRÊNCIA, VALOR ABSOLUTO», uma reflexão muito actual sobre a CRISE e os «truques» que a provocaram e que estão já na origem de novos «aperfeiçoamentos da marosca».
As Pequenas e Médias Empresas (PME) são com frequência citadas nos paleios e bate-papos dos arautos da política à roda de uma mesa em qualquer canal TV, sem nunca mostrar ciência sobre fenómenos de definição objectiva e de contornos precisos gerados neste sector. É, por assim dizer, um clima que neste caso se expressa em estado de graça sem querer denunciar a verdadeira razão do mau-estar e consequências desastrosas que se vêem a olho nu. Contudo, a complexidade da questão é cada vez maior, na medida em que a doutrina da concorrência, exigindo redução de custos de produção e, por acrescento, comercialização, adoptando a teoria da concentração e monopólio, seguindo em frente com resultados progressivamente positivos, só exigindo mais para ganhar mais de um ponto de vista financeiro. Nada mais. E tudo isto funciona às mil maravilhas, já que os resultados financeiros assentam em esferas, o que deleita os investidores de 1ª grandeza, já que os de 2ª e de 3ª, etc., esses, também acabam por ser engolidos, ficando a aguardar alguma regurgitação do predador.
Eis o retrato da engrenagem e a conclusão inequívoca. Neste capítulo, a inovação é de magia, pois a imaginação para lograr melhores resultados não tem limites. É como nos crimes comuns, porque nos casos em questão a moral é de funil e os seus cérebros são consagrados especialistas em ciência financeira que, com subtileza contabilística, vão sempre à frente dos esquemas de controlo clássicos. É evidente que não são todos, mas que são muitos, são. E os operacionais também não se chamam burlões, mas outra coisa inócua, como gestores, consultores, peritos, cujo sucesso no negócio depende do segredo e não há confessionário que se diga seguro. Daí a bomba. Ninguém sabe nada, enquanto não rebenta.
O sucesso inspira a imaginação e até induz a outras fontes produtivas, truques onde se pode arrecadar mais receitas. É o caso das contabilidades paralelas fugindo aos impostos, off-shore e muitos outros truques.
Muito se poderia acrescentar sobre a dinâmica capitalista que, no auge do seu desenvolvimento, vem cair na concentração global criando a CRISE, que presentemente está em pleno desabrochar, aliás, prevista por Marx há mais de um século, prognosticando cientificamente que só no fundo da crise o socialismo teria viabilidade de implantação. É implícito que, em favor desta concentração de riqueza que absorve as economias menores, as PME estiveram sempre na linha da conversão dos parâmetros do peso da propriedade, começando pela propriedade rústica na linha da sua extinção, tida por absurda, face às novas técnicas de produção e outros factores.
Vem a propósito recordar um episódio que teve o condão da sua justeza de raciocínio nato, instintivamente puxando-lhe o pé para a verdade (aqui não foi o pé, mas o raciocínio), e vai daí cair em Marx. estava dito sem o querer... Abrenúncio!!! Passou-se isto num desses bate-papos na TV onde se juntavam três ou quatro mestres da orquestra política acarinhada, diga-se: o Zé, o Manel e o Toino, por exemplo, perorando a propósito da CRISE. Descrevia um deles a evolução da crise que (ainda) se vive. E de tal maneira o companheiro se expressava com toda a gentileza e convicção que eu, com espanto, colei-lhe imediatamente a tese que defendia com a de Marx escrita há mais de um século. Tintim por tintim, o que me espantou o arrojo, mas não estava enganado, pois um dos companheiros presente, digerindo palavra por palavra ouvida, teve exactamente o mesmo pensamento e diz: «Cai-se assim no socialismo, não é verdade?» Marx também concluiu o mesmo, como se sabe, o que quer dizer que o socialismo só se alcançará por exaustão evolutiva do capitalismo e não por rebelião das massas a quem falta os meios, por isso só em crise profunda e colapso poderão ter êxito. À interrogação, responde prontamente o mestre, sorrindo, como quem diz a palavra-chave: «Nem pensar, seria o caos, todos a falar ao mesmo tempo sem ninguém se entender, isto num processo que exige segredo, exigência, estudo, estruturas. O que há a fazer terão de ser os mesmos, já experientes, retirando da experiência as falhas cometidas, e edificar o sistema (capitalista) com as devidas seguranças reforçadas». No meu comentário íntimo, na altura, achei este pensamento profundamente ingénuo vindo donde vinha, mas monolítico, ou seja, sem outra saída credível possível, esquecendo-se que, na presente crise, não faltavam medidas já existentes de fiscalização e acompanhamento do conhecimento de todos, de cunho oficial e privado, obedecendo a regras pretorianas dirigidas ao cumprimento rigoroso de toda a operacionalidade de ambos os sistemas privado e governamental, mas a que todos os intervenientes altos responsáveis se abstiveram, de comum acordo, de recorrer e usar para todos os efeitos do controlo, o que foi determinante na presente crise, como tem sido largamente denunciado.
Deve dizer-se, portanto, que o sistema em causa poderia ser bom e precavia-se de todos os desvios da correcta acção, os quais foram abusadamente ignorados e sigilados segundo a regra de oiro do sistema.
E são estes mesmos senhores, segundo aquele amigo que, quando o outro concluía ter-se chegado ao socialismo por falência do capitalismo, respondia: «Nunca, agora com a experiência recolhida estamos em condições de todos os aperfeiçoamentos.» Quais? - pergunto eu agora? Mais sigilo? Aí está a ciência do truque pendente de uma importante investigação. Tudo para se chegar ao capitalismo absoluto, irreversível, uma espécie de divindade... já faltou mais!
Por agora, «tudo como dantes, quartel-general em Abrantes».
O sigilo que se exige é o aperfeiçoamento da marosca e um seguro de risco, talvez pago pelo Governo.
Fernando Vieira de Sá
23 de Novembro de 2008

domingo, 16 de novembro de 2008

A TODOS OS SERVIDORES DA FUNÇÃO PÚBLICA, FRATERNALMENTE

A fim de oferecer aos interessados um melhor conhecimento do conteúdo do livro Autópsia a Um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares, publicamos hoje o seu índice, antecedido da dedicatória que F. Vieira de Sá fez a «todos os servidores da Função Pública»:

Dedico este trabalho de selecção documental e de crítica de processos a todos os servidores da Função Pública, independentemente de categorias, vínculo ao Estado ou precariedade de funções. Fraternalmente Fernando Vieira de Sá
ÍNDICE
Apresentação
A questão / O denominador comum / História da Pré‑História / Grande Cruzada /A Sucessão
LIVRO BRANCO
Manifesto – Verão de 1975 [A revolução]
Publicações Periódicas (Difusão Restrita) Editadas pelo DTIA/LNETI
Nota Prévia – do que se escreve e descreve no Livro Branco
ANAIS
ANAIS 1979
Índice I — Introdução XIII — FILAGRO XIV — Visitas ao Departamento XVII — Perspectivas Futuras
ANAIS 1980 I — Introdução VIII — Participação em Congressos, Simpósios, Etc. XVI — Visitas ao Departamento XVII — Perspectivas Futuras
ANAIS 1981 I — Introdução XIII — Órgãos Consultivos e de Informação XVI — Visitas ao Departamento XVII — Perspectivas Futuras ÍNDICE
ANAIS 1982 I — Introdução VI — Formação e Actualização de Quadros (Cursos e Estágios, Reuniões Científicas e Visitas de carácter formativo e informativo) VII — Cursos e Estágios para Quadros da Indústria e Outras Instituições incluindo Universidades VIII — Participações em Congressos, Simpósios, Etc. XVI — Visitas ao Departamento XVIII — Perspectivas Futuras ANAIS 1983 I — Introdução VII — Acções de Formação para Quadros da Indústria e Outras Instituições incluindo Universidades XVI — Visitas ao Departamento XVIII — Perspectivas Futuras
FOLHA INFORMATIVA MENSAL – Editoriais
Abril 1981: [O Dever de Informar]
Maio 1981: [Ameaça ao Uso da Palavra Escrita]
Junho 1981: [O Orçamento Não é uma Peça Burocrática]
Julho 1981: [O Descalabro do Comércio Externo, na Área Alimentar]
Agosto 1981: [Racionalização dos Meios de Trabalho]
Setembro 1981: [Informação e Relações Públicas]
Outubro 1981: [Desconforto na Falta de Decisão sobre Carreiras Profissionais]
Novembro 1981: [A Burocracia como Modo de Estar na Vida à Mesa do Orçamento]
Dezembro 1981: [O DTIA Sabe o que Quer]
Janeiro 1982: [A Democratização da Ciência]
Fevereiro 1982:[Funcionamento do DTIA em Discussão]
Março 1982: [Reflexões Sobre o Tipo de Investigador que ao DTIA Interessa]
Abril 1982: [A Proibição do Debate de Ideias]
Maio 1982: [Do Servir e do Servir‑se]
Junho 1982: [Planeamento para «Inglês Ver». Leia-se UE]
Julho 1982: [A Valsa das Instalações]
Agosto 1982: [Repentino Convite à Reflexão]
Setembro 1982: [DTIA Olha à Internacionalização]
Outubro 1982: [Na Senda das Opções. A Carreira de Investigação em Discussão]
Novembro 1982: [O Fim de um Projecto]
Dezembro 1982: [Auto-exclusão, Drama do Absentismo]
Maio 1983: [Noticiário]
Novembro 1983: [Noticiário]
Julho 1984 (Suplemento): [Despedida]
Julho 1984: [Passagem de testemunho e despedidas]
Simpósio Internacional «As Indústrias Agro‑Alimentares e o Desenvolvimento Rural» e 1º Congresso Nacional de Indústrias Agro‑Alimentares
Antecedentes: Causas e Objectivos
Índice
Introdução
Para uma Melhor Compreensão e Intervenção Administrativa do Estado no Sector das Indústrias Alimentares
Conclusões
Ensino e Profissionalização da Ciência e Tecnologia dos Alimentos
Conclusões
Correspondência [Destinatários]
26/XII/80 — Presidente do LNETI
10/II/82 — Director do ITI
2/III/82 — Director do ITI
9/XI/82 — Prof. Romero
17/II/83 — Presidente do LNETI
16/V/83 — Director do ITI
26/V/83 — Presidente do LNETI
26/V/83 — Director do ITI
25/XI/83 — Prof. Veiga Simão
12/VI/84 — Prof. Veiga Simão
15/VI/84 — Director do ITI
9/VII/92 — Prof. Veiga Simão
12/XI/2001 — Presidente do INETI
Conclusão
Posfácio
A Citação
Post Scriptum [ano de 2006]

sábado, 8 de novembro de 2008

INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (VII)

E terminamos hoje a publicação do texto que pedimos a Vieira de Sá sobre algumas peripécias interessantes da sua «Incursão pelas Armas», dando assim continuação à nossa intenção de ir registando neste blogue alguns dos «ecos da memória» de alguém cuja vida atravessou quase todo o século XX - um século de grandes guerras e de selvajarias várias que não podemos esquecer - e que continua atento e participante na aventura de ir construindo um século XXI que vai avançando cheio de incertezas e nuvens negras, mas também com alguns ténues sinais de que é possível manter a esperança na inteligência humana.
[continuação]
TEMPOS DE ESPERA E DE GUERRA - Pensava eu que, terminada a instrução obrigatória da escola de milicianos, ficaria para toda a vida livre de quaisquer compromissos militares. Guardei o meu fardamento, do qual fazia parte um par de botas altas de bela qualidade que me fora emprestado, poucos anos antes, e mais tarde oferecido por uma amiga, viúva recente de um oficial elegante, lembrando-se que poderia fazer-me jeito se por coincidência me servisse. Experimentei e era exactamente o número... as botas do defunto, um inédito princípio de vida militar. É quase para dizer «Como é que vou descalçar esta bota?!».
Os tempos eram terrivelmente preocupantes, já que a Guerra Civil de Espanha terminou em Janeiro de 1939 (trinta e dois meses de Guerra Civil) - sucedendo-se sem intervalo a II Guerra Mundial (1939-1945) -, durante a qual se perpetraram verdadeiros crimes contra a Humanidade, ceifando um milhão de vidas, onde os nazis ensaiaram gratuitamente os seus aperfeiçoamentos aeronáuticos de bombardeamento sobre alvos populacionais, como no caso de Guernica (1937), uma pacata vila sem nenhuma peculiaridade de interesse estratégico, aniquilando toda a população pacífica, arrepiando toda a gente com o mínimo de sentimentos civilizados, crime este fixado para a História da Selvajaria por Picasso numa tela imortal e uma das suas obras mais célebres. Já não falando do genocídio de muitos milhares de pessoas encerradas na arena da Praça de Touros de Badajoz, fuziladas e para cujo espectáculo (assim se anunciava) houve convites para portugueses que aí acorreram em ar de festa com a bênção salazarista... cheios de fé cristã.
Pela minha parte, durante o ano de 1942, na companhia de Maria Elvira, minha mulher, encontrava-me em Inglaterra, auferindo de uma bolsa de estudo na Universidade de Reading, experimentando a guerra in loco com todos os riscos e proveitos que perseguíamos, já descritos em diversas ocasiões. Experimentámos receios de diversa índole, um deles quando da cedência da base das Lajes, nos Açores, ao abrigo da aliança anglo-portuguesa, o que poderia originar a invasão das tropas nazis, e, se tal tivesse ocorrido, nós poderíamos recolher a um campo de estrangeiros sob vigilância. Nada aconteceu, mas risco sempre houve e conseguimos, em fins de 1942, regressar sãos e salvos. Chegados a Portugal passavam as mesmas preocupações e Salazar, para evitar pânico na população, resolve mobilizar as tropas, chamando-lhe apenas «manobras militares», consistindo em criar uma 4ª Divisão, com sede no Cartaxo, tendo como finalidade defender-nos de qualquer invasão através da ponte sobre o Tejo, a única que ao tempo existia.
Chegado de Inglaterra, e ao Serviço da Direcção-Geral dos Serviços Pecuários, fui colocado em Coimbra. Já com as «manobras» em curso, e tendo sido mobilizados alguns dos meus colegas mais antigos, não percebi por que razão não fui chamado.
Aqui começa uma campanha surda, vinda dos colegas, acusando-me de ser protegido por algum truta. Era totalmente falso. Como tinha a consciência limpa, deixei-os gozar. Mas, uma manhã, estando na Intendência de Pecuária, vem o contínuo dizer que estava ali um polícia que precisava de falar comigo. Vi imediatamente que tinha chegado a minha vez, de tal modo que, quando o polícia chega com um papel, antes mesmo de dizer qualquer palavra, eu adiantei-me: «Onde está a convocatória para assinar?». A partir deste momento, e informada a família, foi fazer a mala e ir à gaveta ressuscitar a farda e as botas altas do defunto. No dia seguinte, estava a caminho do Porto para me apresentar no Regimento de Infantaria 6. A campanha contra as minhas cunhas acabou.
Novamente fardado, apresentei-me ao Comandante, por sinal muito civilizado, sendo também médico com consultório aberto. Eu olhava para todo aquele ambiente e pensava como me iria safar de tudo aquilo, não percebendo nada de orgânica funcional, de regulamentos e procedimentos que não foram ensinados na altura devida, por mais que eu esquadrinhasse a memória, concluindo que esse tempo foi pura perda de tempo, salvando-se para meu interesse a equitação que pagou as dificuldades em que agora me via metido. Não sabendo eu nada, resolvi proceder por minha conta usando a racionalidade. E quando me vinha o sargento enfermeiro dizer «Meu alferes isso não pode ser porque o regulamento...» não dizia mais porque, de imediato, eu respondia: «O regulamento agora sou eu». E tudo seguia.
Como era regra, ao fim do dia tinha despacho com o Comandante, onde o informava das minhas resoluções, sem atender a regulamentos, que não tinha e não podia estudá-los sobre a ocorrência. Como tal actuava profissionalmente num critério de bom senso, sem burocracia. Ele, não só sempre aprovou as minhas decisões, como me apoiava.
Tudo isto foi para mim uma experiência impensável, mas que acabou (mas muito mais tarde) por ser interessante.
Mas a grande surpresa estava para vir. À chegada do comboio-militar ao Cartaxo, o que só aconteceu após intermináveis horas de viagem, transportando um regimento completo, implicando umas centenas de mulas e todo o material de guerra, etc., vá de apear tudo isto para um cais à dimensão da povoação. Falta-me imaginação para traduzir por palavras escritas o pandemónio que se instala e que, mal comparado, me fazia lembrar as notícias da imprensa a propósito da retirada de Rommel [Erwin Johannes Eugen Rommel, «A Raposa do Deserto», 1891-1944] depois da derrota do Afrika Korps na batalha de El Alamein, no Egipto (1942), que estava ainda muito presente em toda a gente do mundo a quem a imprensa chegou. Eu olhava para tudo e não fazia a menor ideia de qual seria a minha actuação. Atender as mulas? Ajudá-las a sair do vagão? Fazer-lhes festinhas para as sossegar, dizendo-lhes ao ouvido que era só uma brincadeira de mau gosto? Em boa verdade, a tropa também não estaria mais preparada do que eu. Onde estavam os chefes?
A minha sorte foi ter encontrado três colegas - dois milicianos e um de carreira - que andavam à minha procura para terem comigo uma reunião urgente. O assunto era grave. O que se passava? Afastámo-nos da balbúrdia e fomos reunir à distância. Queriam eles, por camaradagem, pôr-me ao corrente de uma bizarra situação, mas muito grave para o nosso desempenho profissional e militar. Acontece que, chegando a Cabo Verde, onde havia um destacamento militar, uma remessa de alimentos onde havia carne imprópria para consumo, em início de putrefacção, o veterinário devolveu-a à procedência, dado que o regulamento proibia a sua inutilização no destino. Quando a carne chegou a Lisboa, o ministro [Santos Costa] ficou furioso, com o pretexto de que «em tempo de guerra não se limpam armas» e afirmava: «Vai para comer é para comer mesmo». Como tal castiga, com registo na caderneta disciplinar, e declara que essa carne terá de ser consumida, dê por onde der. Acontece que essa mesma carne é despachada para o Regimento de Infantaria 6, no Cartaxo. Aqui ninguém sabia do acontecido e, naturalmente, o veterinário rejeitou a carne. E, apesar de não ter dúvidas, chamou os colegas para darem parecer e ambos confirmaram a rejeição, pois a carne, que já estava em más condições de salubridade em Cabo Verde, ao fim de mais de um mês estava em estado deplorável, de tal modo que, não só foi rejeitada, como foi imediatamente enterrada para evitar males maiores, fazendo um «auto de notícia» destinado ao Ministério, na boa fé de ter actuado com critério indiscutível. A decisão do ministro, que ficou furioso por a carne ter sido enterrada, não tendo sido usada no rancho ou, então, devolvida, foi castigar os três veterinários com castigo registado na caderneta de disciplina. Dois dos veterinários eram milicianos e diziam com humor que tal castigo na vida civil era um atestado de conduta exemplar, pelo facto de a sua atitude respeitar e defender a saúde pública. Já o veterinário militar, por causa do castigo registado, viu o seu futuro prejudicado, atrasando e dificultando a sua progressão na carreira militar.
Os tempos de manobras seguiram-se sem percalços, sempre à espera do inimigo, que afinal não veio. Para mim, valeu-me uma grande experiência e ter tido a sorte de encontrar um Comandante, médico em simultâneo, com uma grande abertura ao racional critério de decisão, apreciando por isso o meu critério de responsabilidade, sempre tendo o Comandante ao corrente dos problemas, se é que de problemas se tratava. Do que se tratava era de usar a responsabilidade.
Isto valeu-me quando já no Porto e no quartel, indo, no final da missão, despedir-me do Comandante, fui vestido à paisana. Quando os camaradas me viram disseram em uníssono: «Eh pá, não podes ir à paisana, o Comandante não te recebe». Eu respondi: «Agora já não posso ir mudar de roupa, já não há tempo e já tenho tudo emalado». E insistiam: «Eh pá, não podes. Vais ver!...». Entrei e o Comandante nada disse. Conversámos um pouco, perguntando-me se, caso houvesse a circunstância de nova mobilização ou se entrássemos em guerra, me poderia requisitar, porque tinha gostado do meu trabalho sem os berbicachos de que muita gente faz gala. Já na despedida, o Comandante, dando-me um abraço, diz: «Doutor, estou a ver que estava farto desta vida»... e olhou para mim varrendo a vista pela minha indumentária. Eu entendi a repreensão e respondi: «Meu comandante, nem me fale!». E assim acabaram as manobras. Cá fora, os camaradas aguardavam-me e ficaram espantados: «Então, o tipo não te repreendeu?». «Não - respondi - e estou aqui vivo». Não faltaram os protestos e dichotes: «Pois é, vêm para aqui estes milicianos, fazem o que querem e nós é que nos tramamos. Não é justo. E ainda se riem de nós». Etc. etc. etc.
É pena, há muita coisa que não se pode explicar. A única explicação é o medo.

Fernando Vieira de Sá

Outubro/Novembro de 2008

domingo, 26 de outubro de 2008

JOSÉ BRANCO RODRIGUES [1912-2008]

No dia 26 de Setembro de 2008, faz hoje um mês, falecia em Lisboa José Branco Rodrigues, razão pela qual aqui deixamos um emocionado e belíssimo texto de Fernando Vieira de Sá. Tivemos também o privilégio de conhecer Branco Rodrigues, um ser humano especial na sua simplicidade e desinteressada amizade. Recordamo-lo com saudade, mas com a certeza de que o testemunho fica e perdurará na nossa memória e na daqueles a quem consigamos transmitir este extraordinário exemplo de vida.

A morte de Branco Rodrigues exerceu em mim uma sensação que nunca tinha experimentado e que se enraíza numa profunda ideia de irmandade que vem de um tempo em que, com epicentro na Europa mas com réplicas em todo o mundo, deflagrou a I Guerra Mundial.
Branco Rodrigues nasceu em 1912. Eu nasci em 1914, tempo de gestação e eclosão do grande conflito bélico (1914-1918), donde nasceria uma sociedade que alterou organicamente o statu quo ante da vida e, seguramente, actuou sobre as famílias e todo o evolutivo pensamento de que os recentes nascituros serviram de cobaias das recém-implantadas vivências.
Sem nos darmos conta disso, a verdade é que, com o desaparecimento de Branco Rodrigues, pela primeira vez senti que, afinal, o nosso encontro e conhecimento, dir-se-ia, recente, evoluiu instintivamente assente em uma aproximação oculta e temporal que agora, com a sua morte, senti que alguma coisa do meu estar alterou os estímulos da memória, dando-me a sensação de ter perdido alguém que, para mim, sem me dar conta, era tanto, como um amigo de vivências paralelas. Éramos, por assim dizer, produtos gémeos face ao alvor de uma novelíssima Nova Era nascida connosco, fazendo parte de nós.
Agora, neste particular aspecto e sem referência à época comum que nos assistiu à nascença, fiquei só, como relíquia desse mundo que nos ia formar. Nunca pensei que a sua falta neste mundo me tivesse atingido tanto por tal ausência. E, no entanto, vivemos dezenas e dezenas de anos, dir-se-ia, quase toda a vida sem nada sabermos um do outro, pois só nos vimos pela primeira vez em casa de Mário Neves [1912-1999], nascido também em 1912, um grande amigo comum, quando este caiu numa cadeira inutilizado pela doença que se arrastou fatidicamente, cumprindo a sentença de prisão perpétua que lhe calhou por acasos da existência. E nós, eu e Branco Rodrigues, cumprindo uma dívida que a amizade e o dever facultativo impõem, aí íamos fazer-lhe companhia com grande frequência, alimentando sempre uma conversa animada, esquecendo as circunstâncias que se esqueciam. Pois foi aí que de jure et de facto nos conhecemos, afinal somente quando a idade, já sem idade, nos começava a rondar a porta e nós a bater-lhe com ela na cara.
Mário Neves faleceu e nós continuámos a nossa relação, que já não tinha retorno, encontrando-nos frequentemente, incluso em Sesimbra, onde eu e Maria Elvira [1917-1999] recebíamos amigos em dias de fraternidade, o que ainda hoje faz presença na memória e na saudade, mas já com muitas baixas. O cerco aperta-se...
Mais recentemente os nossos encontros e conversas eram somente telefónicos. As circunstâncias iam-nos restringindo os espaços de manobra, ficando-nos como modesto recurso os telefonemas diários para uma saudação e já isso era um apego a todo o nosso passado de relação de amizade. A falta desse contacto diário atingiu-me, como não me passaria pela cabeça atingir os meus tempos de ocupação mental e refrescamento pela voz e pela banal notícia de «nada de novo», ajudando-nos a existir.
Branco Rodrigues era um homem especial. Vivia mais para os amigos do que para si mesmo. Era pessoa que se dedicava intensamente aos amigos, sempre atento aos aniversários, às homenagens em vida e na morte, intervindo nas celebrações de tudo o que enaltecesse alguém que o merecesse. Lembro aqui, e registo, a grande preocupação de Branco Rodrigues, desde há um ano, com a celebração do centenário do general Vasco Gonçalves [1921-2005] com o seu receio de que caia no esquecimento ou menor relevo por falta da devida antecipação na sua organização. Por isso desunhava-se em contactos, prevendo que ele poderia não estar já vivo para agitar, para dar o seu contributo e pedir o de outros. Esta seria a mais sublime homenagem a Branco Rodrigues, que, levando-a a cabo, seria sem dúvida alguma uma dupla homenagem.
Tudo isto aqui escrito lembra e homenageia Branco Rodrigues, um homem modesto, só pensando nos outros, fossem eles vivos ou mortos. A sua figura esfumava-se com total discrição. Quem lhe quisesse falar em qualquer celebração, por exemplo, teria de ir à última fila, onde o encontraria silencioso e apagado, mas sempre atento a tudo.
É com saudade e respeito que dedico estas palavras à sua memória.



Fernando Vieira de Sá
Lisboa, 26 de Outubro de 2008

sábado, 25 de outubro de 2008

INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (VI)

[continuação]
Agora era só esperar pelo ano seguinte para me apresentar no Regimento de Cavalaria 2 - Lanceiros da Rainha, pois em tempos da Monarquia a rainha era sempre a patrona do Regimento, onde passei uma das melhores férias da minha vida, aprendendo equitação, montando os melhores cavalos e assistido pelos melhores cavaleiros da época, concursistas em torneios internacionais. Recordo com saudade as cavalgadas pelas colinas de Monsanto, pisando o mesmo solo que o rei D. Dinis percorria nas caçadas aos ursos (ainda não existia o parque), os dias no campo de obstáculos, o volteio no picadeiro, etc. Por casualidade, já licenciado, passei dois ou três meses na Estação Zootécnica Nacional, Fonte Boa, Vale de Santarém, onde continuei a montar, nessa ocasião percorrendo a lezíria, campo aberto, de uma beleza sem par, onde a vida cresce de energia e o espírito se desfaz em poesia e optimismo. Valeu a pena.
Valeu-me este passado, quando alguns anos mais tarde, em Cuba, Ramón Castro planeou uma excursão à Sierra Maestra para me mostrar lugares onde passaram as colunas revolucionárias, mas Fidel proibiu com receio de algum desastre pelo facto de eu ir a cavalo. Foi preciso eu explicar muito bem que montar a cavalo não me causava qualquer dificuldade e que, se fosse preciso, escreveria uma carta responsabilizando-me de qualquer percalço, ao que Fidel acedeu sem mais dúvidas. Venci alvos nunca premeditados.
Para concluir, este período de instrução, e fazendo uma reflexão sobre a sua utilidade, já o fazendo com a experiência que iria adquirir e que na altura estava longe de ser realidade, dir-se-ia que, honestamente, não me lembro por mais que escave a memória de qualquer coisa útil em qualquer participação, como veio a acontecer. Tirando a equitação, e por eu estar interessado no assunto, nada, nada mesmo, assimilei que me viesse a ser útil em qualquer futuro. Pareceu-me tudo um manancial de regras oficiantes a que não se ajusta uma prática onde o imprevisto é lei.
2. OS CURSOS - O curso de oficial miliciano processava-se em dois dos períodos de férias do último ano do curso. Neste caso, o meu primeiro período, como já disse, processou-se no Regimento de Cavalaria 2 - Lanceiros da Rainha. Para mim correspondeu à prática da equitação, um tempo que para mim foi de grande prazer e proveito. Não o esqueço e teve em mim um bom incentivo de teor desportivo evoluindo para outras práticas físicas. Quanto ao resto, muito honestamente, mal me lembro de qualquer lição que tivesse alguma coisa de interesse, isto do ponto de vista militar, pois as palestras, no seu conteúdo, não eram mais do que uma continuação do ensino universitário, não se acrescentando nada de especificamente militar. O segundo período passava-se no Hospital Veterinário Militar, cuja ubicação se situava a poucos metros do Regimento de Cavalaria 7, ou seja na Boa-Hora. Isto deu como resultado que, logo que me despachava dos deveres no hospital, corria para o Regimento e aí ficava várias horas até me mandarem embora. Daí ter tido a sorte de mais dois meses de prática equestre.
No Hospital repete-se a mesma continuação universitária. De alguma coisa especificamente militar, na realidade não me recordo. Toda esta orientação, que nada tinha de militar, mais tarde mostrou a sua inutilidade quando me vi em manobras e não sabia por que ponta lhe havia de pegar, dificuldades a que me referirei à frente.

Os Cães de Guerra - De todas as lições recebidas neste período de instrução já declarei atrás que tudo o que se palestrou foi de tal vulgaridade que pouco ou nada, por mais esforços que faça, ficou retido na memória. Em linguagem dos tempos de hoje chamar-se-ia a este estado de espírito o «buraco do ozono» do planeta, sendo que aqui o planeta é o nosso mundo craniano. No entanto, uma excepção é de toda a justiça relevar. Foi a palestra sobre cães de guerra, não só pelo seu intrínseco interesse (uma informação que não era conhecida) como por uma certa filosofia que da lição se desprende, como na sua avaliação em termos mais abrangentes. Por tais razões achei oportuno relatar.
A lição, como já referi, era sobre cães de guerra. O instrutor desperta logo a atenção. Assim: Corria a I Guerra Mundial, conhecida por «Guerra das Trincheiras», em que os dois países beligerantes - França e Alemanha -, frente a frente e corpo a corpo, se debatiam, saindo das suas trincheiras, pelejando em terreno de ninguém. Durou isto quatro anos de beligerância a que se Juntaram a Bélgica, a França e depois a Inglaterra, Portugal e, do outro lado, os países de Leste. No estudo estratégico da beligerância, os observadores militares e estrategos, começaram a ter dificuldades em descobrir como os exércitos do lado alemão davam toda a sensação de dispor de informações que prejudicavam os ataques-surpresa, o que os levou a uma séria investigação, da qual resultou a descoberta do cão-correio, cão-estafeta, enfim um novo meio de comunicação à distância que, na época, era muito escassa e de modesta qualidade: telefones de campanha, telégrafo, código Morse, pombo-correio aberto ao tiro certeiro, e não sei se mais algum.
Ora bem, descoberto o segredo de comunicação através dos cães, os investigadores dos aliados logo começaram a estudar todo esse campo. Concluíram então que os alemães já estudavam o assunto desde há muitos anos, possuindo na altura cães de raça apurada para os efeitos desejados, quartéis de cães de guerra adestrados no ofício de mensageiro ao domicílio, etc., etc.
Sem perda de tempo, do lado aliado começa o improviso de caçar cães onde os houvesse, desde o vira-latas até ao pastor alemão, caçando homens para treinadores, sabendo tanto como os cães, etc., etc. Mas - enfatiza o nosso instrutor - «a verdade é que com todos estes improvisos os nossos cães lá se desenrascaram e cumpriram tão bem como os do inimigo que vinham de academias caninas». Chegado a este momento e a esta declaração, ouve-se do fundo da sala de aula uma voz pensadora de quem medita mais para lá das palavras. O que se ouve é isto, em atmosfera de silêncio, referindo-se à conclusão do instrutor: «Eram os milicianos meu tenente, eram os milicianos. Cá estamos nós também aqui como rafeiros». Salta uma grande gargalhada. O instrutor embatuca e faz um sorriso sardónico.
E até ao fim da instrução, a respeito de tudo e de nada, ouvia-se: «Eram os milicianos... somos os cães-correio da I Grande Guerra».

[continua]

sábado, 18 de outubro de 2008

INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (V)

1. COMEÇANDO PELO PRINCÍPIO - Corria o ano de 1937. Fazia já um ano que começara a Guerra Civil de Espanha. Estava eu no 4º Ano do Curso de Medicina Veterinária. Teria neste ano de me apresentar à inspecção médica (vulgo «sortes») e, sendo apurado, seguir-se-ia o primeiro período de instrução militar, ingressando no Curso de Oficiais Milicianos, pois é aí o viveiro do Exército e da Marinha para civis licenciados onde se caldeiam as mais altas virtudes do cidadão deslapidado ou mal entalhado para arrostar os perigos que sempre enfrentam as grandes nações e pátrias de altos exemplos de honra e patriotismo. Esses saberes e entregas que aí se aprendem e, sofregamente, aspiram ficar à altura dos mestres e momentos onde a glória os aguarda. Isto é o que a etiqueta do curso suscita. Cá estamos. A pergunta é: estaremos à altura?
Após este intróito, que se impunha para que todos lembrem que nem tudo é mau, nem tudo é fado, cá estamos, repito, arrostando o veredictum dos Juízes, as sentinelas da herança pátria, egrégios exemplos...
Nada, porém, resiste à ferrugem que tudo mina, mesmo o que se julgaria protegido da perversão dos costumes, a corrupção da sociedade. A verdade é outra, embora não se escreva. Com efeito, ao contrário, tradicionalmente e na generalidade dos casos, todos os varões desejariam reprovar na inspecção médica e, como tal, ser dispensados dos deveres militares. Comigo, porém, passava-se o contrário. Também os desígnios eram outros e mais modestos, menos ambiciosos, mais pessoais. Pode condenar-se, mas aplaudir seria desaforo. Assim, é simplesmente justo. Nunca me julguei com estatura para tão altos desígnios. Em boa verdade desejaria ser aprovado - do que não tinha a menor dúvida, dada a minha compleição física - por duas razões: 1º. - terminado o curso e apto para o serviço militar, poderia concorrer ao quadro de veterinário militar se por acaso houvesse algum concurso de admissão; 2º. - e o mais aliciante, que consistiria em aprender equitação, o que só poderia concretizar sem custos fazendo o curso de oficial miliciano na arma de cavalaria. Nesse tempo, com menos de metade do século XX percorrido (escrito assim é mais ponderável) o Exército tinha os melhores cavaleiros do país. Porém, nesse ano as coisas iriam correr de forma diferente, dir-se-ia, ao invés da rotina, sacrificando a impoluta dignidade profissional em dose dupla (militar e civil). O patriotismo e a ética, quer militar quer médica, cedem às instruções indignas vindas do Alto, em formato de boato, o mesmo é dizer de Salazar, para que os mancebos de Lisboa, e particularmente de Alcântara, na base de uma inaptidão diagnosticada para a prática militar, conferida pela respectiva Junta Médica, e assim precaver qualquer infiltração de vírus subversivos carreados para dentro dos quartéis pelos indivíduos vindos de um meio duvidoso face à segurança da sociedade. A razão era simples. A Espanha era assediada desde há um ano pela Guerra Civil. Franco corria pela implantação do fascismo em Espanha, uma espécie de Cid, O Campeador, que também por aí cavalgou há bem mil anos, derramando sangue e morte selvaticamente como se fossem ambos da mesma cepa, o mesmo ADN, com o fito de expulsar o poder republicano democraticamente alcançado nas urnas, derrotando a ditadura de Primo de Rivera (1931-1935), exilando-se o rei Afonso XIII que se acolhe ao sol do Estoril. Portugal, para os fascistas e reis, era um paraíso. Outros, mais tarde, fizeram o mesmo.

A Mentira, «A Bem da Nação» - É bom recordar que, nesse tempo, a classe operária, concreta e personalizada, afirmava-se quase exclusivamente em Lisboa, nomeadamente em Alcântara, onde se erguia o complexo industrial da CUF, único exemplo significativo de Revolução Industrial inspirada pelos novos ventos que começaram a soprar após o fim da I Grande Guerra (1914-1918) na Europa. Perante este espectro, tudo podia acontecer; isto é, ser reprovado na inspecção médica. A preocupação aumentava à medida que se ia conhecendo a invulgar alta percentagem de mancebos dispensados. Chegado o meu dia, vi-me às tantas numa sala perfilado numa linha de quinze matulões, todos em cuecas, aguardando a sua vez para ser inspeccionado por uma Junta de três ou quatro médicos militares. Pelo aspecto físico, se fosse em tempos normais, todos seguramente seriam apurados. Porém, até à minha vez, teriam sido observados uns dez, cuja maioria ficou dispensada. Eu falava só. Olhava os médicos, simples capatazes do regime, o quadro de uma pátria ajoelhada aos pés do ditador a preço sem preço. Servidão.
Desta feita, e desde logo identificado com os «bons exemplos» e os brios aí praticados «A Bem da Nação» ou, quiçá, da humanidade, deixando para trás feito entulho o que fez a história dos tais heróis cuja memória se enxovalha em favor de outros alvos e outra moral. É preciso chamar a atenção para o pormenor de que esta inspecção tinha lugar no Quartel-General, ao tempo funcionando no Palácio das Necessidades, recebendo a brisa alcantarense transportando o vírus inquietante. Ouvindo, finalmente, o meu nome, avancei até junto da mesa onde esperavam os actores da peça que, um a um, iam manobrando à minha volta, exibindo os clássicos gestos e aparelhagem de diagnóstico usuais nestes actos profissionais e, não demorando o veredictum, dá o resultado/ordem: «Está dispensado, pode seguir». Mostrei-me surpreendido porque me sentia são como um pêro e disse, quase ofendido: «Veja o sr. doutor, eu pensava que tinha saúde para dar e vender e agora oiço esta. Preciso saber o que se passa para consultar um médico imediatamente». O médico fica um pouco surpreendido e confuso e o que lhe veio à cabeça foi dizer: «Não é nada de grave, mas fica livre. É melhor prevenir que remediar». «Não é bem assim sr. doutor, de qualquer modo quero saber o que me afecta, para me tratar e cuidar». Resposta: «Mas não está contente por ficar livre?». «Não é o caso nem se põe essa questão de querer ou não querer». O médico mostra algum embaraço em manter o diálogo e acaba por dizer: «Está bem, se quer ficará apurado. E em que arma gostaria de servir?» «Não sabia que se podia escolher, mas se me dá essa oportunidade, gostaria de ir para cavalaria». Desta feita e desde logo identificado com o brio militar e profissional dos respeitáveis facultativos, que poderão defender a Pátria de perigos medonhos mas, quanto a honra e brio profissional, estamos conversados... É uma vergonha. A nobreza de Salazar era ter a Pátria a seus pés.

[Continua...]

terça-feira, 14 de outubro de 2008

INCURSÃO PELAS ARMAS

Brevemente aqui se escutarão mais alguns «Ecos da Memória», desta feita sobre a «Incursão pelas Armas» de Fernando Vieira de Sá, com peripécias das «sortes» no quartel-general, ao tempo a funcionar no Palácio das Necessidades, ali bem perto da Alcântara da CUF e dos mancebos portadores de perigosos vírus subversivos, entre outras saborosíssimas histórias que vão do Regimento de Cavalaria 2-Lanceiros da Rainha até ao Cartaxo... onde se fala de equitação, cães de guerra, mulas, carne podre, etc... sempre à espera do invasor alemão!!!

Aqui ficam dois registos fotográficos, um de 30-X-1943, por ocasião das manobras militares na região do Cartaxo, sendo FVS Alferes-Veterinário, outro, datado de 1-VI-1953, sendo FVS já, então, graduado Tenente-Miliciano do Serviço Veterinário Militar.



domingo, 12 de outubro de 2008

A CRISE - CADA COISA TRAZ EM SI A SUA CONTRADIÇÃO

No preciso momento em que todos os debates e análises se ocupam da tão propalada crise e se tenta descobrir a pólvora seca debaixo de água, camuflando os verdadeiros responsáveis de mansos cordeiros e de "vítimas", recordámos, esta tarde, em conversa com Vieira de Sá que, já em 2004, no seu livro Viagem ao Correr da Pena, o autor se debruçava sobre os problemas inerentes ao capitalismo selvagem, ao neoliberalismo e à globalização.
Deixamos aqui alguns excertos, que mais parecem escritos sobre a realidade que estamos a viver em pleno ano de 2008.
*
«Viver a utopia era, mesmo assim, possível. Havia boas razões para isso, com a esperança de que, com o fim da Guerra Mundial, a democracia seria, por direito próprio, proclamada para valer. Porém, o grande revés de tudo isso que era pensado foi, desde logo, a sobrevivência de Salazar e Franco após a derrota do nazi-fascismo. E, a partir daí, toda a reconstituição paulatina - apenas com a mudança da sede do Reich para a América do Norte - dos ambicionados poderes hegemónicos de domínio absoluto do Mundo, agora com armas mais poderosas, nãp só militares como económicas, e o totalitarismo da globalização. No entanto a utopia existe, configurada na implosão do capitalismo selvagem, ele próprio, quando chegado ao cume da sua última etapa de crescimento. Então renascerá das cinzas um novo mundo. Será para daqui a vinte, trinta anos? Os momentos históricos não se contam por minutos, horas, ou dias, contam-se por decénios e séculos. Isto se o planeta aguentar a destruição a que está sendo sujeito em favor apenas do banditismo do capitalismo selvagem, tomando, pelo dinheiro e pelas armas de destruição maciça, a riqueza de todos, o que já esteve mais longe, bem mais longe desse fim já em curso, sem esquecer o caos ecológico.
[...]
Assistimos agora ao mais inédito acontecimento da história do mundo. A aproximação suicida do pico de abrangimento e concentração da riqueza do planeta por mor do imperialismo expresso no neoliberalismo global, incluindo as riquezas de Marte, se lá as houver, vislumbrando-se que o século XXI venha a assumir-se a arena presumível da sua defecção, quando for chegado o último degrau da própria contradição, como dialecticamente é mister, e cujos sinais objectivos de sustentação se vão sentindo cada vez mais ameaçados, apontando para a inevitável derrocada, tão global quanto o ecumenismo das forças opostas se avolumam, não sendo fácil apor soluções intermédias, pois não se trata de reformar um sistema, mas de substituí-lo, invertendo os propósitos científicos de índole sociológica e de desenvolvimento económico, o que apraz alcançar com urgência e determinação. A experiência fala por si. É imperioso ir ao encontro desse desideratum, travando o passo quanto antes ao devorismo grassante, despertando as consciências frente a riscos de outra gravidade e de bem mais sérias consequências e incerta resolução, pois estas são já do foro das patologias ainda mal conhecidas que ensombram os cientistas e o mundo.
[...]
Derrubou-se o muro de Berlim, o "muro da vergonha" como se lhe chamou. Derrube-se agora o muro da fome, o muro da demência, o muro da morte, o muro do holocausto de uma civilização que agoniza. Todos são o mesmo muro. Mas estes agora não são da vergonha, mas do crime calculado e premeditado.
O problema agudiza-se e cada vez mais vertiginosamente (tempo da história). E também mais vertiginosamente se aproxima do pleno e dialéctico princípio de que "cada coisa traz em si a sua contradição" (Marx). Assim, o globalismo neoliberal não poderá evoluir para lá dos seus próprios limites que se consubstanciam na autofagia. E quando já fervilha a contestação das inquietantes turbas de esfomeados, de desempregados, de sem-abrigo, de sem-direitos em todos os recantos da Terra, todos sistematicamente orientados para um sistema filosófico de expoente inverso, ou seja, valorizando e dignificando o trabalho e garantindo os direitos estruturantes fundamentais, em última análise, o direito inerente à dignidade humana, dando aqui relevo à sanidade mental, a mais dramática de todas as sanidades.»
Fernando Vieira de Sá, «Prefácio de Coisa Nenhuma», Viagem Ao Correr da Pena, cit., pp. 17-18, 20.

domingo, 28 de setembro de 2008

ECOS DA MEMÓRIA (IV)

«OLHANDO ARQUIVOS, FAZENDO HISTÓRIA. NOVO CONCEITO: "LEITARIA TROPICAL". O PROBLEMA
Contra os interesses económicos dos países de climas temperados e em favor do desenvolvimento dos países quente (antigas colónias, protectorados e/ou submetidos ao capital das economias avançadas) vi-me pela primeira vez imprevisivelmente confrontado num Simpósio Internacional em Amalfi, Itália, ao debater questões de produção e utilização de leite em países quentes, dando-me a oportunidade de impor novas visões e conceitos técnicos, científicos e económicos, diferenciando em termos de identidades específicas e comportamentos de acção concernentes à produção e utilização do leite em diferentes condições climáticas e desenvolvimento global. A história vem de longe e, para se perceber em todo o seu sentido temporal, aconselha-se e recomenda-se a leitura, no meu livro Viagem ao Correr da Pena, do capítulo "A viagem dos incómodos e das surpresas" (pp. 71 ss.), cujos incómodos foram muitos, mas as surpresas muito maiores e imprevisíveis... só lendo se entende o que está em causa.
Apesar de todo o rechaço sofrido resolvi ir em frente, aproveitando a primeira oportunidade, ao ter sido convidado pela organização do XIV Congresso Internacional de Leitaria (1956) para proferir uma das três conferências plenárias programadas e cujo título define o objectivo de minha escolha que discuti em Amalfi: "The problem of a sufficient supply of milk in hot countries, particulary in relation to milk producing animals - the cow, buffalo, sheep and goat" (idioma do regulamento do congresso) que mereceu uma referência no jornal Il Tempo, de Roma, de 27-IX-1956, que aqui se reproduz em parte:

"[...] L'intervento più importante di ieri al 14. Congresso internazionale del latte e stato quello del prof. Vieira de Sá, il quale ha riferito sul rifornimento di una quantità sufficiente di latte ai paesi a clima caldo, in rapporto all'animale produttore: mucca, bufala, pecora e capra.
In particolare è stata esaminata, con abbondanza di riferimenti tecnici, l'interferenza del clima sia all'equatore che nelle zone tropicali e dei monsoni. Si tratta di problemi complessi che investone l'igiene, il trasporto, la lavorazione particolare del latte sia per l'alimentazione diretta che per la trasformazione industriale. D'altra parte l'incremento della produzione è il dato fondamentale, giacchè se il volume di latte commerciabile non è sufficiente, límpresa è anti-economica."

Em 1962 fui convidado para «Opener of Discussion» da Secção X - Tema 1 do XVI Congresso Internacional de Leitaria (Copenhaga), "The keeping of cattle in 'milk colonies' as opposed to traditional village units; problems in connection with the keeping of cows and buffaloes in urban districts" [tratava-se de Carachi, Bombaim e outras cidades, onde corriam explorações-piloto muito badaladas por Korodi (técnico indiano que eu conhecia e encantava Pederson, Chefe de Serviços da FAO)], tendo apresentado, adicionalmente, uma intervenção de fundo com o título: "The Establishment of the Milk Colonies Must be Considered From Many Viewpoints, Specially Those Concerning Farming Economy».

A designação «Leitaria Tropical» consagra-se na literatura sobre o tema. O meu livro Lechería Tropical confirma o avanço e espalha-se por toda a América Central e Sul. Em Portugal não se viu interesse.

O industrial milanês teve de se ajustar aos tempos que exigem progresso e ideias; e actos adaptados às exigências da ciência e da civilização; e sobretudo longe da mentalidade que se presenciou no logro "amalfiano".»
FVS
Setembro de 2008

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

TESTEMUNHO (III) - PRODUTOS TRADICIONAIS, CONGRESSO COM HISTÓRIA, UM EXEMPLO E UMA AMIZADE QUE PERDURAM

Em resposta a um mail que enviámos para saber qual o Congresso que a levou a Cuba em 1990 - tema abordado no texto anterior - recebemos este testemunho de Conceição Martins, amiga de Vieira de Sá. Conceição Martins é Professora Catedrática da UTAD - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Aqui ficam as suas palavras e o nosso agradecimento, em nome do blogue e do Dr. F. Vieira de Sá:

«(...) O Congresso a que fui era «36th Internacional Congress of Meat Science and Technology» realizado em Havana de 27 de Agosto a 1 de Setembro de 1990. Apresentei um poster «Chemical characteristics of ALHEIRA - a Traditional Portuguese Saussage». O tema dos produtos tradicionais de salsicharia sempre me foi caro por razões familiares (o meu pai iniciou uma unidade artesanal de salsicharia em 1946 que foi evoluindo e tem actualmente 45 colaboradores e na qual eu também sou sócia). O meu estágio de licenciatura realizou-se no INETI, em presunto, onde conheci o Dr. Vieira de Sá e ocorreu o incidente de me tratar por tu (naquela altura era tudo mais formal). O tratamento, a admiração e a amizade perduram. Assimilei o espírito incutido pelo Dr. Vieira de Sá no Departamento onde era estagiária e continuei a cultivá-lo pela vida fora: a importância do trabalho em equipa, a interdisciplinaridade, o interessante e enriquecedor que é trabalhar com outras formações, o importante de se ser rigoroso, produtivo e com espírito de missão, de como líder defender a discussão sem subserviência, o entusiasmo de se fazer coisas. Estando eu agora a ler o seu último livro dou-me conta o quanto foi importante na minha carreira académica e na minha postura perante o trabalho, toda essa postura que bem absorvi. Foi para mim um privilégio ter em 1970/71 trabalhado no Departamento, mais especificamente na área de microbiologia com a Dra. Ilda Cruz . Mantive sempre contacto com o DTIA ao longo do tempo e mesmo relações de parceria em assuntos profissionais. Quando ia a Lisboa a visita ao DTIA fazia parte do programa da deslocação para discussão de assuntos de carácter profissional (desempenhava o lugar de técnica de uma PME do sector das carnes ) mais tarde integrando a universidade o DTIA foi fonte de conhecimento, manancial de bibliografia, fonte de conhecimento analítico e técnico, e parceria no projecto de caracterização da salsicharia tradicional. Continuei no tema na investigação e ainda hoje o nosso grupo de investigação na UTAD tem a sua âncora nos produtos tradicionais. Nestas visitas ao DTIA a confraternização na hora de almoço era também um ponto importante no cimentar de relações de amizade que o tempo e a distância não desmoronaram. (...) Quando disse ao Ramón Castro que tínhamos um amigo em comum, FVS, virei estrela, dispensou a tradutora e fiquei eu de intérprete, acompanhando-o todo o tempo que esteve no congresso. No dia anterior tinha estado a falar com o Fidel Castro. Foi um congresso com história.
Conceição Martins»

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

ECOS DA MEMÓRIA (III)

Doutora Conceição Martins e Ramón Castro Ruz (Habana, 31 de Agosto de 1990).

Sabendo da sua ida a Cuba participar activamente num Congresso, pedi-lhe imediatamente para ser portadora de uma mensagem de amizade para Ramón que me acompanhou sempre nas minhas digressões em toda a ilha, ao que ela logo se prontificou gostosamente. Daí a mensagem de Ramón que aqui se reproduz:
«Al querido profesor Vieira de Sá,
de Su hermano Ramón Castro Ruz / Habana 31-8-90 Querido profesor, lo saludo, con la portadora, Estimada Maria. Siempre lo recordamos y lo esperamos.
Lo quiere Ramón Castro Ruz».


À Conceição, ao oferecer-lhe o meu último livro, Autópsia a Um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do DTIA, dediquei-o, escrevendo: «Por todas as razões terias direito a receber uma cópia desta peça shakespeareana, pois de drama se trata (uma autópsia é sempre drama). Mas acresce o facto de nesse elenco teres participado por algum tempo no papel de estagiária com um desempenho de muito bom quilate.

E até me recordo daquele aparte dela, em tom ofendido, advertindo-me que não me autorizava a tratá-la por tu, por não haver razões para tal. Respondi-lhe que continuaria a tratá-la por tu, mas, em contrapartida, pedia-lhe que me tratasse de igual para igual, pois eu exercito mais a fraternidade do que outras práticas amorfas e de catálogo que a sociedade usa sem nada dentro. E assim ficou a lição muito fácil. E a nossa fraternidade manteve-se e já conta muitos anos. Se assim não fosse teria o nosso relacionamento sido igual? Duraria para toda a vida? Fica a dúvida.» FVS

sábado, 20 de setembro de 2008

ECOS DA MEMÓRIA (II)

Graça Mexia, Manuel João da Palma Carlos, Annie, F. Vieira de Sá e Armanda Fonseca na embaixada de Portugal em Habana (arquivo FVS).

No dia seguinte à minha chegada a Habana, fui cumprimentar o Comandante Fidel Castro e agradecer-lhe o convite para visitar Cuba. Conversámos um bocado, dizendo-me ele que me agradecia toda a crítica que eu entendesse fazer. E que iria saber de mim diariamente através da sua secretária Annie, uma portuguesa em quem ele depositava toda a confiança. E assim todas as manhãs Annie me telefonava, conversando um pouco. Por vezes encontrava-a na embaixada de Portugal. Um desses dias alguém tirou esta foto. Da esquerda para a direita: Graça Mexia (médica), Palma Carlos (embaixador), meu contemporâneo do Liceu Passos Manuel [por isso eu ia à embaixada com alguma frequência para conversar de tempos idos e beber uma cerveja], Annie, eu e Armanda Fonseca (Presidente da Direcção da Associação de Amizade Portugal-Cuba). FVS

ECOS DA MEMÓRIA (I)

COM ESTE TEXTO INAUGURAMOS UMA NOVA RUBRICA, «ECOS DA MEMÓRIA», ONDE FERNANDO VIEIRA DE SÁ NOS TRARÁ ALGUNS APONTAMENTOS E RECORDAÇÕES SUGERIDOS POR FOTOS, RECORTES E OUTROS DOCUMENTOS DO SEU ARQUIVO
Com Ramón Castro, em 1975, de visita a um Centro de Inseminação Artificial em
Valles de Picadura (arquivo FVS)
Esta foto é do próprio dia em que cheguei a Cuba. Tendo embarcado em Lisboa à noite, cheguei a Habana às 6 da manhã. Aí, Ramón Castro informou do programa do dia: - tomar o jipe, agarrar nas malas e deixá-las à porta do hotel; - partir de imediato para visitas de trabalho de modo a vir almoçar à «Bodeguita del Medio», lugar histórico por aí se ter conspirado contra Baptista e por ter sido pouso de escritores como Hemingway e Neruda, entre outros. Aí nos aguardariam alguns convidados de Ramón e um grupo folclórico para animar o repasto. Aí chegados quase ao fim da tarde, o grupo já tinha saído convencido de que já não iríamos. Assim é a etiqueta cubana... llega cuando llega. Só se ouviram algumas canções cantadas pelos resistentes à demora.
Tendo permanecido em Cuba uma semana, mal vi Habana, andando sempre por montes e vales, sem deixar de visitar Valles de Picadura, onde se desenvolvia o projecto de desenvolvimento leiteiro, sob os preceitos recomendados no meu livro Lechería Tropical (edição revolucionária de 1967, mas que eu conheci em 1975). Antes este vale era um campo estéril e pedregoso. Em 1975 era um prado fértil onde pastavam centenas de vacas leiteiras de alta produção.
Foram dias de trabalho, mas também de muita fraternidade. Saí de Cuba quase cubano e nunca mais deixei de seguir a sua trajectória política e, sobretudo, o desenvolvimento pecuário. Voltei lá mais duas vezes, sobretudo para observar o progresso leiteiro. FVS

domingo, 14 de setembro de 2008

DISTRIBUIÇÃO REVOLUCIONÁRIA, EM CUBA, DE LECHERÍA TROPICAL

A MENSAGEM
(exemplar de F. Vieira de Sá)
Cf. Viagem ao Correr da Pena, p. 399: «A edição revolucionária foi a maneira que o Governo revolucionário de Cuba encontrou para ter acesso à obra, devido ao bloqueio norte-americano à ilha e que ainda se mantém ao fim de quarenta anos. Não só a edição foi produzida, como oferecida aos ganadeiros com a seguinte mensagem:
"Compañero:
Este libro tiene un gran valor, por eso se te entrega gratuitamente. Vale por el trabajo acumulado que significan los conocimientos que encierra; por las horas de esfuerzo investidas en confecionarlo; porque sintetiza un paso de avance en la lucha del hombre por ser tal. Su mayor valor estará dado, sin embargo, por el uso que tú hagas de él. Porque estamos seguros de eso uso, y por su gran valor, se te entrega gratuitamente.
EDICION REVOLUCIONARIA"»

EDIÇÃO REVOLUCIONÁRIA, EM CUBA, DO LIVRO LECHERÍA TROPICAL


Edição revolucionária de Lechería Tropical, La Habana, 1967.
Exemplar de F. Vieira de Sá, com alguns autógrafos/dedicatórias, oferecido em 11 de Setembro de 1975, por Ramón Castro, irmão de Fidel, com a seguinte dedicatória: «A mi querido hermano Fernando - defensor de la segunda madre de la humanidad - en su recorrido por Cuba. Valles de Picadura, Ramón Castro 11/9 - 75.

LECHERÍA TROPICAL - EDIÇÃO REVOLUCIONÁRIA, «FUZILAMENTO» E RESSUREIÇÃO DE F. VIEIRA DE SÁ

Diz Fernando Vieira de Sá na p. 392 de Viagem ao Correr da Pena, no capítulo já citado no texto anterior:

«Eu só vim a tomar conhecimento do meu "fuzilamento", como autor, após o 25 de Abril, ou seja oito anos mais tarde [a edição revolucionário é de 1967]. Através do primeiro contacto de Portugal com Cuba o jornalista Alpedrinha, e algumas semanas depois o Dr. Cruz Oliveira, na altura secretário de Estado da Saúde, no seu regresso a Lisboa, me procuram transmitindo-me um convite do Governo na pessoa do Ramon Castro, irmão de Fidel Castro, para visitar Cuba em agradecimento da contribuição que constituiu o meu livro para a orientação do projecto leiteiro, já então implantado. Aceitei o convite, que muito me honrou, tendo-me dado mais satisfação o dito "fuzilamento" que qualquer dinheiro que pudesse auferir pela venda dos direitos de autor de uma edição comercial. O "fuzilado", em nome de uma causa legítima, agora ressuscitado em nome de um reconhecimento. Para, no âmbito da divulgação do conhecimento científico e técnico, a maior de todas as recompensas é ter a confirmação da utilidade da sua obra, com a certeza de que para isso não contribuiu nada mais do que o seu conteúdo, o seu trabalho, e não a cunha ou lamber os pés a qualquer personalidade influente ou ainda entrar para o partido no poleiro, que no meu caso teria de ser a União Nacional ou a Legião Portuguesa para ter as portas abertas para as bibliotecas do Estado adquirirem as suas obras. Valeu a pena não vender a alma ao diabo... vale sempre a pena.»

LECHERIA TROPICAL - «COSTURANDO» A EDIÇÃO

Jiquilpan - Michoacan, México, 1960/61. Maria Elvira e Fernando Vieira de Sá . Fotos coladas no exemplar do autor com a seguinte nota manuscrita:
«escrevendo o livro Lechería Tropical cujo original em português foi rasgado (por revolta) por as editoras portuguesas não o terem querido publicar... por falta de interesse do assunto, segundo justificavam. Isto num país tropicalista.»

Mas para conhecer toda a história à volta deste livro sugere-se a leitura do capítulo «Acasos - A História de Um Livro», in Fernando Vieira de Sá, Viagem ao Correr da Pena, pp. 389-403, que começa precisamente com outra nota do Autor que reza assim: «ACASOS - A HISTÓRIA DE UM LIVRO / Cujo manuscrito em língua pátria foi, pelo autor, rasgado, por o ter considerado dispensável, tal como o afirmou o director da Escola Superior de Medicina Veterinária quando o representante da editora em Portugal o foi apresentar para aquisição pela Biblioteca do estabelecimento. O Ministério do Ultramar procedeu de igual forma.»

LECHERÍA TROPICAL - A EDIÇÃO DA UTHEA, CIDADE DO MÉXICO

A edição da UTEHA - Unión Tipográfica Editorial Hispano-Americana, México, 1965 (exemplar do Autor).

LECHERÍA TROPICAL - MAIS DOIS RECORTES

«LECHERIA TROPICAL. Dr. F. Vieira de Sá. Traducida al español por el Profesor Dr. Carlos Luis de Cuenca. Libro encuardernado de 350 páginas, editado por Unión tipográfica editorial Hispano Americana de Méjico y distribuida en España por la casa Montaner y Simón de Barcelona, 1965.
Una obra escrita en portugués por el especialista que es el Dr. Vieira de Sá y vertida al castellano por una figura tan preeminente dentro de la veterinaria española como la del Prof. Dr. Carlos Luis de Cuenca, no precisaría más comentario, por que de por sí sola se halaba pero no podemos menos de dedicarle unas líneas, muchas menos de las que merece, después de una primera lectura.
La parte primera estudia el medio ambiente y la productividad, considerando el clima y bioma, luego la acción directa del clima sobre el animal e inmediatamente la acción indirecta del mismo, terminando esta parte con las características de los animales en estas regiones y las consecuencias finales debida al clima. En la segunda parte considera las especies y razas que producen la leche en estos países de clima cálido: bovina - bufalina - cabra y la forma de mejorar el ganado lechero en los trópicos. En la tercera parte surge con toda fuerza el saber de quien ha trabajado en esos climas para la FAO, presenta los sistemas de explotación, los principios básicos de alimentación y la defensa sanitária del ganado y en la cuarta parte de un estudio extraordinario logrado sobre la tecnología lechera tropical, la economía lechera y la organización en aquellas zonas.
En este libro dedicado como su título lo indica a lechería tropical, no sólo aprenderá mucho el que haya de trabajar en aquellos climas sino que también todo el que a temas lactológicos se dedica.»
Anales de lactología y química agrícola
, Zaragoza, 12, 1966, p.16.
«Lechería Tropical - por Fernando Vieira de Sá - Edição da Union Tipografica Editorial Hispano Americana, México, 1965.
Esta obra, que se integra na "Biblioteca Tecnica de Agricultura y Ganaderia" publicada pela prestigiosa Editorial Hispano-Americana, cobre de maneira detalhada e completa o campo dos conhecimentos relativos à produção de leite nos países tropicais, o que a torna, por isso, de consulta muito útil aos técnicos que labutam nessas regiões, mormente aos médicos-veterinários que operam nas nossas províncias ultramarinas, embora os estudantes das nossas faculdades de Medicina Veterinária encontrem também neste magnífico trabalho um amplo e valioso repositório de informações sobre a economia leiteira em tão vasta zona do Globo.
O livro reflete, como é óbvio, a grande erudição e a larga cultura unânimemente reconhecidas ao Autor, que é, sem dúvida, na actualidade, um dos nomes mais brilhantes da Classe. O volume, que compreende um total de 348 + XIV páginas, é, como se disse, uma edição da UTEHA, da cidade do México, primorosamente impresso e valorizado com uma excelente introdução do prof. Carlos Luis de Cuenca, da Faculdade de Veterinária de Madrid, o qual se encarregou igualmente da tradução desta primeira edição em língua castelhana. Completam a obra, além de uma extensa recensão bibliográfica, numerosas gravuras e adequados índices, que valorizam sobremaneira tão relevante volume.
Fernando Marques»
Revista de Ciências Veterinárias, Vol. LXIII, fasc. 405 de 1968, p. 45.

LECHERÍA TROPICAL - ALGUNS RECORTES DA IMPRENSA DA ESPECIALIDADE


AO SERVIÇO DE UMA IDEIA UNIVERSAL DE FRATERNIDADE

«VIEIRA DE SA, Fernando: Lechería tropical. Un volumen de 348 págs., 16 x 23 cm., 97 grabados y un mapa. Unión Tipográfica Editorial Hispano Americana. México, 1965. Traducción: Carlos Luís de Cuenca.

Como resultado de una misión desempeñada por el autor bajo la confianza de altos organismos internacionales, y de una vocación plena a la zootecnia lechera, nació este libro en el que el autor condensa un cúmulo de problemas de índole biológica, económica, de costumbres y de tradiciones relacionadas con la producción lechera. Obra didáctica, a más de informativa, constituida según el esquema de una temática esbozadora que responde al deseo del autor de no abrumar con datos excesivos a quienes deben buscar soluciones a problemas, sin que falten los rigurosamente necesarios a los especialistas. Dedicado a los estudios de producción lechera tropical y de exploración biológica de las zonas tropicales al servicio de la producción lechera bovina, el autor ha recorrido en veinte años, prácticamente, todo el mundo no solamente para documentarse, sino para aportar soluciones y buscar los remedios mediatos o inmediatos de problemas difíciles. Las zonas áridas y secas, las estepes abrasadas, las desiertas, las vegetaciones xerofíticas, las poblaciones animales y humanas depauperadas, fue lo que este hombre exploró al servicio de una idea universal de fraternidade. Al regressar a su país después de realizar importantes misiones internacionales, le ha ofrecido el espléndido libro que hoy se presenta a los lectores de habla española, en el que se recogen los años transcurridos en pleno trabajo, frente a las fuerzas de la naturaleza y a los problemas de los hombres. Hemos de darle gracias por su esfuerzo.

INDICE: Introducción.-El medio ambiente y la productividad lechera.-El animal productor de leche.-Mejora del ganado lechero en los trópicos.-Explotación del ganado lechero en los trópicos.-Tecnología, economía y organización de la empresa lechera.»

[Revista espanhola de Zootecnia, núm. 2 (68), s/d, pp. 100-101.]

sábado, 13 de setembro de 2008

LECHERÍA TROPICAL - RECOLHA DE VALIOSAS EXPERIÊNCIAS

«VIEIRA DE SA (F.).-Lechería tropical.-Un volumen de 249 páginas, con 97 ilustraciones.-MEJICO,1965.
El veterinario don Fernando Vieira de Sá, figura bien conocida en los medios internacionales lecheros, como consecuencia de su larga estancia de trabajo en la Organización de las Naciones Unidas para la Agricultura y la Alimentación, há publicado un interesante libro, en el que se recogen las valiosas experiencias adquiridas personalmente a través de numerosos años de actividad en países cálidos.»
[Revista espanhola de leitaria, nº.58, Dezembro de 1965]

UMA VIDA EXEMPLARMENTE VIVIDA

Aqui se deixa, com a promessa de mais pormenores sobre a edição do livro Lechería Tropical, de Fernando Vieira de Sá, um recorte saído no Diário de Lisboa no dia 12 de Novembro de 1965:
«Do México, em edição da "Unión Tipográfica Editorial Hispano-Americana", chega-nos a versão em espanhol de um notável estudo do médico veterinário e distintíssimo técnico de lacticínios dr. Fernando Vieira de Sá, traduzido e prefaciado pelo professor da Universidade de Madrid dr. Carlos Luís de Cuenca. Reflectindo a projecção internacional dos trabalhos de um técnico português que conquistou por mérito próprio um prestígio invulgar no estrangeiro, "Lechería Tropical" constitui brilhante contribuição para o desenvolvimento da produção alimentar no sector a que se consagra. [...]

Esta obra, como escreve no prefácio o prof. Cuenca, é o fruto de uma dedicação total ao serviço de uma vocação plena, de uma experiência vivida e de uma documentação em primeira mão, postas à disposição de quem pode e deve aproveitá-las. Com a sua autoridade incontestável, o mestre espanhol salienta o valor humano de personalidades como a do dr. Vieira de Sá, que "prestam ignorada e anonimamente os maiores serviços à Humanidade". Depois de trabalhar longamente em Portugal, não só em serviços oficiais como na direcção técnica de empresas de lacticínios, o dr. Vieira de Sá percorreu grande parte da África em missões de assistência técnica, foi consultor técnico da F.A.O. para problemas da especialidade nos países tropicais e permaneceu no México durante cinco anos como orientador de importantes realizações pecuárias e industriais nesse país. No livro técnico que a editora mexicana publicou em língua espanhola reflecte-se uma vida exemplarmente vivida, além de uma cultura e de uma vocação técnica consagradas.

A edição é apresentada em excelente nível gráfico, com fotogravuras e um mapa em policromia, correspondendo ao nível internacional deste trabalho que honra os autênticos valores científicos e técnicos do nosso País».

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O TEMPO DAS CEREJAS

Nova referência a este blogue, agora no http://tempodascerejas.blogspot.com/, de Vítor Dias, a quem agradecemos estas palavras:

«É com grande respeito e admiração que chamo a atenção para o blogue em boa hora criado sobre a vida e as obras do dr. Fernando Vieira de Sá, chegado este ano aos 94 anos e tendo atrás de si todo um percurso científico, cívico e político digno da maior consideração. Clicando sobre a imagem de cima, pode aceder ao blogue e encomendar as obras de F. Vieira de Sá, um camarada que daqui saúdo com imensa estima.»

E não se esqueça: sempre que possa, visite «o tempo das cerejas»!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

PARABÉNS, FERNANDO!

«Parabéns a uma pessoa especial
O meu querido amigo Fernando Vieira de Sá faz hoje 94 anos !
PARABÉNS, FERNANDO!
que continues a ser a pessoa que és, com o empenhamento cívico de sempre e igual nobreza de espírito, o camarada e o amigo disponível e atento. Por muitos e bons anos! Conheçam-no aqui!
(Lisboa, 20 de Julho de 1914)»
Assim assinalava Júlia Coutinho em http://ascausasdajulia.blogspot.com/, fez ontem um mês, a passagem do 94º aniversário de Fernando Vieira de Sá, remetendo os leitores para este blogue. Em nome do blogue e do aniversariante o nosso OBRIGADO.

sábado, 26 de julho de 2008

A DISTÂNCIA DO TEMPO

«Começo a sentir a distância do tempo.
É como se, por artes mágicas, quando tudo parecia ter acontecido ontem, fosse de súbito surpreendido no olhar para trás e, ao enxergar longínquas imagens de memórias de intemporal passado, sentisse como que um eco repercutido na abóboda de uma catedral gótica cheia de silêncio a que os vitrais dão solene transparência, fazendo-nos perscrutar passos de peregrino, misto de um vivido imaginário que, sem saber os porquês, nos captaram os sentidos transmudando o real em sonho de uma viagem sem retorno. Após tudo, o andar deambulando por esse mundo fora, surge agora abruptamente nada mais do que a sensação de esse tudo não ter sido senão um conto igual aos muitos que o velho hortelão, nas seroadas à volta da lareira alentejana, onde o tronco de azinho se consumia em brasido e borralho, contava aos meninos, para que fossem dormir, não tanto a pensar na história mas, enquanto o sono não chega, reviver o aconchego do recanto da chaminé e a entoação da voz daquele homem rude, velho, de fartas suiças avolumando-lhe as faces, que, com as suas mãos duras das calejas da enxada, chegava a si o mais miúdo de todos nós - ou o mais metediço - e o aninhava no seu colo, privilégio sempre disputado por todos. Estar sentado no colo do mestre hortelão Alcibíadas Augusto, poeta ainda por cima - e repentista - era todo um intróito para um sono sem sobressaltos.
Estou vendo-o na horta de São Bento, frente à Cartuxa em pano de fundo (que diz-se estarem ambos ligados por um túnel para os frades e as freiras se encontrarem, pois São Bento era convento de freiras e Cartuxa de frades e os dois muito devotos) com a sua sachola cuidando de encaminhar a água pelo regueiro até aos canteiros dispostos em linha, onde crescem as hortaliças, o feijão carrapato trepando pelos caniços, as beldroegas, ou os morangos quando era tempo deles, por horas a fio até o sol se sumir por detrás das últimas cumeadas que limitavam o poente para lá do alto dos moinhos. Era tempo de chegar a casa, ali a dois passos, e preparar para a ceia que não era farta. Já então a sopa fumegava e os aromas das ervas faziam a boca quando entravam pelas narinas e abriam o apetite puxando a um naco de um queijinho seco e salgado cortado com a navalha a preceito, pedindo um trago de vinho por cada pedaço cortado, uso que só o alentejano sabe gerir.
Apesar de lisboeta, a minha infância e juventude ficaram sempre ligadas ao Alentejo, desde Estremoz, Évora, Vidigueira e por aí fora onde aprendi a viver o campo...»
F. Vieira de Sá, «Prefácio de Coisa Nenhuma», Viagem ao Correr da Pena, cit., pp. 15-16

domingo, 6 de julho de 2008

«BIBLIOTECA COSMOS»

Foto: Manuel Guerra [exemplares do autor]

Reler «Os Livros do Compromisso», in Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», cit., pp. 121 ss. Estes dois livros vieram a lume nos meses de Maio e Junho de 1945.

Em 2005, da edição de Ecos do México - Da História e da Memória, fizeram-se sessenta exemplares numerados de I a LX e sessenta numerados de 1 a 60, assinados pelo autor, comemorativos dos 60 anos da edição destes dois livros da «Biblioteca Cosmos», dirigida por Bento de Jesus Caraça, havendo ainda exemplares disponíveis para quem os desejar adquirir.