sábado, 27 de fevereiro de 2010

FOME - NÓ GÓRDIO DO PROGRESSO DA CIVILIZAÇÃO

«[...] a fome é a expressão última para a salvação do sistema capitalista agravado pelo subdesenvolvimento do Mundo sujeito à exploração de matérias-primas industriais e energéticas do capitalismo para o monopólio.»
F. Vieira de Sá,
O Reino da Estupidez nos Caminhos da Fome - Memória de tempos difíceis,
Edições Cosmos, 1996, p. 249,

Toda a Humanidade sabe da existência da fome, e parte substancial dela sofre-a na pele, constituindo a nódoa mais negra e vergonhosa da moralidade humana em qualquer civilização, independente das luzes da ribalta da espectaculosa aventura do progresso científico em todos os domínios.

Sendo assim, e tratando-se do maior de todos e gravosos problemas da Humanidade, não deixam de se interrogar as consciências pelo facto de nunca a Fome se apresentar como tal, mas sim como um fenómeno decorrente da própria vivência em cada quadro social inerente aos factores da emergência da vida, tal como toda a existência. Tudo isto em paliativo da má consciência colectiva.
Vendo as coisas como se querem ver pelo prisma do fatalismo e apelativo de qualquer ópio religioso consumido, explica talvez a razão de nunca o problema - o facto físico - ter sido objecto de incentivo de um Prémio Nobel em honor da luta contra a fome já que as há em notória variedade e para todos os gostos.
O Nó Górdio, levantando o véu da hipocrisia e desnudar as raízes do fenómeno, E para bem se saber do que se trata, parece recomendável explicar a fábula que vem pôr ao léu o pomo do problema, transcrevendo da Enciclopédia Internacional (20 volumes, USA, 1963 - tradução informal para mais abrangente acessibilidade) a entrada «Gordius»:
«Legendário rei da Frígia, após o qual a capital passou a chamar-se Górdio. Um oráculo tinha previsto que viria uma carruagem conduzindo Frígia, um Rei que iria terminar com distúrbios internos. Quando o aldeão Górdio apareceu nessa carruagem o povo chamou-lhe rei. Górdio, por gratidão, dedicou a carruagem a Zeus, atrelando a sua carruagem com um complicado nó. Um oráculo declarou que, quem desfizesse o nó, deveria tornar-se Senhor da Ásia. Séculos mais tarde Alexandre o Grande desfez o nó com um golpe da sua espada e prosseguiu na conquista da Ásia. "Desfazer o Nó Górdio" é equivalente a resolver o problema por simples iniciativa.»
Voltando à fome e deixando-nos de oráculos, transferindo apenas o pensamento que a vida constrói, dir-se-ia que toda a questão se baseia no aparecimento dum Górdio-de-espada-à-cinta para desfazer o nó da infâmia ou do ripanço, trazendo para a ribalta a discussão das raízes da fome, tal como a dita se chama, se exprime e se manifesta na vida, sem subterfúgios.
Enquanto, porém, não aparecer um Górdio-de-espada-à-cinta para desfazer o nó da política monetária ou outra equivalente, seria interessante abrir aqui uma tribuna para reunir opiniões, deixando os amuletos na gaveta, abrindo as consciências e olhar para o mundo no respeito do seu próprio dever cultural de cidadão pensante, discutindo o nas suas próprias raízes e não no travesti, mascarando a ignomínia, o que até agora tem sido tabu, usando subterfúgios que levam a congeminações teorizantes das quais se definem várias razões que levam ao fenómeno, não citando contudo uma que é a única autêntica, omnipresente e omnipotente: a incorrecta distribuição da riqueza, esta resultante, não de uma política democrática, mas liberal. A experiência o afirma. A democracia que tolera que, à sombra da palavra e da ideia, se achincalhe o ideal em favor do Poder Financeiro, que na sua própria génese pode ser tudo menos democracia.
Quem queira discutir, escreva.
Fernando Vieira de Sá

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

PIRATARIA À SOLTA

Foto 1. Casal Gonçalves, sem Gageiro, no enquadramento que utilizámos no texto «Em memória de Vasco Gonçalves».

Fot0 2. A mesma fotografia, aqui com Eduardo Gageiro.

Foto 3. Sesimbra, 1999. Uma tarde entre amigos.
Eduardo Gageiro fotografa o casal Gonçalves. Ao centro, a embaixadora de Cuba, Mercedes Aguiar. À esquerda, de perfil, Monteiro Baptista.
Para não correr o risco de ser eu o pirata, quando reproduzi neste blogue a foto 1, ilustrando o texto «Em memória de Vasco Gonçalves», agora reproduzida num blogue e num jornal sem referência à fonte*, faltando assim ao preceito elementar de boa educação, sem consciência do abuso de confiança, dando a impressão de estarmos vivendo em plena selva, onde só os instintos regulam os actos. Isto, pelo menos, em sede da imprensa hodierna. Nesta matéria os avanços são visíveis, os exemplos são aos magotes. Cópia de segunda geração é um facto no presente caso. De qualquer modo, em qualquer circunstância é um dever sempre obrigatório que, quando não ocorre, trata-se de ausência de civilidade e falta de brio. É um «todo o terreno».
As três fotos ilustram bem a autenticidade dos sentimentos, a que só os próprios dão afecto e saudade.
Fernando Vieira de Sá
Lisboa, 22 de Fevereiro de 2010


* Note-se que, como resposta ao nosso protesto, obtivemos do jornal em questão a indicação de que a foto teria sido retirada de um blogue, que identificou. Apenas! Apenas e após um insistente segundo protesto. Contactado o blogue, obtivemos, não só uma resposta imediata, como o correspondente pedido de desculpa e a promessa, cumprida de imediato, de inserir no blogue uma referência à fonte. Duas atitudes bem distintas que aqui deixamos registadas e que distinguimos, convidando-vos a visitar o blogue e saudando daqui, cordialmente, António Abreu.
[Fotos de F. Vieira de Sá]

domingo, 21 de fevereiro de 2010

RELÍQUIA

Aos amadores de automóveis e de corridas em Portugal, ofereço este documento que conta 51 anos, sendo já uma relíquia, que encontrei há dias entre outros papéis deixados por meu pai. Legenda: «O "Fiat" do Infante D. Afonso, vencedor da primeira grande corrida de automóveis em Portugal, em 1902, entre a Figueira da Foz e Lisboa» (recorte do Diário de Notícias de 21-II-1959).
Fernando Vieira de Sá

sábado, 20 de fevereiro de 2010

GAGO COUTINHO

Legenda: «O hidroavião Lusitânia pousado nas águas do Tejo, em frente da Torre de Belém, no dia em que Gago Coutinho e Sacadura Cabral iniciaram a gloriosa viagem da travessia do Atlântico Sul», in Diário de Notícias de 20 de Fevereiro de 1959, dois dias depois do seu falecimento, conforme nota manuscrita [«Gago Coutinho falecido em 18 de Fevereiro de 1959»], faz hoje precisamente 51 anos. Mais um documento colhido entre os papéis de F. Vieira de Sá, guardado e anotado por seu pai, que aqui deixamos como forma de assinalar a data.
Gago Coutinho nasceu no dia 17 de Fevereiro de 1869 e faleceu no dia 18 de Fevereiro de 1959, um dia depois de completar 90 anos.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

RECORDAR PARA NÃO ESQUECER

http://www.lubitsch.com/

Ao ler, no Diário de Notícias de 3 de Fevereiro de 2010, a coluna de João Lopes com o título «Memórias do tempo de Casablanca», um dos dez melhores filmes seleccionados para os Óscares, logo me recordei de outra célebre obra-prima cinematográfica da mesma época, O Céu Pode Esperar, [Heaven Can Wait, de Ernst Lubitsch], e que curiosamente o colunista também não resistiu a citar, entre outros. Talvez, porém, João Lopes não se recorde quanto o filme O Céu Pode Esperar sofreu nos écrans portugueses por força de uma intervenção cirúrgica que sofreu e que fazia toda a diferença para o espectador, por não se perceber a razão do título, já que o filme termina exactamente quando o figurante em causa toma o elevador, que o levaria ao Céu por decisão do Diabo. Porquê então O Céu Pode Esperar?
Nesse tempo eu estava fora de Portugal e não fugi à brotoeja cinéfila que contagiava muitas plateias. E não me arrependi, achando o título do filme de alta inspiração crítica, subtil e condescendente, apenas apontando a uma reflexão sem urgência («pode esperar»).
Com tão díspares opiniões sobre a relação título-imagem, contrariamente à coerência de ambas as críticas, só se entende recordando um detalhe, um só, pelo qual se resolve a charada.
A história começa quando o protagonista, homem bem-parecido, é recebido pelo Diabo, Senhor omnipresente do Inferno, pedindo-lhe guarida, num rasgo de auto-flagelação à luz da probidade social, ao que o anfitrião lhe responde dizendo-lhe que a coisa não era assim tão fácil como o pretendente pensava, pois exigia saber quais as razões que levaram à sua solicitação, e só então resolveria, o Diabo, se sim ou não o admitiria. «Aqui não há compadrios!» - diz o Diabo. Assim começa a história que é o corpo do filme.
Tal história, que aqui e agora se vai contar muito resumidamente, mas suficiente para se compreender o justeza da petição-grito de consciência, arrependimento de alma, agora vagabunda à procura de acolhimento que só vê lugar na fornalha do Inferno. E conta o seu rosário de culpas: ele era casado com uma mulher admirável com quem mantinha uma relação idílica de altos sentimentos, prendando-a com jóias e lembranças, todas transmitindo o calor de um lar perfeito, às quais a adorável esposa se vergava. Contudo - continuando o depoimento - fora de casa todos os obséquios de alma, com a maior frequência eram consentidos face a outras divas ao virar da esquina, a cujos corações fazia chegar a sua inegável amorosidade, sempre exemplarmente reconhecida, fazendo assim distribuir amor e mais amor em vendavais de felicidade. Por isso mesmo ele estava ali, agora presente ao reino do Inferno, pois sentia na sua consciência um remorso, face ao compromisso conjugal, que só no Inferno se redimia.
Nesta altura o Diabo, que tinha ouvido todo o depoimento desabonatório numa óptica do espartilho convencional, adverte: «Lamento, mas não posso recebê-lo, pois, contrariamente à sua convicção, o senhor é uma alma generosa, fazendo feliz não uma mas tantas mulheres, tantas quantas a sua permissividade acolhe. E, se me pede prova, vou-lhe provar a verdade das minhas palavras, mostrando-lhe no écran da minha instalação televisível, que estou ligando à Terra para assistir ao que está a passar-se no cemitério a poucas horas do seu funeral, à beira da sua campa, em que o quadro é um montão de jovens amantes, todas a carpir lágrimas de dor, encharcando lenços, incluindo a consorte, partilhando com as outras o sofrimento da morte do ente amado, ignorando rivalidades, sentindo só o que dele receberam - amor sem condições». Todas univocamente o choravam. «Lamento - conclui o Diabo - esta sua alma que me bate à porta, está equivocada quanto à sentença. O seu repouso é no Reino do Céu». E, não lhe perguntando mais nada, toca a campainha, chamando o servente, e dando-lhe ordem para conduzir aquela alma ao elevador que a levaria ao Céu, pois que era aí o lugar do seu eterno repouso.

Aqui em Portugal, o filme termina exactamente no momento em que o elevador arranca, deixando as plateias penduradas quanto ao título do filme, pois não vêem qualquer coerência com a história.
Eu, por acaso, nesse tempo estava fora do país como já referi, mas vendo o filme, que ao tempo era uma obrigação para as coisas do espírito, achei-o uma obra de arte e o seu título magistral e de grande consenso humano e crítica subtil, contrariamente ao que em Portugal se ajuizou.
A resposta a esta flagrante contradição quanto à justificação de um título de sentido oposto, estava somente neste pormenor: em Portugal, o ditador empedernido, informado do guião da história, manda que a Censura corte o final do filme, quando o elevador arranca para o Céu, eliminando a cena da sua chegada ao Paraíso Celeste, que no original era assim como observei: a chegada ao destino, e a alma penada («alma do purgatório que o povo ignorante supõe aparecer em figura humana por expiação de algum grande pecado», segundo o Dic. Morais Silva, Rio de Janeiro, 1899) preparando-se para sair, calha que nesse exacto momento entra uma diva que, essa sim, ia recovada para o Inferno, o que fez com que o recém-chegado, após uma breve hesitação, resolvesse reentrar no habitáculo donde saíra, clamando: «O CÉU PODE ESPERAR», frase que Salazar achou pecaminosa e a atitude desrespeitosa e herege. O elevador desce. A história finda.
O MAGAREFE - A amputação mutila tudo. Salazar dorme tranquilo sem escrúpulos estéticos, fabricando um aleijão sem sentimento de qualquer espécie. Há memórias e memórias. Umas de circunstância, outras as dos Povos que não se esquecem por mais lixívia que os sucessores, que os há e activos, consumam. Por isso se avalia, por este exemplo, até que ponto o povo português foi amputado de valores de toda a espécie, especialmente a dignidade, que hoje anda pela rua da amargura. Conclusão: há temas antigos que nunca perdem actualidade.

Dirigindo-me agora a João Lopes, quero felicitá-lo pelas suas intervenções, de muita classe, que eu sempre leio com prazer. Agradeço-lhe ter-me dado azo a refrescar ideias e sentimentos. Aprende-se.
Fernando Vieira de Sá
Lisboa, 6 Fevereiro de 2010

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

MARIA ELVIRA [1917-1999]


No dia 5 de Fevereiro de 1917, faz hoje 93 anos, nasceu em Lisboa Maria Elvira Andrade Mendes de Magalhães. À semelhança do que fizemos no ano passado, deixamos aqui algumas palavras de Fernando Vieira de Sá sobre Maria Elvira, a companheira de tantos anos, colhidas no livro Viagem ao Correr da Pena:
«Já após a sua morte, em 1999, li pela primeira vez o seu diário sintético (5x8cm) de que desconhecia a existência, encontrando-o casualmente nos seus haveres. Era um diário escrito em curtas frases que exprimiam sentimentos do tamanho de poemas sem nunca se pressentir arrependimento ou contrariedade, mas onde se exprimiam relevantemente a saudade do filho, a saudade de todos, a dedicação ao trabalho de ambos e a coragem de enfrentar o perigo com serenidade.
[...]
Esta pequenina agenda nunca a tinha visto. Está escrita com uma letra minúscula que mal se lê sem lupa. Estas frases soltas quase reflectem toda a rotina da nossa vida entre o trabalho e a pressão da guerra [FVS e ME estavam em Londres, em plena Guerra], entre as saudades e a chegada de uma carta que tardava, entre um warning (sereias que anunciavam a aproximação de bombardeamentos inimigos) e um all clear (anunciando céu limpo).»

domingo, 31 de janeiro de 2010

O HAITI E A DEMOCRACIA SERVIDA AOS POVOS

O terrível desastre ocorrido no Haiti, e que emocionou o Mundo, teve o condão de chamar a atenção para um dos países mais pobres do planeta, ignorado pela macrosociedade das democracias e democratas convictos, não obstante, segundo os arautos das fontes da informação pública, ser confrangedor o seu nível de miséria em toda a expressão da palavra, tomando o facto como uma peculiaridade histórica e sociológica, por se tratar de um país fundado por camponeses, analfabetos e escravos, vindos de outro continente e que se viram com um país nas mãos. O Haiti, único país de escravos das Américas, cresceu sem tutela, ou não cresceu. Estas afirmações fá-las, por exemplo, o jornalista Ferreira Fernandes na sua crónica «Um ponto é tudo» do Diário de Notícias de 14-I-2010. Talvez este passado leve a não considerar exigíveis aqueles direitos humanos que as tais democracias em voga apregoam, e que tanto preocupam o governo americano em relação a Cuba, vizinha do Haiti, ao ponto de manter o bloqueio económico à ilha há dezenas de anos, querendo com isso forçar o governo cubano a desistir do seu programa de desenvolvimento económico, cultural, independência, bem-estar e direitos, o que a democracia norte-americana combate em prol dos seus próprios intentos, de tomar por colónias todos os países da América Latina.
***
Vem a propósito recordar um episódio passado comigo, quando uma vez, visitando uma importante fábrica de aparelhagem para a indústria leiteira no Estado de Nova Iorque, E sendo recebido pela Direcção com algum requinte cerimonioso face a um eventual cliente, ainda por cima sendo eu técnico da FAO, um dos directores, pensando ser-me simpático por eu ser português, manifestava a sua admiração por Salazar por sensatamente não admitir que as Colónias portuguesas tivessem políticas próprias e se afastassem das directivas da Metrópole. - Ora nós, americanos - prossegue convicto - tomamos os países da América Latina como sendo as nossas colónias naturais e, não obstante, o governo aqui dá-se ao luxo de permitir que cada um desses países faça o que lhe apetece, como se fossem países «de facto». E dava como exemplo a então recente questão do Paraguai, grande produtor e exportador de carne de bovinos, ter rompido um Tratado Comercial de exclusividade de venda aos Estados Unidos, passando a fornecer carne à Grã-Bretanha a preços muito mais vantajosos, o que exasperou a opinião pública americana, por essa debilidade governativa, não usando o governo americano as represálias adequadas ao caso.
É esta a vox populi ou, com mais fé, a vox Dei, que todo o americano exalta e abençoa.

***

O Haiti, onde os direitos humanos não se exercem, onde a governação anda pela rua da amargura ou não existe, onde tudo falta e nada funciona, ao invés de Cuba, jamais preocupando os Estados Unidos, jamais tendo sido o governo haitiano censurado ou reprimido por faltas de respeito aos direitos do seu povo, leva a admitir-se que se está perante um modelo Made in Haiti para uso do ianque postado ao norte do continente, de tal modo personalizado que Hillary Clinton foi pressurosamente visitar o Presidente René Préval, levando-lhe o calor da fraternidade dos americanos nessa hora de desastre e dor, deixando-se fotografar com a dita personalidade, como se se tratasse de um herói, de um modelo, de um exemplo de grande condutor do povo e não um moleque de maus fígados, mas ao gosto ianque, cujas preocupações caem todas em catadupa e ignominiosamente sobre Cuba só por ser um exemplo a combater com todos os meios e arbitrariedade de acção para evitar a expansão de comportamentos fatídicos para a mentalidade colonialista-expansionista no Olhar sobre a América Latina, enquanto o mundo democrático se agacha preconceituosamente e deixa andar.
É esta a moral do dólar, que não está só. Outras moedas há. Daí a segurança em René Préval, Presidente do Haiti, que desta vez apenas foi incomodado pela força da Natureza. Não teria sido isto um milagre de Deus, já que tantos milagres se registaram com vidas retiradas dos escombros ao fim de mais de uma dúzia de dias? Não foi talvez por acaso - valha-o Deus! - que o epicentro do terramoto foi por baixo do trono presidencial? Deus não dorme, dizem os crentes. Será? Não terá sido um aviso aos políticos e à política vigente que se ocupa dos direitos humanos, devendo defendê-los? Desta vez, para René Préval, foi só um susto!
Pede-se opiniões. Da discussão nasce a luz. O assunto é grave, merece a atenção do mundo e de cada um de nós. O diagnóstico não terá de ser sintomático, mas da causa profunda que leva ao efeito.

Fernando Vieira de Sá

Lisboa, 15 de Janeiro de 2010

sábado, 16 de janeiro de 2010

ATRASOS DE VIDA

ESPECIALIDADE DA COZINHA POLÍTICA DA GOVERNAÇÃO PORTUGUESA, COM PALMINHAS PARA INAUGURAÇÕES, VELAS DE ANIVERSÁRIO E EMPOLGANTES ORATÓRIAS.
Com uma nota de fim de página, que abaixo reproduzo, do meu livro Autópsia a um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares (2008), recordo hoje (2010) a poética dor do desalento de assistir à derrocada do alimentado sonho de contribuir para o progresso do país, tantas vezes afrontado, tantas vezes demolido e, neste caso, com foros de terrorismo, dispensando os clássicos, bastando-nos os domésticos que não pecam por eficiência em artes de circo e ilusionismo, cujas provas estão à vista de todos os que queiram ver.
O plano do DTIA - Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares está feito em estilhas, o que corresponde a dezenas de anos de retrocesso, para recomeçar qualquer coisa que não se sabe, sem metas conhecidas, sem estudo, sem conteúdo, ou simplesmente esquecer. Pura tontaria. Não se conhecem projectos... logo se vê. Assim é a vida nacional. A alta finança agradece.
Feita esta justificação, aqui se dá conta das transcrições, para relembrar e meditar:
1º - Nota de fim de página:
«[Nota hodierna - Aqui se poetiza o desalento trazido pela História Contemporânea ao qual as estruturas laborais são sensíveis e reflexo. Outras há chamadas «bolsa de valores» navegando no espaço cibernético. Não precisam de operários nem agricultores, nem laboratórios, apenas correctores. Essas ignoram o equilíbrio social e o boletim meteorológico].»
2º - O carpido do vate:
«E agora, outro ponto final
Que horas lentas
São essas que se vivem
E não são nossas
Nem têm ideal?!
Que horas são essas
Que não são nossas
E nos arrastam
- Sem sermos nós a decretá-las -
Procurando o nada
E do nada fazer
O que não queremos ser?!
Que sonhos sonhamos
Nesta praia sem mar
Com barcos varados no areal
Com os olhos fenícios pintados na proa
A julgar o eco dos séculos
Chorando o silêncio da catedral da noite?!
E os remos por ali atirados
Prostrados
Sem os braços
que partiram para outra campanha
Com rota marcada
No mapa da esperança.
Anónimo»
Aqui está em forma poética o libreto de ópera bufa em palco de genuína portugalidade, onde os tenores e os contraltos afinam a voz.
Fernando Vieira de Sá
Lisboa, 15 de Janeiro de 2010

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

MEMÓRIAS DE F. VIEIRA DE SÁ

OFERTA ESPECIAL
na compra dos 4 títulos da colecção «Percursos da Memória»
preço especial de 45,00 euros + oferta de portes
{em vez de 59,00 euros}

CARTAS NA MESA - RECORDANDO BENTO DE JESUS CARAÇA E A «BIBLIOTECA COSMOS»
Prefácio de Manuel Machado Sá Marques
ISBN 972-99081-0-9 176 pp. PVP (iva incluído): 10,00;
VIAGEM AO CORRER DA PENA
Apresentação de Urbano Tavares Rodrigues
ISBN 972-99081-1-7 408 pp. PVP (iva incluído): 18,00;
ECOS DO MÉXICO - DA HISTÓRIA E DA MEMÓRIA
Prefácio de Miguel Urbano Rodrigues
ISBN 972-99081-2-5 224 pp. PVP (iva incluído): 15,00;
AUTÓPSIA A UM DEPARTAMENTO CIENTÍFICO DO ESTADO - LIVRO BRANCO DO DEPARTAMENTO DE TECNOLOGIA DAS INDÚSTRIAS ALIMENTARES
Apresentação (in http://fvieiradesa.blogspot.com/) de Eugénio Rosa
ISBN 978-972-99081-3-2 312 pp. PVP (iva incluído): 16,00;


Os pedidos deverão ser dirigidos a f.vieiradesa@gmail.com.
Solicitamos e agradecemos a divulgação de uma iniciativa que visa levar a obra, bem como a extraordinária e riquíssima experiência de vida de Fernando Vieira de Sá, a cada vez mais leitores.
Podemos contar com a sua colaboração?
Obrigado.
Blogue «F. Vieira de Sá»

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

MURO DE BERLIM

Passam hoje vinte anos sobre a mais badalada das quedas de qualquer muro existente à face da Terra.
No meu livro O Reino da Estupidez nos Caminhos da Fome - Memória de tempos difíceis (Edições Cosmos, 1996), sob a epígrafe «O fim da guerra fria põe tudo em causa» [pp. 73 e ss.] pode ler-se:
«O Muro de Berlim ruiu e o seu entulho fez a prosperidade de uma nova indústria de amuletos e bentinhos, a reforçar o filão das relíquias milagreiras, os escapulários das terras do Evangelho em vias de extinção. A poderosa União Soviética desmoronou-se como um baralho de cartas. Abolidas a foice e o martelo, ficou em seu lugar o histrião desfraldando o pavilhão - matriz da águia bicéfala - da fulgente, autocrática e imperial grande Rússia, agora de regresso, metamorfoseada de democrática, ao convívio das nações livres (?), depois de sepultada a medonha tirania. [...] Afirma-se mesmo, com dionisíaca e insciente euforia, que o Socialismo perdera a razão de ser por já não haver lugar à luta de classes, só porque foi decidido não haver classes. E também não haver ideologias. [...]
O que jamais ninguém poderia antever [...] é que se saía da estável guerra fria por defunção da supina causa malfazeja, não para desfrutar a cerúlea paz celestial, abendiçoada por todas as virtudes remascadas em prândios de oratória, marconizada por anos e anos de azucrinante e impiedosa penetração pela casa do cidadão adentro [...] aquela a quem precisamente e especialmente se prometeu a felicidade eterna [...]»

Acabou a Guerra Fria mas o que menos desejavam, não só os Estados Unidos da América como a Europa, era a unificação da Alemanha, de uma Alemanha responsável por duas Guerras Mundiais, com milhões de mortos e destruições olímpicas de cidades e países. O que sempre esteve em causa foi precisamente o desmoronamento da URSS, do Poder Popular e, já agora, acabar com as classes sociais por eliminação da classe operária, herdeira da escravatura, e como tal perdendo direito a cidadania, tal como na Grécia Antiga onde nasceu a tal democracia. Só que na actualidade a democracia respeita a toda a humanidade, com direito a desfrutar e a partilhar das riquezas da Terra.
O acabar com as classes traduz-se, neste caso, em considerar exactamente a classe proletária de fora da doutrina capitalista dominante. É isso que se quer. Todos o sabem, mas não o dizem, apenas o silenciam.
Fernando Vieira de Sá

Lisboa, 9 de Novembro de 2009

sábado, 31 de outubro de 2009

TEMPOS PASSADOS QUE PARECEM DE HOJE - ATÉ HÁ POETA!

Entre os papéis do seu arquivo pessoal, Fernando Vieira de Sá encontrou e entregou-nos para publicação no blogue uns versos de José Régio, de 1959, que reflectem preocupações que atravessam os tempos e ainda hoje mantêm a sua actualidade. O título deste post é de FVS e, como é hábito, revela o seu extraordinário e rico sentido de humor.
Sátira ao prometido aumento de vencimentos em Janeiro de 1959

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento,
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos, - só! - por seu ofício,
Receber, a bem dele... e da nação.

Em 1969 no dia de uma reunião de antigos alunos, assino este soneto

José Régio

sábado, 17 de outubro de 2009

CONCEITOS ETERNOS QUE VALE A PENA RECORDAR

Aqui deixamos hoje, também 17 de Outubro, este recorte que Vieira de Sá nos entregou para publicação no seu blogue, acompanhado de uma pequena e elucidativa nota: «Este cai como "sopa no mel".» Reproduzimo-lo tal como nos chegou:

«NESTA FARSA HA TODAVIA UMA
MORALIDADE. VEJA-SE COMO O
MUNDO SE ACHA EM CARNE VIVA,
E QUÃO DÉBIL É A ATADURA
ENTRE UM GOVERNO ABSOLUTO
E O SEU POVO! UM FOGUETE
DADO A DESHORAS PODE TALVEZ
DECIDIR A SORTE DE PORTUGAL»
Almeida Garrett, «O Palinuro», Jornal do Exílio, Londres 17 de Outubro de 1830

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

ENCONTRO EM MANTELÃES COM UM GRANDE VULTO DA REPÚBLICA

«O estudo sobre "O Queijo Nacional de Tipo Holandês", em colaboração com Eugénio Tropa, mais tarde professor catedrático, levou-me um dia a Paredes de Coura onde, segundo vagas informações, foram feitas as primeiras tentativas para fabricar (ou imitar) o queijo holandês, que se importava em grandes quantidades da Holanda, chamando-lhe "queijo flamengo".
[...]
Por volta das duas da tarde estávamos batendo à porta do palacete de Mantelães onde Bernardino Machado vivia. Eu não queria acreditar que dentro de momentos iria ser apresentado a uma figura mítica que para mim se agigantava de tal modo que me parecia impossível enfrentá-la sem uma emoção incontida, descambando em frivolidade de gestos e palavras, caindo numa bajulação que só traria e levaria a uma situação que eu queria que transparecesse respeitosa e admirativa mas não aduladora.
[...]
E a propósito dos estudos que me ocupavam, a pouco e pouco embrenha-se na floresta da história de que ele próprio era obreiro de primeira fila. Não sei como o tempo se sumiu em toda aquela tarde onde me deu a sensação de estar lendo uma História de Portugal Contemporâneo, em que os protagonistas me aparecem em carne viva e os factos me dão a expressão de qualquer coisa humana em tempo real, pela alma que emanava da progenitura intelectual do estadista ali vitalizando o momento. Podia aqui reproduzir quase ipsis verbis essa interminável conversa em que Bernardino Machado, quase sempre de pé e passeando ao longo do salão onde estávamos, gesticulando e dirigindo-me a palavra fazendo-me entrar no assunto como sendo eu hodierno dos factos, querendo com isso provocar a crítica que ele não dispensava. [...] Uma conversa criativa e transmigrante no tempo. Por isso inesquecível.»

Ler mais em Fernando Vieira de Sá, Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», pp. 135-138.
As gravuras acima, do palacete e da antiga Fábrica de Lacticínios (1879) de Mantelães - Paredes de Coura, pertencem ao blogue «Bernardino Machado», criado e animado pelo nosso querido Amigo Dr. Manuel Sá-Marques, neto do «vulto da República» que aqui homenageamos na passagem dos 99 anos do 5 de Outubro de 1910.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

ADIVINHA

Quem é, quem é...
É português, do sexo masculino, doutor honoris causa em Literatura pela Universidade de Goa e afirma:
«Nunca me engano e raramente tenho dúvidas».

Aceitam-se respostas para a caixa de comentários deste blogue ou para f.vieiradesa@gmail.com


Fernando Vieira de Sá
23 de Setembro de 2009

AINDA SOBRE O SIGNO ANIVERSARIANTE - A PROPÓSITO DE UMA PRENDA VALIOSA

Neste encontro de família e amigos, minha neta Inês presenteou-me com um livro que, segundo ela, certamente me iria agradar sua leitura. Como sempre acertou. Trata-se de uma obra intitulada Evocação - A minha vida com Che, de Aleida March (Editorial Presença, 2009), sendo a autora casada com o dito Che, mãe de cinco filhos e companheira de seu marido em todos os momentos da revolução e tempos de vitória.

Trata-se de um texto impregnado de humanismo, dando alto exemplo das virtudes femininas, desde as maternais, bem marcadas, à companheira de seu marido em todos os envolvimentos da revolução e tempos de vitória, dando alto exemplo de amor, valentia e sentido de missão, exaltando o espírito que enobrece o feminismo com que a Natureza brinda as mulheres, tornando-as diáfana presença, usando-a. Não é só a Madre Teresa de Calcutá que, aliás, não consta ter tido filhos, no que todos acreditam. Aleida, contudo, foi heróica, tanto como mãe estremosa de seus filhos, como perante os riscos dos confrontos em nome da libertação de Cuba, antes «casa de passe» para serviço do «gringo» animalesco, mas endinheirado. Dificilmente se poderia conceber a possibilidade de Aleida acompanhar tão estreitamente o seu companheiro se este se comportasse como assassino, o que eu próprio discuto, denunciando neste blogue, em 18-I-2009, sob o título «Contra um Novo Hino à Ignorância»: chamando a atenção para esta grotesca difamação, que só se admite quando vinda de um almocreve vendendo peçonha. Mais grave foi a guarida dada pelo suplemento da Visão (3/4 de XII-2008) que oferece o seu espaço a um artigo de cujo conteúdo ressalta em destaque esta bacorada odienta apontada a Che e não só:

«CUSTA ACREDITAR
NA EVOLUÇÃO
DE UM REGIME QUE
TEM COMO ÍCONE
DE EXPORTAÇÃO
UM ASSASSINO:
"CHE" GUEVARA»
Convida-se e solicita-se esta leitura, pois só lendo na fonte se acredita ao que chega a boçalidade.

Fernando Vieira de Sá
Fotografias gentilmente cedidas pela Editorial Presença, a quem agradecemos.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

AGRADECIMENTO

Longe estava de ser alvo da vaga de felicitações vindas do espaço «Internet», saudando-me pelos meus 95 anos de existência, parecendo querer disputar façanha de paciência e teimosia, como se estivesse maldosamente a dificultar a vida à Caixa de Aposentações, procurando baralhar os cálculos e as percentagens aos responsáveis das contas da sustentabilidade de fundos face à rentabilidade que um montão de tropeços parece querer sabotar.

Segundo a afirmação de um probo sacerdote em homilia versada em missa de núpcias, onde os jovens abundavam acompanhando os nubentes e nós assistíamos por deferência com os pais do noivo, o dito sacerdote evocava aos crentes, e não tanto, acusando, erguendo os braços ao céu: «Essa velhada que por aí anda, que não faz nada e para a qual todos nós pagamos...». Palavras ditas de cima de um púlpito cristão. Abençoadas palavras entre os crentes... O silêncio calou. A intenção, ao que parece, teria sido a de querer ser simpático à jovem assistência presente na mira de arranjar freguesia. Já fora do templo cochichava-se o episódio. Valha a verdade, inédita descaidela.

Podia este crime longevidade (que faz o desespero dos «manga-de-alpaca» e o inconformismo do cura desbocado) passar oculto. Pela minha parte nada fiz de motu proprio para suscitar tal desaforo do clérigo, prejudicando os cálculos dos honestos (por enquanto) responsáveis devotados à nossa Segurança Social, bem como das nossas almas sob custódia do Divino Senhor, como se sabe...

Contrariamente, fiquei sensibilizado com tantas palavras de incentivo à vida vindas de amigos e amigas, por vezes de longe e de fora de Portugal ou pensando eu já ausentes em qualquer memória.

O responsável de tal publicidade e de implícito desacato a instituições à guarda dos impolutos funcionários - nunca é demais sublinhar - guardiões e condutores dos destinos da Pátria, o responsável, repito, foi o meu velho (antigo, quero dizer) amigo Luís Guerra que, dos meus graneis de prosa modesta, produziu como editor - Moinho de Papel - quatro títulos da mais perfeita e cuidada qualidade que a sua competência e amor à arte - e só - ao lapidar a rocha, encastoou a jóia, abrilhantando uma prosa de restritos aliciantes - vida de samaritano, palcos de subdesenvolvimento e fome, guerra, desconforto e luta contra o despotismo, temas que não apelam ao convite da leitura.
Pela minha parte, acho que cumpri o meu dever de cidadão do mundo, denunciando, informando sobre a vida onde ela se processa, longe dos asfaltos e das elites. Quanto aos outros, cada um age segundo os seus critérios e horizontes. Não é só rezar e pedir a Deus. Ao «arregaçar as mangas», os deuses também agradecem quando se serve a causa nobre e não se surripia bens alheios.
Resumindo:
1 - Para Luís Guerra, e aqui incluo a Lurdes, sua mulher, e seus filhos, vai todo o meu reconhecimento pela amizade que me dispensam e ajuda que me têm oferecido tornando-me o fardo mais leve, menos pesado.
2 - A todos os outros amigos e amigas, muito comovidamente agradeço a vossa disponibilidade em terem acedido a esta manifestação de afecto de todos vós, contribuindo com as vossas mensagens para fazer deste dia Um Dia, grande como as vossas palavras, Não pelos 95, mas pela alegria de me recrear sentimentos remotos de amigos e amigas, tão maravilhosos quanto já inesperados num mundo em que só a «cotação da Bolsa» tem a palavra útil. Há excepções. Nem tudo é liberalismo global.
Iniludivelmente, filho, nora, netos e netas e até dois bisnetos, fizeram presença, emprestando calor, amor e vivência ao momento. Só uma ausência senti. Contingências do ciclo da existência que só a mim diz respeito.
Com todo o meu coração,
Fernando Vieira de Sá

terça-feira, 25 de agosto de 2009

AINDA OS 95 ANOS DE VIEIRA DE SÁ - DEPOIMENTO DE JOSÉ VEIGA SIMÃO

Caro Doutor Vieira de Sá,

Meu Caro Amigo

O Vieira de Sá faz 95 anos, hoje dia 20 de Julho de 2009. Tenho imensa pena da inclemência de obrigações que nos comandam a vida, não ter permitido, nos últimos quinze anos, manter consigo os diálogos frontais e criativos em que a dureza saudável de opiniões diversas era alimento natural da adesão ao objectivo último: servir e prestigiar o nosso Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial e, através dele, o Estado português. A amizade com Vieira de Sá transcendia e sublimava convicções políticas. O Presidente do LNETI viu sempre nele o investigador culto, actualizado e competente, um obreiro exemplar de uma instituição ao serviço das empresas familiares e das pequenas e médias empresas, tão desprezadas pela maioria dos governos, para quem os negócios da intermediação são prioritários em relação aos negócios da criação. O resultado para o País é conhecido.

Apesar de tudo, a verdade é que muitas empresas inovadoras na área das indústrias agro-alimentares do norte ao sul do País, do continente às regiões autónomas, beneficiaram das iniciativas e actividades que a “equipa de Vieira de Sá” realizou ao longo de muitos anos, desde os tempos do Instituto Nacional de Investigação Industrial. O saber, o saber fazer e o fazer desses técnicos e investigadores foi absorvido por centenas de empresas e permanecerá como fermento da renovação necessária a uma equilibrada industrialização do País, que novas gerações, alguns, seus discípulos, haverão de protagonizar. Os 95 anos não afastam a esperança.

As leis imorais que abrem portas a negócios de património científico e tecnológico, conquistado pelo esforço de muitos e com apoio internacional, associadas a práticas de gestão duvidosa determinaram processos lentos de extinção, incoerentes como aconteceu ao LNETI, em nome de falsos reformismos, não serão suficientes para destruir “escolas de saber”, como a de Vieira de Sá.

Fernando Vieira de Sá permanece como símbolo de dedicação ao trabalho sério e honrado, de alguém que continua a sonhar com um futuro melhor para a “inteligência nacional”.

José Veiga Simão

18.8.09

segunda-feira, 20 de julho de 2009

FERNANDO VIEIRA DE SÁ - 95 ANOS

Há 95 anos, no dia 20 de Julho de 1914 (segunda-feira, como hoje), nascia em Alcântara, na cidade de Lisboa, Fernando Peixoto Vieira de Sá, filho de Mário Pedro de Alcântara Vieira de Sá (1888-1979) e de Maria Luiza Bandeira Peixoto (1891-1982). Para assinalar este importante acontecimento, damos hoje a palavra aos Amigos e a todos quantos, com ele, de alguma forma, contactaram e foram tocados por este extraordinário exemplo de vida. De uma vida que não é apenas longa e plena de realizações e experiências, mas, e sobretudo, de uma vida vivida sempre a olhar em frente e orientada por princípios que se consubstanciam e manifestam na verticalidade e na recusa visceral do medo, da subserviência, do pessimismo e do comodismo. Parabéns Vieira de Sá. Luís Guerra

***
FERNANDO:

Já somos ambos membros do “Clube dos Macróbios”!
Eu faço, em Novembro, 90 anos… Tu, hoje, fazes 95… Começamos a estar um pouco velhos… Mais dia, menos dia, começam a chamar-nos “velhotes”!…
Enquanto tal não acontece, porém, aqui vai um Grande Abraço de Parabéns, pelo dia de hoje, com o desejo que “contes muitos e bons”, como antigamente se dizia…
Pergunto, a mim próprio: Qual a razão que nos liga? Será apenas o facto de termos um bisavô comum?

Na realidade, se os primeiros anos da nossa infância decorreram num ambiente familiar, em breve, os nossos caminhos da vida afastaram-nos e, no decurso de mais de 40 anos, só vagamente, por um ou outro parente, por amigos comuns, tinha notícias suas e acompanhei a sua brilhante carreira… O seu diploma de Médico Veterinário; o seu primeiro abordar dos problemas relacionados com a produção e utilização do leite e dos seus derivados; a sua estadia em Inglaterra – em plena II Guerra Mundial – como bolseiro do Instituto de Alta Cultura; a sua pertença à FAO e as suas aventuras no Brasil, no México, na Tailândia e no Paquistão, em Angola e em Moçambique, etc., divulgando as vantagens do consumo do leite e dos seus derivados, entre populações subdesenvolvidas e exploradas, com fome, ignorância e superstição…
Escrevendo, denunciando e protestando corajosamente contra situações de miséria; criando e organizando unidades, economicamente viáveis, para a produção integral do leite e seus produtos… Que sei eu… Na sua luta contra a miséria talvez chegasse a ir vender, ou dar, leite até “casa do Diabo mais velho”…

Um pouco menos jovem, continua a escrever, agora, as suas memórias…

Em Abril de 2004, vi – via Internet – a notícia da inserção na colecção «Percursos da Memória», edição Moinho de Papel, de um novo livro de Fernando Vieira de Sá, recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos». Ora eu, dada a minha formação matemática, fui e sou admirador de Bento Caraça, de todos os seus trabalhos, particularmente, dos Conceitos Fundamentais da Matemática, salvo erro segundo volume da «Biblioteca Cosmos».
Imensamente interessado com a notícia, resolvi telefonar a Fernando Vieira de Sá e daí surgiu uma nova fase das nossas vidas e das nossas relações… É com prazer que recordamos familiares já desaparecidos; episódios da nossa infância; amigos, preocupações e interesses comuns…
Mas encontrei, sobretudo, para além do investigador sábio e realista, alguém muito delicado e muito sensível, respeitador do pensamento e das ideias dos outros, sem que isso impeça, no entanto, a assunção corajosa e recta das suas próprias ideias e ideais…
Fernando Vieira de Sá é um homem recto… Um homem que tem por hábito “falar claro e m… direito”…

Voltando ao princípio…

FERNANDO:

Aqui segue um Grande Abraço de Parabéns, pelo dia de hoje, com o desejo que “contes muitos e bons”, como antigamente se dizia…

RUY
[Ruy de Paiva e Pona]
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Um abraço apertado! De parabéns pelo dia do aniversário, mas também de gratidão! O Vieira de Sá sabe bem o que lhe devemos, pelo muito que nos tem ensinado e por o termos como exemplo.
Embora o nosso convívio se tenha iniciado só há uns anos, para mim, nas minhas recordações, o Vieira de Sá é já uma vivência muito antiga. Não conheci pessoalmente a Maria Elvira, mas quando visito o Vieira de Sá, a sua presença é permanente!
São inesquecíveis os bons tempos passados com queridos e bons Amigos! Recordamos com saudade o “nosso” General Vasco Gonçalves e o encantador José Branco Rodrigues.

20 de Julho de 2009
Manuel Machado Sá Marques

***

PARABÉNS!

Imagino não ser nada fácil ter 95 anos!
Dizia algures no seu blogue, que, nas conversas com os amigos, já não se falava de futuro, mas apenas do passado das suas vidas. Mas, a meu ver, é de futuro que se trata, quando disponibiliza ao público as suas vivências, as suas ideias, contributo precioso aos que, no activo, buscam referências nos caminhos percorridos por outros.
Fico sempre emocionada quando penso no Dr. Vieira de Sá, com 95 anos, que continua, como homem empenhado que sempre foi, a sua luta por um mundo melhor, utilizando agora as armas do momento.
Dia 20 de Julho! Nesta data bonita, se eu pudesse, segurava bem a sua mão e, sentindo fresco da manhã no rosto, subiríamos a um ponto alto da Estrela, para assistir ao nascer do sol. Antes de descer, dir-lhe-ia acreditar, que os pequenos passos conseguidos, dos que lutam por causas nobres, só poderão conduzir à Paz!
O meu abraço muito amigo de parabéns e os meus votos de boa saúde.
Angelina Barbosa

***

Recordando o «Apeadeiro de Chobela» o encarregado do mesmo, na altura, dá o sinal de partida pelos 95 anos do colega Vieira de Sá para que continue a sua vida de produção, recordando que ele também encontrou um apeadeiro de recepção de leite, na cidade de Maputo, e conseguiu transformá-lo numa central leiteira.

Com um abraço do
Morgado [Fernando de Pinho Morgado]

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Conheci o Dr. Vieira de Sá em 1986 quando fui estagiar para a Unidade de Indústrias Lácteas do DTIA, pouco depois de se ter reformado de Director desse Departamento. Durante os 20 anos que por lá fiquei, tive o privilégio de privar com ele, pois sempre manteve o interesse pela actividade do Departamento e particularmente pela Unidade que criou, alimentando a amizade que genuinamente sentia por todos os seus elementos. Recordo com alguma nostalgia as curiosas e divertidas histórias que sempre tinha para contar, sobre factos verídicos que presenciou ou viveu ao longo da sua invejável experiência de trabalho e aventura por quase todo o mundo. Marcou-me a forma digna, corajosa e directa como sempre o vi abordar publicamente assuntos, por vezes polémicos, sem receios de evidenciar tudo em que convictamente acreditava, independentemente das consequências. Saí há três anos daquele Departamento (ainda antes da "Autópsia"), porque infelizmente, já não se encontram Vieiras de Sá.

Desejo-lhe um muito feliz dia de Aniversário. Recordá-lo-ei sempre.

Um forte abraço

Luísa [Luísa Bivar Roseiro]

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Caro F. V. de Sá (e Luís Guerra)

Para os dois, mas muito particularmente para o Primeiro, quero dizer que nunca conheci ninguém que tão livremente e com uma certa alegria de viver "fizesse do velho novo"; e do novo, o presente que o futuro nos poderá trazer. Mesmo que não traga!

Como hei-de provar o que acabo de dizer? É simples. Nunca ninguém me chamou, com a idade que julgo que tenho e tenho, um Jovem. O F.V. de Sá chamou-me. E eu acreditei. Por isso estou satisfeito por nos conhecermos.

Parabéns. E já que mudou de século, mude também de década.

Um Abraço para os dois

António Neves Berbém

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Nesta data de festa quero enviar ao Dr. Vieira de Sá um excerto do prefácio das minhas provas de agregação, apresentadas em Julho de 2004. Surge aqui como uma das minhas maiores referências profissionais.
«Conheci o Dr. Fernando Vieira de Sá no meu primeiro dia de trabalho na belíssima sala da biblioteca do Departamento de Tecnologias das Indústrias Alimentares. De aspecto austero, o Dr. Vieira de Sá tinha por hábito fazer uma visita diária aos laboratórios do Departamento, envergando uma bata imaculada, conversando com os funcionários e imprimindo às actividades a motivação necessária a um ritmo eficaz. Aos mais novos distribuía generosamente a sua extensa experiência profissional e a riqueza do seu espírito. O Dr. Vieira de Sá é uma personalidade sem fronteiras que estendeu a sua actividade a vários continentes ao serviço da FAO e posteriormente do governo português. Tendo-se dedicado à tecnologia alimentar trabalhou na Ásia, América do Sul e nas províncias ultramarinas portuguesas em África. Durante muitos anos os seus trabalhos sobre tecnologia do leite e lacticínios publicados em revistas internacionais foram referência e os seus vários livros técnicos ainda hoje fazem Escola. Durante as diversas conversas que manteve comigo dei conta que a sua aparente austeridade facilmente dava lugar a uma saudável abertura, por onde se vislumbrava uma visão esclarecida rara nos investigadores que conheci na altura. O grupo de investigação em que me inseri foi criado devido à sua visão sobre as tendências da tecnologia, a sua compreensão do desenvolvimento das tecnologias biológicas e a necessidade de implementação dessas valências no nosso País. Desde a primeira hora, o Dr. Vieira de Sá foi um cúmplice, e sem dúvida um instigador, da minha aventura europeia na busca de evolução científica e conhecimento de realidades diferentes. O apoio que recebi então tinha em vista a obtenção de competência técnica como investimento para o futuro da instituição, garantindo desta forma que havia uma adaptação às novas realidades sociais e económicas. Possuir o grau de Mestre ou de Doutor era absolutamente irrelevante em comparação com a obra que esperava ver desenvolvida e realizada. Na década de oitenta o ambiente que se vivia nos Laboratórios do Estado era de confiança. Criaram-se condições para o aparecimento de grupos modernos contratando jovens motivados e disponíveis para a actividade científica.»
Desejo um dia muito feliz e muitos anos de um contínuo exemplo às novas gerações.
Um abraço do sempre amigo
José Carlos Roseiro
***

Muitos Parabéns!

Caro Vieira de Sá, conhecê-lo e ter a honra de conviver consigo (a maior parte das vezes por telefone) é maravilhoso!
Agradeço-lhe a sua juventude e, mais do que tudo, o partilhar comigo algumas das suas muitas histórias, sempre tão ricas e cheias de sabedoria.
O Vieira de Sá é um exemplo para todos nós com a sua Grande Vida e sobretudo para todos quantos passam a vida a lamentar-se de tudo, mas que nada fazem para mudar.
Prova do grande ser humano que é, continua independente e capaz de tudo fazer com grande autonomia. Os seus chás são os melhores!
É com carinho que recordo o dia em que lhe disse que ainda chegava aos 100 anos, ao que o Vieira de Sá me respondeu: «Não me deseje isso, é o pior que me podem desejar, pois já não tenho com quem partilhar as minhas lembranças». Nós - eu, o Luís e os nossos filhos, que gostam muito de si - não conhecemos as coisas tal como as viu mas estaremos sempre presentes para o ouvir falar delas e das suas vivências com muito carinho e amizade.
Mais uma vez Parabéns por tão bela data!
Um grande beijinho da amiga
Maria de Lurdes Guerra

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Querido Fernando

Ao recordar, quando o sol nascia, que completas hoje 95 anos, abri a janela, contemplei os campos de Serpa na lonjura da planície alentejana, meditei durante alguns minutos sobre a tua longa e bela caminhada pela estrada da vida e pensei: o Fernando, sempre resmungão e julgando-se um pouco esquecido, tem um talento especial para demolir os contra-revolucionários e toda a escória humana que em Portugal se mascara de esquerda, mas ignora o que os amigos pensam dele.
Eu sou um deles .
Nos últimos anos raramente nos temos encontrado porque vivo longe de Lisboa. Mas estás presente em mim diariamente. Numa síntese do teu perfil direi que reforça a esperança verificar que neste tempo de crise global da civilização existem homens como tu.
Pelo teu eticismo, pela coerência e firmeza do teu combate desde a juventude pela revolução social, pela tenacidade com que colocaste o teu talento de cientista e escritor ao serviço das grandes causas – vejo em ti, Fernando, não apenas um humanista mas o paradigma do revolucionário exemplar. Até no amor foste grande, na relação de contornos quase mágicos que mantiveste com a Maria Elvira, tua companheira.
Uma solidariedade comum com os povos do Terceiro Mundo em luta pela independência autêntica abriu portas a intermináveis conversas sobre países que ambos conhecemos bem e que amamos, sobretudo o México, o Afeganistão e Cuba. Mais de uma vez, recordando as tuas lutas, sobem na minha memória personagens da grande geração de revolucionários russos de 17 porque há em ti traços do carácter dessa gente maravilhosa.
Falo com frequência da vida útil que difere da biológica. Também ai és uma inflorescência. Aos 95 anos continuas a pensar e escrever como um jovem.
Aguardando a festa do teu centenário, aqui vai o abraço de parabéns do teu amigo e camarada
Miguel Urbano
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Caro Amigo
Venho neste dia 20 de Julho desejar-lhe um dia muito feliz.
É com muita alegria que lhe dou os meus parabéns e desejo que continue com saúde, com actividades diversas, nomeadamente com a escrita, que tanto agrada e enriquece o leitor. Refiro, nomeadamente, as Cartas na Mesa, que tanto prazer me deu, pela beleza da sua escrita e pelo interesse do seu conteúdo.
Penso neste dia 20, no convívio em Cascais, com os meus Pais, posteriormente no Algarve, em casa dos meus Tios. É sempre com grande prazer que me lembro das conversas vivas em que também participei um pouco e na amizade genuína que testemunhei.Lembro igualmente o apoio do Dr. Vieira de Sá em momentos difíceis, quando o meu Pai foi operado ou na doença do meu Tio José Branco Rodrigues.
Gosto sempre muito de contactar com o Dr.Vieira de Sá, pessoalmente ou via telefónica/ mail, de participar no seu convívio, de dar continuidade, conjuntamente com a minha Mãe (ou com os meus irmãos) à amizade que existia com o meu Pai, toda a alegria da amizade que a solidariedade e identidade de valores consolida.
Um grande abraço do
José Diogo (Gonçalves)

***
Apesar de não ter trabalhado directamente com o Dr. Vieira de Sá, conctatei com ele, via INETI e via Dra. Manuela Barbosa. Esteve presente em muitos dos almoços da nossa Unidade - a UIL - por ele fundada. Nutro um carinho muito grande pelo Dr. Vieira de Sá e admiro muito tudo o que fez, juntamente com a Dra. Manuela - a minha antiga chefe, e hoje amiga. Aqui vai o meu testemunho e deixo os meus votos de Parabéns:

95 primaveras,
uma data tão especial.
Requer uma comemoração,
única e sensacional.
Nesta surpresa, não poderia,
deixar de participar.
Desejo-he um dia muito feliz,
e que o continue a recordar.
Sou a Sandra Pinto, a ex-UILiana,
gostei muito de consigo contactar.
Guardo boas recordações,
de quando nos ía visitar.

Beijinhos de Parabéns da

Sandra Pinto da Silva


***
Grande e muito querido amigo
Fernando Vieira de Sá

MUITOS PARABÉNS!

Ao pensar em si, não podemos nunca deixar de evocar a Sra. D. Maria Elvira, a sua companheira, senhora de extraordinárias inteligência, doçura e sensibilidade cujo sorriso e olhar, brilhantes, nos permanecem na memória impregnada de saudade e ternura, por ela.

O casal Vieira de Sá, destacava-se no grupo dos grandes amigos de nossos pais, Aida e Vasco.
Uma profunda comunhão de ideias e empatia pessoais, uniu os dois casais numa dadivosa amizade e profícua cumplicidade. Os sentimentos que nutriam entre si, construíram, uma muito enriquecedora e exemplar ligação, plena de afectos, lealdade, integridade, que, estamos certos, lhes proporcionou uma profunda alegria nas suas vidas.

A conversa, cujo nível e profundidade de análise os arrebatava, horas sem fim. Os temas interessantíssimos, onde se evidenciava a notável riqueza e experiência de vida do casal Vieira de Sá, as fabulosas histórias narradas com o requintado humor que a sua extraordinária inteligência confere a Fernando Vieira de Sá, enfim, os acalorados e cúmplices debates sobre todo o tipo de assuntos, constituíram o sedimento dessa exemplar amizade.

Dos encontros, muito frequentes, recordo as visitas à “casa de Sesimbra”, de onde os nossos pais, vinham sempre maravilhados pelo convívio, pela beleza da obra de arquitectura e dos jardins, onde as plantas e as flores eram amorosamente escolhidas e cuidadas pela Sra. D. Maria Elvira.

Quando vinham a Cascais eram, também, formidáveis sessões e serões de conversa.

A profunda amizade e companheirismo entre Vasco e Fernando, levou-os a um convívio intenso, a partilharem férias, enfim, a conversarem todos os dias, nem que fosse só por telefone.

A Maria Elvira e o Vasco partiram.
A Aida e o Fernando perduram a amizade.
Alguns “ incómodos” da passagem dos anos, remeteram-nos às suas casas.
O Fernando mantém o convívio com lindos ramos de flores que, gentilmente, faz chegar a casa da Aida, nos dias comemorativos, acompanhados de cartões com comoventes dizeres que a levam a sorrir e a enchem de saudade.

Um grande bem-haja, Sr. Dr., pela amizade com que distinguiu nossos pais.
Continue a escrever, por favor, pois o seu saber acumulado é imenso e nós precisamos tanto de aprender, como precisamos imenso de si.

É uma felicidade e um privilégio conhecê-lo e dedicar-nos a sua amizade.

4 Grandes e Apertados Abraços Muito Amigos

Aida, Maria João, Vítor, Vasquinho
Gonçalves

***

Muy querido amigo Fernando,

Ante todo disculpe que no le escriba de mano propia, pero llevo un mes en el hospital, consecuencia de una insuficiencia cardiaca crónica, pero, aunque lentamente, voy mejorando. Es precisamente en momentos como estos, cuando uno se complace en recordar, que surge con gran intensidad el recuerdo de los amigos más queridos y añorados, y usted, amigo Fernando, viene en cabeza junto con la dulce memoria de María Elvira... ¡Cuántos bellos momentos no hemos compartido, de sobremesa, junto con Victorio en nuestro México, a quién tanto he de agradecer, en particular por el haber permitido el tipo de amistad que nos une desde hace tantos años y a pesar de la distancia. ¡Cómo recuerdo la pasión que usted siempre puso en su trabajo, cómo con Victorio querían arreglar el mundo y cómo María Elvira con su ternura y su mano artística alegraba nuestro entorno con sus obras florales!!!
Y no sabe qué inmensa alegría me procura verlo tan activo, tan creativo vísperas de sus 95 años!!! Reciba mis más calurosas felicitaciones con motivo de tan importante aniversario, que espero lo pase rodeado de todos los suyos, y que a pesar de la distancia le llegue todo el cariño que esta familia le tiene y le tendrá siempre. Yo sé que para Magaly usted es una de las personas más importantes de su infancia y ella y Daniel siempre recuerdan con emoción los días que pasaron con usted y María Elvira en Portugal y el cariño con que los recibieron a ellos y a mis nietos.
¡MUY FELIZ CUMPLEAÑOS, MUY QUERIDO FERNANDO!

Su amiga de siempre,

Antía Culebra

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Muy querido y presente Fernando,
¡¡¡Es al amigo, al hombre de ejemplar integridad y al luchador por un mundo mejor que, desde estas tierras canadienses, saludamos y felicitamos con motivo de tan augusto aniversario con gran admiración, respeto y sobre todo con gran cariño y contando celebrar juntos sus 100!!!
¡Qué alegría poder celebrarle, aunque sea por este medio, sus 95 años! Un motivo más para reiterarle nuestro afecto y desearle mucha salud, bienestar y lindos proyectos. Hemos estado pensando mucho en usted con mamá, quien como sabe, está hospitalizada y como paso mucho tiempo con ella estos días, nos damos el lujo de compartir tranquilamente y la familia Vieira de Sá es sujeto de frecuente y grata conversación. Y con Daniel y los chicos rememoramos los inolvidables días pasados en Sesimbra, las deliciosas sardinas preparadas por Fernando, los paseos al pueblo y cómo todo mundo saludaba cordialmente a Fernando y a María Elvira, la visita todavía más memorable a la cooperativa agrícola y no se nos olvidará nunca la botella de Porto de 1945 que nos regalaron a nosotros estudiantes mochileros que cuidamos como un tesoro durante todo el viaje por Europa y luego de regreso a Canadá, donde la tomamos con mis padres a la salud de los Vieira. Hoy levantamos nuestra copa a la salud y felicidad de Fernando Vieira de Sá, hombre excepcional, a quien con gran orgullo y respeto llamamos AMIGO.
¡¡¡Muy felices 95!!!
Magaly, Daniel, Eric y Alionka

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O Fernando Vieira de Sá é um amigo modelar, daqueles amigos do coração que estão sempre connosco nos bons momentos e nos muito maus. Veterinário, nutricionista, antropólogo, foi alto funcionário da FAO em muitos países, onde prestou serviços inestimáveis.
Como bem sabem os seus amigos, foi um antifascista inquebrantável e um militante comunista de ampla e generosa visão do mundo e de absoluta lealdade para com o seu Partido.
Nesta hora de festa, quero saudar, com um fraternal abraço, o cientista, o escritor, que já nos deu uma valiosa obra de testemunho e reflexão, o camarada, companheiro de horas felizes e de horas amargas, sempre animado pela esperança de um futuro melhor para a Humanidade.
Querido Fernando, estreito-te ao peito, de punho erguido, sorrindo como tu sempre soubeste sorrir à ilusão, à adversidade e à vitória.
Urbano Tavares Rodrigues

***

Ao Fernando Vieira de Sá
Nos meus tempos do MUD Juvenil e ainda antes de ter o prazer de com ele conviver, Fernando Vieira de Sá fazia parte da “constelação” dos colaboradores da Cosmos dirigida por Bento de Jesus Caraça. Esta editora/colecção constituiu para nós uma referência cultural ao serviço da luta em que estávamos envolvidos por uma sociedade livre e justa.
Anos depois viemos a ser “colegas” na FAO, embora em áreas distintas. Apraz-me recordar o prestígio profissional de que o Fernando Vieira de Sá gozava, aliado ao respeito que merecia como funcionário internacional ao serviço dos valores das Nações Unidas e da cooperação entre os povos.
Depois das ricas e humanas memórias que escreveu e que tivemos o prazer de ler, não vou aqui evocar os episódios de que foi actor e que revelam o sistema de valores sociais que sempre marcaram as suas atitudes e relação com os outros.
Tivemos, depois do 25 de Abril, várias oportunidades de colaborar e de nos encontrar entre amigos, em Portugal. Vêm-me à memória os bons momentos que partilhámos num pequeno restaurante do Cais do Sodré, conjuntamente com o Dr. Herculano Vilela, como “cobaias” de um novo queijo que o Fernando tinha produzido e queria “testar”…
Fomos mantendo contacto à volta de efemérides e batalhas políticas e cívicas ao longo de todos estes anos, partilhadas com grandes amigos já desaparecidos como António e Vasco Gonçalves, Monteiro Baptista, José Branco Rodrigues e com outros que continuam coerentemente a defender os ideais e objectivos de Abril.
Nos tempos que correm, neste mundo globalizado – que rima como mercantilizado – saudamos, a Maria Eduarda e eu, nesta data, e com amizade, a solidariedade humana e a frontalidade das posições do Fernando que nos encoraja a todos a não baixar os braços na busca de um mundo melhor.

Mário Ruivo
20 de Julho de 2009
***
Amigo Vieira de Sá

Não podia deixar passar este dia em que completas 95 anos sem deixar o meu testemunho de amizade e admiração por mais um aniversário, numa vida de Homem que sonhou, realizou e teve uma vida exemplar, de cidadão, dirigente, colega de trabalho e amigo.
Desde o tempo em que me foste apresentado como “chefe” do Departamento de Tecnologia e Indústrias Alimentares, onde era estagiária, que desenvolvemos uma amizade que ainda hoje perdura. Foste, sem me ter dado conta na altura, uma pessoa que pelo exemplo moldou a minha forma de estar na vida. O rigor, o sentido crítico, a insatisfação constante, o tentar fazer sempre melhor, a transparência na conduta, o não se conformar com o estabelecido, a liderança sem subserviência e sua importância na realização de projectos, os objectivos com prioridade no colectivo, o entusiasmo.
A postura de Serviço Público que imprimias ao Departamento no apoio técnico dado às Indústrias Alimentares, como se pretende actualmente, era já feito nos finais dos anos 60 com formação a quadros das empresas, apoio analítico e consultadoria, transferência tecnológica e inovação.
Tenho presente a tua sempre pronta colaboração na leitura crítica de textos e da minha tese de Doutoramento.
As horas de conversa quando nos encontramos! Conseguimos estar horas a falar sobre diversos temas deliciando-me e aprendendo com a tua vasta cultura e com a boa disposição e o sentido de humor que te é peculiar, narras factos e episódios por ti vividos, aqui ou no estrangeiro, recentes ou de há muito tempo, afirmando a tua prodigiosa memória.
Por vezes, no quotidiano vamos espaçando os contactos, até porque distamos nas nossas residências de cerca de 500 Km, mas nem por isso a amizade sofre qualquer beliscadela e muitas vezes damos connosco a pensar se o melhor da vida não será o cultivar das verdadeiras amizades!
É um privilégio ter-te como amigo. No dia dos teus 95 anos, quero associar-me ao grupo de amigos que te envia um grande abraço de Parabéns.
Conceição Martins
Vila Real 20/07/09
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Ao caro Amigo Vieira de Sá
É sempre um gosto e uma grande honra conhecer alguém que comemora o seu 95º Aniversário. Mas quando esse alguém marcou a nossa vida profissional e é nosso amigo de longa data, a honra é redobrada.
Assim, ergo neste dia simbolicamente a minha taça pelo seu Aniversário, felicitando-o por mais um ano vivido e pela sua coragem e determinação em acompanhar os desenvolvimentos do século XXI...!
A sua reacção permanente aos sinais da «nossa modernidade», sinal de que está bem atento ao que se passa no mundo, e a sua curiosidade, tão característica do seu profundo saber, fá-lo chegar ao dia de hoje felizmente com boa disposição e sentido de humor.
Faço votos que o mesmo se repita com saúde e bem-estar nos anos vindouros.
Com um grande abraço de amizade, relembrando também neste dia, com saudade, a figura ímpar de Maria Elvira.
Manuela Barbosa
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Caro Fernando Vieira de Sá,
Pede-me o amigo Luís Guerra que escreva algumas palavras para alimentar o blogue neste seu 95º aniversário. Não poderia recusar esta oportunidade de assinalar tão memorável data, embora não seja tarefa que consiga fazer com facilidade, mais habituado que estou a arranjar os textos dos outros do que a escrever os meus próprios.
Decerto haverá outros muito mais habilitados a escrever sobre o amigo Fernando. O nosso convívio não vem de há muito tempo, nem tem sido muito assíduo. Muito do nosso conhecimento começou por ser indirecto: ao paginar os seus livros, mesmo antes de nos conhecermos, fui-me apercebendo, e tornando admirador, da frontalidade do seu carácter, da sua intransigência na defesa dos seus ideais. Nos escassos — mas ricos — encontros que tivémos, pude confirmar esses traços, mas também experimentar a sua simpatia, o seu sentido de humor, a sua agradável convivialidade. Em suma, rapidamente reconheci na sua pessoa aquilo que posso identificar como mais um rico exemplo de vida e de conduta cívica. É por isso que, sempre, e sobretudo nesta data simbólica, lhe quero deixar um forte abraço de reconhecimento e de felicitações. Os meus sinceros parabéns!

Joaquim António Silva
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Ao Homem, ao Amigo e ao Camarada Fernando Vieira de Sá, um abraço de grande admiração e respeito pelo ser humano que és e pelo exemplo de vida que nos tens dado.
Parabéns, Fernando, pelo teu aniversário!
Um beijo
Bárbara [Freitas]
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Para o meu amigo Fernando
Há quem diga que «os grandes amigos se fazem na juventude» como se a amizade não pudesse crescer entre diferentes gerações. Nunca concordei. Os Amigos são absolutamente intemporais. Sobretudo quando os ideais humanistas e as causas da cultura e da liberdade nos são comuns.

Foi o livro Cartas na Mesa (2004) que me revelou a escrita de Fernando Vieira de Sá e fez nascer a vontade de o conhecer pessoalmente. Era a minha vertente de investigadora a segredar-me que o Fernando personificava uma riqueza vivencial extremamente importante para a nossa contemporaneidade. E não me enganava.

O nosso encontro aconteceria no lançamento do livro Ecos do México (11 de Novembro de 2005) na Associação 25 de Abril, numa sala a transbordar de amigos e admiradores, e a visita a sua casa passados alguns dias.

Entrar naquela casa, ali à Lapa, foi um deslumbramento que ainda hoje se mantém. Nela proliferam os livros e as obras de arte a testemunharem as mais diversificadas andanças de uma vida. Tal como pontificam as memórias dos afectos que foi semeando pelos caminhos percorridos e, sobretudo, a «presença viva» da sua companheira da longa caminhada, a sra D. Elvira, há anos desaparecida e que muito gostaria de ter conhecido.

Conhecer-te, Fernando, foi das experiências mais ricas da minha vida. Ter-te como Amigo, um privilégio de que me sinto para sempre devedora.
Uma superior inteligência e lucidez microscópica fazem de ti um ser fascinante e um jovem cujos 95 anos apenas se reflectem nas articulações que o tempo corroeu e com as quais ironizas.
Por isso te visito sempre com o maior prazer e passo horas em amenas conversas, muitas vezes num regresso ao passado que me seduz. Porque junto a ti nunca damos pelo passar das horas.

És um ser humano de excepção. Admiro a tua coragem, a tua verticalidade, a tua combatividade e o teu carácter impoluto que nortearam uma vida caldeada pelos ideais republicanos, pela luta contra a ditadura e pelas utopias que Abril nos trouxe. E em que continuamos a acreditar.

Parabéns, querido Fernando!
Júlia Coutinho

domingo, 12 de julho de 2009

ANTÓNIO MARTINS MENDES - UM GRANDE VETERINÁRIO


A fatídica notícia da morte do Prof. Doutor António Martins Mendes era aguardada a todo o momento. Uns dias antes, sem o saber, fazia-lhe a última chamada telefónica para Elvas, aonde se acolheu com sua mulher, Gina, para beneficiar da proximidade de seu filho, médico nessa cidade. Ele respondeu da cama com sílabas apagadas, mas nutridas da consciência do momento que se aproximava, pedindo-me para desligar porque as suas forças já não suportavam o esforço de qualquer audição e muito menos a voz. Despedi-me sem haver resposta, E, no meu íntimo, logo entendi que tinha ouvido talvez as últimas sílabas da sua existência.
A notícia chegou no dia 1 de Julho. Estava preparado para perder um grande amigo, um grande vulto da veterinária portuguesa, em todos os aspectos que enriquecem a vida, a sociedade e a portugalidade que tanto recebeu do seu labor. Pena é que, como em tantos casos, o aproveitamento de tanto empenho é recebido com um encolher de ombros que logo se manifesta nas dificuldades de editar a sua obra num volume, facilitando o acesso à consulta e ao estudo, aproveitando-a em toda a sua pujança de conhecimento e autoridade.
Mas, o meu sentimento alarga-se à companheira de toda a sua vida, Gina, cuja saúde é de há muito tempo da maior precariedade, E que a partir de agora tem de juntar à sua extrema debilidade o sofrimento que representa a maior solidão de todas as solidões expectáveis - a perda de quem para ela representava a maior força que se opunha à sua decrepitude, bem expressa à vista de todos.
FICA A SAUDADE PARA TODO O SEMPRE
Findava o último combate de uma batalha que fora exemplo de modéstia, perseverança e saber, títulos com cujos itens se consolidam as civilizações.
Também, e sobretudo, fica uma obra de grande peso específico científico e historiográfico, fazendo parte do legado deixado pela colonização portuguesa nem sempre norteada pelas melhores causas, mas que neste caso muito se fica a dever a Martins Mendes, destacando especialmente o profundo levantamento realizado em «Origens dos Serviços Veterinários de Angola» e em «A História do Laboratório Central de Patologia Veterinária de Angola», registando variadíssimas fontes de informação, num tempo em que não existia ou não era comum a Internet e os arquivos não primavam pela facilidade de consulta, publicados em Veterinária Técnica e na Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias. Igual contributo doou a Moçambique, onde leccionou na Faculdade de Veterinária da Universidade Eduardo Mondelane, deixando um trabalho de pesquisa bibliográfica publicado sob o título «Criação dos Serviços Pecuários de Moçambique», publicado na Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias.
Do mesmo modo, e no campo da patologia microbiana, um longo trabalho se anota sobre «A Peripneumonia Contagiosa Exsudativa dos Bovinos em Portugal», in Veterinária Técnica. Anote-se ainda «Homenagem a: Louis Pasteur (1822-1895)», por ocasião do Centenário da morte do sábio, sendo este um precioso documento de pesquisa, exigindo uma profunda análise de consulta bibliográfica. Outros trabalhos se poderiam citar. Apenas se deram exemplos.
PARA QUE TUDO ISTO CONSTE E SIRVA A CULTURA
Em minha opinião a maior homenagem substantiva à memória de Martins Mendes que se lhe pode fazer seria editar os seus escritos em volume de larga lombada para facilidade de consulta, enriquecendo a cultura portuguesa, valorizando a sua presença colonial, nem sempre encomiástica.
Martins Mendes serviu o ensino veterinário superior na cátedra da Escola Superior de Medicina Veterinária (a Casa Mãe), regressando a ela após a descolonização, deixando para trás o seu frutífero trabalho.
Os encontros que conduziram à nossa amizade começaram em Nova Lisboa, onde passei algumas vezes em estadias de semanas em tarefas de trabalho. Também em Moçambique, onde permaneci, entre outras visitas, seis meses por conta da Cooperativa dos Criadores de Gado, com a finalidade de estudar e propor acções que levassem ao melhoramento do abastecimento de leite à cidade de Lourenço Marques e ao funcionamento da Cooperativa no sector do leite, desde a produção e abastecimento domiciliário de Lourenço Marques, passando pelo transporte e processamento. Mais tarde, e com a descolonização, os meus encontros com Martins Mendes eram rotina e aí aprofundámos o nosso convívio e conversas, o que nos levou até ao fim inevitável. Há sempre um dia.
Mas... nem tudo é trabalho. Um copo em boa cavaqueira entre amigos corta a rotina e conforta a alma.



[Lx. 20.05.97 / Meu Caro Vieira de Sá / Conforme te falei envio-te as minhas últimas publicações - 5 no total. Agora vou deixar a malta respirar... eu próprio preciso também de repouso! Especial atenção merece a última, acabada de sair na Vet. Técnica. / A reunião de sábado 17 foi ótima. Bom convívio e amena cavaqueira. Bom vinho! Comida ótima e a Vossa inultrapassável hospitalidade. / Foi bom. Obrigado. Meu e da Gina. Cumprimentos nossos a tua mulher. / Um abraço amigo / do Martins Mendes]
Com este cartão de Martins Mendes, escrito há 12 anos, recordo hoje um encontro de amigos em minha casa que me cobre de saudade de um tempo em que, apesar das idades já provectas, ainda nos podíamos dar ao luxo de pensar em futuros.
Hoje, a tarefa é transmitir experiência passada. O mundo não começa com cada um, como a juventude pensa.


Fernando Vieira de Sá
***

Associo-me a esta homenagem, recordando os nossos encontros nos lançamentos dos livros de Vieira de Sá e um telefonema que me fez felicitando-me por essa inicitiva editorial. Deixo aqui, também, três citações que colhi de dois dos textos a que se refere Fernando Vieira de Sá:
«Os que me conhecem, sabem que não sou especialista em questões de Ecologia. Situo-me entre os homens comuns que se preocupam com as consequências das desigualdades extremas existentes entre os países do chamado "terceiro mundo" e as grandes potências industrializadas, e com as tragédias que resultaram da simples extensão aos trópicos das técnicas agrícolas dos países avançados. Preocupo-me também, naturalmente, com os riscos tecnológicos - o risco do ozono, o risco nuclear, o risco biotecnológico.»
[«Nota Breve: A Propósito de uma Tradução», in Revista da Ordem dos Médicos Veterinários, Dezembro de 1996]
«O problema é que os habitantes de provavelmente nove décimos do continente africano - o tropical que mais nos interessa - passa fome. Fome de "comida" e não apenas de proteínas de origem animal... O mesmo talvez se poderá dizer de vastas regiões de outros Continentes com populações igualmente carenciadas! A Natureza não ajuda e o Homem - "os Homens" - com ela colaboram, matando, destruindo, inutilizando. Em vez de sementes plantam minas... Vejo as imagens da televisão e interrogo-me, de aqui a quantos anos os habitantes do Afeganistão ou do Paquistão e de outros países terminados em "ão" serão capazes de produzirem aquilo que comem ou terão dinheiro que pague apenas o transporte dos alimentos que outros mais felizardos deitam para os caixotes do lixo?»

[«Cartas ao Editor (...), in Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias (2002) Supl. 117: 1-16]
«Insisto que é erro crasso decretar que os problemas (científicos, económicos, humanos, etc.) são os mesmos "desde o Minho a Timor" ou da Holanda à Indonésia ou de Cuba à China... Globalização sim... "ma non troppo"! Querer contrariar, corrigir ou modificar a natureza, ignorando suas leis, pode ser o fim dos globalizadores...»

[Ibidem]
Recordarei sempre a sua extraordinária simpatia e modéstia, qualidades que só as grandes inteligências e os homens bons conseguem assumir, para nada necessitando de se pôr em bicos de pés.
Luís Guerra