sábado, 14 de março de 2009
BERNARDINO MACHADO
domingo, 8 de fevereiro de 2009
«OPERAÇÃO DULCINEIA» - O ASSALTO AO «SANTA MARIA». CATORZE DIAS QUE ABALARAM SALAZAR E SURPREENDERAM O MUNDO
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
MARIA ELVIRA [1917-1999]
«A minha sorte, porém, vinha sendo construída desde há muito mais tempo e penso muitas vezes: o que teria sido eu, ou o meu percurso, sem essa incomparável companheira que foi de todas as horas, cuja influência tão delicada e sábia não se fazia sentir, mas definitivamente actuava sempre com inteligência, bom-senso, humanismo, bondade e concórdia? Todos os que a conheceram e com ela conviveram nas mais diversas oportunidades a admiravam [...]. Quando, por excepção, [ocorria] algum daqueles vulgares atritos susceptíveis de criar cenários ou relacionamentos menos claros com as pessoas, Maria Elvira superava-os, voando muito mais alto, mostrando o seu distanciamento com a maior discrição, mas também com o seu grande carácter de mulher sensível, sem nunca deixar de manifestar a sua peremptória personalidade. A sua presença era, simultaneamente, a distinção de mãos dadas com a afabilidade. Renegava a idolatria. Não sei o que seria, mas não seria eu, nem nada de melhor. Se hoje me sinto realizado com aquilo que pretendi fazer nesta viagem pela existência a ela e só a ela o devo.»
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
JURAMENTO DE HIPÓCRATES
«João Abel Manta; retrato original do Dr. Monteiro Baptista, realizado para a circunstância do seu 75.º aniversário»
«Não sei se alguma vez - ou, pelo menos, na Era Moderna - o Juramento de Hipócrates constituiu (ou constitui) norma de acto público obrigatório para que o candidato ao exercício profissional da medicina a pratique de pleno direito, empenhando a sua honra, probidade, consciência e outros meritórios atributos; ou se, pelo contrário, tais requisitos não passam de uma alegoria para -não obstante o cerimonial normativo não fazer presença física - chamar, mesmo assim, a atenção à implícita obrigatoriedade de cumprir as prerrogativas para as quais o mesmo faz apelo.
Para mim, as duas hipóteses têm o mesmo valor:
uma, é espectáculo; a outra é um estado de espírito.
A primeira, amplamente desacreditada; a segunda, expressa pela evidência - a prática em si mesma, o que significa que nenhuma delas se torna necessária, já que a consciência, a honra, a probidade, etc., etc., não surgem nem se alteram na sua génese por simples jura, pois que, se não houver a dita consciência, a dita honra, a dita probidade à partida - intrinsecamente existentes nos cromossomas - jamais existirão depois. E o espectáculo muito menos o consegue.
Veja-se, por exemplo, as múltiplas vezes a que se assiste nos écrans da TV a juramentos de honra com a mão solenemente espalmada sobre a Bíblia, sobre o Corão, sobre qualquer Constituição de Estado, ou até contra o peito em gesto de entrega dadivosa dos mais nobres sentimentos que trespassam o coração e a mente, e aí, logo aí, já os actores se estão traindo sem pejo, mesmo sabendo que todos sabem do perjúrio. E quem o faz? Não é nenhum anónimo cidadão. Não, são altos dignitários que até se julgam donos do Mundo e juízes em causa alheia.
Apesar de tudo, não se pode jamais ignorar o Juramento de Hipócrates como ponto de referência, não só para médicos, como para todos aqueles a que muita da doutrina nele contida é aplicável na conduta do Homem perante a Sociedade e a sua própria consciência.
Mas, quem foi Hipócrates? Cognominado «O Grande» por Platão, "O Divino" por Apolónio, "O Admirável Criador da Beleza" por Galeno, Hipócrates foi o primeiro construtor e arquitecto da medicina como ciência e como prática, segundo o pensamento racionalista. Mas, também foi um humanista de grande vulto, um observador atento da natureza humana, um "viandante colhendo experiência e sabedoria", um investigador sobre as causas próximas e remotas dos males expressos por sinais discrásicos do corpo, relacionando-os com o ambiente e os elementos exteriores, o que significa dizer ter descoberto a "Ciência do diagnóstico", ou seja, a arte, a intuição, a inteligência e a mais importante e difícil de toda a prática da medicina, pois sem um diagnóstico seguro, a cura é aleatória e, se errado ou tardio for feito, poderá ser fatal e a medicação será sempre sintomatológica.
Este intróito, por descabido que pareça, pois dá a impressão de querer "ensinar o padre-nosso ao vigário" é, no entanto, essencial para poder caracterizar Monteiro Baptista, com mais correcto abrangimento e precisa dimensão, colocando-o na órbita de um seu predecessor, não por juramento, mas por sua própria essência. Este procedimento por ser eu a adoptá-lo pode não merecer o crédito de muitos críticos. Contudo, tenho a convicção que dificilmente ele será contestado por toda a multitude de pacientes que Monteiro Baptista atendeu e tratou, muitos deles livrando de sofrimentos e sombrias - por raras ou complexas - patologias, algumas delas bem mais próximas da morte, do que da vida. Esses, sim, me apoiarão as vezes que forem precisas. Escuso de perguntar-lhes. Sei.
Terá Monteiro Baptista feito, ou apenas lido em voz baixa, o Juramento de Hipócrates? Não sei, nem isso é relevante. O que é importante afirmar sem receio de desmentido, é que no citado juramento, não há uma única ideia, uma única acção, um único conselho, uma única expressão humanística que Monteiro Baptista não tenha praticado, sem nisso ter empenhado toda a sua diligência, abnegação e espontaneidade que só a natureza íntima do seu carácter pode garantir sem recurso a qualquer jura.
Como tal, o histórico e paradigmático juramento que é, em última análise, uma peça de autêntica apelação à integridade moral, cívica, profissional e irrepreensibilidade de obediência aos códigos éticos que regulamentam as suas práticas, representam para Monteiro Baptista, sua categórica natureza de homem e cidadão, plasmada numa modéstia comovedora e reluzente de uma grandeza cristalina.
Em conclusão: Hipócrates "O Grande" ou "O Admirável", como foi chamado, foi o iniciador da prática científica da medicina e o descobridor da arma mais valiosa do seu exercício - o diagnóstico - como método de pesquisa e avaliação das causas remotas da doença; o humanista ao serviço da dor e da vida; e o renovador da mentalidade corrente do seu tempo, rejeitando as crenças e magias como meios de cura, criando e desenvolvendo o método científico e dialéctico, fundando assim as bases da medicina moderna. Pela mesma época Esculápio, chamado "o patrono da medicina" ainda se fazia acompanhar da serpente tida como zeladora da saúde, tal como hoje ainda se acendem velas aos santos pedindo curas ou agradecendo-as aos deuses, tendo passado, entretanto, 2500 anos.
A "decalage" no tempo que separa Hipócrates dos nossos dias, não permite comparações para além de meras consensualidades de princípios, lógicas e racionalismo que no diagnóstico atinge a sua maior marca, fundamentos que, por si só, justificam que se possa concluir:
SE HIPÓCRATES FOI "O GRANDE" MONTEIRO BAPTISTA
É O SEU VIVO E ACABADO EXEMPLO
Não quero terminar este depoimento que escrevi por constrangimento, criado pela ausência, de não manifestar exactamente como sinto este solene momento de consagração de um homem que, além de tudo, é um amigo, benesse que fiquei devendo ao 25 de Abril que nos aproximou e irmanou nos mesmos ideais e que, ao contrário de outras conquistas que a Revolução nos trouxe, esta foi irreversível.
Nesta sequência é imperativo da consciência alargar esta homenagem a outra figura que é parte integrante e conteúdo intangível da pessoa em foco, sobretudo levando em linha de conta de querermos festejar o seu septuagésimo quinto aniversário de nascimento. Refiro-me à Dra. Georgette Banet, sua mulher e também distinta médica.
Para além disso (agora em cenário de maior irmandade), Georgette é, em todos os vectores da sua personalidade, o prolongamento substantivo de Luís Manuel. E, neste contexto, gozar a delícia do convívio que sempre é oferecido no seu lar a todos os amigos que a ele se acolhem ao calor de uma hospitalidade sem rebuço, e uma camaradagem de fraterna comunhão de pensamento é um privilégio, e, desde logo, uma reconfortante paragem no tempo e um rejuvenescedor alento. E Georgette, na sua nata delicadeza feminina com fímbrias da "La Douce France", donde descende, é sem dúvida alguma a referência mais importante a considerar e enaltecer quando se palpita ao redor da vida do
Dr. Luís Manuel Monteiro Baptista
que abraço pelo grande dia 3 de Fevereiro de 2001
e ambos felicito.»
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
MONTEIRO BAPTISTA [Lisboa, 3-II-1926; Lisboa, 16-V-2007]
domingo, 1 de fevereiro de 2009
A «NAU PORTUGAL»
sábado, 31 de janeiro de 2009
RECORDANDO «LISBOA EM CAMISA», UM COMENTÁRIO OPORTUNO A PROPÓSITO DO DESENRASCANÇO NACIONAL
Foto das pp. 170 e 171 de Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», onde se refere o livro O Leite em Lisboa - História do Seu Abastecimento.
A propósito de um caricato episódio que relato em posfácio do meu livro O Leite em Lisboa - História do Seu Abastecimento [Lisboa, Clássica Editora, 1991], que se ocupa da história do abastecimento de leite à cidade, e onde se faz a resenha de uma longa lista de diplomas oficiais e resoluções da Câmara Municipal de Lisboa, cobrindo um período que vem desde 1830 a 1990, esbarra-se com um quadro metendo altas entidades oficiais e universitárias, talvez gerador de incredulidade se não fosse confirmado tim-tim por tim-tim documentalmente. Não sendo assim, poder-se-ia pensar tratar-se de plágio de Gervásio Lobato, comediógrafo e evocador dos costumes lisboetas, em que se destaca o episódio humorístico relatado no seu livro Lisboa em Camisa (a sua obra, de 1894, mais reeditada), onde a dado passo um lisboeta é forçado a comprar uma cabra, levando-a para as águas-furtadas do prédio onde vivia, na baixa pombalina. E para que o animal não estranhasse cobriu o chão com uma alfombra verde a sugerir um relvado. Já nesse tempo se lutava contra a precariedade na procura de leite, sendo o de cabra o mais consumido.
Passaram entretanto 120 anos e, contudo, em termos de desenrascanço - que é o que está em causa -, embora dentro de outro contexto mais complexo, implicando autoridades oficiais e académicas, inspirado no título de Gervásio Lobato, e embora não se trate de um livro mas tão-somente de um apontamento, lembrei-me de lhe dar o título de Lisboa em Tanga, usando a imagem que reflecte a penúria dos tempos, o que aliás não se trata de uma invenção minha, pois um Primeiro Ministro deste reino, há alguns anos, usou essa indumentária como vestimenta adequada aos habitantes de Portugal, e que eu agora adequo à capital denunciando um quadro verídico descrito em posfácio a que dei o nome de «Cesse tudo quanto a musa antiga canta».
Todo este intróito, que me pareceu necessário, vem justificar a justeza de um comentário feito pelo Padre António Vieira numa carta dirigida a Duarte Ribeiro de Macedo (diplomata e escritor, 1618-1680), datada de 5 de Setembro de 1678, que reza assim: «De resto, os portugueses não são apenas brandos no castigo dos crimes e delitos. São também excessivamente brandos na execução das leis que se elaboram, mas poucas as que se cumprem, ou por falta de persistência, ou por espírito de favoritismo. Os portugueses fazem quase sempre política pessoal. Querem Deus para si e o Diabo para os outros. Às vezes o mesmo indivíduo, que ontem aprovava uma lei, já hoje a repudia e não lhe obedece, porque ela o atinge.»
Já lá vão trezentos anos. Temos todos os recordes de conservadorismo... recorde-se BOTAS.
Todos estes fenómenos são conhecidos. Actualmente tudo se aperfeiçoou teoricamente, legislando-se para haver um Tribunal Constitucional para analisar os conteúdos legais no sentido da sua constitucionalidade.
A verdade é que, com uma frequência crónica, e porque não é obrigatória a análise prévia sobre a constitucionalidade dos textos, às tantas todos discutem a constitucionalidade do preceito. E só por exaustão é que se recorre ao parecer idóneo em sede própria (Tribunal Constitucional). Mas também pode acontecer o assunto ser resolvido a favor do mais forte, mais importante, mais altivo e pretensioso, e ninguém fala em Tribunal Constitucional, porque cada um quer ter razão... e ponto final. E, por vezes, o erro vem logo desde o alvor do processo que, em vez de começar pela consulta em sede própria, decide de cima do seu púlpito que, nesse caso, é como se fosse o tribunal. Tudo ao arrepio da Lei.
Conclusão: 1º - estamos como em 1678 por direito consuetudinário; 2º - a maior aptidão do governante ou dirigente da Cousa Pública é o desenrascanço. Escuso-me a dar exemplos, mas que os há, há.
Em Portugal, tal como a cabra de Lisboa em Camisa, pasta-se numa alcatifa verde já bastante rapada pelo pisoteio do íncola: o Zé Povinho, o das Caldas de Rafael.
Fernando Vieira de Sá
Lisboa, Janeiro de 2009
domingo, 25 de janeiro de 2009
PODER, AMBIÇÃO E GANÂNCIA
domingo, 18 de janeiro de 2009
CONTRA UM NOVO HINO À IGNORÂNCIA
Soube por um qualquer órgão de comunicação que uma próxima edição do suplemento «Visão História», da revista Visão, seria dedicado a Cuba, necessariamente à sua revolução que, em 1 de Janeiro de 2009, completou 5o anos de idade, continuando a alimentar paixões, tanto no sentido heróico e patriótico, como no repúdio da ameaça à ordem e à paz social mantida por gente credenciada para manter a região caribeña conformada com a história e dependências que lhe calharam em sorte; e, com isso, garantindo os privilégios do vizinho acautelados. Perante este anúncio, e interessado pelo assunto, já que acompanhei a revolução desde os seus primeiros dias, igual a todos os que gostam de sentir-se cidadãos do mundo, mas também, mais tarde, por questões relacionadas com problemas que tinham que ver com algum auxílio que eu poderia proporcionar ao desenvolvimento da produção leiteira do país, na senda da revolução agrária e no âmbito da minha especialização em leitaria tropical (ver, neste blogue, as etiquetas «Lechería Tropical», «Cuba», «Ramón Castro»), logo acorri ao ponto de venda dos jornais, encomendando o suplemento da revista que saiu em 4-XII-2008, pagando 4,90 €, nada barato.
Chegado o dia D, prantei-me frente ao quiosque e, mesmo ali, por azar meu, abri o suplemento da revista pela folha final e deparei com um artigo de opinião com uma fotografia do autor, José Ribeiro e Castro, no canto superior esquerdo. De chofre, salta-me à vista esta chamada de atenção para o alvo de estimação seleccionado, qual comprimido para engolir ao pequeno almoço:
«CUSTA ACREDITAR
NA EVOLUÇÃO
DE UM REGIME QUE
TEM COMO ÍCONE
DE EXPORTAÇÃO
UM ASSASSINO:
"CHE" GUEVARA»
Agora sou eu e, certamente, muita gente a quem custa a acreditar que uma declaração deste teor possa ser proferida por alguém minimamente instruído que, desde logo, aponta para um analfabetismo visceral de quem se apresta a botar loas em questões complexas, quando ignora canhestramente os significados de «assassino» e «guerrilheiro» (todos sabem ter sido Che Guevara um guerrilheiro), que todos os dicionários definem como sendo antinómicos, com cargas morais e objectivos opostos, que não são susceptíveis de sobreposição. Só uma bacorada saída de um ignorante poderia escrever o que se lê em letras gordas neste quadradinho de prosa que acaba por se converter em diploma de inscícia do indivíduo que o escreveu. Mas, escrevendo-o, ofende o idioma (por chocarreado), ofende a própria revista, retirando-lhe probidade e decoro, cujo revisor talvez tivesse confundido «liberdade de expressão» com «ignorância», suporte de uma libertinagem que fere a verdade exigível por qualquer leitor respeitoso.
Assim, o autor prestou um mau serviço ao seu partido (assunto interno) e à Instrução Primária Nacional, que aqui se manifesta canhestramente. E foi uma má companhia para os restantes colaboradores. Cada um balizará os efeitos, de acordo consigo próprio.
É este o meu desapontamento, tratando-se da Visão onde, neste suplemento dedicado ao cinquentenário da revolução cubana, escrevem pessoas que mereceriam melhor companhia, pelo menos maior decência e alfabetização.
Só a possibilidade deste esclarecimento público, oferecido de bandeja, paga o custo da revista.
Fernando Vieira de Sá
Janeiro de 2009
sábado, 20 de dezembro de 2008
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
VICTORIO SALA TOLO [BONANZA, 14/II/1892 - MONTREAL, 17/I/1983]
Acabámos de receber um texto muito comovente de Magaly Sala-Skup, filha de D. Victorio Sala, um grande amigo que Vieira de Sá conheceu no México e de quem nos fala em Viagem ao Correr da Pena (pp. 396 e ss.). Trata-se de alguém que foi um elemento essencial para a história do livro Lechería Tropical. Sem a sageza de D. Victorio Sala, o livro não teria sido editado (fora, entretanto, considerado «dispensável» pelas entidades portuguesas contactadas para a sua eventual edição no nosso país), não conheceria a extraordinária recepção em meios universitários da América Latina, nem aportaria a Cuba em formato de edição revolucionária.
Un restaurante que por la excelencia de su comida y por la estatura humana e intelectual de Victorio y Antía se volvió un lugar de encuentro de grandes intelectuales que soñaban de un mundo mejor. Entre ellos el pintor mexicano Gironella, la esposa del muralista Siqueiros que venía a buscar regularmente comida para llevarle a su esposo que en esos momentos se encontraba en la cárcel, el escritor Gabriel García Márquez quien leía a sus amigos partes de su Cien años de soledad y el veterinario portugués Fernando Vieira de Sá y su esposa Maria Elvira, con quienes se desarrolló una entrañable amistad.[Magaly Sala-Skup, 19-XII-2008]
sábado, 13 de dezembro de 2008
A «BATALHA DE INGLATERRA»

sábado, 6 de dezembro de 2008
CONFISSÃO E CONFIDÊNCIA
Ilustração de A. Calbet
Ilustrando, esta imagem sexy enchendo a capa com a gravura da deusa grega do Amor, Afrodite, fazendo por si só passar a mensagem escaldante de um alto espírito de verdade, que só se cumpre com o amor puro de uma deusa da Antiguidade Grega.
Tudo isto fica aqui em segredo. Não desejo interromper outros silêncios, esses por carência de fair play.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
O REINO DA ESTUPIDEZ - II
O fio condutor desta trajectória é a complexa Indústria Alimentar, cuja génesis mergulha na agricultura e o terminus na distribuição dos produtos e, por extensão, na fome, meta até agora desprezível nos sistemas que a provocam e ignoram, mas dela se nutrem.
É à volta de tão abrangente e sinuoso itinerário que as questões de ordem científica, técnica, económica, política e social são abordadas e discutidas, tendo por mote os alimentos e paradigma as PME, vítimas dos modelos macroeconómicos em vigor, embora a retórica oficial lhes cante hosanas. Destes aspectos se ocupam as primeira [Alienações e desvios no estabelecimento de estruturas de desenvolvimento na produção agro-alimentar] e segunda [Reflexões políticas para a compreensão de certos aspectos económicos e sociais da actualidade] partes do livro, funcionando os Apêndices [I. Indústria leiteira e administração pombalina; II. O mirabolante sonho do Rei Formiga. Uma fábula] como ilustrações, a "água-forte", de cenários avulsos da cultura e estadismo lusitanos.»
O REINO DA ESTUPIDEZ - I
domingo, 30 de novembro de 2008
O DRAMA DAS PME - POR DETRÁS DO PANO DE FERRO
domingo, 23 de novembro de 2008
O DRAMA DAS PME - CONCORRÊNCIA, VALOR ABSOLUTO
domingo, 16 de novembro de 2008
A TODOS OS SERVIDORES DA FUNÇÃO PÚBLICA, FRATERNALMENTE
Dedico este trabalho de selecção documental e de crítica de processos a todos os servidores da Função Pública, independentemente de categorias, vínculo ao Estado ou precariedade de funções. Fraternalmente Fernando Vieira de Sá
ANAIS 1979 Índice I — Introdução XIII — FILAGRO XIV — Visitas ao Departamento XVII — Perspectivas Futuras
Abril 1981: [O Dever de Informar]
Antecedentes: Causas e Objectivos
26/XII/80 — Presidente do LNETI
sábado, 8 de novembro de 2008
INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (VII)
Fernando Vieira de Sá
Outubro/Novembro de 2008
domingo, 26 de outubro de 2008
JOSÉ BRANCO RODRIGUES [1912-2008]
A morte de Branco Rodrigues exerceu em mim uma sensação que nunca tinha experimentado e que se enraíza numa profunda ideia de irmandade que vem de um tempo em que, com epicentro na Europa mas com réplicas em todo o mundo, deflagrou a I Guerra Mundial.
Branco Rodrigues nasceu em 1912. Eu nasci em 1914, tempo de gestação e eclosão do grande conflito bélico (1914-1918), donde nasceria uma sociedade que alterou organicamente o statu quo ante da vida e, seguramente, actuou sobre as famílias e todo o evolutivo pensamento de que os recentes nascituros serviram de cobaias das recém-implantadas vivências.
Sem nos darmos conta disso, a verdade é que, com o desaparecimento de Branco Rodrigues, pela primeira vez senti que, afinal, o nosso encontro e conhecimento, dir-se-ia, recente, evoluiu instintivamente assente em uma aproximação oculta e temporal que agora, com a sua morte, senti que alguma coisa do meu estar alterou os estímulos da memória, dando-me a sensação de ter perdido alguém que, para mim, sem me dar conta, era tanto, como um amigo de vivências paralelas. Éramos, por assim dizer, produtos gémeos face ao alvor de uma novelíssima Nova Era nascida connosco, fazendo parte de nós.
Agora, neste particular aspecto e sem referência à época comum que nos assistiu à nascença, fiquei só, como relíquia desse mundo que nos ia formar. Nunca pensei que a sua falta neste mundo me tivesse atingido tanto por tal ausência. E, no entanto, vivemos dezenas e dezenas de anos, dir-se-ia, quase toda a vida sem nada sabermos um do outro, pois só nos vimos pela primeira vez em casa de Mário Neves [1912-1999], nascido também em 1912, um grande amigo comum, quando este caiu numa cadeira inutilizado pela doença que se arrastou fatidicamente, cumprindo a sentença de prisão perpétua que lhe calhou por acasos da existência. E nós, eu e Branco Rodrigues, cumprindo uma dívida que a amizade e o dever facultativo impõem, aí íamos fazer-lhe companhia com grande frequência, alimentando sempre uma conversa animada, esquecendo as circunstâncias que se esqueciam. Pois foi aí que de jure et de facto nos conhecemos, afinal somente quando a idade, já sem idade, nos começava a rondar a porta e nós a bater-lhe com ela na cara.
Mário Neves faleceu e nós continuámos a nossa relação, que já não tinha retorno, encontrando-nos frequentemente, incluso em Sesimbra, onde eu e Maria Elvira [1917-1999] recebíamos amigos em dias de fraternidade, o que ainda hoje faz presença na memória e na saudade, mas já com muitas baixas. O cerco aperta-se...
Mais recentemente os nossos encontros e conversas eram somente telefónicos. As circunstâncias iam-nos restringindo os espaços de manobra, ficando-nos como modesto recurso os telefonemas diários para uma saudação e já isso era um apego a todo o nosso passado de relação de amizade. A falta desse contacto diário atingiu-me, como não me passaria pela cabeça atingir os meus tempos de ocupação mental e refrescamento pela voz e pela banal notícia de «nada de novo», ajudando-nos a existir.
Branco Rodrigues era um homem especial. Vivia mais para os amigos do que para si mesmo. Era pessoa que se dedicava intensamente aos amigos, sempre atento aos aniversários, às homenagens em vida e na morte, intervindo nas celebrações de tudo o que enaltecesse alguém que o merecesse. Lembro aqui, e registo, a grande preocupação de Branco Rodrigues, desde há um ano, com a celebração do centenário do general Vasco Gonçalves [1921-2005] com o seu receio de que caia no esquecimento ou menor relevo por falta da devida antecipação na sua organização. Por isso desunhava-se em contactos, prevendo que ele poderia não estar já vivo para agitar, para dar o seu contributo e pedir o de outros. Esta seria a mais sublime homenagem a Branco Rodrigues, que, levando-a a cabo, seria sem dúvida alguma uma dupla homenagem.
Tudo isto aqui escrito lembra e homenageia Branco Rodrigues, um homem modesto, só pensando nos outros, fossem eles vivos ou mortos. A sua figura esfumava-se com total discrição. Quem lhe quisesse falar em qualquer celebração, por exemplo, teria de ir à última fila, onde o encontraria silencioso e apagado, mas sempre atento a tudo.
É com saudade e respeito que dedico estas palavras à sua memória.
Fernando Vieira de Sá
Lisboa, 26 de Outubro de 2008
sábado, 25 de outubro de 2008
INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (VI)
No Hospital repete-se a mesma continuação universitária. De alguma coisa especificamente militar, na realidade não me recordo. Toda esta orientação, que nada tinha de militar, mais tarde mostrou a sua inutilidade quando me vi em manobras e não sabia por que ponta lhe havia de pegar, dificuldades a que me referirei à frente.
Os Cães de Guerra - De todas as lições recebidas neste período de instrução já declarei atrás que tudo o que se palestrou foi de tal vulgaridade que pouco ou nada, por mais esforços que faça, ficou retido na memória. Em linguagem dos tempos de hoje chamar-se-ia a este estado de espírito o «buraco do ozono» do planeta, sendo que aqui o planeta é o nosso mundo craniano. No entanto, uma excepção é de toda a justiça relevar. Foi a palestra sobre cães de guerra, não só pelo seu intrínseco interesse (uma informação que não era conhecida) como por uma certa filosofia que da lição se desprende, como na sua avaliação em termos mais abrangentes. Por tais razões achei oportuno relatar.
A lição, como já referi, era sobre cães de guerra. O instrutor desperta logo a atenção. Assim: Corria a I Guerra Mundial, conhecida por «Guerra das Trincheiras», em que os dois países beligerantes - França e Alemanha -, frente a frente e corpo a corpo, se debatiam, saindo das suas trincheiras, pelejando em terreno de ninguém. Durou isto quatro anos de beligerância a que se Juntaram a Bélgica, a França e depois a Inglaterra, Portugal e, do outro lado, os países de Leste. No estudo estratégico da beligerância, os observadores militares e estrategos, começaram a ter dificuldades em descobrir como os exércitos do lado alemão davam toda a sensação de dispor de informações que prejudicavam os ataques-surpresa, o que os levou a uma séria investigação, da qual resultou a descoberta do cão-correio, cão-estafeta, enfim um novo meio de comunicação à distância que, na época, era muito escassa e de modesta qualidade: telefones de campanha, telégrafo, código Morse, pombo-correio aberto ao tiro certeiro, e não sei se mais algum.
Ora bem, descoberto o segredo de comunicação através dos cães, os investigadores dos aliados logo começaram a estudar todo esse campo. Concluíram então que os alemães já estudavam o assunto desde há muitos anos, possuindo na altura cães de raça apurada para os efeitos desejados, quartéis de cães de guerra adestrados no ofício de mensageiro ao domicílio, etc., etc.
Sem perda de tempo, do lado aliado começa o improviso de caçar cães onde os houvesse, desde o vira-latas até ao pastor alemão, caçando homens para treinadores, sabendo tanto como os cães, etc., etc. Mas - enfatiza o nosso instrutor - «a verdade é que com todos estes improvisos os nossos cães lá se desenrascaram e cumpriram tão bem como os do inimigo que vinham de academias caninas». Chegado a este momento e a esta declaração, ouve-se do fundo da sala de aula uma voz pensadora de quem medita mais para lá das palavras. O que se ouve é isto, em atmosfera de silêncio, referindo-se à conclusão do instrutor: «Eram os milicianos meu tenente, eram os milicianos. Cá estamos nós também aqui como rafeiros». Salta uma grande gargalhada. O instrutor embatuca e faz um sorriso sardónico.
E até ao fim da instrução, a respeito de tudo e de nada, ouvia-se: «Eram os milicianos... somos os cães-correio da I Grande Guerra».
[continua]
sábado, 18 de outubro de 2008
INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (V)
Após este intróito, que se impunha para que todos lembrem que nem tudo é mau, nem tudo é fado, cá estamos, repito, arrostando o veredictum dos Juízes, as sentinelas da herança pátria, egrégios exemplos...
Nada, porém, resiste à ferrugem que tudo mina, mesmo o que se julgaria protegido da perversão dos costumes, a corrupção da sociedade. A verdade é outra, embora não se escreva. Com efeito, ao contrário, tradicionalmente e na generalidade dos casos, todos os varões desejariam reprovar na inspecção médica e, como tal, ser dispensados dos deveres militares. Comigo, porém, passava-se o contrário. Também os desígnios eram outros e mais modestos, menos ambiciosos, mais pessoais. Pode condenar-se, mas aplaudir seria desaforo. Assim, é simplesmente justo. Nunca me julguei com estatura para tão altos desígnios. Em boa verdade desejaria ser aprovado - do que não tinha a menor dúvida, dada a minha compleição física - por duas razões: 1º. - terminado o curso e apto para o serviço militar, poderia concorrer ao quadro de veterinário militar se por acaso houvesse algum concurso de admissão; 2º. - e o mais aliciante, que consistiria em aprender equitação, o que só poderia concretizar sem custos fazendo o curso de oficial miliciano na arma de cavalaria. Nesse tempo, com menos de metade do século XX percorrido (escrito assim é mais ponderável) o Exército tinha os melhores cavaleiros do país. Porém, nesse ano as coisas iriam correr de forma diferente, dir-se-ia, ao invés da rotina, sacrificando a impoluta dignidade profissional em dose dupla (militar e civil). O patriotismo e a ética, quer militar quer médica, cedem às instruções indignas vindas do Alto, em formato de boato, o mesmo é dizer de Salazar, para que os mancebos de Lisboa, e particularmente de Alcântara, na base de uma inaptidão diagnosticada para a prática militar, conferida pela respectiva Junta Médica, e assim precaver qualquer infiltração de vírus subversivos carreados para dentro dos quartéis pelos indivíduos vindos de um meio duvidoso face à segurança da sociedade. A razão era simples. A Espanha era assediada desde há um ano pela Guerra Civil. Franco corria pela implantação do fascismo em Espanha, uma espécie de Cid, O Campeador, que também por aí cavalgou há bem mil anos, derramando sangue e morte selvaticamente como se fossem ambos da mesma cepa, o mesmo ADN, com o fito de expulsar o poder republicano democraticamente alcançado nas urnas, derrotando a ditadura de Primo de Rivera (1931-1935), exilando-se o rei Afonso XIII que se acolhe ao sol do Estoril. Portugal, para os fascistas e reis, era um paraíso. Outros, mais tarde, fizeram o mesmo.
A Mentira, «A Bem da Nação» - É bom recordar que, nesse tempo, a classe operária, concreta e personalizada, afirmava-se quase exclusivamente em Lisboa, nomeadamente em Alcântara, onde se erguia o complexo industrial da CUF, único exemplo significativo de Revolução Industrial inspirada pelos novos ventos que começaram a soprar após o fim da I Grande Guerra (1914-1918) na Europa. Perante este espectro, tudo podia acontecer; isto é, ser reprovado na inspecção médica. A preocupação aumentava à medida que se ia conhecendo a invulgar alta percentagem de mancebos dispensados. Chegado o meu dia, vi-me às tantas numa sala perfilado numa linha de quinze matulões, todos em cuecas, aguardando a sua vez para ser inspeccionado por uma Junta de três ou quatro médicos militares. Pelo aspecto físico, se fosse em tempos normais, todos seguramente seriam apurados. Porém, até à minha vez, teriam sido observados uns dez, cuja maioria ficou dispensada. Eu falava só. Olhava os médicos, simples capatazes do regime, o quadro de uma pátria ajoelhada aos pés do ditador a preço sem preço. Servidão.
Desta feita, e desde logo identificado com os «bons exemplos» e os brios aí praticados «A Bem da Nação» ou, quiçá, da humanidade, deixando para trás feito entulho o que fez a história dos tais heróis cuja memória se enxovalha em favor de outros alvos e outra moral. É preciso chamar a atenção para o pormenor de que esta inspecção tinha lugar no Quartel-General, ao tempo funcionando no Palácio das Necessidades, recebendo a brisa alcantarense transportando o vírus inquietante. Ouvindo, finalmente, o meu nome, avancei até junto da mesa onde esperavam os actores da peça que, um a um, iam manobrando à minha volta, exibindo os clássicos gestos e aparelhagem de diagnóstico usuais nestes actos profissionais e, não demorando o veredictum, dá o resultado/ordem: «Está dispensado, pode seguir». Mostrei-me surpreendido porque me sentia são como um pêro e disse, quase ofendido: «Veja o sr. doutor, eu pensava que tinha saúde para dar e vender e agora oiço esta. Preciso saber o que se passa para consultar um médico imediatamente». O médico fica um pouco surpreendido e confuso e o que lhe veio à cabeça foi dizer: «Não é nada de grave, mas fica livre. É melhor prevenir que remediar». «Não é bem assim sr. doutor, de qualquer modo quero saber o que me afecta, para me tratar e cuidar». Resposta: «Mas não está contente por ficar livre?». «Não é o caso nem se põe essa questão de querer ou não querer». O médico mostra algum embaraço em manter o diálogo e acaba por dizer: «Está bem, se quer ficará apurado. E em que arma gostaria de servir?» «Não sabia que se podia escolher, mas se me dá essa oportunidade, gostaria de ir para cavalaria». Desta feita e desde logo identificado com o brio militar e profissional dos respeitáveis facultativos, que poderão defender a Pátria de perigos medonhos mas, quanto a honra e brio profissional, estamos conversados... É uma vergonha. A nobreza de Salazar era ter a Pátria a seus pés.
[Continua...]
