sábado, 18 de abril de 2009

SOCIEDADE PORTUGUESA DE CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

POR MOR DE UMA DIGNIDADE EM RISCO




NOVOS «JOVENS TURCOS»



PRECISA-SE

«Funérea campa com fragor rangeu»




é logo o que aflora à mente, soletrando com emoção a trágica lírica de Soares de Passos de seu livro Poesias (1865), ao ouvir por casualidade que a Sociedade Portuguesa de Ciências Veterinárias (SPCV) teve ordem de despejo da sua sede, ocupando uma área da antiga Escola Superior de Medicina Veterinária (desactivada) em favor do alargamento das instalações contíguas da Polícia Judiciária, tendo dois meses para empacotar os seus pertences a fim de serem armazenados num cubículo, cedido como esmola sem motejo da consciência de quem quer que seja, na nova agora Faculdade, à laia de purgatório sem data para exumação, recaindo fatidicamente em idêntica fossa de onde saíra há mais de 60 anos, jazendo então num sótão entre tabiques feitos de portas velhas do edifício em obras de acabamento e para onde fora chutada em tempos de anemia social por força da castração ideológica e cívica que muitos conheceram na pele e ficaram baptizados, o que foi a sorte, face ao que se passa na actualidade. A História repete-se. É um pouco o que dizia Brito Camacho, sempre sarcástico: «As cadeiras são as mesmas, os c.. é que variam».
Valeu o acaso de uma nova geração recém-diplomada ter sabido do atentado quando alguns desses jovens pretenderam inscrever-se sócios, como sendo um dever ético e complementar, logo despertando a obrigação de lançar um Manifesto, com fotografia do antro (só assim se acreditava) - fotografia captada por fotógrafo profissional, às escondidas e em horas mortas. O perigo era a denúncia (nunca descartável) e as consequências pidescas, que as havia em toda a parte, mas tinha-se de correr o risco. A mocidade é heróica, o que lhe dá beleza -, a delapidação dos valores morais e históricos que o casus belli espelha, apelando à consciência de classe, ao decoro, à decência, ao pudor e à impossibilidade de funcionamento e delapidação dos valorosos objectivos da instituição, iniciativa que, levando o caso para a chalaça, alguém baptizou de movimento dos «Jovens Turcos», de que fala a História Universal (Novos Otomanos, 1865), revolucionários intelectuais turcos lutando por novo espírito e Nova Ordem, outras perspectivas de vida e outra consciência de cruzada, que é tudo quanto o caso presente alveja. Em boa verdade os barões da Classe não aprovam e classificam-na de desordeira e desrespeitosa face aos egrégios vultos mais visíveis e ao catecumenato da doutrina oficial. O antro não é desrespeitoso? - pergunta-se.
Da denúncia resultou um renascer da actividade que bem pode espelhar-se nas comemorações do cinquentenário da Sociedade que se retratou no volume especial da Revista de Medicina Veterinária (Julho-Dezembro 1952, nº 342-343) [ler também F. Vieira de Sá, Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», pp. 61-64], onde entre muitas iniciativas se regista a subscrição, aberta entre veterinários, que ultrapassou todas as expectativas e que permitiu a compra de móveis para a nova sede em dependência alugada à Associação Central da Agricultura Portuguesa, no Largo do Chiado, em edifício que ocupa toda a frente do fundo do largo (2º andar) e, posteriormente, em idênticas cláusulas, na Rua D. Dinis - nº 2, ao Rato, com entrada privativa. A subscrição totalizou a quantia de 12 333$40 (cerca de 4.000 euros, para os valores de hoje, segundo tabelas do Banco de Portugal), o que para o tempo e as circunstâncias foi empresa inusitada.
Mas, só como exemplo, cita-se ainda: as receitas da Sociedade, que se saldavam em 18 contos (1937), subiram a 96 contos (1945); as despesas com a revista, no mesmo período, foram de 6 e 32 contos, respectivamente.
Não seria justo silenciar um gesto de alto significado e até inesperado, cheio de sentimentos de grande simbolismo que é possível contemplar e que se deve à memória do veterinário José Maria dos Santos [JMS], cujo testamento (cfr. em site que indicamos mais à frente) é um exemplo da sua bondade e escrupulosidade, difícil de ultrapassar em bons sentimentos. JMS foi um dos fundadores da SPMV

sendo ainda um jovem profissional que, aliás, exerceu durante escasso tempo, o que não o impediu de ficar no Quadro de Honra de Civismo da Classe só por essa iniciativa, pois casara-se com uma pequena proprietária agrícola, fazendo desse embrião uma fortuna calculada em 10.000 contos (1913) e propriedades que se estendem por uma área superior a 40.000 hectares, qualquer coisa como 400 quilómetros quadrados de terra (não se trata de latifúndios, mas de desenvolvimento produtivo: o maior olival do mundo, a maior vinha do mundo, etc. Eu próprio conheci Machados, Rio Frio, o mesmo é dizer o maior olival e a maior vinha do mundo, respectivamente.
No site que abaixo indicamos, e que recomendamos a consulta, lê-se o seu assombroso testamento, não esquecendo todos os seus parentes e colaboradores de todos os níveis. Entre estes herdeiros um deles de primeira linha de geração, que já não recordo o nome, foi quem subscreveu a maior e invulgar dádiva, justificando-a, dizendo ser uma forma de homenagear a memória do seu antepassado, numa carta que dirigiu à Sociedade. Ele, se fosse vivo, faria o mesmo, sem sombra de dúvida, afirma.


Na presente deplorável conjuntura vista por qualquer prisma, não se deveria conceber ocultar e não discutir a decisão de expulsar a Sociedade da sua casa, pois essa propriedade pertence ao Ministério da Educação e, ainda por cima, mantendo o vínculo na Veterinária que sempre serviu, quando a Judiciária está vinculada ao Ministério da Justiça, consequentemente a outro património. Nada, portanto, justificaria a anexação, como se fosse o corredor de Danzig e a sua brutal ocupação pelas tropas nazis... todos se lembram, sem saudades. No presente caso é a comodidade e o espaço desejável à Polícia que tem prioridade. À luz da razão e dos valores em causa é um atentado à lei do mais forte para atender à comodidade alheia, pois na prática a SPCV - que é Científica, não de Recreio - é que vê a sua actividade paralisada por tempo indefinido, talvez para sempre, o que significa um enxovalho à cultura, o que não se admite num país que pretenda ser civilizado e culto. Tudo isto cheira a Terceiro Mundo, a indiferença, a falta de sensibilidade. Mas a polícia já pode espanejar-se. Um grande avanço no progresso da Pátria. É notícia de TV.
Tudo isto que aqui se escreve constituiria com a maior das facilidades o peso e qualidade dos argumentos para discutir em qualquer tribuna ou praça pública. Porém, a verdade é que tudo correu na maior indiferença, ou, pelo menos, silêncio e mansidão, o que resultou num vexame de um enterro culminando na vala comum, como produto fora do período de validade.
Teria sido mais nobre a investida de quaisquer novos «Jovens Turcos». Talvez os resultados tivessem sido diferentes. E que não fossem, pelo menos era um julgamento público, a verdade sabida para quem a má consciência não gosta e lhe chama arruaça, pé rapado e outros mimos.
Não culpo pessoas, que passam. O que fica é que é emblemático - a entidade -, neste caso a Universidade, pendor de Cultura, pólen da Ciência, à qual se exige alargar a cátedra ao palco da vida e mais sensibilidade.
A profissão veterinária sem uma vertente de intervenção científica associativa actuante, não passa de uma profissão de alveitar. É isso que se quer? Há que meditar. E, para isso, é preciso honorificar as suas instituições. Não se confunda Sociedade Científica com Ordem ou Sindicato. São coisas diferentes, não são intersubstituíveis. A SPCV é a cátedra superior de respeitabilidade que a Classe exige e a que tem direito.
Justificar-se-ia um amplo debate de toda a Classe sobre esta delicada situação: a SPCV encaixotada sine die. Que futuro? Há que reflectir. Há que acordar. Ninguém o faz por nós.

F. Vieira de Sá
Lisboa, Abril de 2009
Agradecemos ao Eng. Ruy Paiva e Pona a preciosa colaboração que prestou ao indicar-nos o texto que o leitor pode encontrara no link acima referido.

sábado, 14 de março de 2009

BERNARDINO MACHADO

Daqui saudamos vivamente o aparecimento do blogue «Bernardino Machado», da autoria de seu neto, o nosso ilustre e grande Amigo Dr. Manuel Machado Sá Marques, prefaciador do livro Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos». Nesta obra, Fernando Vieira de Sá, nas pp. 135 e ss., fala-nos emocionadamente do encontro e da «conversa inesquecível» que manteve, em Mantelães, com o Presidente Bernardino Machado.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

«OPERAÇÃO DULCINEIA» - O ASSALTO AO «SANTA MARIA». CATORZE DIAS QUE ABALARAM SALAZAR E SURPREENDERAM O MUNDO


O assalto ao Santa Maria, em Janeiro de 1961, visto por Fernando Vieira de Sá a partir do México, é um dos capítulos incontornáveis do livro Ecos do México - Da História e da Memória, pp. 195-218, cuja leitura hoje sugerimos. Deixamos aqui uma pequena citação (p. 203) a propósito: «Nesse dia 24 de Janeiro de 1961 toda a imprensa mundial sacudiu o mundo com a notícia de oito colunas de um acontecimento tão inédito quanto insólito: o assalto em alto-mar a um transatlântico quando este sulcava majestoso as tíbias e plácidas águas antilhanas a caminho do seu destino: Flórida e depois Lisboa. Mais inédito e mais insólito ainda, por esse feito já ter sido consumado ao alvorecer da madrugada de 22 de Janeiro, só se tornando conhecido, logo à escala mundial e de chofre, na manhã de 24.
O tal transatlântico era, nem mais nem menos, o Santa Maria, de bandeira portuguesa, a "menina dos olhos" da frota mercante de Portugal.»

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

MARIA ELVIRA [1917-1999]

No dia 5 de Fevereiro de 1917, faz hoje 92 anos, nasceu em Lisboa Maria Elvira Andrade Mendes de Magalhães. Para assinalar a data, aqui deixamos as palavras de Fernando Vieira de Sá a pp. 42-43 de Viagem ao Correr da Pena e o registo fotográfico da singela homenagem que se fez nas pp. 48 e 49 dessa mesma obra.

«A minha sorte, porém, vinha sendo construída desde há muito mais tempo e penso muitas vezes: o que teria sido eu, ou o meu percurso, sem essa incomparável companheira que foi de todas as horas, cuja influência tão delicada e sábia não se fazia sentir, mas definitivamente actuava sempre com inteligência, bom-senso, humanismo, bondade e concórdia? Todos os que a conheceram e com ela conviveram nas mais diversas oportunidades a admiravam [...]. Quando, por excepção, [ocorria] algum daqueles vulgares atritos susceptíveis de criar cenários ou relacionamentos menos claros com as pessoas, Maria Elvira superava-os, voando muito mais alto, mostrando o seu distanciamento com a maior discrição, mas também com o seu grande carácter de mulher sensível, sem nunca deixar de manifestar a sua peremptória personalidade. A sua presença era, simultaneamente, a distinção de mãos dadas com a afabilidade. Renegava a idolatria. Não sei o que seria, mas não seria eu, nem nada de melhor. Se hoje me sinto realizado com aquilo que pretendi fazer nesta viagem pela existência a ela e só a ela o devo.»

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

JURAMENTO DE HIPÓCRATES

Dando seguimento às palavras de ontem sobre o Dr. Monteiro Baptista, publicamos hoje o texto de Fernando Vieira de Sá que faz parte (pp. 37-42) do livro Homenagem a Dr. Luís Manuel Monteiro Baptista - Dos seus amigos e admiradores, oferecido por ocasião do seu 75º aniversário, no dia 3 de Fevereiro de 2001. Reproduzimos ainda o retrato que João Abel Manta realizou para a circunstância daquele aniversário e que abre o referido livro de homenagem.

«João Abel Manta; retrato original do Dr. Monteiro Baptista, realizado para a circunstância do seu 75.º aniversário»

«Não sei se alguma vez - ou, pelo menos, na Era Moderna - o Juramento de Hipócrates constituiu (ou constitui) norma de acto público obrigatório para que o candidato ao exercício profissional da medicina a pratique de pleno direito, empenhando a sua honra, probidade, consciência e outros meritórios atributos; ou se, pelo contrário, tais requisitos não passam de uma alegoria para -não obstante o cerimonial normativo não fazer presença física - chamar, mesmo assim, a atenção à implícita obrigatoriedade de cumprir as prerrogativas para as quais o mesmo faz apelo.

Para mim, as duas hipóteses têm o mesmo valor:

uma, é espectáculo; a outra é um estado de espírito.

A primeira, amplamente desacreditada; a segunda, expressa pela evidência - a prática em si mesma, o que significa que nenhuma delas se torna necessária, já que a consciência, a honra, a probidade, etc., etc., não surgem nem se alteram na sua génese por simples jura, pois que, se não houver a dita consciência, a dita honra, a dita probidade à partida - intrinsecamente existentes nos cromossomas - jamais existirão depois. E o espectáculo muito menos o consegue.

Veja-se, por exemplo, as múltiplas vezes a que se assiste nos écrans da TV a juramentos de honra com a mão solenemente espalmada sobre a Bíblia, sobre o Corão, sobre qualquer Constituição de Estado, ou até contra o peito em gesto de entrega dadivosa dos mais nobres sentimentos que trespassam o coração e a mente, e aí, logo aí, já os actores se estão traindo sem pejo, mesmo sabendo que todos sabem do perjúrio. E quem o faz? Não é nenhum anónimo cidadão. Não, são altos dignitários que até se julgam donos do Mundo e juízes em causa alheia.

Apesar de tudo, não se pode jamais ignorar o Juramento de Hipócrates como ponto de referência, não só para médicos, como para todos aqueles a que muita da doutrina nele contida é aplicável na conduta do Homem perante a Sociedade e a sua própria consciência.

Mas, quem foi Hipócrates? Cognominado «O Grande» por Platão, "O Divino" por Apolónio, "O Admirável Criador da Beleza" por Galeno, Hipócrates foi o primeiro construtor e arquitecto da medicina como ciência e como prática, segundo o pensamento racionalista. Mas, também foi um humanista de grande vulto, um observador atento da natureza humana, um "viandante colhendo experiência e sabedoria", um investigador sobre as causas próximas e remotas dos males expressos por sinais discrásicos do corpo, relacionando-os com o ambiente e os elementos exteriores, o que significa dizer ter descoberto a "Ciência do diagnóstico", ou seja, a arte, a intuição, a inteligência e a mais importante e difícil de toda a prática da medicina, pois sem um diagnóstico seguro, a cura é aleatória e, se errado ou tardio for feito, poderá ser fatal e a medicação será sempre sintomatológica.

Este intróito, por descabido que pareça, pois dá a impressão de querer "ensinar o padre-nosso ao vigário" é, no entanto, essencial para poder caracterizar Monteiro Baptista, com mais correcto abrangimento e precisa dimensão, colocando-o na órbita de um seu predecessor, não por juramento, mas por sua própria essência. Este procedimento por ser eu a adoptá-lo pode não merecer o crédito de muitos críticos. Contudo, tenho a convicção que dificilmente ele será contestado por toda a multitude de pacientes que Monteiro Baptista atendeu e tratou, muitos deles livrando de sofrimentos e sombrias - por raras ou complexas - patologias, algumas delas bem mais próximas da morte, do que da vida. Esses, sim, me apoiarão as vezes que forem precisas. Escuso de perguntar-lhes. Sei.

Terá Monteiro Baptista feito, ou apenas lido em voz baixa, o Juramento de Hipócrates? Não sei, nem isso é relevante. O que é importante afirmar sem receio de desmentido, é que no citado juramento, não há uma única ideia, uma única acção, um único conselho, uma única expressão humanística que Monteiro Baptista não tenha praticado, sem nisso ter empenhado toda a sua diligência, abnegação e espontaneidade que só a natureza íntima do seu carácter pode garantir sem recurso a qualquer jura.

Como tal, o histórico e paradigmático juramento que é, em última análise, uma peça de autêntica apelação à integridade moral, cívica, profissional e irrepreensibilidade de obediência aos códigos éticos que regulamentam as suas práticas, representam para Monteiro Baptista, sua categórica natureza de homem e cidadão, plasmada numa modéstia comovedora e reluzente de uma grandeza cristalina.

Em conclusão: Hipócrates "O Grande" ou "O Admirável", como foi chamado, foi o iniciador da prática científica da medicina e o descobridor da arma mais valiosa do seu exercício - o diagnóstico - como método de pesquisa e avaliação das causas remotas da doença; o humanista ao serviço da dor e da vida; e o renovador da mentalidade corrente do seu tempo, rejeitando as crenças e magias como meios de cura, criando e desenvolvendo o método científico e dialéctico, fundando assim as bases da medicina moderna. Pela mesma época Esculápio, chamado "o patrono da medicina" ainda se fazia acompanhar da serpente tida como zeladora da saúde, tal como hoje ainda se acendem velas aos santos pedindo curas ou agradecendo-as aos deuses, tendo passado, entretanto, 2500 anos.

A "decalage" no tempo que separa Hipócrates dos nossos dias, não permite comparações para além de meras consensualidades de princípios, lógicas e racionalismo que no diagnóstico atinge a sua maior marca, fundamentos que, por si só, justificam que se possa concluir:

SE HIPÓCRATES FOI "O GRANDE" MONTEIRO BAPTISTA

É O SEU VIVO E ACABADO EXEMPLO

Não quero terminar este depoimento que escrevi por constrangimento, criado pela ausência, de não manifestar exactamente como sinto este solene momento de consagração de um homem que, além de tudo, é um amigo, benesse que fiquei devendo ao 25 de Abril que nos aproximou e irmanou nos mesmos ideais e que, ao contrário de outras conquistas que a Revolução nos trouxe, esta foi irreversível.

Nesta sequência é imperativo da consciência alargar esta homenagem a outra figura que é parte integrante e conteúdo intangível da pessoa em foco, sobretudo levando em linha de conta de querermos festejar o seu septuagésimo quinto aniversário de nascimento. Refiro-me à Dra. Georgette Banet, sua mulher e também distinta médica.

Para além disso (agora em cenário de maior irmandade), Georgette é, em todos os vectores da sua personalidade, o prolongamento substantivo de Luís Manuel. E, neste contexto, gozar a delícia do convívio que sempre é oferecido no seu lar a todos os amigos que a ele se acolhem ao calor de uma hospitalidade sem rebuço, e uma camaradagem de fraterna comunhão de pensamento é um privilégio, e, desde logo, uma reconfortante paragem no tempo e um rejuvenescedor alento. E Georgette, na sua nata delicadeza feminina com fímbrias da "La Douce France", donde descende, é sem dúvida alguma a referência mais importante a considerar e enaltecer quando se palpita ao redor da vida do

Dr. Luís Manuel Monteiro Baptista

que abraço pelo grande dia 3 de Fevereiro de 2001

e ambos felicito.»

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

MONTEIRO BAPTISTA [Lisboa, 3-II-1926; Lisboa, 16-V-2007]

Faz hoje oito anos, um grupo de amigos e admiradores do Doutor Luís Manuel Monteiro Baptista festejava com alegria e fraternidade os seus 75 anos, reunindo num jantar a que não faltaram todos os ingredientes de uma festa de alto sentimento de admiração e gratidão que se transmudam em respeito e sincera expressão do muito que lhe ficaram devendo de dedicação pelos seus pacientes que logo se convertia em amizade respeitosa e sentimento de confiança quando o sentiam à cabeceira do leito, nem que fosse alta noite, deixando por vezes de sair de Lisboa no fim-de-semana quando o estado de algum doente o preocupava, podendo necessitar de alguma urgência.

Não é fácil esquecer ou minimizar este grande vulto da medicina de tão altos sentimentos humanos com que honrou uma profissão que tanto enobrece quem assim a pratica, o que me inspirou a escrever o depoimento que fez parte de um volume com depoimentos de outras presenças nesse jantar.

Este apontamento tem por fim reavivar em todos nós a sua memória para que se mantenha forte a chama do seu exemplo e para que os vindouros também se possam enriquecer com tão altos exemplos.

Estou seguro que aqueles amigos, muitos deles colegas de profissão, participaram no jantar e traduziram o seu sentimento na mensagem fixada no livro de homenagem publicado e que todos guardam, estão sentindo também tudo quanto aqui se escreveu, o que me conforta. «Amigos do meu amigo, meus amigos são», assim diz o ditado. E assim sinto neste momento de saudade. A todos abraço no mesmo crer com que sentimos a vida, a existência, a paz universal.

Fernando Vieira de Sá

Lisboa, 3 de Fevereiro de 2009

domingo, 1 de fevereiro de 2009

A «NAU PORTUGAL»

A história da construção da Nau Portugal para a Exposição do Mundo Português [1940], sob projecto de Quirino da Fonseca, do desastre ocorrido no dia do bota-abaixo, presenciado por Fernando Vieira de Sá, Maria Elvira e um grupo de amigos, e do derradeiro golpe de misericórdia dado pelo ciclone de Fevereiro de 1941, é relatada nas pp. 138-145 do livro Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos» e é, nas palavras do autor, «o fac-símile das enganosas políticas que têm levado Portugal ao último grau de desenvolvimento dos países da Europa e muitos outros.» Uma leitura, ou releitura, que se aconselha.

sábado, 31 de janeiro de 2009

RECORDANDO «LISBOA EM CAMISA», UM COMENTÁRIO OPORTUNO A PROPÓSITO DO DESENRASCANÇO NACIONAL

Recebemos para publicação no blogue mais um texto do incansável e muito atento Vieira de Sá, desta vez em torno do tema do, genuinamente nacional, desenrascanço. Ocasião também para recordar um dos seus livros, a que vale sempre a pena regressar, O Leite em Lisboa - História do Seu Abastecimento, editado em 1991, e para darmos uma espreitadela a um excerto de uma carta do Padre António Vieira e à deliciosa história humorística da cabra que um lisboeta instalou nas águas-furtadas de um prédio da baixa pombalina contada no Lisboa em Camisa, de Gervásio Lobato. Ocasião sobretudo para reflectir sobre os eternos problemas, de ontem e de hoje, que afectam a Cousa Pública nacional.
Aproveitamos para renovar o pedido de intervenção a todos quantos, com os seus comentários, queiram participar activamente neste blogue. Ficamos à espera e, desde já, muito agradecidos a todos os que aqui venham partilhar reflexões. OBRIGADO.


Foto das pp. 170 e 171 de Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», onde se refere o livro O Leite em Lisboa - História do Seu Abastecimento.

A propósito de um caricato episódio que relato em posfácio do meu livro O Leite em Lisboa - História do Seu Abastecimento [Lisboa, Clássica Editora, 1991], que se ocupa da história do abastecimento de leite à cidade, e onde se faz a resenha de uma longa lista de diplomas oficiais e resoluções da Câmara Municipal de Lisboa, cobrindo um período que vem desde 1830 a 1990, esbarra-se com um quadro metendo altas entidades oficiais e universitárias, talvez gerador de incredulidade se não fosse confirmado tim-tim por tim-tim documentalmente. Não sendo assim, poder-se-ia pensar tratar-se de plágio de Gervásio Lobato, comediógrafo e evocador dos costumes lisboetas, em que se destaca o episódio humorístico relatado no seu livro Lisboa em Camisa (a sua obra, de 1894, mais reeditada), onde a dado passo um lisboeta é forçado a comprar uma cabra, levando-a para as águas-furtadas do prédio onde vivia, na baixa pombalina. E para que o animal não estranhasse cobriu o chão com uma alfombra verde a sugerir um relvado. Já nesse tempo se lutava contra a precariedade na procura de leite, sendo o de cabra o mais consumido.

Passaram entretanto 120 anos e, contudo, em termos de desenrascanço - que é o que está em causa -, embora dentro de outro contexto mais complexo, implicando autoridades oficiais e académicas, inspirado no título de Gervásio Lobato, e embora não se trate de um livro mas tão-somente de um apontamento, lembrei-me de lhe dar o título de Lisboa em Tanga, usando a imagem que reflecte a penúria dos tempos, o que aliás não se trata de uma invenção minha, pois um Primeiro Ministro deste reino, há alguns anos, usou essa indumentária como vestimenta adequada aos habitantes de Portugal, e que eu agora adequo à capital denunciando um quadro verídico descrito em posfácio a que dei o nome de «Cesse tudo quanto a musa antiga canta».

Todo este intróito, que me pareceu necessário, vem justificar a justeza de um comentário feito pelo Padre António Vieira numa carta dirigida a Duarte Ribeiro de Macedo (diplomata e escritor, 1618-1680), datada de 5 de Setembro de 1678, que reza assim: «De resto, os portugueses não são apenas brandos no castigo dos crimes e delitos. São também excessivamente brandos na execução das leis que se elaboram, mas poucas as que se cumprem, ou por falta de persistência, ou por espírito de favoritismo. Os portugueses fazem quase sempre política pessoal. Querem Deus para si e o Diabo para os outros. Às vezes o mesmo indivíduo, que ontem aprovava uma lei, já hoje a repudia e não lhe obedece, porque ela o atinge.»

Já lá vão trezentos anos. Temos todos os recordes de conservadorismo... recorde-se BOTAS.

Todos estes fenómenos são conhecidos. Actualmente tudo se aperfeiçoou teoricamente, legislando-se para haver um Tribunal Constitucional para analisar os conteúdos legais no sentido da sua constitucionalidade.

A verdade é que, com uma frequência crónica, e porque não é obrigatória a análise prévia sobre a constitucionalidade dos textos, às tantas todos discutem a constitucionalidade do preceito. E só por exaustão é que se recorre ao parecer idóneo em sede própria (Tribunal Constitucional). Mas também pode acontecer o assunto ser resolvido a favor do mais forte, mais importante, mais altivo e pretensioso, e ninguém fala em Tribunal Constitucional, porque cada um quer ter razão... e ponto final. E, por vezes, o erro vem logo desde o alvor do processo que, em vez de começar pela consulta em sede própria, decide de cima do seu púlpito que, nesse caso, é como se fosse o tribunal. Tudo ao arrepio da Lei.

Conclusão: 1º - estamos como em 1678 por direito consuetudinário; 2º - a maior aptidão do governante ou dirigente da Cousa Pública é o desenrascanço. Escuso-me a dar exemplos, mas que os há, há.

Em Portugal, tal como a cabra de Lisboa em Camisa, pasta-se numa alcatifa verde já bastante rapada pelo pisoteio do íncola: o Zé Povinho, o das Caldas de Rafael.

Fernando Vieira de Sá

Lisboa, Janeiro de 2009

domingo, 25 de janeiro de 2009

PODER, AMBIÇÃO E GANÂNCIA

«A cegueira do poder e da ambição e ganância é outra prerrogativa do homem "racional" que os irracionais de quatro patas, de asas ou barbatanas, não possuem. Não inventaram a pólvora que tanto orgulho veio trazer ao homem. Mas, em contrapartida, não destruíram o planeta como o tal "inteligente" está fazendo com toda a força e brutalidade de que nenhum irracional é capaz.»
Fernando Vieira de Sá, Viagem ao Correr da Pena, p. 31.

domingo, 18 de janeiro de 2009

CONTRA UM NOVO HINO À IGNORÂNCIA

Como resposta a um artigo de opinião publicado no suplemento «Visão História/Cuba - 50 Anos de Revolução» [nº3/4-XII-2008], da revista Visão, recebemos o seguinte texto de reacção e esclarecimento da autoria de Fernando Vieira de Sá, desfazendo a confusão, nada ingénua, que o autor do artigo estabelece entre os termos «assassino» e «guerrilheiro».

Soube por um qualquer órgão de comunicação que uma próxima edição do suplemento «Visão História», da revista Visão, seria dedicado a Cuba, necessariamente à sua revolução que, em 1 de Janeiro de 2009, completou 5o anos de idade, continuando a alimentar paixões, tanto no sentido heróico e patriótico, como no repúdio da ameaça à ordem e à paz social mantida por gente credenciada para manter a região caribeña conformada com a história e dependências que lhe calharam em sorte; e, com isso, garantindo os privilégios do vizinho acautelados. Perante este anúncio, e interessado pelo assunto, já que acompanhei a revolução desde os seus primeiros dias, igual a todos os que gostam de sentir-se cidadãos do mundo, mas também, mais tarde, por questões relacionadas com problemas que tinham que ver com algum auxílio que eu poderia proporcionar ao desenvolvimento da produção leiteira do país, na senda da revolução agrária e no âmbito da minha especialização em leitaria tropical (ver, neste blogue, as etiquetas «Lechería Tropical», «Cuba», «Ramón Castro»), logo acorri ao ponto de venda dos jornais, encomendando o suplemento da revista que saiu em 4-XII-2008, pagando 4,90 €, nada barato.
Chegado o dia D, prantei-me frente ao quiosque e, mesmo ali, por azar meu, abri o suplemento da revista pela folha final e deparei com um artigo de opinião com uma fotografia do autor, José Ribeiro e Castro, no canto superior esquerdo. De chofre, salta-me à vista esta chamada de atenção para o alvo de estimação seleccionado, qual comprimido para engolir ao pequeno almoço:

«CUSTA ACREDITAR
NA EVOLUÇÃO
DE UM REGIME QUE
TEM COMO ÍCONE
DE EXPORTAÇÃO
UM ASSASSINO:
"CHE" GUEVARA»

Agora sou eu e, certamente, muita gente a quem custa a acreditar que uma declaração deste teor possa ser proferida por alguém minimamente instruído que, desde logo, aponta para um analfabetismo visceral de quem se apresta a botar loas em questões complexas, quando ignora canhestramente os significados de «assassino» e «guerrilheiro» (todos sabem ter sido Che Guevara um guerrilheiro), que todos os dicionários definem como sendo antinómicos, com cargas morais e objectivos opostos, que não são susceptíveis de sobreposição. Só uma bacorada saída de um ignorante poderia escrever o que se lê em letras gordas neste quadradinho de prosa que acaba por se converter em diploma de inscícia do indivíduo que o escreveu. Mas, escrevendo-o, ofende o idioma (por chocarreado), ofende a própria revista, retirando-lhe probidade e decoro, cujo revisor talvez tivesse confundido «liberdade de expressão» com «ignorância», suporte de uma libertinagem que fere a verdade exigível por qualquer leitor respeitoso.
Assim, o autor prestou um mau serviço ao seu partido (assunto interno) e à Instrução Primária Nacional, que aqui se manifesta canhestramente. E foi uma má companhia para os restantes colaboradores. Cada um balizará os efeitos, de acordo consigo próprio.
É este o meu desapontamento, tratando-se da Visão onde, neste suplemento dedicado ao cinquentenário da revolução cubana, escrevem pessoas que mereceriam melhor companhia, pelo menos maior decência e alfabetização.
Só a possibilidade deste esclarecimento público, oferecido de bandeja, paga o custo da revista.

Fernando Vieira de Sá
Janeiro de 2009

sábado, 20 de dezembro de 2008

BOAS FESTAS 2008-2009

Foto de Magaly Sala-Skup

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

VICTORIO SALA TOLO [BONANZA, 14/II/1892 - MONTREAL, 17/I/1983]

Acabámos de receber um texto muito comovente de Magaly Sala-Skup, filha de D. Victorio Sala, um grande amigo que Vieira de Sá conheceu no México e de quem nos fala em Viagem ao Correr da Pena (pp. 396 e ss.). Trata-se de alguém que foi um elemento essencial para a história do livro Lechería Tropical. Sem a sageza de D. Victorio Sala, o livro não teria sido editado (fora, entretanto, considerado «dispensável» pelas entidades portuguesas contactadas para a sua eventual edição no nosso país), não conheceria a extraordinária recepção em meios universitários da América Latina, nem aportaria a Cuba em formato de edição revolucionária.
Ilustramos o texto com fotografias da família Sala que a amabilidade de Magaly Sala-Skup também nos fez chegar.

Que belo testemunho este! Muito, muito obrigado, Magaly.

Victorio Sala Tolo nació el 14 de febrero de 1892 en Bonanza, un pueblo de los Pirineos, ubicado entre Cataluña, Aragón y Francia. Su sed de cambio y de justicia social se despertó desde muy joven. A los 15 años tuvo que salir de España por actividades anti-monárquicas! Profesor de formación, Victorio Sala dirigió durante muchos años una casa editorial en Barcelona, su ciudad de adopción, donde participó a la creación de sindicatos y partidos políticos de izquierda y luchó por la República, que defendió con toda su alma durante la Guerra Civil. Ocupó puestos de gran confianza en el Gobierno de Negrín, y jugó un notable papel en la lucha contra las fuerzas franquistas. Defendió Barcelona hasta el último momento, cuando tuvo que huir con sus hombres y la que fue su compañera de toda la vida, Antía Culebra.
Atravesó la frontera a pie, como tantos miles tuvieron que hacerlo, después de haber rechazado la oferta, por el puesto que ocupaba, de sacarlo de España en avión. Quiso compartir su destino con sus compañeros de lucha. Al llegar a Francia, lo aprehendieron los franceses y lo metieron a un campo de concentración en el Sur de Francia, cerca de Perpiñán, de donde logró escaparse gracias a la ayuda de campesinos franceses vecinos del campo. Embarcó hacia el exilio, a México, junto con Antía, en el barco Sinaya, nave que estuvo a punto de naufragar varias veces. En México, todos los refugiados españoles fueron recibidos con gran cariño y solidaridad, cosa que jamás olvidará, otorgándoles de inmediato la nacionalidad mexicana. Junto con varios otros intelectuales, fundó una casa editorial, Ediapasa, en México que fracasó cuando estalló la Segunda Guerra Mundial. A partir de ese momento, vivió el recorrido de tantos miles y miles de refugiados en el mundo, tratando de sobrevivir como fuera. Victorio se descubrió entonces talentos de cocinero (el que jamás había cocinado) y abrió un restaurante en la calle Melchor Ocampo del D.F.
Un restaurante que por la excelencia de su comida y por la estatura humana e intelectual de Victorio y Antía se volvió un lugar de encuentro de grandes intelectuales que soñaban de un mundo mejor. Entre ellos el pintor mexicano Gironella, la esposa del muralista Siqueiros que venía a buscar regularmente comida para llevarle a su esposo que en esos momentos se encontraba en la cárcel, el escritor Gabriel García Márquez quien leía a sus amigos partes de su Cien años de soledad y el veterinario portugués Fernando Vieira de Sá y su esposa Maria Elvira, con quienes se desarrolló una entrañable amistad.
Victorio Sala Tolo, fue conocido no sólo por su lucha y su cocina pero también por su gran integridad, honestidad, generosidad y respeto del ser humano.

[Magaly Sala-Skup, 19-XII-2008]

sábado, 13 de dezembro de 2008

A «BATALHA DE INGLATERRA»


Maria Elvira e Fernando Vieira de Sá
Londres, Trafalgar Square, 13-XII-1942, faz hoje precisamente 66 anos.
Foto de Fernando Pessa

«A nossa "Batalha de Inglaterra", foi ganha sem lugar a dúvidas. Todos os objectivos foram conquistados. A vitória foi nossa e só nossa. (...) Foi, na realidade, dir-se-ia, uma guerra de trincheiras, acochados atrás do perigo, cavando diariamente a lura que nos levaria a cumprir a estratégia deliberadamente planeada para a posse dos direitos que também nos pertenciam (...).»

F. Vieira de Sá, Viagem ao Correr da Pena, cit., p. 43.
Sobre a experiência a dois, em plena II Guerra Mundial, em Inglaterra ver Viagem ao Correr da Pena, nomeadamente o «Prefácio de Coisa Nenhuma», p. 15 e ss. Na p.43 há uma fotografia, no mesmo local e na mesma data, onde estão outros amigos, entre os quais Fernando Pessa.

sábado, 6 de dezembro de 2008

CONFISSÃO E CONFIDÊNCIA

O meu livro Autópsia a Um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares, dedicado aos trabalhadores do Estado não foi bem olhado, se é que os dirigentes de qualquer grau conhecedores, lho mostraram, potenciando as angústias que se soltam nas avenidas, exigindo os seus mais intrínsecos direitos. Às vezes falta qualquer coisa, quiçá convicção, para que se leve os afectados e responsáveis a esquadrinhar as razões (autópsia) das dores das maleitas, mais do que o boiar à tona da água. Eu sei que os tempos são de recessão e o dinheiro não dá para tudo, e é preciso criar prioridades, como sejam bandeiras e cartazes, essas coisas que se colam nas paredes, que se lêem depressa e não se fale mais nisso... missão cumprida. No entanto, não está fora de questão a necessidade de Estudar (com letra grande) as profundezas dos problemas, e que não se pense que tais estudos são só para os caturras desprovidos de sentido reivindicativo, mas também - e sobretudo - para os porta-bandeira e «figuras de proa», qual caravela seiscentista, com as velas ao léu para que todos as vejam e cumprimentem.
Não quero de modo algum impingir o livro a quem quer que seja, e nunca me atreveria a publicá-lo sem ter uma opinião sobre o seu interesse, o que me foi brindado com generosas palavras pela pena de um destacado parlamentar e militante sindicalista, fazendo, inclusivamente, a apresentação do trabalho que pode ser lida neste blogue e que tem todo o meu reconhecimento. O livro expressa uma ampla experiência de 20 anos discutida em todos os aspectos do topo à base da hierarquia. Alguém já fez igual? Seria de pensar antes de arquivar. Somos o que somos, mas é preciso ser-se mais. Sem ler e investigar não se vai lá.
Eu tenho pensado muito neste fenómeno (este mesmo da autópsia) procurando razões lógicas para a enigmática defecção observada de um bater de porta.
Alea jacta est - os dados estão lançados. Por erro pus sempre o álibi do lado dos destinatários e presumíveis motores das respectivas organizações, absolvendo o autor (eu) da indiferença dos responsáveis e aderentes do sector a quem o livro foi dedicado, não esquecendo o seu anúncio na Internet. O pensar é sempre um bom sistema de procurar a verdade. Pensar é investir. De qualquer modo, um destes dias em que se acorda com o raciocínio mais despegado de convicções preconcebidas, veio-me de repente um arejo de racionalidade, caindo instantaneamente de borco numa interpretação do fenómeno que aqui estou comentando. Outra verdade.
ESTA A CONFISSÃO. AGORA A CONFIDÊNCIA
A confidência só se lê na Internet quando se quer ler o que lá se procura, o que dá proveito, o que se quer encontrar, daí a segurança da confidencialidade da seguinte declaração que fica aqui só entre amigos interessados na consulta deste blogue. Pensemos: aqui para nós, os da «velha guarda», o verdadeiro culpado deste desinteresse aparente ou real por parte dos sindicalistas, sindicalizados e funcionários públicos a quem dediquei o trabalho, mas que até hoje, parece, não souberam do caso por falta de consulta da Internet. O responsável, repito, fui eu. Com todas as letras: EU.
Cá vai: a minha falta de psicologia da comunicação verbal e escrita ao escolher como título para o livro a prosaica palavra «autópsia», escrita sobre um fundo de linhas esfumadas num cinzento de luto aliviado, foi fatal. Metia-se pelos olhos dentro. Mas, não aconteceu. Tudo foi como se nada se tivesse passado. As consciências esqueceram e estão com Deus misericordioso, que tudo desculpa. Eu não queria acreditar, quando esgotados os pressupostos, aconteceu abrir-se o escaninho da caixa craniana e, num golpe de asa, surgiu num momento desfocado fora de horas, filosofando sobre tantas que nos alimentam a vida e nos ensinam, embora nem todas confortáveis ao espírito.
Na verdade não lembra a ninguém metaforizar com palavra de tão mau gosto (autópsia) e, ainda por cima, dirigida a uma população martirizada e supersticiosa por tanto desabamento de infortúnios que vêm caindo sobre os seus salários e garantias usando a tal palavra demoníaca.
Dêem-se as voltas que se quiser. Autópsia, seja ela ao Papa, a um camaleão ou a um Serviço Público, cheira sempre a morgue, a cadáver, a mesa de dissecação anatómica, a tripas ao léu, a mau cheiro. O título certo, apelativo, que deveria ter sido sugerido por uma empresa especializada em marketing seria (ou é) qualquer ideia que se abra à vida, que seja futuro, amor. Por exemplo, Afrodite...


OS SEGREDOS DE AFRODITE
SONHOS E PESADELOS DA FUNÇÃO PÚBLICA
Título e subtítulo sugerem, logo em primeira análise, a dupla noção de Beleza da Verdade Nua e Crua e Amor ao Trabalho, muito pouco reconhecido. Querendo ir mais longe com palavras derivadas, encontrar-se-ão decerto outros estímulos que não são para desperdiçar. Afrodi é a raiz.

Ilustração de A. Calbet

Ilustrando, esta imagem sexy enchendo a capa com a gravura da deusa grega do Amor, Afrodite, fazendo por si só passar a mensagem escaldante de um alto espírito de verdade, que só se cumpre com o amor puro de uma deusa da Antiguidade Grega.

Tudo isto fica aqui em segredo. Não desejo interromper outros silêncios, esses por carência de fair play.

Fernando Vieira de Sá
Lisboa, 6 de Dezembro de 2008

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O REINO DA ESTUPIDEZ - II

Como complemento dos textos anteriores, sobre as PME, reproduzimos o texto, também da lavra de Fernando Vieira de Sá, inserto na contracapa do livro O Reino da Estupidez nos Caminhos da Fome - Memória de tempos difíceis, cit.
«Trazer para a ribalta editorial o acérvulo que preenche a terceira parte deste livro [Memória (textos de imprensa, 1946-89)] - por cuja importância e valor só os factos respondem e as consciências ponderam - significa o dever do avivar dessa memória para a confrontar com as realidades entretanto ocorridas em Portugal e no Mundo no campo das ideias, das ideologias e das instituições, com um duplo fim: contrariar a tendência instalada de esquecer ou deturpar factos de interesse crucial para a compreensão do panorama actual; procurar uma racionalidade de sinal positivo ou denúncia de conduta perversa para aquela resposta tão almejada e cada vez mais tão distante quanto urgente.
O fio condutor desta trajectória é a complexa Indústria Alimentar, cuja génesis mergulha na agricultura e o terminus na distribuição dos produtos e, por extensão, na fome, meta até agora desprezível nos sistemas que a provocam e ignoram, mas dela se nutrem.
É à volta de tão abrangente e sinuoso itinerário que as questões de ordem científica, técnica, económica, política e social são abordadas e discutidas, tendo por mote os alimentos e paradigma as PME, vítimas dos modelos macroeconómicos em vigor, embora a retórica oficial lhes cante hosanas. Destes aspectos se ocupam as primeira [Alienações e desvios no estabelecimento de estruturas de desenvolvimento na produção agro-alimentar] e segunda [Reflexões políticas para a compreensão de certos aspectos económicos e sociais da actualidade] partes do livro, funcionando os Apêndices [I. Indústria leiteira e administração pombalina; II. O mirabolante sonho do Rei Formiga. Uma fábula] como ilustrações, a "água-forte", de cenários avulsos da cultura e estadismo lusitanos.»

O REINO DA ESTUPIDEZ - I

A referência, no texto anterior, ao livro O Reino da Estupidez nos Caminhos da Fome - Memória de tempos difíceis, Edições Cosmos, 1996, fez-nos recordar o início de uma grande Amizade que estabelecemos, então como editor daquela importante chancela editorial, com Fernando Vieira de Sá e trouxe-nos também à memória as circunstâncias que rodearam a decisão de publicar o Prefácio de Eduardo Moradas Ferreira, entretanto falecido. Por isso, e em jeito de homenagem ao prefaciador, aqui deixamos aquele «Prefácio inacabado», antecedido da nota editorial de FVS.


«A súbita morte do querido amigo Moradas Ferreira deixou inconclusivo o prefácio que ele me havia prometido escrever para este livro, acerca do qual conhecia toda a sua arquitectura, pensamentos e objectivos, questões que, tal como a mim, o interessavam e constituíam muitas das suas preocupações humanísticas. Por isso ele se devotou com todo o seu habitual empenho a tão generosa e fraterna tarefa, logo que acordada ficou a gratificante colaboração, consubstanciada num aval de incontestável autoridade a um autor e a um texto, ambos tão carecidos de notoriedade e tão despojados de aliciadoras expectativas.
Foi a generosidade e grande amizade da Lídia, sua companheira de toda a vida, que descobrindo, entre os papéis avulsos sobre a sua mesa de trabalho, umas páginas de rascunho do que viria a ser certamente o projecto do prefácio, teve a bondade de dispensá-las se acaso pudessem ser aproveitadas.
Lido o referido esquisso, considerei-o desde logo um admirável depoimento, totalmente integrado em toda a filosofia e objectivos do livro e, como tal, logo por mim emotivamente aceite como um belo peristilo a um conteúdo imerecedor de tanto lustre, que não poderei jamais subestimar toda a carga sentimental que lhe acrescento pelo facto de se tratar da última (ou das últimas, pelo menos) mensagem que Moradas Ferreira deixou a todos nós, da qual eu tive a bem-aventurança de ser o portador assumido. Se final ou mais requinte literário faltava ainda ao escrito, ele se mostra dispensável, porque dizer mais e melhor cairia em redundância ou apenas literatismo.
Neste sentido o prefácio inacabado foi aprovado também pelos editores. [F.V.d.S.]


Neste livro o Dr. Vieira de Sá apresenta uma panorâmica da sua actividade científica e profissional em que ele revela que, de acordo com a máxima de Pulido Valente, pensou sempre como homem de acção e agiu como homem de pensamento.
Dividiu a sua actividade entre o laboratório e o campo e assim percorreu todos os Continentes, estudando com visão científica e humana a produção de alimentos, particularmente nos países em desenvolvimento.
Os seus estudos e observações abarcam quase 60 anos de intensa actividade, quase toda a duração deste século, qualificado por Eric Hobshawm como The Age of Extremes, século que viu os homens subir aos cumes de desenvolvimento técnico e científico e simultaneamente cometer os mais bárbaros, repelentes e numerosos crimes da história da humanidade.
Um século curto que o já referido Hobshawm considera iniciado com a guerra de 1914 que após uma trégua termina em 1945, e que finda com o colapso dos países socialistas da Europa em 1991.
Estamos à entrada de um novo milénio, perplexos, num mundo de violência, de fome e exclusão social.
Perplexos e buscando com angústia as vias de sobrevivência. O Dr. Vieira de Sá, que nunca confundiu crescimento económico com desenvolvimento, foi sempre uma voz corajosa, inconformada e irreverente.
Nunca o seu encerramento no laboratório o fez esquecer a vida no exterior, com todas as injustiças e sofrimentos das pessoas concretas.
Amigo de Bento Caraça, sempre perfilhou a ideia de que a cultura integral do indivíduo continua a ser um problema fulcral para o seu envolvimento harmonioso.
Em 1933 Bento Caraça referindo-se à época que então se vivia, disse: "Época singular! em que podemos assistir às manifestações do mais alto poder criador e do mais persistente esforço de sistematização - Einstein e Broglio - e, paralelamente, à desorganização total da vida económica e à destruição deliberada precisamente daquilo de que a maioria carece".
Estas palavras continuam actuais, 60 anos decorridos, e o Dr. Vieira de Sá nunca as esqueceu ao longo da vida.
Se os trabalhos do Dr. Vieira de Sá, quer a nível de laboratório quer na sua aplicação prática, visaram sempre a melhoria qualitativa e quantitativa da produção agro-pecuária, nos seus escritos nunca esqueceu o carácter eminentemente social do seu trabalho. Nunca deixou de verberar os erros cometidos por ignorância e os mais graves por ganância, que têm conduzido ao absurdo do mundo actual - produção abundante, por vezes excessiva, de alimentos variados e de qualidade e fome e extremos de subnutrição nunca em tão grande escala sofridos pela humanidade.
Materialista convicto, Vieira de Sá nunca temeu confrontos, nunca recuou perante contratempos, nunca usou palavras tíbias ou menos claras. Sempre se manifestou desassombradamente e é surpreendente como não se nota uma quebra de entusiasmo ao analisarmos, agora em conjunto, os escritos desde a juventude até à actualidade. É uma verticalidade que nunca será de mais sublinhar.
A análise dos trabalhos publicados pelo Vieira de Sá ao longo de 50 anos mostra que o seu pensamento, embora sempre enriquecido por mais conhecimentos teóricos e uma maior experiência, sempre obedeceu a uma linha progressista de inspiração materialista (marxista). Sempre foi um pensamento de vanguarda, e, como tal, incómodo.
A história está a dar razão aos receios tantas vezes expressos nas críticas de Vieira de Sá. O ambiente não tem sido defendido, a natureza (na qual se inclui o homem) tem sido violentada e sacrificada e é cada vez mais geral a ideia que é indispensável suspender e alterar o curso actual do processo de crescimento/desenvolvimento.» [op. cit., pp. X-XII].

domingo, 30 de novembro de 2008

O DRAMA DAS PME - POR DETRÁS DO PANO DE FERRO

Sob o título geral de «O DRAMA DAS PME», recebemos para publicação no blogue dois textos de Fernando Vieira de Sá. Deixamos aqui hoje o segundo, «POR DETRÁS DO PANO DE FERRO», com referências ao livro O Reino da Estupidez Nos Caminhos da Fome - Memória de tempos difíceis, editado em 1996 pelas Edições Cosmos.
Os economistas de vanguarda e de turno, ensopados em estatísticas e regras de três, assepticamente livres dos esporos de humanismo e da fome, reduzindo tudo a números, a unidades e percentagens, obcecados pelas leis da concorrência, naturalmente não tiram os olhos dos cálculos a que a frieza dos algarismos conduz, fazendo desses resultados pilares orientadores principais, necessários e suficientes no âmbito de uma contabilidade confiante e conselheirática, dentro de cujos parâmetros se pode manobrar, tendo como área de acção táctica e estratégica - para fins de rendimento e produtividade - a seara viva chamada Bolsa de Valores, onde se cultiva a imaginação, o segredo, a disponibilidade e, se possível, a espionagem para lograr os melhores resultados que exige olho vivo, destreza e isenção de preconceitos. Isto, quando se joga o risco. A verdade é que os financeiros e carrascos do dinheiro, estimulados pelos ventos de monção que sopram para dentro, e no desprezo por qualquer coisa que lhe pareça retrógrado, ultrapassado e improdutivo de qualquer avanço civilizador acompanhando a maré, dando como consequência a destruição sistemática de todo o tecido PME, desastre, não só para Portugal, como para toda a Europa, sendo responsável do desemprego crescente, devido à falência da pequena courela, donde saía a maior percentagem de géneros alimentícios, obrigando à importação de tudo quanto há vindo de todos os continentes. Por certa distorção mental e de vivência, ao referir-me a PME, tenho sempre a tendência a tomar como padrão as PME alimentares, pelo que, peço aos críticos, tenham esta nota em consideração, embora com todas as PME aconteça o mesmo, dentro dos seus âmbitos.
Portugal, hoje, é um país de serviços, um país dependente do estrangeiro, dos artigos mais básicos da alimentação com uma factura de pagamento ao exterior gravíssima.
Segundo o calendário político do país, que a TV se encarrega de informar das suas virtualidades, as PME surgem sempre como bandeira, o que não se ajusta às frequentes notícias saídas na imprensa nacional, com censuras aos governos pela sua falta de sensibilidade nessa questão de tão alta actualidade. Como exemplo, transcreve-se o seguinte texto, de Eva Cabral, retirado da secção de Economia do Diário de Notícias de 28-III-2007:
«Conselho Económico critica "falta de atenção" às PME - O Conselho Económico e Social (CES) critica a "falta de atenção dada às pequenas e médias empresas (PME)" pelo Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN), o envelope financeiro das verbas que Portugal vai receber de Bruxelas entre 2007 e 2013.
Adriano Pimpão, relator deste parecer do CES, fez questão de frisar ontem, aos deputados da Comissão Parlamentar de Economia, que "se trata seguramente de um lapso" a falta de referências às PME por parte do QREN. Segundo o conselho, "muitos dos problemas estruturais que o país enfrenta só serão resolvidos com sucesso se houver por parte das pequenas e médias empresas uma capacidade empresarial acrescida nas áreas da gestão, da inovação de produtos e de processos pela via do investimento, da criação de empregos de qualidade e da produção de bens e serviços de maior valor acrescentado". O CES recomenda mesmo uma "rigorosa e transparente avaliação do custo-benefício dos grandes projectos" e recorda que no Programa Operacional de Valorização do Território estão incluídos os chamados grandes projectos, que representam mais de um terço do investimento previsto no QREN, quadro que globalmente está estimado em cerca de 44 mil milhões de euros. Bruto da Costa, presidente do CES, referiu, por seu lado, que Portugal tem "uma falta de enquadramento em matéria de estratégia de desenvolvimento". Citou, ainda, um estudo sobre o fenómeno da pobreza, que está a ultimar, e em que se concluiu que do universo de pobres existentes em Portugal um terço está empregado e outro terço é pensionista.»
Para não ir mais longe, basta recordar algumas linhas por mim escritas, já então mostrando certo cansaço de tantos bis. Foi isso, no meu livro O Reino da Estupidez nos Caminhos da Fome - Memória de tempos difíceis, Edições Cosmos, 1996, já lá vão doze anos, uma eternidade, mas o panorama, para não dizer igual, é péssimo, o desgaste e os problemas são cada vez mais indignantes. Neste livro muitas são as citações relacionadas com a situação, das quais, quase ao acaso, algumas aqui se reproduzem [cf. pp. 240-242]:
«É progressivamente crescente em todo o Mundo, e nomeadamente nos de tecnologia mais avançada e nos que empregam esforços mais concretos e racionais em prol do seu desenvolvimento económico e social, o funcionamento de estabelecimentos escolares de ciência e tecnologia de alimentos. Só nos Estados Unidos, e a título de mero exemplo, existem quarenta e sete Universidades onde o ensino da ciência e tecnologia de alimentos está institucionalizado, muitas dessas Universidades funcionando em estreita ligação com a indústria, para apoio técnico sistemático.
Portugal, pese à sua implantação europeia, não possui esse tipo de ensino sob uma forma curricular global. Tais matérias dispersam-se como manta de retalhos por várias escolas superiores, num verdadeiro bluff que não leva a lugar nenhum. Nem vale a pena escrever mais sobre esta miseranda realidade, à qual os respectivos professores parecem tão bem adaptados e conformados.
[...]
Há que reconhecer que toda a reconversão industrial da preparação e transformação de alimentos depende de que os seus quadros técnicos estejam à altura das responsabilidades. Não pode mais continuar-se a utilizar o improviso, autodidactismo, o amadorismo, em questões tão complexas.
[...]
2. Milhares de pequenas e médias empresas.
Outro ponto importante: a extrema pulverização da indústria, além da sua própria diversidade. Existem milhares de pequenas e médias empresas dispersas por todo o País, representando a ocupação e sustentáculo de muitos mais milhares de trabalhadores e respectivas famílias.
[...]
Estas empresas, individualmente, têm um significado económico pequeno, dir-se-á, mesmo, insignificante. Porém, em conjunto, elas assumem uma importância das mais significativas na economia portuguesa.
Sob o ponto de vista técnico, como é de prever, é extremamente precário, a todos os títulos, o seu parque industrial, ao que se alia uma técnica deficiente e empírica, que acarreta as consequências mais graves, quer em rentabilidade, quer em qualidade. Contudo, não se deve menosprezar certos produtos da indústria caseira (que, aliás, devem ser considerados num esquema diferente do da pequena e média empresa e que tem muito de positivo para a valorização regional e turística), pois essa participação constitui um verdadeiro alfobre de interesse para a economia doméstica, e, nomeadamente, agrícola.
3. Um apoio indispensável.
[..]
No entanto, é de esperar que o Estado venha a tomar uma participação directa em muitas dessas empresas, quer por ter forçosamente de as gerir por abandono ou desinteresse dos proprietários ou por ameaça de falência, a fim de garantir o emprego e a produção necessária ao consumo, quer intervindo directamente nos aspectos tecnológicos, dos quais depende a promoção da qualidade e a obtenção de melhores rendimentos. Em qualquer dos casos, o INII pode e deve desempenhar um papel de primordial relevo nesses processos, pois tem quadros com experiência que permitem a montagem imediata desses serviços com a dimensão que se tornar indispensável. Basta, para tanto, que lhe sejam facultados os meios humanos e materiais que permitam a esses quadros uma autêntica intervenção. Isto não significa de nenhum modo uma atitude de proteccionismo ou de paternalismo, que, além de tudo, são sentimentos incompatíveis com ambições de conquista de mercados externos, e com as investidas que possam surgir do exterior por forçadas penetrações das nossas fronteiras aduaneiras, derivadas de acordos internacionais a que Portugal se veja ligado.
Pode dizer-se que, no momento actual [anos noventa do século passado], o DTIA tem iniciadas intervenções do tipo das acima mencionadas, mas é evidente que essa participação terá de ser amplamente aumentada e completada com adequado apoio do sector económico em matéria de gestão» [No presente todo este apoio foi selvaticamente desmantelado. Hoje não há apoio técnico e científico às PME].
Fernando Vieira de Sá
23 de Novembro de 2008

domingo, 23 de novembro de 2008

O DRAMA DAS PME - CONCORRÊNCIA, VALOR ABSOLUTO

Sob o título geral de «O DRAMA DAS PME», recebemos para publicação no blogue dois textos de Fernando Vieira de Sá. Deixamos aqui hoje o primeiro, sobre «CONCORRÊNCIA, VALOR ABSOLUTO», uma reflexão muito actual sobre a CRISE e os «truques» que a provocaram e que estão já na origem de novos «aperfeiçoamentos da marosca».
As Pequenas e Médias Empresas (PME) são com frequência citadas nos paleios e bate-papos dos arautos da política à roda de uma mesa em qualquer canal TV, sem nunca mostrar ciência sobre fenómenos de definição objectiva e de contornos precisos gerados neste sector. É, por assim dizer, um clima que neste caso se expressa em estado de graça sem querer denunciar a verdadeira razão do mau-estar e consequências desastrosas que se vêem a olho nu. Contudo, a complexidade da questão é cada vez maior, na medida em que a doutrina da concorrência, exigindo redução de custos de produção e, por acrescento, comercialização, adoptando a teoria da concentração e monopólio, seguindo em frente com resultados progressivamente positivos, só exigindo mais para ganhar mais de um ponto de vista financeiro. Nada mais. E tudo isto funciona às mil maravilhas, já que os resultados financeiros assentam em esferas, o que deleita os investidores de 1ª grandeza, já que os de 2ª e de 3ª, etc., esses, também acabam por ser engolidos, ficando a aguardar alguma regurgitação do predador.
Eis o retrato da engrenagem e a conclusão inequívoca. Neste capítulo, a inovação é de magia, pois a imaginação para lograr melhores resultados não tem limites. É como nos crimes comuns, porque nos casos em questão a moral é de funil e os seus cérebros são consagrados especialistas em ciência financeira que, com subtileza contabilística, vão sempre à frente dos esquemas de controlo clássicos. É evidente que não são todos, mas que são muitos, são. E os operacionais também não se chamam burlões, mas outra coisa inócua, como gestores, consultores, peritos, cujo sucesso no negócio depende do segredo e não há confessionário que se diga seguro. Daí a bomba. Ninguém sabe nada, enquanto não rebenta.
O sucesso inspira a imaginação e até induz a outras fontes produtivas, truques onde se pode arrecadar mais receitas. É o caso das contabilidades paralelas fugindo aos impostos, off-shore e muitos outros truques.
Muito se poderia acrescentar sobre a dinâmica capitalista que, no auge do seu desenvolvimento, vem cair na concentração global criando a CRISE, que presentemente está em pleno desabrochar, aliás, prevista por Marx há mais de um século, prognosticando cientificamente que só no fundo da crise o socialismo teria viabilidade de implantação. É implícito que, em favor desta concentração de riqueza que absorve as economias menores, as PME estiveram sempre na linha da conversão dos parâmetros do peso da propriedade, começando pela propriedade rústica na linha da sua extinção, tida por absurda, face às novas técnicas de produção e outros factores.
Vem a propósito recordar um episódio que teve o condão da sua justeza de raciocínio nato, instintivamente puxando-lhe o pé para a verdade (aqui não foi o pé, mas o raciocínio), e vai daí cair em Marx. estava dito sem o querer... Abrenúncio!!! Passou-se isto num desses bate-papos na TV onde se juntavam três ou quatro mestres da orquestra política acarinhada, diga-se: o Zé, o Manel e o Toino, por exemplo, perorando a propósito da CRISE. Descrevia um deles a evolução da crise que (ainda) se vive. E de tal maneira o companheiro se expressava com toda a gentileza e convicção que eu, com espanto, colei-lhe imediatamente a tese que defendia com a de Marx escrita há mais de um século. Tintim por tintim, o que me espantou o arrojo, mas não estava enganado, pois um dos companheiros presente, digerindo palavra por palavra ouvida, teve exactamente o mesmo pensamento e diz: «Cai-se assim no socialismo, não é verdade?» Marx também concluiu o mesmo, como se sabe, o que quer dizer que o socialismo só se alcançará por exaustão evolutiva do capitalismo e não por rebelião das massas a quem falta os meios, por isso só em crise profunda e colapso poderão ter êxito. À interrogação, responde prontamente o mestre, sorrindo, como quem diz a palavra-chave: «Nem pensar, seria o caos, todos a falar ao mesmo tempo sem ninguém se entender, isto num processo que exige segredo, exigência, estudo, estruturas. O que há a fazer terão de ser os mesmos, já experientes, retirando da experiência as falhas cometidas, e edificar o sistema (capitalista) com as devidas seguranças reforçadas». No meu comentário íntimo, na altura, achei este pensamento profundamente ingénuo vindo donde vinha, mas monolítico, ou seja, sem outra saída credível possível, esquecendo-se que, na presente crise, não faltavam medidas já existentes de fiscalização e acompanhamento do conhecimento de todos, de cunho oficial e privado, obedecendo a regras pretorianas dirigidas ao cumprimento rigoroso de toda a operacionalidade de ambos os sistemas privado e governamental, mas a que todos os intervenientes altos responsáveis se abstiveram, de comum acordo, de recorrer e usar para todos os efeitos do controlo, o que foi determinante na presente crise, como tem sido largamente denunciado.
Deve dizer-se, portanto, que o sistema em causa poderia ser bom e precavia-se de todos os desvios da correcta acção, os quais foram abusadamente ignorados e sigilados segundo a regra de oiro do sistema.
E são estes mesmos senhores, segundo aquele amigo que, quando o outro concluía ter-se chegado ao socialismo por falência do capitalismo, respondia: «Nunca, agora com a experiência recolhida estamos em condições de todos os aperfeiçoamentos.» Quais? - pergunto eu agora? Mais sigilo? Aí está a ciência do truque pendente de uma importante investigação. Tudo para se chegar ao capitalismo absoluto, irreversível, uma espécie de divindade... já faltou mais!
Por agora, «tudo como dantes, quartel-general em Abrantes».
O sigilo que se exige é o aperfeiçoamento da marosca e um seguro de risco, talvez pago pelo Governo.
Fernando Vieira de Sá
23 de Novembro de 2008

domingo, 16 de novembro de 2008

A TODOS OS SERVIDORES DA FUNÇÃO PÚBLICA, FRATERNALMENTE

A fim de oferecer aos interessados um melhor conhecimento do conteúdo do livro Autópsia a Um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares, publicamos hoje o seu índice, antecedido da dedicatória que F. Vieira de Sá fez a «todos os servidores da Função Pública»:

Dedico este trabalho de selecção documental e de crítica de processos a todos os servidores da Função Pública, independentemente de categorias, vínculo ao Estado ou precariedade de funções. Fraternalmente Fernando Vieira de Sá
ÍNDICE
Apresentação
A questão / O denominador comum / História da Pré‑História / Grande Cruzada /A Sucessão
LIVRO BRANCO
Manifesto – Verão de 1975 [A revolução]
Publicações Periódicas (Difusão Restrita) Editadas pelo DTIA/LNETI
Nota Prévia – do que se escreve e descreve no Livro Branco
ANAIS
ANAIS 1979
Índice I — Introdução XIII — FILAGRO XIV — Visitas ao Departamento XVII — Perspectivas Futuras
ANAIS 1980 I — Introdução VIII — Participação em Congressos, Simpósios, Etc. XVI — Visitas ao Departamento XVII — Perspectivas Futuras
ANAIS 1981 I — Introdução XIII — Órgãos Consultivos e de Informação XVI — Visitas ao Departamento XVII — Perspectivas Futuras ÍNDICE
ANAIS 1982 I — Introdução VI — Formação e Actualização de Quadros (Cursos e Estágios, Reuniões Científicas e Visitas de carácter formativo e informativo) VII — Cursos e Estágios para Quadros da Indústria e Outras Instituições incluindo Universidades VIII — Participações em Congressos, Simpósios, Etc. XVI — Visitas ao Departamento XVIII — Perspectivas Futuras ANAIS 1983 I — Introdução VII — Acções de Formação para Quadros da Indústria e Outras Instituições incluindo Universidades XVI — Visitas ao Departamento XVIII — Perspectivas Futuras
FOLHA INFORMATIVA MENSAL – Editoriais
Abril 1981: [O Dever de Informar]
Maio 1981: [Ameaça ao Uso da Palavra Escrita]
Junho 1981: [O Orçamento Não é uma Peça Burocrática]
Julho 1981: [O Descalabro do Comércio Externo, na Área Alimentar]
Agosto 1981: [Racionalização dos Meios de Trabalho]
Setembro 1981: [Informação e Relações Públicas]
Outubro 1981: [Desconforto na Falta de Decisão sobre Carreiras Profissionais]
Novembro 1981: [A Burocracia como Modo de Estar na Vida à Mesa do Orçamento]
Dezembro 1981: [O DTIA Sabe o que Quer]
Janeiro 1982: [A Democratização da Ciência]
Fevereiro 1982:[Funcionamento do DTIA em Discussão]
Março 1982: [Reflexões Sobre o Tipo de Investigador que ao DTIA Interessa]
Abril 1982: [A Proibição do Debate de Ideias]
Maio 1982: [Do Servir e do Servir‑se]
Junho 1982: [Planeamento para «Inglês Ver». Leia-se UE]
Julho 1982: [A Valsa das Instalações]
Agosto 1982: [Repentino Convite à Reflexão]
Setembro 1982: [DTIA Olha à Internacionalização]
Outubro 1982: [Na Senda das Opções. A Carreira de Investigação em Discussão]
Novembro 1982: [O Fim de um Projecto]
Dezembro 1982: [Auto-exclusão, Drama do Absentismo]
Maio 1983: [Noticiário]
Novembro 1983: [Noticiário]
Julho 1984 (Suplemento): [Despedida]
Julho 1984: [Passagem de testemunho e despedidas]
Simpósio Internacional «As Indústrias Agro‑Alimentares e o Desenvolvimento Rural» e 1º Congresso Nacional de Indústrias Agro‑Alimentares
Antecedentes: Causas e Objectivos
Índice
Introdução
Para uma Melhor Compreensão e Intervenção Administrativa do Estado no Sector das Indústrias Alimentares
Conclusões
Ensino e Profissionalização da Ciência e Tecnologia dos Alimentos
Conclusões
Correspondência [Destinatários]
26/XII/80 — Presidente do LNETI
10/II/82 — Director do ITI
2/III/82 — Director do ITI
9/XI/82 — Prof. Romero
17/II/83 — Presidente do LNETI
16/V/83 — Director do ITI
26/V/83 — Presidente do LNETI
26/V/83 — Director do ITI
25/XI/83 — Prof. Veiga Simão
12/VI/84 — Prof. Veiga Simão
15/VI/84 — Director do ITI
9/VII/92 — Prof. Veiga Simão
12/XI/2001 — Presidente do INETI
Conclusão
Posfácio
A Citação
Post Scriptum [ano de 2006]

sábado, 8 de novembro de 2008

INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (VII)

E terminamos hoje a publicação do texto que pedimos a Vieira de Sá sobre algumas peripécias interessantes da sua «Incursão pelas Armas», dando assim continuação à nossa intenção de ir registando neste blogue alguns dos «ecos da memória» de alguém cuja vida atravessou quase todo o século XX - um século de grandes guerras e de selvajarias várias que não podemos esquecer - e que continua atento e participante na aventura de ir construindo um século XXI que vai avançando cheio de incertezas e nuvens negras, mas também com alguns ténues sinais de que é possível manter a esperança na inteligência humana.
[continuação]
TEMPOS DE ESPERA E DE GUERRA - Pensava eu que, terminada a instrução obrigatória da escola de milicianos, ficaria para toda a vida livre de quaisquer compromissos militares. Guardei o meu fardamento, do qual fazia parte um par de botas altas de bela qualidade que me fora emprestado, poucos anos antes, e mais tarde oferecido por uma amiga, viúva recente de um oficial elegante, lembrando-se que poderia fazer-me jeito se por coincidência me servisse. Experimentei e era exactamente o número... as botas do defunto, um inédito princípio de vida militar. É quase para dizer «Como é que vou descalçar esta bota?!».
Os tempos eram terrivelmente preocupantes, já que a Guerra Civil de Espanha terminou em Janeiro de 1939 (trinta e dois meses de Guerra Civil) - sucedendo-se sem intervalo a II Guerra Mundial (1939-1945) -, durante a qual se perpetraram verdadeiros crimes contra a Humanidade, ceifando um milhão de vidas, onde os nazis ensaiaram gratuitamente os seus aperfeiçoamentos aeronáuticos de bombardeamento sobre alvos populacionais, como no caso de Guernica (1937), uma pacata vila sem nenhuma peculiaridade de interesse estratégico, aniquilando toda a população pacífica, arrepiando toda a gente com o mínimo de sentimentos civilizados, crime este fixado para a História da Selvajaria por Picasso numa tela imortal e uma das suas obras mais célebres. Já não falando do genocídio de muitos milhares de pessoas encerradas na arena da Praça de Touros de Badajoz, fuziladas e para cujo espectáculo (assim se anunciava) houve convites para portugueses que aí acorreram em ar de festa com a bênção salazarista... cheios de fé cristã.
Pela minha parte, durante o ano de 1942, na companhia de Maria Elvira, minha mulher, encontrava-me em Inglaterra, auferindo de uma bolsa de estudo na Universidade de Reading, experimentando a guerra in loco com todos os riscos e proveitos que perseguíamos, já descritos em diversas ocasiões. Experimentámos receios de diversa índole, um deles quando da cedência da base das Lajes, nos Açores, ao abrigo da aliança anglo-portuguesa, o que poderia originar a invasão das tropas nazis, e, se tal tivesse ocorrido, nós poderíamos recolher a um campo de estrangeiros sob vigilância. Nada aconteceu, mas risco sempre houve e conseguimos, em fins de 1942, regressar sãos e salvos. Chegados a Portugal passavam as mesmas preocupações e Salazar, para evitar pânico na população, resolve mobilizar as tropas, chamando-lhe apenas «manobras militares», consistindo em criar uma 4ª Divisão, com sede no Cartaxo, tendo como finalidade defender-nos de qualquer invasão através da ponte sobre o Tejo, a única que ao tempo existia.
Chegado de Inglaterra, e ao Serviço da Direcção-Geral dos Serviços Pecuários, fui colocado em Coimbra. Já com as «manobras» em curso, e tendo sido mobilizados alguns dos meus colegas mais antigos, não percebi por que razão não fui chamado.
Aqui começa uma campanha surda, vinda dos colegas, acusando-me de ser protegido por algum truta. Era totalmente falso. Como tinha a consciência limpa, deixei-os gozar. Mas, uma manhã, estando na Intendência de Pecuária, vem o contínuo dizer que estava ali um polícia que precisava de falar comigo. Vi imediatamente que tinha chegado a minha vez, de tal modo que, quando o polícia chega com um papel, antes mesmo de dizer qualquer palavra, eu adiantei-me: «Onde está a convocatória para assinar?». A partir deste momento, e informada a família, foi fazer a mala e ir à gaveta ressuscitar a farda e as botas altas do defunto. No dia seguinte, estava a caminho do Porto para me apresentar no Regimento de Infantaria 6. A campanha contra as minhas cunhas acabou.
Novamente fardado, apresentei-me ao Comandante, por sinal muito civilizado, sendo também médico com consultório aberto. Eu olhava para todo aquele ambiente e pensava como me iria safar de tudo aquilo, não percebendo nada de orgânica funcional, de regulamentos e procedimentos que não foram ensinados na altura devida, por mais que eu esquadrinhasse a memória, concluindo que esse tempo foi pura perda de tempo, salvando-se para meu interesse a equitação que pagou as dificuldades em que agora me via metido. Não sabendo eu nada, resolvi proceder por minha conta usando a racionalidade. E quando me vinha o sargento enfermeiro dizer «Meu alferes isso não pode ser porque o regulamento...» não dizia mais porque, de imediato, eu respondia: «O regulamento agora sou eu». E tudo seguia.
Como era regra, ao fim do dia tinha despacho com o Comandante, onde o informava das minhas resoluções, sem atender a regulamentos, que não tinha e não podia estudá-los sobre a ocorrência. Como tal actuava profissionalmente num critério de bom senso, sem burocracia. Ele, não só sempre aprovou as minhas decisões, como me apoiava.
Tudo isto foi para mim uma experiência impensável, mas que acabou (mas muito mais tarde) por ser interessante.
Mas a grande surpresa estava para vir. À chegada do comboio-militar ao Cartaxo, o que só aconteceu após intermináveis horas de viagem, transportando um regimento completo, implicando umas centenas de mulas e todo o material de guerra, etc., vá de apear tudo isto para um cais à dimensão da povoação. Falta-me imaginação para traduzir por palavras escritas o pandemónio que se instala e que, mal comparado, me fazia lembrar as notícias da imprensa a propósito da retirada de Rommel [Erwin Johannes Eugen Rommel, «A Raposa do Deserto», 1891-1944] depois da derrota do Afrika Korps na batalha de El Alamein, no Egipto (1942), que estava ainda muito presente em toda a gente do mundo a quem a imprensa chegou. Eu olhava para tudo e não fazia a menor ideia de qual seria a minha actuação. Atender as mulas? Ajudá-las a sair do vagão? Fazer-lhes festinhas para as sossegar, dizendo-lhes ao ouvido que era só uma brincadeira de mau gosto? Em boa verdade, a tropa também não estaria mais preparada do que eu. Onde estavam os chefes?
A minha sorte foi ter encontrado três colegas - dois milicianos e um de carreira - que andavam à minha procura para terem comigo uma reunião urgente. O assunto era grave. O que se passava? Afastámo-nos da balbúrdia e fomos reunir à distância. Queriam eles, por camaradagem, pôr-me ao corrente de uma bizarra situação, mas muito grave para o nosso desempenho profissional e militar. Acontece que, chegando a Cabo Verde, onde havia um destacamento militar, uma remessa de alimentos onde havia carne imprópria para consumo, em início de putrefacção, o veterinário devolveu-a à procedência, dado que o regulamento proibia a sua inutilização no destino. Quando a carne chegou a Lisboa, o ministro [Santos Costa] ficou furioso, com o pretexto de que «em tempo de guerra não se limpam armas» e afirmava: «Vai para comer é para comer mesmo». Como tal castiga, com registo na caderneta disciplinar, e declara que essa carne terá de ser consumida, dê por onde der. Acontece que essa mesma carne é despachada para o Regimento de Infantaria 6, no Cartaxo. Aqui ninguém sabia do acontecido e, naturalmente, o veterinário rejeitou a carne. E, apesar de não ter dúvidas, chamou os colegas para darem parecer e ambos confirmaram a rejeição, pois a carne, que já estava em más condições de salubridade em Cabo Verde, ao fim de mais de um mês estava em estado deplorável, de tal modo que, não só foi rejeitada, como foi imediatamente enterrada para evitar males maiores, fazendo um «auto de notícia» destinado ao Ministério, na boa fé de ter actuado com critério indiscutível. A decisão do ministro, que ficou furioso por a carne ter sido enterrada, não tendo sido usada no rancho ou, então, devolvida, foi castigar os três veterinários com castigo registado na caderneta de disciplina. Dois dos veterinários eram milicianos e diziam com humor que tal castigo na vida civil era um atestado de conduta exemplar, pelo facto de a sua atitude respeitar e defender a saúde pública. Já o veterinário militar, por causa do castigo registado, viu o seu futuro prejudicado, atrasando e dificultando a sua progressão na carreira militar.
Os tempos de manobras seguiram-se sem percalços, sempre à espera do inimigo, que afinal não veio. Para mim, valeu-me uma grande experiência e ter tido a sorte de encontrar um Comandante, médico em simultâneo, com uma grande abertura ao racional critério de decisão, apreciando por isso o meu critério de responsabilidade, sempre tendo o Comandante ao corrente dos problemas, se é que de problemas se tratava. Do que se tratava era de usar a responsabilidade.
Isto valeu-me quando já no Porto e no quartel, indo, no final da missão, despedir-me do Comandante, fui vestido à paisana. Quando os camaradas me viram disseram em uníssono: «Eh pá, não podes ir à paisana, o Comandante não te recebe». Eu respondi: «Agora já não posso ir mudar de roupa, já não há tempo e já tenho tudo emalado». E insistiam: «Eh pá, não podes. Vais ver!...». Entrei e o Comandante nada disse. Conversámos um pouco, perguntando-me se, caso houvesse a circunstância de nova mobilização ou se entrássemos em guerra, me poderia requisitar, porque tinha gostado do meu trabalho sem os berbicachos de que muita gente faz gala. Já na despedida, o Comandante, dando-me um abraço, diz: «Doutor, estou a ver que estava farto desta vida»... e olhou para mim varrendo a vista pela minha indumentária. Eu entendi a repreensão e respondi: «Meu comandante, nem me fale!». E assim acabaram as manobras. Cá fora, os camaradas aguardavam-me e ficaram espantados: «Então, o tipo não te repreendeu?». «Não - respondi - e estou aqui vivo». Não faltaram os protestos e dichotes: «Pois é, vêm para aqui estes milicianos, fazem o que querem e nós é que nos tramamos. Não é justo. E ainda se riem de nós». Etc. etc. etc.
É pena, há muita coisa que não se pode explicar. A única explicação é o medo.

Fernando Vieira de Sá

Outubro/Novembro de 2008

domingo, 26 de outubro de 2008

JOSÉ BRANCO RODRIGUES [1912-2008]

No dia 26 de Setembro de 2008, faz hoje um mês, falecia em Lisboa José Branco Rodrigues, razão pela qual aqui deixamos um emocionado e belíssimo texto de Fernando Vieira de Sá. Tivemos também o privilégio de conhecer Branco Rodrigues, um ser humano especial na sua simplicidade e desinteressada amizade. Recordamo-lo com saudade, mas com a certeza de que o testemunho fica e perdurará na nossa memória e na daqueles a quem consigamos transmitir este extraordinário exemplo de vida.

A morte de Branco Rodrigues exerceu em mim uma sensação que nunca tinha experimentado e que se enraíza numa profunda ideia de irmandade que vem de um tempo em que, com epicentro na Europa mas com réplicas em todo o mundo, deflagrou a I Guerra Mundial.
Branco Rodrigues nasceu em 1912. Eu nasci em 1914, tempo de gestação e eclosão do grande conflito bélico (1914-1918), donde nasceria uma sociedade que alterou organicamente o statu quo ante da vida e, seguramente, actuou sobre as famílias e todo o evolutivo pensamento de que os recentes nascituros serviram de cobaias das recém-implantadas vivências.
Sem nos darmos conta disso, a verdade é que, com o desaparecimento de Branco Rodrigues, pela primeira vez senti que, afinal, o nosso encontro e conhecimento, dir-se-ia, recente, evoluiu instintivamente assente em uma aproximação oculta e temporal que agora, com a sua morte, senti que alguma coisa do meu estar alterou os estímulos da memória, dando-me a sensação de ter perdido alguém que, para mim, sem me dar conta, era tanto, como um amigo de vivências paralelas. Éramos, por assim dizer, produtos gémeos face ao alvor de uma novelíssima Nova Era nascida connosco, fazendo parte de nós.
Agora, neste particular aspecto e sem referência à época comum que nos assistiu à nascença, fiquei só, como relíquia desse mundo que nos ia formar. Nunca pensei que a sua falta neste mundo me tivesse atingido tanto por tal ausência. E, no entanto, vivemos dezenas e dezenas de anos, dir-se-ia, quase toda a vida sem nada sabermos um do outro, pois só nos vimos pela primeira vez em casa de Mário Neves [1912-1999], nascido também em 1912, um grande amigo comum, quando este caiu numa cadeira inutilizado pela doença que se arrastou fatidicamente, cumprindo a sentença de prisão perpétua que lhe calhou por acasos da existência. E nós, eu e Branco Rodrigues, cumprindo uma dívida que a amizade e o dever facultativo impõem, aí íamos fazer-lhe companhia com grande frequência, alimentando sempre uma conversa animada, esquecendo as circunstâncias que se esqueciam. Pois foi aí que de jure et de facto nos conhecemos, afinal somente quando a idade, já sem idade, nos começava a rondar a porta e nós a bater-lhe com ela na cara.
Mário Neves faleceu e nós continuámos a nossa relação, que já não tinha retorno, encontrando-nos frequentemente, incluso em Sesimbra, onde eu e Maria Elvira [1917-1999] recebíamos amigos em dias de fraternidade, o que ainda hoje faz presença na memória e na saudade, mas já com muitas baixas. O cerco aperta-se...
Mais recentemente os nossos encontros e conversas eram somente telefónicos. As circunstâncias iam-nos restringindo os espaços de manobra, ficando-nos como modesto recurso os telefonemas diários para uma saudação e já isso era um apego a todo o nosso passado de relação de amizade. A falta desse contacto diário atingiu-me, como não me passaria pela cabeça atingir os meus tempos de ocupação mental e refrescamento pela voz e pela banal notícia de «nada de novo», ajudando-nos a existir.
Branco Rodrigues era um homem especial. Vivia mais para os amigos do que para si mesmo. Era pessoa que se dedicava intensamente aos amigos, sempre atento aos aniversários, às homenagens em vida e na morte, intervindo nas celebrações de tudo o que enaltecesse alguém que o merecesse. Lembro aqui, e registo, a grande preocupação de Branco Rodrigues, desde há um ano, com a celebração do centenário do general Vasco Gonçalves [1921-2005] com o seu receio de que caia no esquecimento ou menor relevo por falta da devida antecipação na sua organização. Por isso desunhava-se em contactos, prevendo que ele poderia não estar já vivo para agitar, para dar o seu contributo e pedir o de outros. Esta seria a mais sublime homenagem a Branco Rodrigues, que, levando-a a cabo, seria sem dúvida alguma uma dupla homenagem.
Tudo isto aqui escrito lembra e homenageia Branco Rodrigues, um homem modesto, só pensando nos outros, fossem eles vivos ou mortos. A sua figura esfumava-se com total discrição. Quem lhe quisesse falar em qualquer celebração, por exemplo, teria de ir à última fila, onde o encontraria silencioso e apagado, mas sempre atento a tudo.
É com saudade e respeito que dedico estas palavras à sua memória.



Fernando Vieira de Sá
Lisboa, 26 de Outubro de 2008

sábado, 25 de outubro de 2008

INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (VI)

[continuação]
Agora era só esperar pelo ano seguinte para me apresentar no Regimento de Cavalaria 2 - Lanceiros da Rainha, pois em tempos da Monarquia a rainha era sempre a patrona do Regimento, onde passei uma das melhores férias da minha vida, aprendendo equitação, montando os melhores cavalos e assistido pelos melhores cavaleiros da época, concursistas em torneios internacionais. Recordo com saudade as cavalgadas pelas colinas de Monsanto, pisando o mesmo solo que o rei D. Dinis percorria nas caçadas aos ursos (ainda não existia o parque), os dias no campo de obstáculos, o volteio no picadeiro, etc. Por casualidade, já licenciado, passei dois ou três meses na Estação Zootécnica Nacional, Fonte Boa, Vale de Santarém, onde continuei a montar, nessa ocasião percorrendo a lezíria, campo aberto, de uma beleza sem par, onde a vida cresce de energia e o espírito se desfaz em poesia e optimismo. Valeu a pena.
Valeu-me este passado, quando alguns anos mais tarde, em Cuba, Ramón Castro planeou uma excursão à Sierra Maestra para me mostrar lugares onde passaram as colunas revolucionárias, mas Fidel proibiu com receio de algum desastre pelo facto de eu ir a cavalo. Foi preciso eu explicar muito bem que montar a cavalo não me causava qualquer dificuldade e que, se fosse preciso, escreveria uma carta responsabilizando-me de qualquer percalço, ao que Fidel acedeu sem mais dúvidas. Venci alvos nunca premeditados.
Para concluir, este período de instrução, e fazendo uma reflexão sobre a sua utilidade, já o fazendo com a experiência que iria adquirir e que na altura estava longe de ser realidade, dir-se-ia que, honestamente, não me lembro por mais que escave a memória de qualquer coisa útil em qualquer participação, como veio a acontecer. Tirando a equitação, e por eu estar interessado no assunto, nada, nada mesmo, assimilei que me viesse a ser útil em qualquer futuro. Pareceu-me tudo um manancial de regras oficiantes a que não se ajusta uma prática onde o imprevisto é lei.
2. OS CURSOS - O curso de oficial miliciano processava-se em dois dos períodos de férias do último ano do curso. Neste caso, o meu primeiro período, como já disse, processou-se no Regimento de Cavalaria 2 - Lanceiros da Rainha. Para mim correspondeu à prática da equitação, um tempo que para mim foi de grande prazer e proveito. Não o esqueço e teve em mim um bom incentivo de teor desportivo evoluindo para outras práticas físicas. Quanto ao resto, muito honestamente, mal me lembro de qualquer lição que tivesse alguma coisa de interesse, isto do ponto de vista militar, pois as palestras, no seu conteúdo, não eram mais do que uma continuação do ensino universitário, não se acrescentando nada de especificamente militar. O segundo período passava-se no Hospital Veterinário Militar, cuja ubicação se situava a poucos metros do Regimento de Cavalaria 7, ou seja na Boa-Hora. Isto deu como resultado que, logo que me despachava dos deveres no hospital, corria para o Regimento e aí ficava várias horas até me mandarem embora. Daí ter tido a sorte de mais dois meses de prática equestre.
No Hospital repete-se a mesma continuação universitária. De alguma coisa especificamente militar, na realidade não me recordo. Toda esta orientação, que nada tinha de militar, mais tarde mostrou a sua inutilidade quando me vi em manobras e não sabia por que ponta lhe havia de pegar, dificuldades a que me referirei à frente.

Os Cães de Guerra - De todas as lições recebidas neste período de instrução já declarei atrás que tudo o que se palestrou foi de tal vulgaridade que pouco ou nada, por mais esforços que faça, ficou retido na memória. Em linguagem dos tempos de hoje chamar-se-ia a este estado de espírito o «buraco do ozono» do planeta, sendo que aqui o planeta é o nosso mundo craniano. No entanto, uma excepção é de toda a justiça relevar. Foi a palestra sobre cães de guerra, não só pelo seu intrínseco interesse (uma informação que não era conhecida) como por uma certa filosofia que da lição se desprende, como na sua avaliação em termos mais abrangentes. Por tais razões achei oportuno relatar.
A lição, como já referi, era sobre cães de guerra. O instrutor desperta logo a atenção. Assim: Corria a I Guerra Mundial, conhecida por «Guerra das Trincheiras», em que os dois países beligerantes - França e Alemanha -, frente a frente e corpo a corpo, se debatiam, saindo das suas trincheiras, pelejando em terreno de ninguém. Durou isto quatro anos de beligerância a que se Juntaram a Bélgica, a França e depois a Inglaterra, Portugal e, do outro lado, os países de Leste. No estudo estratégico da beligerância, os observadores militares e estrategos, começaram a ter dificuldades em descobrir como os exércitos do lado alemão davam toda a sensação de dispor de informações que prejudicavam os ataques-surpresa, o que os levou a uma séria investigação, da qual resultou a descoberta do cão-correio, cão-estafeta, enfim um novo meio de comunicação à distância que, na época, era muito escassa e de modesta qualidade: telefones de campanha, telégrafo, código Morse, pombo-correio aberto ao tiro certeiro, e não sei se mais algum.
Ora bem, descoberto o segredo de comunicação através dos cães, os investigadores dos aliados logo começaram a estudar todo esse campo. Concluíram então que os alemães já estudavam o assunto desde há muitos anos, possuindo na altura cães de raça apurada para os efeitos desejados, quartéis de cães de guerra adestrados no ofício de mensageiro ao domicílio, etc., etc.
Sem perda de tempo, do lado aliado começa o improviso de caçar cães onde os houvesse, desde o vira-latas até ao pastor alemão, caçando homens para treinadores, sabendo tanto como os cães, etc., etc. Mas - enfatiza o nosso instrutor - «a verdade é que com todos estes improvisos os nossos cães lá se desenrascaram e cumpriram tão bem como os do inimigo que vinham de academias caninas». Chegado a este momento e a esta declaração, ouve-se do fundo da sala de aula uma voz pensadora de quem medita mais para lá das palavras. O que se ouve é isto, em atmosfera de silêncio, referindo-se à conclusão do instrutor: «Eram os milicianos meu tenente, eram os milicianos. Cá estamos nós também aqui como rafeiros». Salta uma grande gargalhada. O instrutor embatuca e faz um sorriso sardónico.
E até ao fim da instrução, a respeito de tudo e de nada, ouvia-se: «Eram os milicianos... somos os cães-correio da I Grande Guerra».

[continua]