«Funérea campa com fragor rangeu»
Agradecemos ao Eng. Ruy Paiva e Pona a preciosa colaboração que prestou ao indicar-nos o texto que o leitor pode encontrara no link acima referido.
«Funérea campa com fragor rangeu»
«A minha sorte, porém, vinha sendo construída desde há muito mais tempo e penso muitas vezes: o que teria sido eu, ou o meu percurso, sem essa incomparável companheira que foi de todas as horas, cuja influência tão delicada e sábia não se fazia sentir, mas definitivamente actuava sempre com inteligência, bom-senso, humanismo, bondade e concórdia? Todos os que a conheceram e com ela conviveram nas mais diversas oportunidades a admiravam [...]. Quando, por excepção, [ocorria] algum daqueles vulgares atritos susceptíveis de criar cenários ou relacionamentos menos claros com as pessoas, Maria Elvira superava-os, voando muito mais alto, mostrando o seu distanciamento com a maior discrição, mas também com o seu grande carácter de mulher sensível, sem nunca deixar de manifestar a sua peremptória personalidade. A sua presença era, simultaneamente, a distinção de mãos dadas com a afabilidade. Renegava a idolatria. Não sei o que seria, mas não seria eu, nem nada de melhor. Se hoje me sinto realizado com aquilo que pretendi fazer nesta viagem pela existência a ela e só a ela o devo.»
«João Abel Manta; retrato original do Dr. Monteiro Baptista, realizado para a circunstância do seu 75.º aniversário»
«Não sei se alguma vez - ou, pelo menos, na Era Moderna - o Juramento de Hipócrates constituiu (ou constitui) norma de acto público obrigatório para que o candidato ao exercício profissional da medicina a pratique de pleno direito, empenhando a sua honra, probidade, consciência e outros meritórios atributos; ou se, pelo contrário, tais requisitos não passam de uma alegoria para -não obstante o cerimonial normativo não fazer presença física - chamar, mesmo assim, a atenção à implícita obrigatoriedade de cumprir as prerrogativas para as quais o mesmo faz apelo.
Para mim, as duas hipóteses têm o mesmo valor:
uma, é espectáculo; a outra é um estado de espírito.
A primeira, amplamente desacreditada; a segunda, expressa pela evidência - a prática em si mesma, o que significa que nenhuma delas se torna necessária, já que a consciência, a honra, a probidade, etc., etc., não surgem nem se alteram na sua génese por simples jura, pois que, se não houver a dita consciência, a dita honra, a dita probidade à partida - intrinsecamente existentes nos cromossomas - jamais existirão depois. E o espectáculo muito menos o consegue.
Veja-se, por exemplo, as múltiplas vezes a que se assiste nos écrans da TV a juramentos de honra com a mão solenemente espalmada sobre a Bíblia, sobre o Corão, sobre qualquer Constituição de Estado, ou até contra o peito em gesto de entrega dadivosa dos mais nobres sentimentos que trespassam o coração e a mente, e aí, logo aí, já os actores se estão traindo sem pejo, mesmo sabendo que todos sabem do perjúrio. E quem o faz? Não é nenhum anónimo cidadão. Não, são altos dignitários que até se julgam donos do Mundo e juízes em causa alheia.
Apesar de tudo, não se pode jamais ignorar o Juramento de Hipócrates como ponto de referência, não só para médicos, como para todos aqueles a que muita da doutrina nele contida é aplicável na conduta do Homem perante a Sociedade e a sua própria consciência.
Mas, quem foi Hipócrates? Cognominado «O Grande» por Platão, "O Divino" por Apolónio, "O Admirável Criador da Beleza" por Galeno, Hipócrates foi o primeiro construtor e arquitecto da medicina como ciência e como prática, segundo o pensamento racionalista. Mas, também foi um humanista de grande vulto, um observador atento da natureza humana, um "viandante colhendo experiência e sabedoria", um investigador sobre as causas próximas e remotas dos males expressos por sinais discrásicos do corpo, relacionando-os com o ambiente e os elementos exteriores, o que significa dizer ter descoberto a "Ciência do diagnóstico", ou seja, a arte, a intuição, a inteligência e a mais importante e difícil de toda a prática da medicina, pois sem um diagnóstico seguro, a cura é aleatória e, se errado ou tardio for feito, poderá ser fatal e a medicação será sempre sintomatológica.
Este intróito, por descabido que pareça, pois dá a impressão de querer "ensinar o padre-nosso ao vigário" é, no entanto, essencial para poder caracterizar Monteiro Baptista, com mais correcto abrangimento e precisa dimensão, colocando-o na órbita de um seu predecessor, não por juramento, mas por sua própria essência. Este procedimento por ser eu a adoptá-lo pode não merecer o crédito de muitos críticos. Contudo, tenho a convicção que dificilmente ele será contestado por toda a multitude de pacientes que Monteiro Baptista atendeu e tratou, muitos deles livrando de sofrimentos e sombrias - por raras ou complexas - patologias, algumas delas bem mais próximas da morte, do que da vida. Esses, sim, me apoiarão as vezes que forem precisas. Escuso de perguntar-lhes. Sei.
Terá Monteiro Baptista feito, ou apenas lido em voz baixa, o Juramento de Hipócrates? Não sei, nem isso é relevante. O que é importante afirmar sem receio de desmentido, é que no citado juramento, não há uma única ideia, uma única acção, um único conselho, uma única expressão humanística que Monteiro Baptista não tenha praticado, sem nisso ter empenhado toda a sua diligência, abnegação e espontaneidade que só a natureza íntima do seu carácter pode garantir sem recurso a qualquer jura.
Como tal, o histórico e paradigmático juramento que é, em última análise, uma peça de autêntica apelação à integridade moral, cívica, profissional e irrepreensibilidade de obediência aos códigos éticos que regulamentam as suas práticas, representam para Monteiro Baptista, sua categórica natureza de homem e cidadão, plasmada numa modéstia comovedora e reluzente de uma grandeza cristalina.
Em conclusão: Hipócrates "O Grande" ou "O Admirável", como foi chamado, foi o iniciador da prática científica da medicina e o descobridor da arma mais valiosa do seu exercício - o diagnóstico - como método de pesquisa e avaliação das causas remotas da doença; o humanista ao serviço da dor e da vida; e o renovador da mentalidade corrente do seu tempo, rejeitando as crenças e magias como meios de cura, criando e desenvolvendo o método científico e dialéctico, fundando assim as bases da medicina moderna. Pela mesma época Esculápio, chamado "o patrono da medicina" ainda se fazia acompanhar da serpente tida como zeladora da saúde, tal como hoje ainda se acendem velas aos santos pedindo curas ou agradecendo-as aos deuses, tendo passado, entretanto, 2500 anos.
A "decalage" no tempo que separa Hipócrates dos nossos dias, não permite comparações para além de meras consensualidades de princípios, lógicas e racionalismo que no diagnóstico atinge a sua maior marca, fundamentos que, por si só, justificam que se possa concluir:
SE HIPÓCRATES FOI "O GRANDE" MONTEIRO BAPTISTA
É O SEU VIVO E ACABADO EXEMPLO
Não quero terminar este depoimento que escrevi por constrangimento, criado pela ausência, de não manifestar exactamente como sinto este solene momento de consagração de um homem que, além de tudo, é um amigo, benesse que fiquei devendo ao 25 de Abril que nos aproximou e irmanou nos mesmos ideais e que, ao contrário de outras conquistas que a Revolução nos trouxe, esta foi irreversível.
Nesta sequência é imperativo da consciência alargar esta homenagem a outra figura que é parte integrante e conteúdo intangível da pessoa em foco, sobretudo levando em linha de conta de querermos festejar o seu septuagésimo quinto aniversário de nascimento. Refiro-me à Dra. Georgette Banet, sua mulher e também distinta médica.
Para além disso (agora em cenário de maior irmandade), Georgette é, em todos os vectores da sua personalidade, o prolongamento substantivo de Luís Manuel. E, neste contexto, gozar a delícia do convívio que sempre é oferecido no seu lar a todos os amigos que a ele se acolhem ao calor de uma hospitalidade sem rebuço, e uma camaradagem de fraterna comunhão de pensamento é um privilégio, e, desde logo, uma reconfortante paragem no tempo e um rejuvenescedor alento. E Georgette, na sua nata delicadeza feminina com fímbrias da "La Douce France", donde descende, é sem dúvida alguma a referência mais importante a considerar e enaltecer quando se palpita ao redor da vida do
Dr. Luís Manuel Monteiro Baptista
que abraço pelo grande dia 3 de Fevereiro de 2001
e ambos felicito.»
Foto das pp. 170 e 171 de Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», onde se refere o livro O Leite em Lisboa - História do Seu Abastecimento.
A propósito de um caricato episódio que relato em posfácio do meu livro O Leite em Lisboa - História do Seu Abastecimento [Lisboa, Clássica Editora, 1991], que se ocupa da história do abastecimento de leite à cidade, e onde se faz a resenha de uma longa lista de diplomas oficiais e resoluções da Câmara Municipal de Lisboa, cobrindo um período que vem desde 1830 a 1990, esbarra-se com um quadro metendo altas entidades oficiais e universitárias, talvez gerador de incredulidade se não fosse confirmado tim-tim por tim-tim documentalmente. Não sendo assim, poder-se-ia pensar tratar-se de plágio de Gervásio Lobato, comediógrafo e evocador dos costumes lisboetas, em que se destaca o episódio humorístico relatado no seu livro Lisboa em Camisa (a sua obra, de 1894, mais reeditada), onde a dado passo um lisboeta é forçado a comprar uma cabra, levando-a para as águas-furtadas do prédio onde vivia, na baixa pombalina. E para que o animal não estranhasse cobriu o chão com uma alfombra verde a sugerir um relvado. Já nesse tempo se lutava contra a precariedade na procura de leite, sendo o de cabra o mais consumido.
Passaram entretanto 120 anos e, contudo, em termos de desenrascanço - que é o que está em causa -, embora dentro de outro contexto mais complexo, implicando autoridades oficiais e académicas, inspirado no título de Gervásio Lobato, e embora não se trate de um livro mas tão-somente de um apontamento, lembrei-me de lhe dar o título de Lisboa em Tanga, usando a imagem que reflecte a penúria dos tempos, o que aliás não se trata de uma invenção minha, pois um Primeiro Ministro deste reino, há alguns anos, usou essa indumentária como vestimenta adequada aos habitantes de Portugal, e que eu agora adequo à capital denunciando um quadro verídico descrito em posfácio a que dei o nome de «Cesse tudo quanto a musa antiga canta».
Todo este intróito, que me pareceu necessário, vem justificar a justeza de um comentário feito pelo Padre António Vieira numa carta dirigida a Duarte Ribeiro de Macedo (diplomata e escritor, 1618-1680), datada de 5 de Setembro de 1678, que reza assim: «De resto, os portugueses não são apenas brandos no castigo dos crimes e delitos. São também excessivamente brandos na execução das leis que se elaboram, mas poucas as que se cumprem, ou por falta de persistência, ou por espírito de favoritismo. Os portugueses fazem quase sempre política pessoal. Querem Deus para si e o Diabo para os outros. Às vezes o mesmo indivíduo, que ontem aprovava uma lei, já hoje a repudia e não lhe obedece, porque ela o atinge.»
Já lá vão trezentos anos. Temos todos os recordes de conservadorismo... recorde-se BOTAS.
Todos estes fenómenos são conhecidos. Actualmente tudo se aperfeiçoou teoricamente, legislando-se para haver um Tribunal Constitucional para analisar os conteúdos legais no sentido da sua constitucionalidade.
A verdade é que, com uma frequência crónica, e porque não é obrigatória a análise prévia sobre a constitucionalidade dos textos, às tantas todos discutem a constitucionalidade do preceito. E só por exaustão é que se recorre ao parecer idóneo em sede própria (Tribunal Constitucional). Mas também pode acontecer o assunto ser resolvido a favor do mais forte, mais importante, mais altivo e pretensioso, e ninguém fala em Tribunal Constitucional, porque cada um quer ter razão... e ponto final. E, por vezes, o erro vem logo desde o alvor do processo que, em vez de começar pela consulta em sede própria, decide de cima do seu púlpito que, nesse caso, é como se fosse o tribunal. Tudo ao arrepio da Lei.
Conclusão: 1º - estamos como em 1678 por direito consuetudinário; 2º - a maior aptidão do governante ou dirigente da Cousa Pública é o desenrascanço. Escuso-me a dar exemplos, mas que os há, há.
Em Portugal, tal como a cabra de Lisboa em Camisa, pasta-se numa alcatifa verde já bastante rapada pelo pisoteio do íncola: o Zé Povinho, o das Caldas de Rafael.
Fernando Vieira de Sá
Lisboa, Janeiro de 2009
Acabámos de receber um texto muito comovente de Magaly Sala-Skup, filha de D. Victorio Sala, um grande amigo que Vieira de Sá conheceu no México e de quem nos fala em Viagem ao Correr da Pena (pp. 396 e ss.). Trata-se de alguém que foi um elemento essencial para a história do livro Lechería Tropical. Sem a sageza de D. Victorio Sala, o livro não teria sido editado (fora, entretanto, considerado «dispensável» pelas entidades portuguesas contactadas para a sua eventual edição no nosso país), não conheceria a extraordinária recepção em meios universitários da América Latina, nem aportaria a Cuba em formato de edição revolucionária.
Un restaurante que por la excelencia de su comida y por la estatura humana e intelectual de Victorio y Antía se volvió un lugar de encuentro de grandes intelectuales que soñaban de un mundo mejor. Entre ellos el pintor mexicano Gironella, la esposa del muralista Siqueiros que venía a buscar regularmente comida para llevarle a su esposo que en esos momentos se encontraba en la cárcel, el escritor Gabriel García Márquez quien leía a sus amigos partes de su Cien años de soledad y el veterinario portugués Fernando Vieira de Sá y su esposa Maria Elvira, con quienes se desarrolló una entrañable amistad.
Ilustração de A. Calbet
Ilustrando, esta imagem sexy enchendo a capa com a gravura da deusa grega do Amor, Afrodite, fazendo por si só passar a mensagem escaldante de um alto espírito de verdade, que só se cumpre com o amor puro de uma deusa da Antiguidade Grega.
Tudo isto fica aqui em segredo. Não desejo interromper outros silêncios, esses por carência de fair play.
Fernando Vieira de Sá
Outubro/Novembro de 2008
A morte de Branco Rodrigues exerceu em mim uma sensação que nunca tinha experimentado e que se enraíza numa profunda ideia de irmandade que vem de um tempo em que, com epicentro na Europa mas com réplicas em todo o mundo, deflagrou a I Guerra Mundial.
Os Cães de Guerra - De todas as lições recebidas neste período de instrução já declarei atrás que tudo o que se palestrou foi de tal vulgaridade que pouco ou nada, por mais esforços que faça, ficou retido na memória. Em linguagem dos tempos de hoje chamar-se-ia a este estado de espírito o «buraco do ozono» do planeta, sendo que aqui o planeta é o nosso mundo craniano. No entanto, uma excepção é de toda a justiça relevar. Foi a palestra sobre cães de guerra, não só pelo seu intrínseco interesse (uma informação que não era conhecida) como por uma certa filosofia que da lição se desprende, como na sua avaliação em termos mais abrangentes. Por tais razões achei oportuno relatar.
A lição, como já referi, era sobre cães de guerra. O instrutor desperta logo a atenção. Assim: Corria a I Guerra Mundial, conhecida por «Guerra das Trincheiras», em que os dois países beligerantes - França e Alemanha -, frente a frente e corpo a corpo, se debatiam, saindo das suas trincheiras, pelejando em terreno de ninguém. Durou isto quatro anos de beligerância a que se Juntaram a Bélgica, a França e depois a Inglaterra, Portugal e, do outro lado, os países de Leste. No estudo estratégico da beligerância, os observadores militares e estrategos, começaram a ter dificuldades em descobrir como os exércitos do lado alemão davam toda a sensação de dispor de informações que prejudicavam os ataques-surpresa, o que os levou a uma séria investigação, da qual resultou a descoberta do cão-correio, cão-estafeta, enfim um novo meio de comunicação à distância que, na época, era muito escassa e de modesta qualidade: telefones de campanha, telégrafo, código Morse, pombo-correio aberto ao tiro certeiro, e não sei se mais algum.
Ora bem, descoberto o segredo de comunicação através dos cães, os investigadores dos aliados logo começaram a estudar todo esse campo. Concluíram então que os alemães já estudavam o assunto desde há muitos anos, possuindo na altura cães de raça apurada para os efeitos desejados, quartéis de cães de guerra adestrados no ofício de mensageiro ao domicílio, etc., etc.
Sem perda de tempo, do lado aliado começa o improviso de caçar cães onde os houvesse, desde o vira-latas até ao pastor alemão, caçando homens para treinadores, sabendo tanto como os cães, etc., etc. Mas - enfatiza o nosso instrutor - «a verdade é que com todos estes improvisos os nossos cães lá se desenrascaram e cumpriram tão bem como os do inimigo que vinham de academias caninas». Chegado a este momento e a esta declaração, ouve-se do fundo da sala de aula uma voz pensadora de quem medita mais para lá das palavras. O que se ouve é isto, em atmosfera de silêncio, referindo-se à conclusão do instrutor: «Eram os milicianos meu tenente, eram os milicianos. Cá estamos nós também aqui como rafeiros». Salta uma grande gargalhada. O instrutor embatuca e faz um sorriso sardónico.
E até ao fim da instrução, a respeito de tudo e de nada, ouvia-se: «Eram os milicianos... somos os cães-correio da I Grande Guerra».
[continua]