sábado, 18 de outubro de 2008

INCURSÃO PELAS ARMAS - ECOS DA MEMÓRIA (V)

1. COMEÇANDO PELO PRINCÍPIO - Corria o ano de 1937. Fazia já um ano que começara a Guerra Civil de Espanha. Estava eu no 4º Ano do Curso de Medicina Veterinária. Teria neste ano de me apresentar à inspecção médica (vulgo «sortes») e, sendo apurado, seguir-se-ia o primeiro período de instrução militar, ingressando no Curso de Oficiais Milicianos, pois é aí o viveiro do Exército e da Marinha para civis licenciados onde se caldeiam as mais altas virtudes do cidadão deslapidado ou mal entalhado para arrostar os perigos que sempre enfrentam as grandes nações e pátrias de altos exemplos de honra e patriotismo. Esses saberes e entregas que aí se aprendem e, sofregamente, aspiram ficar à altura dos mestres e momentos onde a glória os aguarda. Isto é o que a etiqueta do curso suscita. Cá estamos. A pergunta é: estaremos à altura?
Após este intróito, que se impunha para que todos lembrem que nem tudo é mau, nem tudo é fado, cá estamos, repito, arrostando o veredictum dos Juízes, as sentinelas da herança pátria, egrégios exemplos...
Nada, porém, resiste à ferrugem que tudo mina, mesmo o que se julgaria protegido da perversão dos costumes, a corrupção da sociedade. A verdade é outra, embora não se escreva. Com efeito, ao contrário, tradicionalmente e na generalidade dos casos, todos os varões desejariam reprovar na inspecção médica e, como tal, ser dispensados dos deveres militares. Comigo, porém, passava-se o contrário. Também os desígnios eram outros e mais modestos, menos ambiciosos, mais pessoais. Pode condenar-se, mas aplaudir seria desaforo. Assim, é simplesmente justo. Nunca me julguei com estatura para tão altos desígnios. Em boa verdade desejaria ser aprovado - do que não tinha a menor dúvida, dada a minha compleição física - por duas razões: 1º. - terminado o curso e apto para o serviço militar, poderia concorrer ao quadro de veterinário militar se por acaso houvesse algum concurso de admissão; 2º. - e o mais aliciante, que consistiria em aprender equitação, o que só poderia concretizar sem custos fazendo o curso de oficial miliciano na arma de cavalaria. Nesse tempo, com menos de metade do século XX percorrido (escrito assim é mais ponderável) o Exército tinha os melhores cavaleiros do país. Porém, nesse ano as coisas iriam correr de forma diferente, dir-se-ia, ao invés da rotina, sacrificando a impoluta dignidade profissional em dose dupla (militar e civil). O patriotismo e a ética, quer militar quer médica, cedem às instruções indignas vindas do Alto, em formato de boato, o mesmo é dizer de Salazar, para que os mancebos de Lisboa, e particularmente de Alcântara, na base de uma inaptidão diagnosticada para a prática militar, conferida pela respectiva Junta Médica, e assim precaver qualquer infiltração de vírus subversivos carreados para dentro dos quartéis pelos indivíduos vindos de um meio duvidoso face à segurança da sociedade. A razão era simples. A Espanha era assediada desde há um ano pela Guerra Civil. Franco corria pela implantação do fascismo em Espanha, uma espécie de Cid, O Campeador, que também por aí cavalgou há bem mil anos, derramando sangue e morte selvaticamente como se fossem ambos da mesma cepa, o mesmo ADN, com o fito de expulsar o poder republicano democraticamente alcançado nas urnas, derrotando a ditadura de Primo de Rivera (1931-1935), exilando-se o rei Afonso XIII que se acolhe ao sol do Estoril. Portugal, para os fascistas e reis, era um paraíso. Outros, mais tarde, fizeram o mesmo.

A Mentira, «A Bem da Nação» - É bom recordar que, nesse tempo, a classe operária, concreta e personalizada, afirmava-se quase exclusivamente em Lisboa, nomeadamente em Alcântara, onde se erguia o complexo industrial da CUF, único exemplo significativo de Revolução Industrial inspirada pelos novos ventos que começaram a soprar após o fim da I Grande Guerra (1914-1918) na Europa. Perante este espectro, tudo podia acontecer; isto é, ser reprovado na inspecção médica. A preocupação aumentava à medida que se ia conhecendo a invulgar alta percentagem de mancebos dispensados. Chegado o meu dia, vi-me às tantas numa sala perfilado numa linha de quinze matulões, todos em cuecas, aguardando a sua vez para ser inspeccionado por uma Junta de três ou quatro médicos militares. Pelo aspecto físico, se fosse em tempos normais, todos seguramente seriam apurados. Porém, até à minha vez, teriam sido observados uns dez, cuja maioria ficou dispensada. Eu falava só. Olhava os médicos, simples capatazes do regime, o quadro de uma pátria ajoelhada aos pés do ditador a preço sem preço. Servidão.
Desta feita, e desde logo identificado com os «bons exemplos» e os brios aí praticados «A Bem da Nação» ou, quiçá, da humanidade, deixando para trás feito entulho o que fez a história dos tais heróis cuja memória se enxovalha em favor de outros alvos e outra moral. É preciso chamar a atenção para o pormenor de que esta inspecção tinha lugar no Quartel-General, ao tempo funcionando no Palácio das Necessidades, recebendo a brisa alcantarense transportando o vírus inquietante. Ouvindo, finalmente, o meu nome, avancei até junto da mesa onde esperavam os actores da peça que, um a um, iam manobrando à minha volta, exibindo os clássicos gestos e aparelhagem de diagnóstico usuais nestes actos profissionais e, não demorando o veredictum, dá o resultado/ordem: «Está dispensado, pode seguir». Mostrei-me surpreendido porque me sentia são como um pêro e disse, quase ofendido: «Veja o sr. doutor, eu pensava que tinha saúde para dar e vender e agora oiço esta. Preciso saber o que se passa para consultar um médico imediatamente». O médico fica um pouco surpreendido e confuso e o que lhe veio à cabeça foi dizer: «Não é nada de grave, mas fica livre. É melhor prevenir que remediar». «Não é bem assim sr. doutor, de qualquer modo quero saber o que me afecta, para me tratar e cuidar». Resposta: «Mas não está contente por ficar livre?». «Não é o caso nem se põe essa questão de querer ou não querer». O médico mostra algum embaraço em manter o diálogo e acaba por dizer: «Está bem, se quer ficará apurado. E em que arma gostaria de servir?» «Não sabia que se podia escolher, mas se me dá essa oportunidade, gostaria de ir para cavalaria». Desta feita e desde logo identificado com o brio militar e profissional dos respeitáveis facultativos, que poderão defender a Pátria de perigos medonhos mas, quanto a honra e brio profissional, estamos conversados... É uma vergonha. A nobreza de Salazar era ter a Pátria a seus pés.

[Continua...]

terça-feira, 14 de outubro de 2008

INCURSÃO PELAS ARMAS

Brevemente aqui se escutarão mais alguns «Ecos da Memória», desta feita sobre a «Incursão pelas Armas» de Fernando Vieira de Sá, com peripécias das «sortes» no quartel-general, ao tempo a funcionar no Palácio das Necessidades, ali bem perto da Alcântara da CUF e dos mancebos portadores de perigosos vírus subversivos, entre outras saborosíssimas histórias que vão do Regimento de Cavalaria 2-Lanceiros da Rainha até ao Cartaxo... onde se fala de equitação, cães de guerra, mulas, carne podre, etc... sempre à espera do invasor alemão!!!

Aqui ficam dois registos fotográficos, um de 30-X-1943, por ocasião das manobras militares na região do Cartaxo, sendo FVS Alferes-Veterinário, outro, datado de 1-VI-1953, sendo FVS já, então, graduado Tenente-Miliciano do Serviço Veterinário Militar.



domingo, 12 de outubro de 2008

A CRISE - CADA COISA TRAZ EM SI A SUA CONTRADIÇÃO

No preciso momento em que todos os debates e análises se ocupam da tão propalada crise e se tenta descobrir a pólvora seca debaixo de água, camuflando os verdadeiros responsáveis de mansos cordeiros e de "vítimas", recordámos, esta tarde, em conversa com Vieira de Sá que, já em 2004, no seu livro Viagem ao Correr da Pena, o autor se debruçava sobre os problemas inerentes ao capitalismo selvagem, ao neoliberalismo e à globalização.
Deixamos aqui alguns excertos, que mais parecem escritos sobre a realidade que estamos a viver em pleno ano de 2008.
*
«Viver a utopia era, mesmo assim, possível. Havia boas razões para isso, com a esperança de que, com o fim da Guerra Mundial, a democracia seria, por direito próprio, proclamada para valer. Porém, o grande revés de tudo isso que era pensado foi, desde logo, a sobrevivência de Salazar e Franco após a derrota do nazi-fascismo. E, a partir daí, toda a reconstituição paulatina - apenas com a mudança da sede do Reich para a América do Norte - dos ambicionados poderes hegemónicos de domínio absoluto do Mundo, agora com armas mais poderosas, nãp só militares como económicas, e o totalitarismo da globalização. No entanto a utopia existe, configurada na implosão do capitalismo selvagem, ele próprio, quando chegado ao cume da sua última etapa de crescimento. Então renascerá das cinzas um novo mundo. Será para daqui a vinte, trinta anos? Os momentos históricos não se contam por minutos, horas, ou dias, contam-se por decénios e séculos. Isto se o planeta aguentar a destruição a que está sendo sujeito em favor apenas do banditismo do capitalismo selvagem, tomando, pelo dinheiro e pelas armas de destruição maciça, a riqueza de todos, o que já esteve mais longe, bem mais longe desse fim já em curso, sem esquecer o caos ecológico.
[...]
Assistimos agora ao mais inédito acontecimento da história do mundo. A aproximação suicida do pico de abrangimento e concentração da riqueza do planeta por mor do imperialismo expresso no neoliberalismo global, incluindo as riquezas de Marte, se lá as houver, vislumbrando-se que o século XXI venha a assumir-se a arena presumível da sua defecção, quando for chegado o último degrau da própria contradição, como dialecticamente é mister, e cujos sinais objectivos de sustentação se vão sentindo cada vez mais ameaçados, apontando para a inevitável derrocada, tão global quanto o ecumenismo das forças opostas se avolumam, não sendo fácil apor soluções intermédias, pois não se trata de reformar um sistema, mas de substituí-lo, invertendo os propósitos científicos de índole sociológica e de desenvolvimento económico, o que apraz alcançar com urgência e determinação. A experiência fala por si. É imperioso ir ao encontro desse desideratum, travando o passo quanto antes ao devorismo grassante, despertando as consciências frente a riscos de outra gravidade e de bem mais sérias consequências e incerta resolução, pois estas são já do foro das patologias ainda mal conhecidas que ensombram os cientistas e o mundo.
[...]
Derrubou-se o muro de Berlim, o "muro da vergonha" como se lhe chamou. Derrube-se agora o muro da fome, o muro da demência, o muro da morte, o muro do holocausto de uma civilização que agoniza. Todos são o mesmo muro. Mas estes agora não são da vergonha, mas do crime calculado e premeditado.
O problema agudiza-se e cada vez mais vertiginosamente (tempo da história). E também mais vertiginosamente se aproxima do pleno e dialéctico princípio de que "cada coisa traz em si a sua contradição" (Marx). Assim, o globalismo neoliberal não poderá evoluir para lá dos seus próprios limites que se consubstanciam na autofagia. E quando já fervilha a contestação das inquietantes turbas de esfomeados, de desempregados, de sem-abrigo, de sem-direitos em todos os recantos da Terra, todos sistematicamente orientados para um sistema filosófico de expoente inverso, ou seja, valorizando e dignificando o trabalho e garantindo os direitos estruturantes fundamentais, em última análise, o direito inerente à dignidade humana, dando aqui relevo à sanidade mental, a mais dramática de todas as sanidades.»
Fernando Vieira de Sá, «Prefácio de Coisa Nenhuma», Viagem Ao Correr da Pena, cit., pp. 17-18, 20.

domingo, 28 de setembro de 2008

ECOS DA MEMÓRIA (IV)

«OLHANDO ARQUIVOS, FAZENDO HISTÓRIA. NOVO CONCEITO: "LEITARIA TROPICAL". O PROBLEMA
Contra os interesses económicos dos países de climas temperados e em favor do desenvolvimento dos países quente (antigas colónias, protectorados e/ou submetidos ao capital das economias avançadas) vi-me pela primeira vez imprevisivelmente confrontado num Simpósio Internacional em Amalfi, Itália, ao debater questões de produção e utilização de leite em países quentes, dando-me a oportunidade de impor novas visões e conceitos técnicos, científicos e económicos, diferenciando em termos de identidades específicas e comportamentos de acção concernentes à produção e utilização do leite em diferentes condições climáticas e desenvolvimento global. A história vem de longe e, para se perceber em todo o seu sentido temporal, aconselha-se e recomenda-se a leitura, no meu livro Viagem ao Correr da Pena, do capítulo "A viagem dos incómodos e das surpresas" (pp. 71 ss.), cujos incómodos foram muitos, mas as surpresas muito maiores e imprevisíveis... só lendo se entende o que está em causa.
Apesar de todo o rechaço sofrido resolvi ir em frente, aproveitando a primeira oportunidade, ao ter sido convidado pela organização do XIV Congresso Internacional de Leitaria (1956) para proferir uma das três conferências plenárias programadas e cujo título define o objectivo de minha escolha que discuti em Amalfi: "The problem of a sufficient supply of milk in hot countries, particulary in relation to milk producing animals - the cow, buffalo, sheep and goat" (idioma do regulamento do congresso) que mereceu uma referência no jornal Il Tempo, de Roma, de 27-IX-1956, que aqui se reproduz em parte:

"[...] L'intervento più importante di ieri al 14. Congresso internazionale del latte e stato quello del prof. Vieira de Sá, il quale ha riferito sul rifornimento di una quantità sufficiente di latte ai paesi a clima caldo, in rapporto all'animale produttore: mucca, bufala, pecora e capra.
In particolare è stata esaminata, con abbondanza di riferimenti tecnici, l'interferenza del clima sia all'equatore che nelle zone tropicali e dei monsoni. Si tratta di problemi complessi che investone l'igiene, il trasporto, la lavorazione particolare del latte sia per l'alimentazione diretta che per la trasformazione industriale. D'altra parte l'incremento della produzione è il dato fondamentale, giacchè se il volume di latte commerciabile non è sufficiente, límpresa è anti-economica."

Em 1962 fui convidado para «Opener of Discussion» da Secção X - Tema 1 do XVI Congresso Internacional de Leitaria (Copenhaga), "The keeping of cattle in 'milk colonies' as opposed to traditional village units; problems in connection with the keeping of cows and buffaloes in urban districts" [tratava-se de Carachi, Bombaim e outras cidades, onde corriam explorações-piloto muito badaladas por Korodi (técnico indiano que eu conhecia e encantava Pederson, Chefe de Serviços da FAO)], tendo apresentado, adicionalmente, uma intervenção de fundo com o título: "The Establishment of the Milk Colonies Must be Considered From Many Viewpoints, Specially Those Concerning Farming Economy».

A designação «Leitaria Tropical» consagra-se na literatura sobre o tema. O meu livro Lechería Tropical confirma o avanço e espalha-se por toda a América Central e Sul. Em Portugal não se viu interesse.

O industrial milanês teve de se ajustar aos tempos que exigem progresso e ideias; e actos adaptados às exigências da ciência e da civilização; e sobretudo longe da mentalidade que se presenciou no logro "amalfiano".»
FVS
Setembro de 2008

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

TESTEMUNHO (III) - PRODUTOS TRADICIONAIS, CONGRESSO COM HISTÓRIA, UM EXEMPLO E UMA AMIZADE QUE PERDURAM

Em resposta a um mail que enviámos para saber qual o Congresso que a levou a Cuba em 1990 - tema abordado no texto anterior - recebemos este testemunho de Conceição Martins, amiga de Vieira de Sá. Conceição Martins é Professora Catedrática da UTAD - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Aqui ficam as suas palavras e o nosso agradecimento, em nome do blogue e do Dr. F. Vieira de Sá:

«(...) O Congresso a que fui era «36th Internacional Congress of Meat Science and Technology» realizado em Havana de 27 de Agosto a 1 de Setembro de 1990. Apresentei um poster «Chemical characteristics of ALHEIRA - a Traditional Portuguese Saussage». O tema dos produtos tradicionais de salsicharia sempre me foi caro por razões familiares (o meu pai iniciou uma unidade artesanal de salsicharia em 1946 que foi evoluindo e tem actualmente 45 colaboradores e na qual eu também sou sócia). O meu estágio de licenciatura realizou-se no INETI, em presunto, onde conheci o Dr. Vieira de Sá e ocorreu o incidente de me tratar por tu (naquela altura era tudo mais formal). O tratamento, a admiração e a amizade perduram. Assimilei o espírito incutido pelo Dr. Vieira de Sá no Departamento onde era estagiária e continuei a cultivá-lo pela vida fora: a importância do trabalho em equipa, a interdisciplinaridade, o interessante e enriquecedor que é trabalhar com outras formações, o importante de se ser rigoroso, produtivo e com espírito de missão, de como líder defender a discussão sem subserviência, o entusiasmo de se fazer coisas. Estando eu agora a ler o seu último livro dou-me conta o quanto foi importante na minha carreira académica e na minha postura perante o trabalho, toda essa postura que bem absorvi. Foi para mim um privilégio ter em 1970/71 trabalhado no Departamento, mais especificamente na área de microbiologia com a Dra. Ilda Cruz . Mantive sempre contacto com o DTIA ao longo do tempo e mesmo relações de parceria em assuntos profissionais. Quando ia a Lisboa a visita ao DTIA fazia parte do programa da deslocação para discussão de assuntos de carácter profissional (desempenhava o lugar de técnica de uma PME do sector das carnes ) mais tarde integrando a universidade o DTIA foi fonte de conhecimento, manancial de bibliografia, fonte de conhecimento analítico e técnico, e parceria no projecto de caracterização da salsicharia tradicional. Continuei no tema na investigação e ainda hoje o nosso grupo de investigação na UTAD tem a sua âncora nos produtos tradicionais. Nestas visitas ao DTIA a confraternização na hora de almoço era também um ponto importante no cimentar de relações de amizade que o tempo e a distância não desmoronaram. (...) Quando disse ao Ramón Castro que tínhamos um amigo em comum, FVS, virei estrela, dispensou a tradutora e fiquei eu de intérprete, acompanhando-o todo o tempo que esteve no congresso. No dia anterior tinha estado a falar com o Fidel Castro. Foi um congresso com história.
Conceição Martins»

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

ECOS DA MEMÓRIA (III)

Doutora Conceição Martins e Ramón Castro Ruz (Habana, 31 de Agosto de 1990).

Sabendo da sua ida a Cuba participar activamente num Congresso, pedi-lhe imediatamente para ser portadora de uma mensagem de amizade para Ramón que me acompanhou sempre nas minhas digressões em toda a ilha, ao que ela logo se prontificou gostosamente. Daí a mensagem de Ramón que aqui se reproduz:
«Al querido profesor Vieira de Sá,
de Su hermano Ramón Castro Ruz / Habana 31-8-90 Querido profesor, lo saludo, con la portadora, Estimada Maria. Siempre lo recordamos y lo esperamos.
Lo quiere Ramón Castro Ruz».


À Conceição, ao oferecer-lhe o meu último livro, Autópsia a Um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do DTIA, dediquei-o, escrevendo: «Por todas as razões terias direito a receber uma cópia desta peça shakespeareana, pois de drama se trata (uma autópsia é sempre drama). Mas acresce o facto de nesse elenco teres participado por algum tempo no papel de estagiária com um desempenho de muito bom quilate.

E até me recordo daquele aparte dela, em tom ofendido, advertindo-me que não me autorizava a tratá-la por tu, por não haver razões para tal. Respondi-lhe que continuaria a tratá-la por tu, mas, em contrapartida, pedia-lhe que me tratasse de igual para igual, pois eu exercito mais a fraternidade do que outras práticas amorfas e de catálogo que a sociedade usa sem nada dentro. E assim ficou a lição muito fácil. E a nossa fraternidade manteve-se e já conta muitos anos. Se assim não fosse teria o nosso relacionamento sido igual? Duraria para toda a vida? Fica a dúvida.» FVS

sábado, 20 de setembro de 2008

ECOS DA MEMÓRIA (II)

Graça Mexia, Manuel João da Palma Carlos, Annie, F. Vieira de Sá e Armanda Fonseca na embaixada de Portugal em Habana (arquivo FVS).

No dia seguinte à minha chegada a Habana, fui cumprimentar o Comandante Fidel Castro e agradecer-lhe o convite para visitar Cuba. Conversámos um bocado, dizendo-me ele que me agradecia toda a crítica que eu entendesse fazer. E que iria saber de mim diariamente através da sua secretária Annie, uma portuguesa em quem ele depositava toda a confiança. E assim todas as manhãs Annie me telefonava, conversando um pouco. Por vezes encontrava-a na embaixada de Portugal. Um desses dias alguém tirou esta foto. Da esquerda para a direita: Graça Mexia (médica), Palma Carlos (embaixador), meu contemporâneo do Liceu Passos Manuel [por isso eu ia à embaixada com alguma frequência para conversar de tempos idos e beber uma cerveja], Annie, eu e Armanda Fonseca (Presidente da Direcção da Associação de Amizade Portugal-Cuba). FVS

ECOS DA MEMÓRIA (I)

COM ESTE TEXTO INAUGURAMOS UMA NOVA RUBRICA, «ECOS DA MEMÓRIA», ONDE FERNANDO VIEIRA DE SÁ NOS TRARÁ ALGUNS APONTAMENTOS E RECORDAÇÕES SUGERIDOS POR FOTOS, RECORTES E OUTROS DOCUMENTOS DO SEU ARQUIVO
Com Ramón Castro, em 1975, de visita a um Centro de Inseminação Artificial em
Valles de Picadura (arquivo FVS)
Esta foto é do próprio dia em que cheguei a Cuba. Tendo embarcado em Lisboa à noite, cheguei a Habana às 6 da manhã. Aí, Ramón Castro informou do programa do dia: - tomar o jipe, agarrar nas malas e deixá-las à porta do hotel; - partir de imediato para visitas de trabalho de modo a vir almoçar à «Bodeguita del Medio», lugar histórico por aí se ter conspirado contra Baptista e por ter sido pouso de escritores como Hemingway e Neruda, entre outros. Aí nos aguardariam alguns convidados de Ramón e um grupo folclórico para animar o repasto. Aí chegados quase ao fim da tarde, o grupo já tinha saído convencido de que já não iríamos. Assim é a etiqueta cubana... llega cuando llega. Só se ouviram algumas canções cantadas pelos resistentes à demora.
Tendo permanecido em Cuba uma semana, mal vi Habana, andando sempre por montes e vales, sem deixar de visitar Valles de Picadura, onde se desenvolvia o projecto de desenvolvimento leiteiro, sob os preceitos recomendados no meu livro Lechería Tropical (edição revolucionária de 1967, mas que eu conheci em 1975). Antes este vale era um campo estéril e pedregoso. Em 1975 era um prado fértil onde pastavam centenas de vacas leiteiras de alta produção.
Foram dias de trabalho, mas também de muita fraternidade. Saí de Cuba quase cubano e nunca mais deixei de seguir a sua trajectória política e, sobretudo, o desenvolvimento pecuário. Voltei lá mais duas vezes, sobretudo para observar o progresso leiteiro. FVS

domingo, 14 de setembro de 2008

DISTRIBUIÇÃO REVOLUCIONÁRIA, EM CUBA, DE LECHERÍA TROPICAL

A MENSAGEM
(exemplar de F. Vieira de Sá)
Cf. Viagem ao Correr da Pena, p. 399: «A edição revolucionária foi a maneira que o Governo revolucionário de Cuba encontrou para ter acesso à obra, devido ao bloqueio norte-americano à ilha e que ainda se mantém ao fim de quarenta anos. Não só a edição foi produzida, como oferecida aos ganadeiros com a seguinte mensagem:
"Compañero:
Este libro tiene un gran valor, por eso se te entrega gratuitamente. Vale por el trabajo acumulado que significan los conocimientos que encierra; por las horas de esfuerzo investidas en confecionarlo; porque sintetiza un paso de avance en la lucha del hombre por ser tal. Su mayor valor estará dado, sin embargo, por el uso que tú hagas de él. Porque estamos seguros de eso uso, y por su gran valor, se te entrega gratuitamente.
EDICION REVOLUCIONARIA"»

EDIÇÃO REVOLUCIONÁRIA, EM CUBA, DO LIVRO LECHERÍA TROPICAL


Edição revolucionária de Lechería Tropical, La Habana, 1967.
Exemplar de F. Vieira de Sá, com alguns autógrafos/dedicatórias, oferecido em 11 de Setembro de 1975, por Ramón Castro, irmão de Fidel, com a seguinte dedicatória: «A mi querido hermano Fernando - defensor de la segunda madre de la humanidad - en su recorrido por Cuba. Valles de Picadura, Ramón Castro 11/9 - 75.

LECHERÍA TROPICAL - EDIÇÃO REVOLUCIONÁRIA, «FUZILAMENTO» E RESSUREIÇÃO DE F. VIEIRA DE SÁ

Diz Fernando Vieira de Sá na p. 392 de Viagem ao Correr da Pena, no capítulo já citado no texto anterior:

«Eu só vim a tomar conhecimento do meu "fuzilamento", como autor, após o 25 de Abril, ou seja oito anos mais tarde [a edição revolucionário é de 1967]. Através do primeiro contacto de Portugal com Cuba o jornalista Alpedrinha, e algumas semanas depois o Dr. Cruz Oliveira, na altura secretário de Estado da Saúde, no seu regresso a Lisboa, me procuram transmitindo-me um convite do Governo na pessoa do Ramon Castro, irmão de Fidel Castro, para visitar Cuba em agradecimento da contribuição que constituiu o meu livro para a orientação do projecto leiteiro, já então implantado. Aceitei o convite, que muito me honrou, tendo-me dado mais satisfação o dito "fuzilamento" que qualquer dinheiro que pudesse auferir pela venda dos direitos de autor de uma edição comercial. O "fuzilado", em nome de uma causa legítima, agora ressuscitado em nome de um reconhecimento. Para, no âmbito da divulgação do conhecimento científico e técnico, a maior de todas as recompensas é ter a confirmação da utilidade da sua obra, com a certeza de que para isso não contribuiu nada mais do que o seu conteúdo, o seu trabalho, e não a cunha ou lamber os pés a qualquer personalidade influente ou ainda entrar para o partido no poleiro, que no meu caso teria de ser a União Nacional ou a Legião Portuguesa para ter as portas abertas para as bibliotecas do Estado adquirirem as suas obras. Valeu a pena não vender a alma ao diabo... vale sempre a pena.»

LECHERIA TROPICAL - «COSTURANDO» A EDIÇÃO

Jiquilpan - Michoacan, México, 1960/61. Maria Elvira e Fernando Vieira de Sá . Fotos coladas no exemplar do autor com a seguinte nota manuscrita:
«escrevendo o livro Lechería Tropical cujo original em português foi rasgado (por revolta) por as editoras portuguesas não o terem querido publicar... por falta de interesse do assunto, segundo justificavam. Isto num país tropicalista.»

Mas para conhecer toda a história à volta deste livro sugere-se a leitura do capítulo «Acasos - A História de Um Livro», in Fernando Vieira de Sá, Viagem ao Correr da Pena, pp. 389-403, que começa precisamente com outra nota do Autor que reza assim: «ACASOS - A HISTÓRIA DE UM LIVRO / Cujo manuscrito em língua pátria foi, pelo autor, rasgado, por o ter considerado dispensável, tal como o afirmou o director da Escola Superior de Medicina Veterinária quando o representante da editora em Portugal o foi apresentar para aquisição pela Biblioteca do estabelecimento. O Ministério do Ultramar procedeu de igual forma.»

LECHERÍA TROPICAL - A EDIÇÃO DA UTHEA, CIDADE DO MÉXICO

A edição da UTEHA - Unión Tipográfica Editorial Hispano-Americana, México, 1965 (exemplar do Autor).

LECHERÍA TROPICAL - MAIS DOIS RECORTES

«LECHERIA TROPICAL. Dr. F. Vieira de Sá. Traducida al español por el Profesor Dr. Carlos Luis de Cuenca. Libro encuardernado de 350 páginas, editado por Unión tipográfica editorial Hispano Americana de Méjico y distribuida en España por la casa Montaner y Simón de Barcelona, 1965.
Una obra escrita en portugués por el especialista que es el Dr. Vieira de Sá y vertida al castellano por una figura tan preeminente dentro de la veterinaria española como la del Prof. Dr. Carlos Luis de Cuenca, no precisaría más comentario, por que de por sí sola se halaba pero no podemos menos de dedicarle unas líneas, muchas menos de las que merece, después de una primera lectura.
La parte primera estudia el medio ambiente y la productividad, considerando el clima y bioma, luego la acción directa del clima sobre el animal e inmediatamente la acción indirecta del mismo, terminando esta parte con las características de los animales en estas regiones y las consecuencias finales debida al clima. En la segunda parte considera las especies y razas que producen la leche en estos países de clima cálido: bovina - bufalina - cabra y la forma de mejorar el ganado lechero en los trópicos. En la tercera parte surge con toda fuerza el saber de quien ha trabajado en esos climas para la FAO, presenta los sistemas de explotación, los principios básicos de alimentación y la defensa sanitária del ganado y en la cuarta parte de un estudio extraordinario logrado sobre la tecnología lechera tropical, la economía lechera y la organización en aquellas zonas.
En este libro dedicado como su título lo indica a lechería tropical, no sólo aprenderá mucho el que haya de trabajar en aquellos climas sino que también todo el que a temas lactológicos se dedica.»
Anales de lactología y química agrícola
, Zaragoza, 12, 1966, p.16.
«Lechería Tropical - por Fernando Vieira de Sá - Edição da Union Tipografica Editorial Hispano Americana, México, 1965.
Esta obra, que se integra na "Biblioteca Tecnica de Agricultura y Ganaderia" publicada pela prestigiosa Editorial Hispano-Americana, cobre de maneira detalhada e completa o campo dos conhecimentos relativos à produção de leite nos países tropicais, o que a torna, por isso, de consulta muito útil aos técnicos que labutam nessas regiões, mormente aos médicos-veterinários que operam nas nossas províncias ultramarinas, embora os estudantes das nossas faculdades de Medicina Veterinária encontrem também neste magnífico trabalho um amplo e valioso repositório de informações sobre a economia leiteira em tão vasta zona do Globo.
O livro reflete, como é óbvio, a grande erudição e a larga cultura unânimemente reconhecidas ao Autor, que é, sem dúvida, na actualidade, um dos nomes mais brilhantes da Classe. O volume, que compreende um total de 348 + XIV páginas, é, como se disse, uma edição da UTEHA, da cidade do México, primorosamente impresso e valorizado com uma excelente introdução do prof. Carlos Luis de Cuenca, da Faculdade de Veterinária de Madrid, o qual se encarregou igualmente da tradução desta primeira edição em língua castelhana. Completam a obra, além de uma extensa recensão bibliográfica, numerosas gravuras e adequados índices, que valorizam sobremaneira tão relevante volume.
Fernando Marques»
Revista de Ciências Veterinárias, Vol. LXIII, fasc. 405 de 1968, p. 45.

LECHERÍA TROPICAL - ALGUNS RECORTES DA IMPRENSA DA ESPECIALIDADE


AO SERVIÇO DE UMA IDEIA UNIVERSAL DE FRATERNIDADE

«VIEIRA DE SA, Fernando: Lechería tropical. Un volumen de 348 págs., 16 x 23 cm., 97 grabados y un mapa. Unión Tipográfica Editorial Hispano Americana. México, 1965. Traducción: Carlos Luís de Cuenca.

Como resultado de una misión desempeñada por el autor bajo la confianza de altos organismos internacionales, y de una vocación plena a la zootecnia lechera, nació este libro en el que el autor condensa un cúmulo de problemas de índole biológica, económica, de costumbres y de tradiciones relacionadas con la producción lechera. Obra didáctica, a más de informativa, constituida según el esquema de una temática esbozadora que responde al deseo del autor de no abrumar con datos excesivos a quienes deben buscar soluciones a problemas, sin que falten los rigurosamente necesarios a los especialistas. Dedicado a los estudios de producción lechera tropical y de exploración biológica de las zonas tropicales al servicio de la producción lechera bovina, el autor ha recorrido en veinte años, prácticamente, todo el mundo no solamente para documentarse, sino para aportar soluciones y buscar los remedios mediatos o inmediatos de problemas difíciles. Las zonas áridas y secas, las estepes abrasadas, las desiertas, las vegetaciones xerofíticas, las poblaciones animales y humanas depauperadas, fue lo que este hombre exploró al servicio de una idea universal de fraternidade. Al regressar a su país después de realizar importantes misiones internacionales, le ha ofrecido el espléndido libro que hoy se presenta a los lectores de habla española, en el que se recogen los años transcurridos en pleno trabajo, frente a las fuerzas de la naturaleza y a los problemas de los hombres. Hemos de darle gracias por su esfuerzo.

INDICE: Introducción.-El medio ambiente y la productividad lechera.-El animal productor de leche.-Mejora del ganado lechero en los trópicos.-Explotación del ganado lechero en los trópicos.-Tecnología, economía y organización de la empresa lechera.»

[Revista espanhola de Zootecnia, núm. 2 (68), s/d, pp. 100-101.]

sábado, 13 de setembro de 2008

LECHERÍA TROPICAL - RECOLHA DE VALIOSAS EXPERIÊNCIAS

«VIEIRA DE SA (F.).-Lechería tropical.-Un volumen de 249 páginas, con 97 ilustraciones.-MEJICO,1965.
El veterinario don Fernando Vieira de Sá, figura bien conocida en los medios internacionales lecheros, como consecuencia de su larga estancia de trabajo en la Organización de las Naciones Unidas para la Agricultura y la Alimentación, há publicado un interesante libro, en el que se recogen las valiosas experiencias adquiridas personalmente a través de numerosos años de actividad en países cálidos.»
[Revista espanhola de leitaria, nº.58, Dezembro de 1965]

UMA VIDA EXEMPLARMENTE VIVIDA

Aqui se deixa, com a promessa de mais pormenores sobre a edição do livro Lechería Tropical, de Fernando Vieira de Sá, um recorte saído no Diário de Lisboa no dia 12 de Novembro de 1965:
«Do México, em edição da "Unión Tipográfica Editorial Hispano-Americana", chega-nos a versão em espanhol de um notável estudo do médico veterinário e distintíssimo técnico de lacticínios dr. Fernando Vieira de Sá, traduzido e prefaciado pelo professor da Universidade de Madrid dr. Carlos Luís de Cuenca. Reflectindo a projecção internacional dos trabalhos de um técnico português que conquistou por mérito próprio um prestígio invulgar no estrangeiro, "Lechería Tropical" constitui brilhante contribuição para o desenvolvimento da produção alimentar no sector a que se consagra. [...]

Esta obra, como escreve no prefácio o prof. Cuenca, é o fruto de uma dedicação total ao serviço de uma vocação plena, de uma experiência vivida e de uma documentação em primeira mão, postas à disposição de quem pode e deve aproveitá-las. Com a sua autoridade incontestável, o mestre espanhol salienta o valor humano de personalidades como a do dr. Vieira de Sá, que "prestam ignorada e anonimamente os maiores serviços à Humanidade". Depois de trabalhar longamente em Portugal, não só em serviços oficiais como na direcção técnica de empresas de lacticínios, o dr. Vieira de Sá percorreu grande parte da África em missões de assistência técnica, foi consultor técnico da F.A.O. para problemas da especialidade nos países tropicais e permaneceu no México durante cinco anos como orientador de importantes realizações pecuárias e industriais nesse país. No livro técnico que a editora mexicana publicou em língua espanhola reflecte-se uma vida exemplarmente vivida, além de uma cultura e de uma vocação técnica consagradas.

A edição é apresentada em excelente nível gráfico, com fotogravuras e um mapa em policromia, correspondendo ao nível internacional deste trabalho que honra os autênticos valores científicos e técnicos do nosso País».

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O TEMPO DAS CEREJAS

Nova referência a este blogue, agora no http://tempodascerejas.blogspot.com/, de Vítor Dias, a quem agradecemos estas palavras:

«É com grande respeito e admiração que chamo a atenção para o blogue em boa hora criado sobre a vida e as obras do dr. Fernando Vieira de Sá, chegado este ano aos 94 anos e tendo atrás de si todo um percurso científico, cívico e político digno da maior consideração. Clicando sobre a imagem de cima, pode aceder ao blogue e encomendar as obras de F. Vieira de Sá, um camarada que daqui saúdo com imensa estima.»

E não se esqueça: sempre que possa, visite «o tempo das cerejas»!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

PARABÉNS, FERNANDO!

«Parabéns a uma pessoa especial
O meu querido amigo Fernando Vieira de Sá faz hoje 94 anos !
PARABÉNS, FERNANDO!
que continues a ser a pessoa que és, com o empenhamento cívico de sempre e igual nobreza de espírito, o camarada e o amigo disponível e atento. Por muitos e bons anos! Conheçam-no aqui!
(Lisboa, 20 de Julho de 1914)»
Assim assinalava Júlia Coutinho em http://ascausasdajulia.blogspot.com/, fez ontem um mês, a passagem do 94º aniversário de Fernando Vieira de Sá, remetendo os leitores para este blogue. Em nome do blogue e do aniversariante o nosso OBRIGADO.

sábado, 26 de julho de 2008

A DISTÂNCIA DO TEMPO

«Começo a sentir a distância do tempo.
É como se, por artes mágicas, quando tudo parecia ter acontecido ontem, fosse de súbito surpreendido no olhar para trás e, ao enxergar longínquas imagens de memórias de intemporal passado, sentisse como que um eco repercutido na abóboda de uma catedral gótica cheia de silêncio a que os vitrais dão solene transparência, fazendo-nos perscrutar passos de peregrino, misto de um vivido imaginário que, sem saber os porquês, nos captaram os sentidos transmudando o real em sonho de uma viagem sem retorno. Após tudo, o andar deambulando por esse mundo fora, surge agora abruptamente nada mais do que a sensação de esse tudo não ter sido senão um conto igual aos muitos que o velho hortelão, nas seroadas à volta da lareira alentejana, onde o tronco de azinho se consumia em brasido e borralho, contava aos meninos, para que fossem dormir, não tanto a pensar na história mas, enquanto o sono não chega, reviver o aconchego do recanto da chaminé e a entoação da voz daquele homem rude, velho, de fartas suiças avolumando-lhe as faces, que, com as suas mãos duras das calejas da enxada, chegava a si o mais miúdo de todos nós - ou o mais metediço - e o aninhava no seu colo, privilégio sempre disputado por todos. Estar sentado no colo do mestre hortelão Alcibíadas Augusto, poeta ainda por cima - e repentista - era todo um intróito para um sono sem sobressaltos.
Estou vendo-o na horta de São Bento, frente à Cartuxa em pano de fundo (que diz-se estarem ambos ligados por um túnel para os frades e as freiras se encontrarem, pois São Bento era convento de freiras e Cartuxa de frades e os dois muito devotos) com a sua sachola cuidando de encaminhar a água pelo regueiro até aos canteiros dispostos em linha, onde crescem as hortaliças, o feijão carrapato trepando pelos caniços, as beldroegas, ou os morangos quando era tempo deles, por horas a fio até o sol se sumir por detrás das últimas cumeadas que limitavam o poente para lá do alto dos moinhos. Era tempo de chegar a casa, ali a dois passos, e preparar para a ceia que não era farta. Já então a sopa fumegava e os aromas das ervas faziam a boca quando entravam pelas narinas e abriam o apetite puxando a um naco de um queijinho seco e salgado cortado com a navalha a preceito, pedindo um trago de vinho por cada pedaço cortado, uso que só o alentejano sabe gerir.
Apesar de lisboeta, a minha infância e juventude ficaram sempre ligadas ao Alentejo, desde Estremoz, Évora, Vidigueira e por aí fora onde aprendi a viver o campo...»
F. Vieira de Sá, «Prefácio de Coisa Nenhuma», Viagem ao Correr da Pena, cit., pp. 15-16

domingo, 6 de julho de 2008

«BIBLIOTECA COSMOS»

Foto: Manuel Guerra [exemplares do autor]

Reler «Os Livros do Compromisso», in Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», cit., pp. 121 ss. Estes dois livros vieram a lume nos meses de Maio e Junho de 1945.

Em 2005, da edição de Ecos do México - Da História e da Memória, fizeram-se sessenta exemplares numerados de I a LX e sessenta numerados de 1 a 60, assinados pelo autor, comemorativos dos 60 anos da edição destes dois livros da «Biblioteca Cosmos», dirigida por Bento de Jesus Caraça, havendo ainda exemplares disponíveis para quem os desejar adquirir.

JOSÉ MARIA ROSELL

«O autor deste pequeno livro de divulgação, Dr. Fernando Vieira de Sá, conseguiu realizar uma obra que constitui uma utilíssima contribuição para o reconhecimento público do valor da produção e consumo dos lacticínios, na saúde e economia dos povos.
Actuando pelos seus cargos oficiais na resolução dos problemas práticos e científicos que suscitam as indústrias do leite em Portugal, esta sua publicação, que tivemos o privilégio de ler antes de ser impresa, é, como outras do mesmo autor, a melhor demonstração da capacidade e autoridade já reveladas na sua actividade profissional.
A presente monografia pode bem considerar-se uma apologia equilibrada das variadíssimas utilizações do leite, como alimento ou matéria-prima aplicada em numerosas indústrias, e deveria ser lida por todos os portugueses, porque nela se descrevem por forma comprimida, mas completa, os aspectos mais modernos da lactologia actual, os lacticínios de maior interesse na alimentação, bem como alguns produtos industriais obtidos do leite. Estamos certos de que os leitores deste pequeno volume, que, se algum defeito tem, é o de não ter podido resultar mais extenso, não deixarão de o ler com o maior interesse, avaliando devidamente a razão por que todos os países progressivos dedicam os maiores esforços à propaganda e fomento das indústrias lácteas, com a finalidade de assegurarem aos seus habitantes o consumo de produtos do mais elevado rendimento biológico na nutrição.
Por termos dedicado uma parte, não pequena, da nossa vida à realização de tão fecundo objectivo nalguns países amigos, e por termos em grande apreço as faculdades de inteligência e trabalho do Dr. Fernando Vieira de Sá - nosso jovem discípulo - gostosamente acedemos a escrever algumas linhas sobre o valor nutritivo dos produtos lácteos, como introdução a este livro.
[..]»
José Maria Rosell, in «Introdução», Os Derivados do Leite na Alimentação e na Indústria, Lisboa, Edições Cosmos, Junho de 1945, pp. 5-6.
Ver referências de F. Vieira de Sá ao Prof. Rosell - lactologista catalão, médico de formação - nas pp. 124-125 de Cartas na Mesa...

sábado, 5 de julho de 2008

TESTEMUNHO (II) - «APENAS UM TESTEMUNHO»

Recebemos um belíssimo e enternecedor texto-testemunho de Angelina Barbosa, recordando os tempos de trabalho no Parque Natural da Serra da Estrela e o contacto com Vieira de Sá, Maria Elvira e netos. Aproveitamos para agradecer esta participação e para solicitar, a quem o desejar, outros testemunhos.
Apenas um testemunho

Foi há 28 anos! Ao folhear estes livros, que agora me chegaram, vem-me à memória os meus primeiros anos de trabalho no Parque Natural da Serra da Estrela.
Estava em causa o pastoreio e o queijo artesanal. Uma actividade de grande tradição e, claro, se houvesse vontade, de grande futuro.
Uma equipa de técnicos com formação social, foi chamada a elaborar um programa, faseado no tempo, com o objectivo de dar um novo fôlego a esta actividade. E um conjunto de iniciativas foram sendo concretizadas, nomeadamente, o estudo de caracterização do pastoreio e a organização de concursos para apuramento da qualidade.
Faltava a componente técnica. E surge o nome do Dr. Vieira de Sá. Um dos elementos da equipa conhecia o seu trabalho de investigação acerca do queijo artesanal de ovelha, por terras da Estrela.
Não me era estranho o nome. Soube agora que trabalhou durante algum tempo na região de Aveiro, onde nasci. Sendo duma família de agricultores então produtora de leite, provavelmente um nome referido lá em casa e captado ainda em criança.
Organizado o regulamento do concurso, fomos ao LNETI, pedir a sua opinião e também apoio de um técnico que integrasse o júri. Éramos uma equipa de três elementos. Uma ligeira espera e mandaram-nos entrar. Apresentações feitas, dissemos ao que vínhamos. Depois de alguns ajustes ao texto do regulamento, surge a frase “ Sim eu mesmo irei”. Não veio só. Da sua equipa veio também a Dra Manuela Barbosa.
“Sim eu mesmo irei”. Tudo tão simples! Situação rara neste nosso país.
Quando saímos do LNETI, estávamos entusiasmadíssimos, pela resposta afirmativa. Éramos agora uma equipa mais completa e, sobretudo, muito motivada.
E durante cinco anos, no período de Carnaval, trabalhou connosco. E sempre o acompanhou Maria Elvira, sua mulher e, quando possível, os seus netos.
Foram anos de trabalho em prol da qualidade do Queijo Serra da Estrela, uma experiência marcante, pelos resultados conseguidos, pelo muito que aprendi e, sobretudo, pela Amizade, que o tempo não conseguiu apagar, quando a vida naturalmente nos traçou outros destinos. Para mim um privilégio.
Lembro com emoção e muita saudade a sua mulher, Maria Elvira. A serenidade, a lucidez, o sorriso, a sua palavra amiga. A minha sentida homenagem.
E agora, olho estes títulos e acho que sou uma pessoa com sorte. Eu tenho nas minhas mãos as obras, com o registo de vida, que o Dr. Vieira de Sá nos quis deixar!


Reconhecida, envio daqui o meu abraço amigo.


Angelina de Sousa Barbosa

3/07/08

quinta-feira, 3 de julho de 2008

RECORDANDO BENTO DE JESUS CARAÇA E A «BIBLIOTECA COSMOS»

«O principal motivo destas páginas assentou no desejo de dar maior conhecimento, nomeadamente aos meus colegas veterinários, de um acervo de correspondência enviada por mim ao Prof. Bento de Jesus Caraça, através da qual se discutiu e balizou o interesse de incluir no programa editorial da "Biblioteca Cosmos" uma secção contemplando temas do âmbito da «Produção e Indústria Animal na Civilização Humana", contribuindo assim, não só para um maior universo de intervenção cultural popular da publicação, como ilustrando, ao vivo, a generosa disponibilidade da direcção de Bento Caraça à frente dessa sua grande iniciativa que foi a Cosmos nunca descurando o esmero ou subestimando a finalidade.
Agora, com a publicação da aprimorada obra Biblioteca Cosmos. Um Projecto Cultural do Prof. Bento de Jesus Caraça (Novembro de 2001) com que a Fundação Calouste Gulbenkian quis comemorar o centenário do nascimento de Bento Caraça, e onde se aflora tal assunto como exemplo de engajamento e participação dos colaboradores, materializadores do referido projecto, pareceu-me de todo o propósito dar a conhecer um pouco mais detalhadamente a história desse labor que, directa e indirectamente, acabou por se confundir com todas as outras colaborações vindas das respectivas áreas de expressão humana, criando assim um dos mais acabados exemplos de divulgação em língua portuguesa dos grandes temas que configuram e enaltecem a humanidade em todas as suas vertentes do pensamento e acção.»

«Nota Prévia», Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», Lisboa, Moinho de Papel, 2004, pp. 13-14.

domingo, 29 de junho de 2008

PARA QUE HAJA LEITE EM ABUNDÂNCIA

Fernando Vieira de Sá em Roma, em Maio de 1957, enquanto técnico da FAO


«Escolhi ser médico-veterinário,
e ainda estudante do 3º ano me iniciei pelos estudos de Lactologia.»
in «Introdução» de Curriculum Vitae apresentado, em Janeiro de 1980, ao Júri do Concurso Público para Investigador-Coordenador do Laboratório Nacional de Investigação Industrial do Ministério da Indústria.

A GRANDE TAREFA

«... por quase dez anos de deambulação pelo Mundo foi minha principal tarefa estudar e propor medidas de desenvolvimento leiteiro nos mais diversos países da Ásia, África e América Latina, a maioria pertencente à zona intertropical. [...] Convivi com chineses, indonesos, indús, turco-mongois, uzbeckes, kurdos, árabes, bantus, zulus, coanhamas, guaranis, incas, jivaros, colorados, aztecas, tarascos, tarahumaras, totonacas, mayas, etc., etc., que à parte a côr da pele, o formato dos olhos, o tipo de cabelo, o perfil crâneo-facial, o grau de hibridação, ou seja, o traço antropológico ou a língua em que se expressam e que os diferencia, um grande traço comum os une, que é a sua dolorosa luta pela sobrevivência, a sua pungente existência entre infindáveis riquezas, exploradas, aliás, pelo mundo industrializado. Após duas ou três voltas ao Mundo, ou após dez anos de contactos com tais populações fica a sensação da extrema semelhança dos problemas que afligem esses povos, dos quais o mais relevante é o da exploração a que são submetidos pelo mundo industrializado e que tem feito com que o tipo de intervenção técnica neles desenvolvido, se tenha dirigido mais à exploração das riquezas renováveis e degradação das não renováveis, do que à defesa e valorização do seu património.
Este contacto exerceu forçosamente uma grande influência nos meus conceitos de técnico e cientista, pois creio que a grande tarefa que um e outro deverá assumir como prioritária, será a de tentar reduzir em forma sistemática e progressiva o grande fosso que separa o Norte do Sul, o explorador do explorado, o mundo industrializado do mundo subdesenvolvido.»
F. Vieira de Sá, in «Introdução» de Curriculum Vitae apresentado, em Janeiro de 1980, ao Júri do Concurso Público para Investigador-Coordenador do Laboratório Nacional de Investigação Industrial do Ministério da Indústria.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

TESTEMUNHO (I) - OS TRÊS «ECOS DO MÉXICO»

Recebemos de Ruy de Paiva e Pona, familiar de F. Vieira de Sá, um texto - inspirado pela leitura de Ecos do México: Da História e da Memória e de um poema de Viagem ao Correr da Pena - que a seguir se reproduz sem mais comentários.
FERNANDO:

Vejo com satisfação que te converteste, ou te converteram, aos segredos da Internet! São inúmeras as suas vantagens das quais não é a menor o permitir que deixe o testemunho de quanto aprecio a força com que demonstras as tuas ideias quer quando recordas o passado quer quando, nas nossas conversas, criticas o presente e arquitectas o futuro…

Não sei se já reparaste que só existe o «passado»…

Quanto ao «futuro», não é mais que um tempo potencial medido por uma sucessão de imagens virtuais por nós concebidas; o «presente» é uma mera fronteira de transição entre o tempo real, passado, e o tempo virtual, futuro. Quando pensamos no presente… é já passado…

Como escreve o autor de «As Palavras Caladas», na nossa vida há dois mundos: um «mundo exterior», por um lado, mundo real definido pela passagem das coisas e das pessoas, das crianças que nascem e dos velhos que morrem, o mundo que divide as pessoas conforme a sua riqueza, o seu poder, a sua saúde ou a sua beleza; por outro lado há um «mundo interior», mundo da luz que esbate os muros, as divisões e os contrastes, que produzem a ilusão do tempo! Será este o tempo interior de Bergson?

E, vem isto a propósito da leitura dos teus livros, particularmente dos «Ecos do México», que estive agora a reler. Nele encontro três livros: o primeiro relata a História do México desde a origem pré-colombiana até à actualidade, da sua cultura e da sua arte; no segundo revives uma vida de cinco anos mexicanos, marcantes para a Maria Elvira e para ti, na recordação a dois da paisagem e das gentes, do trabalho feito e da aventura…; finalmente, no epílogo, no «Regresso ao Torrão», num livro de duas páginas, condensas o teu mundo interior e onde ressalta a importância da participação da Maria Elvira, «uma mulher inteligente, dinâmica, estudiosa e culta, com grande bom-senso, corajosa, determinada e com um grande sentido da vida, da conciliação e da bondade, tudo na aparência de uma modéstia comovente» como tu dizes.

Também a mim me comoveu!

Como tu, quase com as mesmas palavras, recordo a Maria Helena que «com a sua maneira de ser modesta e quase apagada esteve sempre presente; companheira sempre disponível e constante, sempre pronta, com a sua inteligência e o seu bom-senso, a dar o conselho e a ajuda certos nos instantes e nas circunstâncias difíceis da nossa vida. Sempre pronta a receber os meus amigos e dos meus filhos, sempre pronta a governar e a manter a casa impecável… e tudo sem dar nas vistas, sem se sentir! A sua sensibilidade às circunstâncias e às pessoas fazia que aqueles com quem contactava ficassem suas amigas…»

No teu poema «Metamorfose» dizes, numa visão premonitória, palavras que creio se aplicam às nossas duas Mulheres:
Partiste,
mas deixaste na terra raízes.
O tempo venceu-te,
mas deixaste na terra raízes.

Um abraço grande do

RUY

sábado, 3 de maio de 2008

CATÁLOGO - ENCOMENDAS

Foto: Manuel Guerra
AUTÓPSIA A UM DEPARTAMENTO CIENTÍFICO DO ESTADO - LIVRO BRANCO DO DEPARTAMENTO DE TECNOLOGIA DAS INDÚSTRIAS ALIMENTARES
Apresentação de Eugénio Rosa [http://fvieiradesa.blogspot.pt/2008/05/apresentao-de-eugnio-rosa.html]
isbn 978-972-99081-3-2 312 pp. pvp (iva incluído): 16,00
ECOS DO MÉXICO - DA HISTÓRIA E DA MEMÓRIA
Prefácio de Miguel Urbano Rodrigues
isbn 972-99081-2-5 224 pp. pvp (iva incluído): 15,00
VIAGEM AO CORRER DA PENA
Apresentação de Urbano Tavares Rodrigues
isbn 972-99081-1-7 408 pp. pvp (iva incluído): 18,00
CARTAS NA MESA - RECORDANDO BENTO DE JESUS CARAÇA E A
«BIBLIOTECA COSMOS»
Prefácio de Manuel Machado Sá Marques
isbn 972-99081-0-9 176 pp. pvp (iva incluído): 10,00

Os pedidos deverão ser dirigidos a f.vieiradesa@gmail.com

quinta-feira, 1 de maio de 2008

O LIVRO DA AUTÓPSIA


APRESENTAÇÃO DE EUGÉNIO ROSA

Regista-se aqui, com os agradecimentos do autor, o texto elaborado pelo economista Eugénio Rosa para apresentação do novo livro de F. Vieira de Sá, Autópsia a Um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares:
BREVES PALAVRAS DE APRESENTAÇÃO
Num momento em que se procura culpabilizar os trabalhadores da Administração Pública de todas as deficiências de que ela enferma e, esta, dos males do País; numa altura em que os trabalhadores da função pública são acusados de «privilegiados» para os isolar dos outros trabalhadores, para assim atacar mais facilmente os seus direitos, o livro do Dr. Fernando Vieira de Sá, Autópsia a um Departamento Científico do Estado - Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares, de que foi director durante vários anos, tem uma actualidade muito grande. E isto por várias razões. Em primeiro lugar, porque, como o próprio autor refere, «não interessa que o Livro Branco seja deste ou daquele departamento. O que se passa aqui passa-se em todo o lado» da Administração Pública; portanto o caso do Departamento de Tecnologias das Indústrias Alimentares (DTIA) não é um caso isolado, mas um entre muitos, servindo apenas de exemplo. Em segundo lugar, porque o DTIA, apesar de se situar num sector fundamental para o País (recorde-se que, em 2007, Portugal gastou com a importação de produtos alimentares 313,9 milhões de euros e, com a importação de produtos agrícolas, 1 451 milhões de euros, e que 60% do que consome nesta área é já estrangeiro); repetindo, apesar do DTIA poder ter um papel importante na melhoria da qualidade e da competitividade da indústria alimentar portuguesa, o certo é que nunca existiu, como o livro do Dr. Vieira de Sá prova de uma forma clara e fundamentada, um verdadeiro apoio e um aproveitamento eficaz das capacidades e competências que existiam nesses Departamento para promover o desenvolvimento de um sector fundamental para o abastecimento do País, como são as indústrias alimentares, por parte quer do governo quer dos responsáveis do Instituto a que este departamento pertencia. Em terceiro lugar, apesar desta falta de apoio e de aproveitamento, verificou-se, por parte de quem dirigia o DTIA bem como de muitos dos seus trabalhadores altamente qualificados, um esforço, para não dizer mesmo uma luta contínua, para, por um lado, dotar o Departamento dos meios mínimos indispensáveis à realização da sua missão, que era de interesse nacional, e, por outro lado, para que o DTIA, mesmo com meios e apoios reduzidos, pudesse exercer a sua missão da melhor forma em prol do desenvolvimento das indústrias alimentares do País, cujos produtos, nomeadamente os tradicionais, definem também a nossa cultura. E quando depois de muitos anos de esforços e luta com esse objectivo, vêem que ele não foi atingido, sentem uma profunda amargura, principalmente por tudo aquilo que o País perdeu e continua a perder. A própria história das vicissitudes da entidade a que o DTIA pertencia mostra bem a forma como os diversos serviços da Administração Pública, mesmo os fundamentais para o desenvolvimento e modernização do País, têm sido tratados pelos sucessivos governos. Assim, o DTIA surge, embora ainda de uma forma embrionária e, enfrentado muitas resistências, no Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII) criado em 1957 permanecendo aí até 1976, quando este Instituto é extinto. Em 1977, surge o Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial (LNETI) que funciona até 1992 onde permanece o DTIA sendo, nessa altura, transformado no Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação (INETI) que se mantém, na prática, até 2008 pois, em 2006, o governo de Sócrates aprovou o Decreto-Lei 208/2006, que extinguiu aquele Instituto tendo as suas atribuições sido repartidas por quatro entidades diferentes, a saber: as relativas aos domínios da energia e geologia integrados no Laboratório Nacional de Energia e Geologia, IP, uma entidade nova a criar; as atribuições relativas à metrologia integradas no Instituto Português da Qualidade, IP; as atribuições relativas às indústrias alimentares, portanto aquelas que caíam no âmbito do DTIA, integradas no Instituto Nacional de Recursos Biológicos do Ministério da Agricultura; e as no domínio das tecnologias de saúde relevantes no Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, IP, do Ministério da Saúde. No entanto, no fim de Março de 2008, a indefinição e, a consequente, paralisação dos serviços era grande porque, por um lado, essa repartição de atribuições ainda não se tinha concretizado e, por outro lado, os orçamentos dos Laboratórios do Estado continuavam por cumprir. E não é de afastar a hipótese que, daqui a poucos anos, tudo isto seja de novo baralhado e repartido, até tendo em conta a forma e a consistência como foram repartidas todas estas atribuições em que muitas vezes foram ignorados os objectivos verdadeiros e concretos como estavam ou deviam ser utilizadas. A leitura atenta do livro Autópsia a um Departamento Científico do Estado e, nomeadamente, do Livro Branco do Departamento de Tecnologia das Indústrias Alimentares, que é uma parte daquele, leva-nos ao interior da Administração Pública, ao esforço diário e tenaz da esmagadora maioria dos seus trabalhadores e de muitos dos seus responsáveis para que a qualidade dos serviços públicos melhore e para que eles sirvam de uma forma eficiente a população e o País, assim como os obstáculos, dificuldades, incompreensões, falta de apoio e de estímulo que continuamente enfrentam. Os pequenos poderes que existem muitas vezes no seio dos serviços públicos, materializado em muitas das chefias, em que a competência técnica e a dedicação ao serviço público não foi o critério fundamental da sua nomeação, e que a Lei 12-A/2008 (Lei de Vínculos, Carreiras e Remunerações) aprovada também pelo governo de Sócrates, veio dar mais poderes; repetindo, estes pequenos poderes muitas vezes funcionam como obstáculos importantes à prestação de um serviço público com qualidade que os portugueses e o País tanto necessitam. A leitura dos «Anais do DTIA», de periodicidade anual, assim como da «Folha Informativa do DTIA», de periodicidade mensal, publicados durante vários anos, por iniciativa do director do DTIA, que era também o principal redactor, e que é autor deste livro, dá-nos bem uma ideia viva e palpitante da realidade da Administração Pública por dentro e do esforço e luta dos seus trabalhadores. É por isso que terminamos esta apresentação como a iniciámos: a Autópsia a Um Departamento Científico do Estado – Livro Branco do DTIA é um livro actual que merece ser lido com atenção. Bem haja ao seu autor que, apesar de se ter aposentado, ainda é um exemplo de lucidez e combatividade na defesa dos serviços públicos e dos trabalhadores da Administração Pública, indispensáveis à população, nomeadamente as de mais baixos rendimentos, e ao desenvolvimento e modernização do País.
Eugénio Rosa,
[economista]

O REENCONTRO DO AUTOR E DA SUA OBRA... AGORA EM FORMA DE LIVRO


Foto: Um amigo anónimo que compareceu à sessão
Sessão de apresentação, em Lisboa, no 1º de Maio de 2008.

HOJE... À TARDINHA

Foto: Manuel Guerra 1-V-2008

Já vem a caminho... e ainda cheira a tinta da tipografia!

quarta-feira, 30 de abril de 2008

AS PROVAS

Foto: Joaquim António Silva [Quitó] 30-IX-2007

terça-feira, 29 de abril de 2008

1º DE MAIO DE 2008

Depois de alguns meses de trabalho silencioso, retomamos a actividade deste espaço dedicado à vida e obra de Fernando Vieira de Sá. No próximo 1º DE MAIO lançaremos aqui o seu NOVO LIVRO... que abre com a seguinte dedicatória:

Dedico este trabalho de selecção documental e de
crítica de processos a todos os servidores da Função
Pública, independentemente de categorias, vínculo ao
Estado ou precariedade de funções.
Fraternalmente


A apresentação será da responsabilidade do economista Eugénio Rosa.

Esteja atento(a)! Apareça! Divulgue!

OBRIGADO.

domingo, 4 de novembro de 2007

A-dos-Negros, 20-VII-2005 - 91º Aniversário



Fotos: Joaquim António Silva [Quitó], fotógrafo, músico e designer gráfico.
Sessão de fotografias em casa dos amigos Quitó, Idalina e Ana Margarida, em A-dos-Negros,
no dia do 91º aniversário de Vieira de Sá, depois de um almoço em Caldas da Rainha.
Selecção de uma foto para o livro Ecos do México - Da História e da Memória.
Na última foto o registo de uma chamada de parabéns!

Miguel Urbano Rodrigues

«Ecos do México foi uma surpresa.
Esperava um livro diferente pelas referências ao tema em cartas enviadas por Fernando Vieira de Sá para Havana onde então eu residia.
E diferente porquê?
Sempre que, a partir de Cuba, eu visitava o México e escrevia sobre a história e a cultura daquele país, ele evocava em comentários impregnados de emoção momentos ali vividos. As suas cartas, extensas, tinham a estrutura de breves ensaios. Nelas o amor pelo México enquadrava um interesse incomum pela história social e uma reflexão aberta a múltiplos azimutes sobre o passado e o presente do povo de Juárez.
Mais tarde, numa das nossas longas conversas, sugeri-lhe que reunisse em livro textos e apontamentos que, condensando vivências, permitissem ao leitor português formar uma ideia da riqueza da sua experiência no México, ou, para ser mais preciso, do redescobrimento permanente da vida proporcionado pela grande aventura existencial que foram os cinco anos decisivos que ali passou ao serviço da FAO.
Em Ecos do México Vieira de Sá foi mais longe. A Obra não cabe no género memorialístico. Ele não se limitou a condensar recordações, integrando-as na sua mundividência. Sentiu a necessidade de escrever um livro em que o cenário humano do México que conheceu, há quase meio século, é iluminado por uma introdução sobre a sociedade pré-colombiana destruída pelos espanhóis e alguns capítulos dedicados à história posterior à Independência e à Revolução Maderista e aos seus desdobramentos.
O convite para alinhavar este Prefácio nasceu da paixão comum pelo México.
A atracção exercida por esse país vem da adolescência, quando me caiu nas mãos um livro sobre o cerco e a destruição de Tenochtitlán, a legendária capital asteca. O relato da defesa da cidade e do genocídio do seu povo marcaram a tal ponto a minha juventude que Cuauhtémoc, o tlatoani tenochca, o último imperador, mais tarde assassinado por ordem de Cortés, passou a ocupar um lugar cimeiro no panteão dos meus heróis favoritos.
O ajustamento do real imaginado ao real concreto somente se concretizou muitos anos depois. O encontro foi um acto de amor. Nove visitas ao México tornaram mais denso e complexo o fascínio.
Cada vez que ali volto caminho durante horas pelas salas do Museu de Antropologia cuja atmosfera encantatória me projecta no coração da história profunda das grandes civilizações da Meso América. Revisitar, ao lado da Catedral, as ruínas do Grande Templo de Tenochtitlán e perder-me na multidão que circula pela imensidão do Zocalo - a mais grandiosa Praça do Continente Americano - é outra peregrinação de ateu.
Faz poucos meses, em breve passagem pelo país, voltei a outro lugar mágico: a Teotiuhacan das pirâmides do Sol e da Lua, a Cidade dos Deuses que já era um lugar despovoado quando os astecas por ali passaram no século XIV rumo à laguna onde fundariam Tenochtitlán.
Em raros países sobe em mim como no México, em cada regresso, um impulso tão forte de acrescentar algo ao que já escrevi sobre temas que desencadearam essa necessidade de transmitir ideias e sensações que faz do escritor um escravo da palavra. Acontece e é incontrolável.
Sei que Vieira de Sá me entende. Compartilhamos a síndrome mexicana, um mal benigno, indefinível.
O leitor vai identificá-lo nos capítulos em que, evocando pessoas e momentos, tenta e consegue demonstrar que uma história trágica, moldada por uma cadeia ininterrupta de desastres, é paralelamente uma sementeira contínua de epopeias, de heróis, de talentos, de actos criadores de beleza, de rupturas revolucionárias que respondem a aspirações eternas da condição humana.
No país dos extremos - Vieira de Sá retoma a expressão - surgiu ao longo dos séculos aquela que é como totalidade, a mais bela e profunda cultura das Américas. Uma terra na qual fusões dolorosas e inacabadas, inseparáveis do genocídio, geraram um povo mestiço que não é ainda uma nação harmoniosa, mas que desponta como imagem da humanidade futura.
As mais belas páginas de Ecos do México são por isso, na minha perspectiva, precisamente aquelas em que Fernando Vieira de Sá - com o conhecimento acumulado de intelectual trota mundos e a sensibilidade do revolucionário que se mantém fiel ao seu ideário de combatente comunista - esboça um grande painel do México contraditório - uma terra prodigiosa à qual os EUA roubaram pelas armas mais de metade do seu território, um país quase inimaginável onde nasceram, lutaram ou criaram arte eterna, para bem da humanidade, seres como Chuauhtémoc, Hidalgo, Morelos, Juárez, Zapata, Pancho Villa, Lázaro Cárdenas, Juan Rulfo, Diego Rivera, Orozco e Siqueiros.
É comovedor que aos 90 anos Fernando Vieira de Sá tenha escrito um livro como Ecos do México, que, entre muitos outros, tem o mérito, raro, de obrigar o leitor a meditar sobre a grande aventura da vida.

Miguel Urbano Rodrigues
Serpa, Abril de 2005»


Miguel Urbano Rodrigues, Prefácio do livro Ecos do México - Da História e da Memória, Colecção «Percursos da Memória - 3», pp. 9-11.

Urbano Tavares Rodrigues

«Peripécias e Reflexões de um Trota-Mundos

Fernando Vieira de Sá, cientista, homem de cultura, médico veterinário especialista em produção e abastecimento de leite a centros urbanos, consultor da FAO durante muitos anos, em que percorreu o mundo e se relacionou com pessoas e terras, com o seu saber e a sua afabilidade, é também uma personalidade ética, respeitada por amigos e adversários.
A sua já longa vida ao serviço de causas democráticas e da revolução social, pô-lo à prova inúmeras vezes, dando-lhe ocasião de revelar lucidez, coragem e total dedicação aos seus ideais.
Tudo isso podemos observar ou deduzir deste seu atraente livro de memórias e também de afectos, que no-lo mostra em situações bem diversas, sempre sereno, espirituoso e aberto à compreensão do mundo. A sua concepção marxista da história e do futuro está bem presente no modo como vê e interpreta os factos, desde aqueles em que visivelmente o futuro se constrói até ao anedótico e ao burlesco.
É um racionalista com humor, claro e elegante na escrita, apaixonado pelas antigas civilizações, como se nota nas suas memórias e reflexões sobre povos e culturas, sempre convicto da necessidade do progresso e da importância da vontade na construção da cidade colectiva.
Um certo sentido do romanesco e da aventura, temperado pela ironia, dá algum sal e colorido a peripécias como as que o autor compendiou na parte do livro intitulada "A Viagem dos Incómodos e das Surpresas". Recordações avulsas, cenas pícaras, conclusões com certa filosofia empírica abundam nos relatos que se estendem do convite para visitar Nápoles à prova dos nove que se faz em Quito.
As páginas sobre a Tailândia são saborosas, cheias de inesperado e pitoresco e dessa humanidade profunda que Fernando Vieira de Sá projecta na transcrição de todas as suas experiências. Há também textos de particular comicidade como "Um corte de cabelo que acaba à bofetada". E não faltam informações preciosas sobre a realidade que nos são dadas constantemente em apontamentos sobre, por exemplo, as matérias-primas, as marcas do subdesenvolvimento e o avanço da industrialização. Temos assim neste livro múltiplas perspectivas, que vão do esquisso jornalístico à impressão pessoal.
E o volume espraia-se por terras e mares, do Indo-Cuch afegão ao Equador, onde Vieira de Sá, explorando o outrora império dos Incas, nos fala do clima, das gentes e costumes, da sua subida ao alto da Cordilheira, das vivências do andarilho.
No Brasil, em "Missão humanitária à americana", pinta o Rio de Janeiro, alude a uma evocação de Vieira da Silva, brinca com o inesperado, graceja com os frutos do acaso, surpreende-nos em "Levanta-se o véu" e "A imoralidade da história".
Depois vêm o Paraguai, Moçambique, a Líbia, onde há uma praga de gafanhotos e pedras que tombam do céu; e vemos Bombaim, na Índia, e o Bengladesh, que o narrador, com ironia dramática, chama "O paraíso da fome" e por fim o "Sonho de uma noite de Verão em Times Square".
É um livro muito variado, que instrui e diverte e nos aproxima mais ainda deste homem de esquerda generoso e íntegro que, após uma vida tão rica em andanças e batalhas, que as teve de sobra, ainda sabe rir e comover-se como um jovem e dar-nos, numa prosa desenvolta, muito dos tesouros que amealhou no seu deambular pela vida e pelo mundo.

Urbano Tavares Rodrigues»


Urbano Tavares Rodrigues, Prefácio do livro Viagem ao Correr da Pena - Colecção «Percursos da Memória - 2», pp.11-12

Manuel Machado Sá Marques

«Meu bom Amigo:

Não podia perder esta oportunidade de exprimir a minha opinião sobre o seu novo livro Cartas na Mesa!
Já o tinha felicitado quando me deu a ler o manuscrito, e lembra-se como tanto insisti para que ele fosse editado?
Estas poucas páginas são assim mais uma carta para a mesa!
Como refere, estas suas «Memórias» foram despertadas pela leitura da correspondência trocada com o Professor Bento de jesus Caraça e a recordação da relação então estabelecida. Correspondem à altura da minha juventude, quando comprava os «livrinhos» da Cosmos, que tão importantes forma na minha formação. Também foi no tempo em que li pela primeira vez os seus livros sobre leite. Mas quando, no final da década de cinquenta, centrei a minha vida profissional no apoio ao doente diabético e à luta contra as chamadas «doenças da nutrição», foi imperioso o estudo de toda a sua obra, considerada pelo meu Mestre exemplar e indispensável. Mas não o conhecia «de corpo e alma». Só após o 25 de Abril, no convívio com amigos comuns, reunidos por laços afectivos e por pensamento político-social afim, passei a contar com a sua amizade, a saber quem era o Vieira de Sá e a apontar a sua vida coerente e exemplar. Juntei a sua pessoa à de meu Pai (o Professor Alberto Sá Marques), á de meu Avô (o Presidente Bernardino Machado) e à de meu Mestre (o Doutor Ernesto Roma). Os seus ensinamentos tinham toda a carga da verdadeira pedagogia - a força do exemplo.
"É indispensável ligar o passado ao futuro. As novas conquistas do pensamento não se opõem às antigas, acrescentam-nas". Este seu livro tem uma actualidade dialéctica e espero que seja lido como um compêndio de civismo, pois o seu conteúdo é revolucionário e humanista. Aprendemos como e porque surgem as dificuldades a quem deseja uma racionalização da produção e distribuição em toda a actividade do homem. Lê-se com optimismo porque aposta nas nossas verdadeiras qualidades, nas virtudes do povo português. As cartas na mesa são do jogo de sempre. O que acontece é os baralhos terem diferentes desenhos dos reis, dos valetes, das damas, das espadas, e tantas vezes cartas viciadas... O jogo continua a ser o mesmo, a luta do homem pela sua libertação, contra a opressão e exploração pelo seu semelhante. Com cerca de noventa anos ainda é um jovem que fala em "tornar possível o impossível". E consegue-o!
Lembra nas suas memórias a figura de Bernardino Machado, e sabe a veneração que tenho por meu Avô! É um "grande vulto da República" que ainda hoje afronta muita gente reaccionária ou ignorante! Conheceu-o pessoalmente em Mantelães, logo após o seu regresso do exílio, tinha então oitenta e nove anos. Também tive a sorte de poder conviver com meu Avô em Mantelães e depois na Senhora da Hora, durante as férias grandes dos anos de 1940 a 1943.
Sabe que não fiquei a conhecer o Minho de forma a poder descrevê-lo como o Vieira de Sá consegue fazer em tão poucas palavras, nem fui calcorrear alguns dos lugares históricos do Porto, que meu Avô aconselhava a visitar? Ficava antes preso a ouvi-lo, não querendo perder as suas constantes e pedagógicas lições, com discussões acesas e vivas, como ele tanto gostava. Era bem como o descreve, uma pessoa atraente e inesquecível. sabe, Vieira de Sá, também quando vou a sua casa por uns minutos, acabo por ficar horas!
Na introdução ao livro Os Derivados do Leite na Alimentação e na Indústria, José Maria Rosell escreveu que o Vieira de Sá "conseguiu realizar uma obra que constitui uma utilíssima contribuição para o reconhecimento público do valor da produção e consumo dos lacticínios, na saúde e na economia dos povos". Mas a sua vida, o seu pensamento e a sua acção, ultrapassam o campo da actividade profissional, como se prova com a leitura deste livro. Esta verdade ficará ainda mais marcada quando possuirmos os outros dois volumes de memórias que felizmente virão a lume dentro em breve.

Meu caro e bom Vieira de Sá, aceite um apertado e cordial abraço deste seu

Manuel Machado Sá Marques
Lisboa, 10 de Dezembro de 2003»

Manuel Machado Sá Marques, Prefácio do livro Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos», Colecção «Percursos da Memória - 1», pp. 9-11.

Percursos da Memória - 3

«Ecos do México foi uma surpresa.
Esperava um livro diferente pelas referências ao tema em cartas enviadas por Fernando Vieira de Sá para Havana onde então eu residia.
[...]
A obra não cabe no género memorialístico. Ele não se limitou a condensar recordações, integrando-as na sua mundividência. Sentiu a necessidade de escrever um livro em que o cenário humano do México que conheceu, há quase meio século, é iluminado por uma introdução sobre a sociedade pré-colombiana destruída pelos espanhóis e alguns capítulos dedicados à história posterior à Independência e à Revolução Maderista e aos seus desdobramentos».

Miguel Urbano Rodrigues, in contracapa de Ecos do México - Da História e da Memória

Percursos da Memória - 2

«Fernando Vieira de Sá, cientista, homem de cultura, médico veterinário especialista em produção e abastecimento de leite a centros urbanos, consultor técnico da FAO durante muitos anos, em que percorreu o mundo e se relacionou com pessoas e terras, com o seu saber e a sua afabilidade, é também uma personalidade ética, respeitada por amigos e adversários.
A sua já longa vida ao serviço de causas democráticas e da revolução social, pô-lo à prova inúmeras vezes, dando-lhe ocasião de revelar lucidez, coragem e total dedicação aos seus ideais.
Tudo isso podemos observar ou deduzir deste seu atraente livro de memórias e também de afectos, que no-lo mostra em situações bem diversas, sempre sereno, espirituoso e aberto à compreensão do mundo».


Urbano Tavares Rodrigues, in contracapa de Viagem ao Correr da Pena

Percursos da Memória - 1

«O primeiro objectivo desta obra foi publicar a correspondência que o autor dirigiu a Bento de Jesus Caraça, propondo-lhe a inclusão na «Biblioteca Cosmos» de uma secção sobre «Produção e Indústria Animal». Mas acabou por resultar em algo mais vasto. Aqui se fala, numa linguagem viva e plena de sábia ironia, dos tempos de estudo e de bombardeamentos em Inglaterra, de encontros com António Ferro no SNI, Bernardino Machado em Mantelães e António Aleixo e Tossan no sanatório de Covões, da Coimbra da Universidade, da Vértice e da Coimbra Editora, das vivências em Aveiro durante e após a II Guerra Mundial, das recordações dos tempos românticos da aviação na Escola de Aviação Naval de S. Jacinto, do desastre no bota-abaixo da Nau Portugal, construída para a Exposição do Mundo Português, do desenrascanço lusitano e da má qualidade do queijo nacional, do iletrismo das classes dirigentes, dos encontros e recontros provocados por uma vida norteada por valores avessos ao oportunismo, à corrupção, ao servilismo acéfalo e à ganância de todos os tempos. Trata-se de um precioso documento de alguém que atravessou o século XX e se mantém, quase a completar noventa anos de vida, a sonhar e a acreditar que o impossível pode, em cada dia, tornar-se possível. Em Viagem ao Correr da Pena, a editar também na colecção «Percursos da Memória», Vieira de Sá revelar-nos-á os caminhos de uma vida que percorreu mundos e culturas de vários países da Europa, África, Ásia e Américas, detendo-se mais detalhadamente no seu querido México, onde viveu durante alguns anos.»
Luís Guerra, in contracapa do livro Cartas na Mesa - Recordando Bento de Jesus Caraça e a «Biblioteca Cosmos».